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14 de março de 2018

Sofrência indie, o novo pop rock e o aniversário da Autêntica

Quinta-feira, 8 de março de 2018
Sobram poucos lugares vazios no Teatro Bradesco, o que indica que quase 600 pessoas estão ali para assistir ao lançamento do primeiro disco solo de Tim Bernardes, vocalista e guitarrista d'O Terno, em BH. Diferentemente do que eu esperava, o público não é completamente formado por adolescentes. No chutômetro, diria que ao menos 1/3 dos presentes estaria entre os 25 e os 34 anos (pra usar um recorte etário também usado pelo Instagram). Músicos, arquitetos, designers, jornalistas... basicamente uma aglomeração de ex-estudantes de Humanas (não que isso seja ruim, que fique claro).
Recomeçar, o disco de Tim Bernardes, foi uma unanimidade em 2017 entre a crítica. Nesses casos, geralmente me abstenho de ouvir os discos mais comentados no auge do hype e deixo para ouvi-los quando der vontade (e não pelo impulso da novidade). Aqueles que se sustentam com o passar do tempo se mostram mais interessantes de se dedicar atenção. Assim, fui ao show conhecendo poucas músicas, mas ciente de sua estética crua e intimista.
Sentado, disposto entre um piano e duas guitarras, poucas luzes ao redor, Tim disse tentar reproduzir seu quarto, ambiente onde surgiram aquelas composições. Amigos (músicos e jornalistas) me disseram que sentiram falta dos arranjos do disco, que alguns trejeitos vocais e na guitarra limitaram o show ao ter exclusivamente Tim no palco. Eu, talvez por não ter ouvido o disco e não ter nenhum vínculo emocional já construído, nenhuma memória daquelas composições, considerei o minimalismo um grande acerto, um ponto essencial para a imersão. Como se a imagem aparentemente frágil daquele grandalhão magro, um Napoleon Dynamite hipster-tilelê, sozinho no palco espaçoso e de luzes fracas, fosse o elemento chave que nos dissesse que "sim, estamos invadindo seu espaço e entendemos sua timidez, estamos juntos".
Solo, Tim demonstra a mesma perspicácia das letras d'O Terno, permitindo-se mais emotivo e menos irônico. "Sofrência indie", brinca. O pouco uso de efeitos na guitarra e as canções ao piano as limitam ao essencial e o reverb na voz e guitarra reforçam a solidão, como se estivesse sozinho ouvindo a si mesmo por um tempo estendido. Do Terno, tocou "Melhor do que parece", "Volta" e "Minas Gerais", todas do disco mais recente da banda, sendo que a última foi originalmente composta pro seu disco solo. Ainda teve tempo para um medley de "Changes", balada do Black Sabbath, com Belchior, e uma versão de arrepiar de "Soluços", do Jards Macalé. "Acho que vou chorar", disse mais de uma vez a garota sentada atrás de mim. Entendo.


Sexta-feira, 9 de março de 2018
No fim dos anos 90 e início dos 2000, tudo classificado como pop rock chegava até mim como algo deplorável. Provavelmente, com razão. O símbolo disso, em BH, era o festival de mesmo nome realizado em estádios da capital. Basicamente um festival onde todos os anos tocavam Charlie Brown Jr, O Rappa, Tianastácia, Biquini Cavadão, Capital Inicial e Jota Quest. Creio que isso seja suficiente para sentir o drama. (Nota para não ser ingrato: em 2006 o New Order tocou no festival, apesar de a mesma edição também ter tido CPM 22, Nando Reis, Reação em Cadeia e, adivinhem só, Tianastácia e O Rappa).
O estigma do pop rock como gênero asséptico e limitado (tanto musicalmente como nas letras) fez com que nos últimos anos as próprias bandas tentassem se distanciar da classificação. Trabalhei por um tempo em um grande portal de música onde os artistas podiam criar seus perfis e ninguém se autoclassificava como pop rock. Por mais que fosse exatamente a sonoridade que criassem, se autodenominavam como bandas de rock alternativo ou até mesmo experimental, como se isso representasse um posicionamento estético de maior aceitação, de melhor reputação.
Isso tudo porque me peguei pensando sobre o estilo (pop rock) durante os shows da mineira Devise e dos baianos da Vivendo do Ócio na sexta, dia 9, para quase 300 pessoas na Autêntica, também em BH (no dia seguinte ambas as bandas se apresentariam em São João del-Rei, interior de Minas, em um pub lotado). Diferentes no resultado final, as duas têm uma pegada pop na essência. Enquanto o Devise vem do britpop, com muita (muita mesmo) influência de Oasis e em alguns momentos também lembra Teenage Fanclub e Snow Patrol, o Vivendo do Ócio tem muito do rock do início dos anos 2000, do Arctic Monkeys do início, The Bravery, Strokes e afins. Shows enérgicos e musicalmente no meio termo entre o pop radiofônico e o rock de suas principais influências. O resultado são boas bandas de entrada ao universo desse tipo de rock produzido entre os anos 90 e o início dos anos 2000 e, não por acaso, seus públicos são majoritariamente jovens. Rock jovem, de melodias cativantes e que rende hits latentes como "Prisioneiro do futuro" e "Qualquer hora".

Sábado, 10 de março de 2018
Depois de Thiago Pethit e O Terno (com participação da Tulipa Ruiz), que tocaram em 2016 e 2017, a atração da festa de aniversário da Autêntica em 2018 foi Ava Rocha com abertura do mineiro Lucas Avelar. Primeira vez que a vi fora de um festival. Performance mais contida, talvez pelo palco menor do que nas outras ocasiões em que a vi (no Coquetel Molotov em Recife, na edição mineira e no Popload Festival). Além dos três anos da Autêntica, a data também marcou o mesmo tempo desde o lançamento do disco Ava Patrya Yndia Yracema, segundo e mais recente álbum de Ava. Dele, vieram logo no início do show dois dos "hits" de Ava: "Você não vai passar" e "Transeunte coração".
Difícil escrever sobre um show realizado no aniversário da Autêntica porque, se você trabalha com música em BH e está ali, invariavelmente aquele é um espaço por onde passou algumas (provavelmente muitas) vezes e que nesse dia encontra muitos conhecidos. Um espaço convidativo não somente para o público local mas também para os músicos, como provam os convidados do show da Ava: não somente a já anunciada Juliana Perdigão participou como também Tulipa Ruiz, Gustavo Ruiz e Lucas Santtana, que estavam em BH por causa de shows em outros espaços e terminaram a noite no palco da Autêntica.
Celebrar os três anos da Autêntica é parte do reconhecimento do trabalho dos sócios e de sua equipe, que luta diariamente para manter uma casa de shows autorais com capacidade para 400 pessoas em uma cidade onde a música cover predomina e se paga R$ 30 para ouvir playlists do Spotify em boates mas é difícil cobrar R$ 20 por shows alternativos. Da minha parte, posso dizer que comemorei tanto que mal me lembro do que aconteceu para poder terminar este texto.


A foto do público no dia dos shows do Devise e Vivendo do Ócio é do Luciano Viana. A foto do encontro entre Ava Rocha, Juliana Perdigão, Tulipa Ruiz e Lucas Santtana é do Flávio Charchar.

16 de novembro de 2017

Popload Festival 2017: PJ Harvey pegando um bronzeado, Phoenix na balada, Ventre e Carne Doce mostrando a força do indie BR


Criado em 2013, o Popload Festival já nasceu sendo um dos mais interessantes eventos musicais do país. Desde seu surgimento, trouxe ao Brasil artistas como Iggy Pop, Wilco, Tame Impala e Cat Power ao lado de brasileiros como Cidadão Instigado e Céu. Desdobramento do site (ex-coluna) de mesmo nome e principal veículo sobre música indie no Brasil, neste ano teve como atrações principais PJ Harvey e Phoenix, além das ótimas Ventre e Carne Doce, ambas brasileiras, Neon Indian e Daughter.

PJ Harvey atendeu às expectativas com o melhor show da noite. Passaram-se 13 anos desde sua primeira vinda ao país, quando tocou no Tim Festival (na mesma edição em que tocaram Kraftwerk, Brian Wilson e Primal Scream), e seus dois shows por aqui dificilmente poderiam ser mais distintos entre si. Em 2004, fez um show pesado, enérgico e distorcido acompanhada de um trio de bateria, baixo e guitarra (tocada pelo mini-Frusciante Josh Klinghoffer, atualmente no Red Hot Chilli Peppers). Agora, em 2017, são 10 músicos no palco (entre eles os colaboradores de longa data Mick Harvey, que também toca com Nick Cave desde o Birthday Party, e John Parish, com quem PJ tem dois discos lançados em parceria, além de Alain Johannes, que foi do Eleven, Queens of the Stone Age e Them Crooked Vultures) para construir um clima soturno, politizado e musicalmente mais complexo. A atual turnê estreou em 2016 no Primavera Sound, em Barcelona, e é focada nos dois discos mais recentes de PJ, The Hope Six Demolition Project, de 2016, e Let England Shake, de 2011. Se nos dois primeiros shows da turnê o clima sombrio, cheio de sopros e percussão minimalista assustava (depois de Barcelona, também vi o show dela no Nós Primavera, em Porto, Portugal, e em ambos as reações da plateia foram parecidas), o público brasileiro chegou preparado para a atual fase de PJ e recebeu em troca uma banda ainda mais afiada, de performance excepcional (e em dose dupla, já que na noite anterior ela se apresentou em um teatro de São Paulo em uma ação social do festival que beneficiou doadores de sangue e pessoas que exercem trabalhos junto a ONGs parceiras do Popload Festival).

O show começou em estilo banda marcial com todos os músicos entrando enfileirados (PJ entre eles, empunhando seu saxofone), ao som de "Chain of keys", a pesada "The Ministry of Defense" e o single "The Community of Hope" (um dos poucos momentos "pop" do show), nessa sequência. Depois da roqueira "Shame", uma das melhores do disco Uh Hu Her, de 2004 (e única dele no set), PJ emendou uma série de canções do Let England Shake (com o qual ganhou o Mercury Prize pela segunda vez) e duas do calmo White Chalk, de 2007: "Dear darkness" e "White chalk". A música mais antiga (e barulhenta) do show foi a punk "50 ft Queenie", do álbum Rid of Me, de 1993, seguida no show dos hits "Down by the water" e a blueseira desértica "To bring you my love", de 1995, para encerrar com "River anacostia", do disco mais recente, canção sobre a poluição das águas que tinha seu sentido reforçado ao ser tocada a menos de 2km do Rio Tietê.



De escalação aparentemente deslocada e anacrônica ("quem ainda ouve esses caras?", pensei quando saiu a programação), a francesa Phoenix fez um show bastante animado e que funcionou bem como encerramento da noite. É aquele indie pop que explodiu mundialmente há quase 10 anos e que hoje em dia é um pouco brega, um pouco música de publicitário, um pouco balada de playboy que quer ser minimamente descolado. Mas são extremamente bons no que fazem, o pacote completo de entretenimento do rock pop mundial com muitas luzes, pressão sonora e performance ensaiada bem ao gosto do público instagramer. Além dos megahits "Lisztomania" e "1901" e de hits como "Trying to be cool" e "Lasso", músicas novas como "Ti amo" e "J-boy" funcionaram bem ao vivo.



Mais cedo, sob o sol de mais de 30º que castigava o público, os americanos do Neon Indian abriram o festival para um público pequeno que enfrentou o calor pra conferir o synth-pop oitentista hipster da banda. Ainda sobre um sol de matar, o trio carioca Ventre, sem dúvida uma das melhores bandas ao vivo atualmente em atividade, fez seu habitual show sujo e melódico, algo próximo do The Dead Weather misturado com Los Hermanos. Começaram com "Quente" (não por acaso) e fecharam com "Pernas". Se o segundo disco da banda, atualmente em produção, conseguir se aproximar da pressão do show, é certeza de um grande disco à caminho.

Outro nome frequente nos festivais de rock nacionais, o Carne Doce também fez um bom show e deixou claro, mais uma vez, não se tratar de um simples hype. A banda tem construções melódicas interessantes e letras pungentes. É dos raros casos no indie nacional em que os vocais são tão bons quanto o instrumental da banda (nesse caso, ambos excepcionais).

O público, que mais tarde chegaria a cerca de 8 mil pessoas (segundo dados do festival), começou a crescer durante o show do Daughter. Quem perdeu Ventre e Carne Doce e chegou somente na hora da banda inglesa se deu mal, já que foi o show mais fraco do dia. Apesar de mais interessante ao vivo do que em disco, é uma banda genérica, pastiche de Florence + The Machine, Cat Power e outros nomes. Opção mais interessante era sacar as ofertas gastronômicas (aproveitando que, na maior parte do tempo, havia poucas filas) e fugir do sol na grama nas poucas áreas com sombra no Memorial da América Latina.

AlunaGeorge, da Inglaterra, foi a atração surpresa entre os shows da PJ Harvey e do Phoenix, com a brasileira Iza como convidada especial. Tudo o que tenho a dizer sobre esse show é que durante ele eu comi um ótimo sanduíche do Maní e experimentei um energético de tangerina da TNT.


Playlist com os sets da PJ Harvey e Phoenix no Popload Festival 2017

Ps: A foto que abre o post é do G1.

1 de setembro de 2017

Fuji Rock 2017 e mais alguns rolês no Japão

O Fuji Rock é um festival de grandes distâncias em todos os sentidos. Do Brasil, são no mínimo 24 horas de viagem de São Paulo a Tóquio, embora a maioria dos voos leve entre 28 e 30 horas. Chegando em Tóquio, são necessárias mais duas horas de trem-bala para se chegar a Echigoyuzama, no noroeste do país. Lá, o festival oferece um ônibus por cerca de $5 para se chegar até a estação de ski, no meio da floresta, onde o festival é realizado (mais 50 minutos de transporte). O local é uma espécie de parque florestal gigante, no qual um campo de golfe é utilizado como área de camping e são montados mais de 10 palcos, sendo que os principais shows estão concentrados em quatro deles. Somente no principal, o Green Stage, a capacidade é de cerca de 50 mil pessoas, segundo a produção do festival. Da entrada do parque até o palco mais distante, Field of Heaven (também apelidado por alguns como "hippie stage"), são 30 minutos de caminhada. Tudo isso em pleno verão japonês, com picos de 35º.

Tanto esforço é justificado pelo line-up e pela experiência proporcionada pelo Fuji Rock. Este ano a programação teve Gorillaz, Björk, Aphex Twin, Queens of the Stone Age, LCD Soundsystem, Lorde, The XX, Major Lazer, Death Grips, Slowdive, Bonobo, Thundercat, Father John Misty, The Avalanches, Rhye, entre vários outros nomes. Sem contar os muitos artistas japoneses da programação, como o veterano Cornelius, o trio de jazz moderno Mouse on the Keys e o pop bizarro da Suiyoubino Campanella. Além disso, é um evento com uma lógica um pouco diferente da que estamos acostumados. Você pode entrar com comidas e bebidas à vontade e é comum os japoneses levarem carrinhos cheios de suprimentos. A grande presença de idosos e crianças também surpreende.


Todos os anos chove durante o festival e o figurino padrão é composto de galochas, capas de chuvas e chapéus de pescador. É proibido fumar na maior parte da área do evento (sim, um grande parque ao ar livre onde não se pode fumar), as lixeiras são espalhadas em pontos estratégicos e têm assistentes para indicar ao público como o separar corretamente para reciclagem e, como a maratona de shows é longa (as primeiras atrações começam às 9h da manhã e as últimas terminam às 6h do dia seguinte), os japoneses andam de um lado para o outro carregando cadeirinhas desmontáveis. As áreas mais distantes, em frente a cada palco, são sempre ocupadas por centenas (às vezes milhares) de pessoas com suas cadeirinhas montadas sobre a grama (ou lama).

A grande maioria do público é de orientais. No primeiro dia, Father John Misty brincou que os poucos gritos que ouvia eram com sotaque americano e pediu desculpas por seus conterrâneos não conseguirem assistir um show em silêncio. Show bonito e calmo, que começou com as quatro primeiras faixas de Pure Comedy na mesma sequência que no disco e que teve como ponto alto a sequência com "Hollywood Forever Cemetery Sings" e "I Love You, Honeybear".

Caminho para o palco Field of Heaven

Com a distância entre os palcos, foi preciso correr antes do fim do show pra pegar o The XX no início. Abriram com "Intro" e "Crystalised" e ali já ficava claro que aquele seria um dos shows mais legais do festival. Um pouco depois, em outro palco, começaria o Queens of the Stone Age, prestes a lançar disco novo. Com Josh Homme mancando, fizeram um show repleto dos hits da banda (como "I Sat by the Ocean", "No One Knows", "Little Sister", "Go With the Flow") e tocaram somente uma nova, "The Way You Used to Do". Durante outro hit, "Feel Good Hit of the Summer", Josh ainda tirou onda emendando um trecho de "Clint Eastwood", do Gorillaz, que começava seu show no palco principal. Era o primeiro show da banda de Damon Albarn no Japão desde 2001 e um dos mais aguardados do Fuji Rock. As participações especiais do disco novo foram substituídas por projeções sincronizadas dos vocalistas convidados nos telões (de resolução incrível, vale dizer). Deu pra pegar a sequência de "DARE", "We Got the Power", "Stylo", "Kids With Guns" e "Clint Eastwood". Som incrível e público feliz, apesar da chuva que caía de hora em hora. Madrugada adentro ainda rolariam muitos shows, entre eles DJs mais experimentais como Clark, Arca e o ótimo trio japonês Mouse on the Keys, de dois pianos e bateria.

Sábado foi o dia mais lotado do festival. Tanto que o acesso ao palco onde o LCD Soundsystem tocava foi impedido em certo momento, tamanha a quantidade de pessoas na área. Simultaneamente à banda de James Murphy, o Aphex Twin fez um show caótico e incrível no palco principal, durante a chuva mais forte do fim de semana. Um set de uma hora e meia que começou no tecno mais “acessível” e terminou na melhor barulheira glitch (meu show favorito do Fuji Rock). Outro show que impressionou foi o Death Grips. Pesado e denso, como era de se esperar, e muito cheio. Funcionaria melhor se fosse de noite dentro do galpão do palco Red Marquee e não durante a tarde, ao ar livre, mas mesmo sem a atmosfera ideal as pessoas não pareceram se importar. Ao longo do dia, decidi circular mais pelo festival e espiar os artistas japoneses e djs em pequenos palcos (como uma tenda com alguns DJs figuraças, mais velhos, na qual cabia menos de 100 pessoas). Conferi um pouco mais dos shows do Cornelius (cada música parece um show diferente) e Temples (pop psicodélico asséptico e genérico) e também teve Avalanches, Nina Kraviz, Mondo Grosso e Ramona Flowers (dos que estavam na minha lista "a conferir").



Do domingo, meus favoritos foram Björk, Suiyōubi no Campanella, Bonobo e Slowdive. Björk fez o show de encerramento do Fuji Rock acompanhada do Arca como DJ e uma orquestra. Com projeções enormes e mais climático (em grande parte pelos arranjos da orquestra), foi um show baseado no disco mais recente da cantora, Vulnicura (1/3 do set foi dele),  que empolgou efetivamente as massas cansadas de três dias seguidos de shows e caminhadas quando vieram hits como "Jóga", "Hyperballad" e "Bachelorette". Simultaneamente, Thundercat tocava no distante "hippie stage" e o Major Lazer fechava o White Stage (não vi nada desses shows). Logo após o show da Björk, principal atração do dia, grande parte do público começou a ir embora e, entre as muitas atrações que durariam madrugada adentro, a que parecia atrair mais gente era a Suiyōubi no Campanella (às vezes grafado como Wednesday Campanella). Apesar de ser um trio, a vocalista KOM_I se apresenta completamente sozinha no palco, sem DJs ou dançarinos. Defini-la como uma "Bjórk do J-pop" é reducionista, mas não chega a ser uma mentira, apesar de ficar longe de abranger sua sonoridade (que mistura muito rap, diversos subgêneros da eletrônica, música tradicional japonesa e pop eletrônico ocidental, às vezes tudo isso na mesma música).

Mais cedo, conferi brevemente enquanto Lorde lotava o palco principal durante uma versão minimalista do mega hit "Royals" (e bastante sonolenta, diga-se). Quase tão chato quando o show do indie superestimado Real Estate. Se deu muito melhor quem se programou pra ver os shows do Trombone Shorty & Orleans Avenue (dos mais animados do festival), a pedrada depressiva do Slowdive e a estreia do Bonobo acompanhado de banda no Japão. Enquanto o Jet tocava, mais divertido era assistir a versão japonesa do John Cusack discotecar jazz latino ou rodar pelo festival (em uma das tendas de roupas diferentonas, um casal já mais velho me explicou que tinham aprendido algumas coisas em português com um brasileiro professor de capoeira: "chapado de maconha" e "obrigado" era tudo que sabiam dizer).

Aproveitando o fato de que muitas pessoas que foram ao festival precisam passar por Tóquio em seus caminhos de volta (por causa das linhas de trem), é comum ver grandes shows na cidade logo na sequência. Este ano, foi o caso do Sigur Rós, que fez dois shows na cidade nos dias seguintes ao término do Fuji Rock. Dois dias depois, foi a vez dos japoneses do Toe e D.A.N esgotarem os ingressos pra festa de aniversário do Liquidroom. Espaço com capacidade pra mil pessoas, o Liquidroom recebe nomes mundiais em ascensão e bandas de médio porte em suas turnês japonesas. Bandas que são enormes hoje em dia tocaram lá quando começaram a despontar no cenário musical: Beck e Blur (1994), Radiohead (1995), Foo Fighters (1998, que nessa época já era uma banda relativamente grande mas antes de explodir mundialmente com o There is Nothing Left to Lose, de 1999), Coldplay (2002) e outros (puxando pro nosso lado, o Cansei de Ser Sexy tocou lá em 2008). Som e luz são incríveis, a área da plateia tem uma inclinação que permite que você veja facilmente o palco de qualquer ponto e no andar superior (sem acesso ao show) há um café e um grande lounge. Fomos convidados pelos caras do Toe pra assistir a esses shows e isso resultou em uma cena que demonstra a educação dos japoneses: a plateia fica em pé, mas a banda colocou duas cadeiras reservadas pra gente perto da mesa de som, no meio do público. Mesmo com a casa lotada, ingressos esgotados, ninguém se sentou ali e quando informamos que estavam reservados pra nós, ninguém questionou. Outro ponto bastante diferente é que fotos são proibidas nos shows (isso se repete na maioria dos locais maiores em que vi shows no Japão), por uma questão de educação: para evitar que os celulares levantados tampem a visão de quem está atrás querendo ver o palco.

O D.A.N tem apenas três anos de existência e tem crescido bastante no Japão. Originalmente um trio mas um quarteto ao vivo e em algumas gravações, é uma banda de rock alternativo dançante influenciada por math rock. Lembra Foals, mas com composições mais complexas. Show bastante fiel aos discos e que encaixou perfeitamente como abertura para o Toe. Banda de math/post-rck mais conhecida do Japão, fizeram um show irrepreensível. Muito mais enérgico e pesado ao vivo do que em disco, é um show de muita dinâmica e variações, com o acréscimo de um quinto integrante em algumas músicas. Repertório bem dividido, com três músicas de cada disco, exceto do Songs, Ideas, We Forgot, do qual não tocaram nada. O set teve "Goodbye", "After image" e "Esoteric" do For Long Tomorrow, "C" e "Past and language" do The Book About My Idle Plot On A Vague Anxiety, "Run for word" e The Future is now" do EP The Future is Now, "My little wish", "Song silly" e "Because I hear you" do Hear You e "1/21", do EP New Sentimentality. Facilmente, um dos melhores shows que já vi.



Na mesma semana o Guitar Wolf, outro ícone do rock underground japonês, tocou no festival Meteo Night, junto de mais de 10 bandas. A brasileira Carla Boregas, baixista do internacional Rakta, também se apresentou na cidade no período, em um evento de música eletrônica experimental. Na semana seguinte, outro festival reuniria "apenas" Mogwai, St Vincent, Cigarettes After Sex, Ride, Beak>> (dos melhores shows que vi ano passado) e Blanck Mass (projeto de um dos caras do Fuck Buttons). Apesar da grande oferta de atrações e da qualidade dos espaços de shows (até os lugares mais improvisados e pequenos têm equipamentos de som e luz sensacionais), o bolso também pesa. O ingresso pra cada dia de Fuji Rock custava o equivalente a R$ 600 e a média de ingresso pros shows alternativos variava (nesse período) entre  R$ 70 e R$ 100.

12 de julho de 2016

Aquele texto no qual não consigo esconder a nostalgia em ver uma (quase) volta do Black Drawing Chalks


Zé Celso Martinez para atrás de nós e pergunta se estamos esperando um táxi. Chico César passa ao fundo com sua equipe. Aeroporto movimentado por causa da Virada Cultural de BH que começaria no dia seguinte. Os integrantes do Black Drawing Chalks comentam a morte do Baixo Astral enquanto penso em como seria uma selfie unindo a banda aos artistas ao nosso redor. Um encontro inusitado que remete à época em que o quarteto goiano era um dos grupos que mais circulava pelo underground brasileiro e nos encontrávamos de tempos em tempos em festivais como o Calango, em Cuiabá, e o Bananada, em Goiânia, e também em cidadezinhas do interior. Ao lado do Macaco Bong, é uma das bandas que definiu o rock alternativo brasileiro no fim da década passada. Até o Rogério Flausino se dizia fã deles.

Lá se vão quase 10 anos desde a primeira vez que os vi ao vivo (já comentei isso em outro momento). Pensar na história do Black Drawing me faz pensar no processo de desenvolvimento deste blog e da cena em que estamos envolvidos. Em 2009, foram uma das primeiras bandas a tocar em uma festa do Meio Desligado e enquanto estavam hospedados na casa dos meus pais eu acompanhava o Victor e o Douglas desenhando o que viria a ser o clipe de "My favorite way", hit da banda. Além de converter uma grande leva de ouvintes ao rock alternativo brasileiro (roqueiros ortodoxos que não acreditavam que pudesse existir boas bandas nacionais cantando em inglês), o BDC definiu uma estética visual marcante que contribuiu para catapultar a carreira (internacional) do estúdio Bicicleta Sem Freio, de seus integrantes Douglas (baterista) e Victor (vocalista e guitarrista, mas que atualmente atua como tatuador).

Em um semi-hiato desde meados de 2014, o Black Drawing Chalks voltou a BH dia 8 de julho, dentro da programação da mostra Música Quente, depois de dois anos. Período este em que seus conterrâneos do Boogarins alcançaram uma exposição internacional que provavelmente já ultrapassa os feitos do CSS, até então o grupo indie brasileiro de maior presença no exterior nos anos 2000. Não por acaso, o Boogarins tem como baterista Ynaiã Benthroldo (ex-Macaco Bong) e Renato Cunha, guitarrista do Black Drawing, como técnico de som. Retroalimentação e continuidade. Douglas, o baterista, não participou do show de BH por estar em Las Vegas em um trabalho do Bicicleta Sem Freio para o UFC. Em seu lugar, Rodrigo Miranda, do MQN - "tios" do BDC. "O Douglas começou a tocar por sua causa", alguém diz ao Miranda em determinado momento. Retroalimentação e continuidade.

Contextualizações à parte, o efeito ao vivo continua o mesmo de outrora. Energia crua e direta, aquela descarga barulhenta que aos poucos acaba com nossa audição e resulta em uma pulsão de morte que se transforma na vontade de destruição expressa fisicamente por moshs, cabeças inquietas e saltos do palco. Catorze músicas foram pouco. Focado no segundo disco da banda, Life is a big holiday for us (tocado na íntegra com exceção de uma das minhas favoritas, "Finding another road"), o repertório ainda teve "Cut myself in 2"e "Simmer down", do No dust stuck on you (terceiro e mais recente álbum), "Red love", presente apenas no disco ao vivo Live in Goiânia e somente uma do disco de estreia da banda (um crime!), a essencial "Big deal" (que dá nome ao álbum). A boa notícia é que, a julgar pelo crowd surfing dos integrantes durante o show e pela expressão em seus rostos mais tarde, tudo vai ficar bem e não deve demorar muito pra que mais pessoas voltem a ter essa experiência (e, torço, com mais músicas do primeiro disco inclusas). Help me.


Mais fotos na página da Quente no Facebook.

8 de março de 2015

Festival La Femme Qui Roule

Nos dias 27 e 28 de fevereiro aconteceu em BH a primeira edição do festival La Femme Qui Roule, iniciativa do selo belga-mineiro de mesmo nome em parceria com a Quente, minha produtora. Foi também a primeira vez que o Galpão Cine Horto, espaço cultural do renomado grupo de teatro Galpão, recebeu um evento musical do tipo.

Em meio a um cenário de carência de público, foi gratificante ver as duas noites do festival com ingressos esgotados e filas de pessoas querendo entrar (aos poucos conseguimos que quase todo mundo que estava esperando entrasse). Uma vez que esta era a primeira edição do festival e contamos com um apoio financeiro da Una, a gratuidade também foi uma estratégia para tornar o evento mais atraente (afinal, um festival com seis bandas alternativas e realizado fora da região centro-sul da cidade precisa ter alguns diferenciais para provocar o deslocamento das pessoas) e assim também construir uma base de público para futuras edições (com patrocínio ou não).

A abertura, com a estreia do trio folk Invisível, e o público sentado e calado foi um dos momentos mais bonitos do festival. E a sensação de surpresa se repetia e se mostrava nas faces de quem estava ali ouvindo pela primeira vez o indie eletrônico do Teach Me Tiger ou a pedrada sonora do The Junkie Dogs - rock psicodélico pesado, soturno e esporrento. O segundo dia teve dois companheiros de banda se apresentando na sequência: Leonardo Marques e Jennifer Souza, membros do Transmissor. O primeiro, um dos criadores do selo La Femme Qui Roule, lançou seu segundo CD, Curvas, lados, linhas tortas, sujas e discretas. Já Jennifer apresentou mais uma vez as canções de sua elogiada estreia solo, Impossível Breve. E fechando o festival, a estreia da banda carioca Baleia em BH. "Pop barroco", dizem. Um dos diferenciais da banda é saber trabalhar muito bem melodias acessíveis e experimentalismo com punch - uma raridade no meio indie. Show excepcional de uma banda que tem se mostrado como uma das mais promissoras da atualidade.

Os shows foram filmados e daqui a algum tempo parte desse material será divulgado. Enquanto isso, veja abaixo algumas fotos feitas pelo Luciano Viana (da Quente).










16 de dezembro de 2014

Micsur, o encontro da economia criativa da América do Sul

Fechando o assunto "feiras e encontros do mercado musical" em 2014 preciso comentar sobre a Micsur - Mercado de Industrias Culturales del Sur, que teve sua primeira edição realizada entre 15 e 18 de maio em Mar del Plata, na Argentina. Com o intuito de aproximar agentes da economia criativa dos países sul-americanos e estimular a circulação da produção cultural da região por outros continentes, a Micsur teve uma estreia bem-sucedida.

Existe uma legítima vontade de integração entre artistas e produtores do continente e esse movimento de aproximação foi extremamente benéfico para a Micsur. Apesar de seu protagonismo econômico, o Brasil permanece distante da produção contemporânea de seus países vizinhos e ocasiões proporcionadas por eventos como a Micsur são cruciais para mudar esse cenário. Outro ponto positivo é que por se tratar de países com realidades econômicas próximas, os agentes envolvidos no mercado cultural da região entendem as peculiaridades de se trabalhar com recursos escassos, o que torna as negociações mais fáceis do que se comparado com as realizadas com empresas europeias ou norte-americanas, por exemplo.



Foram promovidas muitas rodadas de negócios e debates envolvendo não apenas profissionais da música, mas também de áreas como design, artesanato, audiovisual, teatro, games e literatura. Showcases apresentaram artistas dos países participantes do evento (a saber: Argentina, Bolívia, Brasil, Chile, Colômbia, Equador, Paraguai, Peru, Uruguai e Venezuela) e festas temáticas permitiram maior aproximação com a cultura desses países (e entre os participantes da feira). Os representantes da música brasileira presentes na programação oficial estavam direcionados para a world music (Jaraguá Mulungu, Frutos do Pará e Dois por Quatro), com exceção do folk pop da cantora Tiê, o que se mostrou um erro. Diferentemente de feiras como a Womex, onde as manifestações regionais são o ponto principal, a Micsur se mostrou aberta à produção contemporânea, até mesmo pela pluralidade de seus participantes.

Além das negociações, feiras desse tipo também são ótimas oportunidades para se conhecer culturas e locais diferentes e com Mar del Plata não foi diferente. Famoso destino turístico durante o verão, por causa de suas praias, a cidade também se destaca pelos portos e cassinos. Durante a Micsur, as melhores festas aconteciam no Club de Pesca. Com um luxo decadente que deixa à mostra um passado requintado e localizado à beira-mar, o clube se parece com um grande barco ancorado ao fim de um píer, com uma vista incrível.




Prevista para ser bienal, as próximas edições da Micsur acontecerão na Colômbia em 2016 e no Brasil em 2018.

8 de dezembro de 2014

Alguns comentários sobre a SIM SP

Comparada com sua edição anterior, em 2013, a SIM São Paulo deste ano teve como ponto negativo não realizar shows no mesmo espaço em que aconteceram a maioria dos debates, a Praça das Artes. A programação extensa e fragmentada por vários locais resultou em shows e discussões com baixa presença de público, com algumas exceções, mesmo com convidados relevantes em suas mesas. O que leva à questão: esse formato de evento realmente funciona? Quem atua no mercado musical há mais anos se depara com questões repetidas e a maratona é cansativa.  Talvez um formato mais produtivo unisse maior quantidade de showcases (shows mais curtos, com a intenção de apresentar o trabalho de determinado artista para possíveis contratantes) e speed meetings (breves reuniões com esses mesmos contratantes), tudo em um único espaço, durante o dia, e a programação noturna contasse com um único evento por noite, trocando-se as casas de show ao longo da semana.

Dos debates em que estive presente, os mais movimentados e interessantes foram o que reuniu Thiago Pethit, Karina Buhr, China, Maurício Pereira, Tim Bernardes e Irina Bertolucci para discutir o atual mercado da música a partir da visão do artista e o debate sobre o papel das assessorias de imprensa atualmente. Ambas as discussões mais próximas do dia a dia dos próprios artistas e, talvez por isso, resultando em conversas mais calorosas, ainda que sem grandes novidades ("o mercado é difícil", "querem que eu toque de graça", "é preciso investir em merchandising" e afins). Para os jovens artistas e produtores, talvez um choque de realidade, imagino.

A francesa Zaza durante show no Centro Cultural Rio Verde

Sobre os shows, uma das coisas interessantes foi apresentar diferentes espaços culturais para quem não é de São Paulo. Centro Cultural Rio Verde, Galeria Olido, Espaço Verona, Jongo Reverendo (no espaço do antigo Studio SP da Vila Madalena), Puxadinho da Praça, Studio Emme e Beco 203 receberam uma leva diversificada de artistas que incluiu o elogiado e simpático rapper francês Féfé, o indie tropical do Holger, a nova MPB da Filarmônica de Pasárgada e alguns dos artistas da nova geração que mais se destacaram nos últimos anos: Tulipa Ruiz, Emicida, Marcelo Jeneci e Céu.

3 de dezembro de 2014

BH Music Station 2014 - como foi


A premissa do BH Music Station é ótima: um festival musical que acontece em estações de metrô e dentro dos próprios vagões, fora do seu horário de funcionamento. O ambiente diferenciado e a produção impecável proporcionam ótimas experiências, mas em 2014, na sétima edição do evento, faltou um elemento essencial: uma programação musical mais atraente.

Diferentemente dos últimos anos, quando a programação do festival geralmente se dividia por três ou mais dias com shows em três estações do metrô, em 2014 o festival concentrou seus palcos na chamada "Estação Oficina" (localizada após a estação final do metrô, onde é realizada a manutenção dos vagões), no dia 29 de novembro. Lá, se apresentaram Rodrigo Amarante, Orquestra Imperial, Mustache e Os Apaches e os DJs da festa Geleia Geral. Apesar da redução no número de dias em relação aos outros anos do festival, foi uma programação fraquíssima se comparada com os artistas que se apresentaram em 2008 (Arnaldo Antunes, Nação Zumbi, Tom Zé, Fino Coletivo, Móveis Coloniais de Acaju, entre outros), 2009 (Vanguart, Lenine, Cordel do Fogo Encantado, Zeca Baleiro, Mart'Nália e a própria Orquestra Imperial, entre outros) e 2011 (Paralamas do Sucesso, Marcelo Camelo, Céu, Nação Zumbi - de novo, Roberta Sá, Lobão e Tiê, entre outros).

Outros pontos pioraram a situação:
- Rodrigo Amarante e Orquestra Imperial atraem praticamente o mesmo público e, no dia da realização do Music Station, acontecia em BH a estreia da Banda do Mar na cidade, atingindo o mesmo público e com o peso de ser uma novidade, ao contrário de Amarante e da Orquestra (que realizaram bons shows, inclusive, apesar do trabalho do Amarante ser intimista demais para o formato do festival - por vezes a altura das conversas do público tornava difícil conseguir indentificar o que ele cantava);
- Quando foi lançar Cavalo, seu primeiro disco solo, em BH, Amarante teve duas noites agendadas na casa de shows Granfinos, onde a capacidade é de cerca de 600 pessoas. No entanto, a venda de ingressos foi tão ruim que uma das noites foi cancelada e a outra sequer teve os ingressos esgotados. Ou seja, o headliner do BH Music Station 2014 não encheu uma casa com capacidade para 600 pessoas e foi a principal atração de um festival que nos anos anteriores recebia milhares de pessoas. O resultado? A edição mais vazia do BH Music Station de que se tem notícia. Contribuiu também, é claro, o fato da entrada custar R$ 120 (inteira). Mesmo com os custos de se realizar um festival desse nível no metrô, envolvendo uma grande equipe, é um valor muito alto para o ingresso, ainda mais levando em consideração que o patrocínio do evento é de R$ 432.250,00 via Lei Estadual de Incentivo à Cultura e que os cachês dos artistas que se apresentam dentro dos vagões é baixo (me lembrei dessa piada sobre os cachês das bandas indie no Lollapalooza).

Mauro Lauro Paulo na entrada do BH Music Station. Foto de Renata Caldeira

E por falar nos shows que acontecem dentro dos vagões, vale destacar que, nesse sentido, a programação de 2014 foi a melhor de todos os tempos. Como a entrada no festival é centralizada na Estação Central, o público percorria um longo caminho até a estação na qual o palco principal havia sido montado. Por isso, shows alternativos, em sua maioria semi-acústicos, acontecem dentro dos vagões durante esse trajeto. E neste ano a programação contou com uma ótima e diversificada amostra da cena independente belorizontina, com Iconili, O Melda, Barulhista, Madame Rrose Sélavy e novidades promissoras como Minimalista, Pequeno Céu e Peluqueria (única banda esperta pra aproveitar o local inusitado e fazer um vídeo ao vivo), entre outros. Para melhorar, logo na entrada da Estação Central o público se deparou com as intervenções do palhaço-músico-onemanband Mauro Lauro Paulo e o barulho garageiro d'O Lendário Chucrobillyman. Se nos próximos anos o festival cuidar de sua programação principal com a mesma atenção que deu às atrações secundárias em 2014, tem tudo para se firmar como um dos eventos mais legais do país.

18 de novembro de 2014

Sobre música independente, festivais, Transborda e sentir-se falando como um tio ("naquela época...")

Primeiramente, uma foto estilosa. Porque texto longo sem foto estilosa assusta a garotada.

Foto estilosa pq texto sem foto estilosa assusta a garotada

Pronto. Agora começamos.


Em 2000, naquele que provavelmente foi o primeiro show alternativo ao qual fui, havia exatamente uma pessoa parada no meio do local assistindo à banda com atenção. O local em questão era um campo de futebol em Sabará e quem estava no palco era a Moan, banda belorizontina de indie rock depressivo (ou emotional hardcore, como diziam anos atrás). Quase dez anos depois, na mesma Sabará, à poucos quarteirões daquele campo de futebol, cerca de 10 mil pessoas compareceram aos shows, também alternativos, do festival Escambo (catorze anos depois daquele primeiro show eu encontraria o mesmo espectador solitário, agora já um velho amigo, em Nantes, onde veríamos juntos um show histórico do Black Rebel Motorcycle Club - banda conhecida durante o período descrito nos próximos parágrafos).

Os indies não se reproduziram como gremlins nesse período, mas a ampliação do público envolvido com a cena musical alternativa na última década me veio à mente durante o festival Transborda, cuja terceira edição aconteceu entre o fim de outubro e o início de novembro de 2014. Assim como o Escambo, o Transborda está diretamente ligado à experiência de quem viveu o início da popularização da internet e da troca de arquivos. Aqueles anos de internet discada, Napster e Soulseek, que resultaram em uma aproximação até então inédita com um enorme volume de novos artistas, culminando, alguns anos depois, na criação da TramaVirtual - a meca do indie brasileiro (ao menos por algum período).

Pela primeira vez se podia ouvir com facilidade (e de graça) gravações de bandas independentes nacionais. O passo seguinte era vê-las ao vivo. Afinal, eram artistas brasileiros, alguns deles residentes em cidades próximas. Então, durante algum show do Garage Fuzz, Mukeka di Rato ou algo do tipo, você poderia pensar "caralho, como é bom ouvir ao vivo o que escuto em casa". E assim por diante, semana após semana.

Desde então, a cena cresceu e foi perdendo a inocência. Foi se profissionalizando e, dependendo do ponto de vista, encaretando, ficando formatada demais. Em meio a isso tudo, um debate do Transborda com os produtores culturais Fabrício Nobre e Anderson Foca chamou atenção para um ponto: por mais que existam problemas, o mercado musical independente está dando certo. Nobre fez a provocação. Em uma sala com cerca de 20 pessoas, pediu que todos aqueles que tivessem a cultura como principal ou exclusiva fonte de renda levantassem a mão. Quase toda a plateia estava de braços erguidos. Segundo ele, 10 anos atrás essa situação seria impossível. Concordo.

E onde entra o Transborda nessa história? Ele é exemplo da transformação e do desenvolvimento da cena como um todo. Suas edições refletem os momentos do mercado, suas dificuldades e mudanças. Se na década passada a grande maioria dos festivais de música independente buscava headliners que atraíssem um maior número de pessoas para os shows (e para isso precisavam de patrocínios cada vez maiores), atualmente a formação de público é mais orgânica e em menor escala. As duas primeiras edições do Transborda levaram milhares de pessoas às ruas e ocuparam diversos espaços de BH. Mesmo assim, houve um hiato de três anos em sua realização e foram necessários alguns passos atrás para que o festival retornasse mais conciso e próximo do seu público alvo. O resultado? Casa lotada, artistas e público satisfeitos e sustentabilidade (podem esperar mais shows produzidos pela mesma galera em 2015).



Patrocínios e mecanismos públicos de incentivo à cultura continuem extremamente importantes, mas, além disso, transformações como a do Transborda 2014 apontam um caminho promissor. Principalmente quando se tem uma programação com algumas das bandas de rock mais interessantes da nova cena brasileira (Apanhador Só e Boogarins), um representante digno do "indie clássico" como há muito tempo não se ouvia (Câmera) e novidades promissoras (Hotel Catete, Red Boots, Mahmundi - os últimos, nem tão novidade assim, mas nem por isso menos promissores).

1 de março de 2014

Midem 2014: como foi uma das maiores feiras do mercado musical mundial

Entre o fim de janeiro e o início de fevereiro estive em Cannes, no sul da França, para participar da Midem, considerada uma das maiores (talvez a maior) feira do mercado musical mundial. Em 2014, a Midem aconteceu entre os dias 1º e 4 de fevereiro no Palais des Festivals, mesmo espaço que recebe o famoso festival de cinema da cidade, e teve o Brasil como país homenageado em uma parceria com a Funarte.

Para conhecer mais sobre o mercado musical a feira é uma alternativa realmente interessante, mas não são tantas as oportunidades diretas de venda de show para os artistas. Dos dois andares utilizados pela feira, por exemplo, um deles foi praticamente todo dedicado a startups de tecnologia cujos produtos/serviços dialogam com a música.

Outro ponto é que quase todos os profissionais que estão por lá estão vendendo algum serviço (a maioria deles ligados à distribuição digital), são pouquíssimas as pessoas interessadas em contratar shows. A maioria dos estandes é de países apresentando seus artistas e isso acaba sendo muito mais interessante para os produtores de festivais que estão lá, por exemplo, mas não tanto para os artistas que querem tocar nesses países. Nesse ponto, percebe-se que Minas Gerais é um Estado que se diferencia e está à frente até mesmo de muitos países: em Minas existe o edital Música Minas, que custeia as passagens de artistas que receberem convites para se apresentar em eventos relevantes no Brasil e no exterior. A maioria dos países participantes da Midem sequer possui editais desse tipo e outros, como a Alemanha, possuem iniciativas quase idênticas. Aqui, no entanto, temos a opção de tentar viabilizar as passagens tanto através do Ministério da Cultura (e seu edital de intercâmbio) ou do Música Minas. Ponto para o governo brasileiro.

As melhores oportunidades para artistas estavam ligadas a empresas que trabalham com sincronização (venda de música pra comerciais, trilhas e afins) e alguns produtores interessados em intercâmbio cultural. O fato do Brasil estar na moda no exterior (e, em fevereiro, ainda havia toda a euforia por causa da Copa do Mundo no Brasil) aumentaram o interesse pela nossa música. Mesmo assim, é nítido que a produção contemporânea nacional ainda é pouquíssimo conhecida no exterior. Criolo, por exemplo, mesmo sendo muito badalado no Brasil e já tendo feito uma quantidade considerável de shows na Europa (além de ter tido relativo espaço na mídia especializada internacional) não passava de mais um desconhecido entre as atrações musicais da Midem. Por outro lado, foi interessante conhecer alguns jovens parisienses, mestrandos em marketing, que não apenas conheciam, mas estavam pesquisando iniciativas brasileiras como o Queremos e a Mídia Ninja.

As conversas oficiais com os produtores e profissionais do mercado aconteciam nos chamados speed meetings, rápidos encontros de cinco minutos, nos quais ter um material organizado e bem trabalhado é essencial para vender o seu produto. No entanto, é consenso que os melhores contatos são feitos fora das reuniões oficiais, durante os shows ou nas festas não-oficiais. Um dos melhores momentos da feira, por exemplo, foi uma festa promovida pelo site Pleimo no luxuoso hotel Carlton, à beira da praia, na famosa avenida La Croisette. Lá, entre a grande diversidade de bebidas gratuitas e a música ao vivo (tudo dentro da suíte do hotel), era possível bater um papo (entre outras coisas) com produtores de bandas famosas como Radiohead e My Bloody Valentine, dividir drinks com diretores de festivais como o Rock in Rio, ensinar um pouco de português pra diretoras de comerciais ou até se apaixonar por advogadas do Google (uma das melhores partes).

O Pleimo, site brasileiro que é uma mistura de MySpace com plataforma de prestação de serviços para bandas, investiu bastante na feira (Henrique Portugal, tecladista do Skank, é um dos sócios). Eles também produzem material promocional como canecas, capa de celular e afins, além de promoverem venda de ingressos e outros produtos. Estranhamente, desde do término da feira até hoje, tive pouquíssimas notícias do desenvolvimento do Pleimo.

E por falar em tecnologia e startups, esse foi um dos ramos mais interessantes da Midem. Muitos aplicativos e serviços online usam a feira como ponte para obter financiamento. Alguns dos que saíram de Cannes com novos investidores foram o estranho Nagual Dance (que permite "tocar" instrumentos virtuais e disparar samples através de gestos corporais - veja vídeo abaixo), Weezic (app que ajuda estudantes de música a estudar) e Starlize (aplicativo para criação de vídeoclipes no celular), destaque também para o Cubic FM (para criação de playlists através de diferentes serviços de streaming).
 

Os shows promovidos durante a Midem geralmente não contam com artistas famosos internacionalmente e são oferecimentos dos países participantes. Eles usam a plataforma como meio de divulgação de sua produção cultural, caso dos showscases brasileiros (com Criolo, ZeMaria, Raquel Coutinho e Alceu Valença) e Taiwan, por exemplo. Mas como a pequena cidade é tomada por profissionais da indústria musical durante o evento, eventos paralelos também podem contar com boas atrações, como foi o caso da ótima banda japonesa Lite, que se apresentou fora da programação oficial.

As palestras são outro ponto forte da Midem. Foram dezenas, abordando os mais diversos temas dentro da cadeia produtiva da música. A grande maioria delas, felizmente, está disponível na íntegra no canal do evento no Youtube. Uma das mais interessantes e divertidas em que estive foi a do francês Olivier François, diretor de markerting e membro do conselho do grupo Chrysler, que explicou a estratégia das empresas do grupo em se relacionar com a música. Uma história engraçada contada por Olivier: em 2012,  a Chrysler abriu mão de utilizar, de graça, a música "Blurred Lines", do Robin Thicke, por não achar que ela tinha potencial. Posteriormente, a música virou um dos maiores e mais rentáveis hits de 2013. Depois dessa experiência, quando o produtor do Pharrel Williams foi até a empresa tentar fechar uma parceria para a música "Happy", a Chrysler não quis cometer o mesmo erro e investiu na música. O resultado? Um hit mundial em 2014, com cerca de 500 milhões de views no Youtube e prêmios para o Pharrel.

No geral, a dica que fica é que se você for um artista interessado em ir à Midem, repense. A inscrição é cara (para 2015, quando a Midem acontece entre 5 e 8 de junho, a inscrição custa incríveis €525, mais de R$ 1.600) e ainda existem todos os custos da viagem até Cannes, além da hospedagem. Agora, se você tiver dinheiro disponível, vale pela experiência e por eventuais desdobramentos para a carreira, mas não crie muitas expectativas.

26 de setembro de 2013

Savassi Festival NY: impressões

Por Lucas Mortimer

Recém-chegado aos Estados Unidos para uma temporada de 10 meses de estudos, tive a oportunidade de presenciar alguns momentos do Savassi Festival NY. Realizado em Belo Horizonte desde 2003, o festival levou à sua primeira edição internacional uma série de shows e workshops focados na música instrumental brasileira e ocupou diversas casas de show e universidades da "grande maçã" de 16 a 25 de Setembro de 2013. Participei de dois, dos cinco workshops, e assisti a cinco dos 16 shows.

No dia 18, participei do workshop de Rafael Martini sobre a música popular contemporânea brasileira realizado na NYU. Rafael e os excelentes músicos de seu sexteto apresentaram e demonstraram alguns ritmos populares brasileiros como baião, maracatu, bossa nova e também ritmos sul-americanos como a chacarera, descrevendo e relacionando a influência destes na música contemporânea moderna. Uma bela aula sobre música brasileira em uma das principais universidades de Nova York, destacando artistas como Hermeto Pacoal e Egberto Gismonti, além de novos talentos.

Em seguida, compareci ao clube The Bitter End para os shows de Joana Queiroz Quarteto (que contou com a participação de uns 10 músicos) e de Andre Vasconcelos Quintet. A casa estava cheia e o show de Joana Queiroz começou ofuscado pelo volume das conversas nas mesas. Aos poucos os músicos foram conquistando o público: Felipe Continentino e sua firmeza rock/jazz na bateria; Rafael Martini e sua sutileza no piano; Vítor Gonçalves e sua agilidade no acordeon; Fred Heliodoro e sua segurança no baixo; Alexandre Andrés e sua bela sintonia com Joana; Antonio Loureiro e sua serenidade na bateria; Sergio Krakowski e sua sensibilidade no pandeiro; e Tatiana Parra e sua força e presença na voz. Um belo time muito bem orquestrado por Joana Queiroz, ovacionada de pé por todos ao final do show.


André Vasconcelos subiu ao palco em seguida mostrando grande habilidade e sentimento na guitarra, apresentando belas versões jazzísticas de músicas brasileiras. Sem conseguir, no entanto, segurar o público que se dispersou aos poucos. Vale a pena conferir o trabalho do moço e do excelente pianista Evan Waaramaa na banda Crosswalk Anarchy.

No dia seguinte (19), foi a vez de Rafael Martini apresentar seu show no Shapeshifter Lab no Brooklyn. Para quem não sabe, o Brooklyn é uma outra cidade que compõe a Grande NYC, juntamente com Queens e The Bronx. Embora no mapa do metro não pareça, a área do Brooklyn é bem maior que Manhattan e alguns bairros vem aos poucos se tornando alvo de ocupação de artistas gentrificados e se tornando culturamente ativas. Talvez por ainda estar nesse processo, a casa estava um pouco vazia. Mas isso não foi suficiente para abalar os músicos. A sonorização da casa era excelente e ajudou os músicos a fazerem um show intimista de muita expressividade. Quase a mesma trupe do show da Joana Queiroz, com Trigo Santana no baixo e Jonas Vítor no sax tenor. Ponto alto para a participação de Tatiana Parra, que fez um duo belíssimo com Rafael em "Consuelo", música do disco de estreia de Martini, Motivo.


Um parênteses para mencionar que Rafael Martini foi contemplado pelo Edital de Intercâmbio do Programa Música Minas, que concedeu as passagens aéreas para o artista apresentar seu show e sua oficina no Savassi Festival NY. Como contrapartida, o artista deverá realizar essas ações também em Minas Gerais, em formato solo. Vale a pena ficar ligado para conferir.

No domingo (22), foi a vez de Sérgio Krakowski apresentar seu "Carrosel de Pássaros" com participação especial de Túlio Araújo. The Cornelia Street Cafe foi uma bela escolha para receber o show. No ambiente onde os shows são realizados, no porão da casa, as luzes são reduzidas na hora da apresentação e todo o público fica em silêncio para poder experienciar a música. Krakowski consegue extrair diversas sonoridades do pandeiro com uma variação dinâmica impressionante. O pianista Vítor Gonçalves dá a base para que Sérgio, o guitarrista Todd Neufeld e o saxofonista John Elis improvisem a vontade. Túlio Araújo entrou e ajudou a dar o groove que às vezes falta no show de Sérgio. Ao fim do carrosel, uma longa salva de palmas da plateia que ficou imersa durante uma hora de show.

Saldo muito positivo do festival, realizado com excelência por Bruno Golgher, que confessou estar planejando essa ação em NY há 3 anos. Fica a expectativa para que essa ação possa se desdobrar e outros artistas mineiros e brasileiros possam desfrutar do caloroso público nova-iorquino.

Rock in Rio 2013 e o segundo palco

O Rock in Rio é um dos festivais que tem menos a ver com o Meio Desligado, mas este ano estive um pouco mais envolvido (por trabalhar na produção em um dia e cobrir outro) e acho válido o registro por aqui. Mega festival autointitulado "o maior do mundo", o Rock in Rio 2013 teve custo total de R$ 135 milhões, segundo os organizadores, sendo R$ 8,75 milhões captados via lei Rouanet (bancados por empresas como os Correios e Sky, que desembolsaram R$ 2,1 milhões e R$ 2 milhões, respectivamente, para ter suas marcas atreladas ao evento). Entre os outros patrocinadores, a Heineken investiu sozinha R$ 23 milhões no festival. :o

Mais para um grande evento de entretenimento do que um festival musical em si, o Rock in Rio dividiu suas atrações musicais entre os palcos Mundo e Sunset (além de pequenas apresentações em outros pontos temáticos da Cidade do Rock). É na questão do palco Sunset que acho válido pensar. A lógica pop do palco Mundo não vai mudar e é a principal característica do festival. No entanto, o Sunset tem espaço para se transformar em algo realmente interessante, caso seja planejado de maneira diferente. Pense na programação do palco Sunset e reflita sobre o potencial dos artistas que se apresentaram nele em atrair público para o festival. Com exceção do Offspring e Ben Harper, é provável que nenhum outro artista desse palco tenha influenciado na compra do público em geral (levando em consideração que sempre haverão os fanáticos por algum artista específico, como Living Colour e Rob Zombie, por exemplo, mas que são casos à parte).

Pensando nisso (que a programação do palco não influenciaria diretamente na venda de ingressos), qual o sentido de colocar artistas internacionais decadentes ou muito desconhecidos no palco, assim como artistas pop nacionais que acrescentam pouco ao festival além de servir como entretenimento para a troca de bandas no palco principal?

Como demonstrado pelo Lollapalooza e Planeta Terra, atrações mais "alternativas" tem, sim, grande público no Brasil. Uma opção relevante para a melhoria do Rock in Rio seria ter o Sunset como o palco que desse mais respaldo artístico ao festival em vez de sua atual função de figurante. Imagine-o como o palco conceitual do evento, com artistas internacionais relativamente baratos e que resultariam em maior empatia da mídia especializada e atrairia um novo perfil de público para a Cidade do Rock.

Atualmente, é extremamente difícil imaginar uma nova programação do Rock in Rio como a de 2001 se repetindo (para quem não se lembra, aquela edição teve shows de Neil Young, Foo Fighters, Beck, R.E.M, Queens of the Stone Age e Oasis, entre outros). Foo Fighters e QOTSA tocaram no Brasil recentemente no Lollapalooza e Beck é uma das atrações do Planeta Terra deste ano, ambos festivais que fazem a ponte entre o indie e o mainstream.

Nessa nova proposta, o Sunset poderia receber bandas como Toe, Drums, Portugal. The Man, The Budos Band, Grimes, Tame Impala e afins. Para isso, bastaria menos Nando Reis na programação e mais interesse em produzir um festival mais relevante culturalmente.


Ps: um agradecimento à Heineken que me convidou para o festival (no dia em que não estava trabalhando por lá).

Ps 2: o Slayer não tem quase nada a ver com o texto, mas não podia perder a oportunidade de colocar um vídeo deles aqui (clica lá que é o show inteiro da banda no Rock in Rio, "Seasons in the Abyss" rola aos 45 min e "Raining Blood" aos 55 min). Sem contar que a logo da Heineken transformada em "Hanneman", em homenagem ao ex-guitarrista da banda, que morreu esse ano, ficou massa, vai.

24 de junho de 2013

Cobertura do festival Goma 2013

O vestuário do público diz muito a respeito de um festival. No Goma, realizado em Uberlândia (maior cidade do interior de Minas Gerais) entre 12 e 16 de Junho, camisetas do Black Keys, Queens of the Stone Age, Rolling Stones, Julgamento (!), bonés com a frase “Vida loka”, microshorts e hipsters vestindo plumas indicam a pluralidade do festival. A diversidade fica clara na ousadia da penúltima noite do festival, com o experimentalismo afrosamba/jazz/noise do Metá Metá como penúltima atração da noite, logo antes da (agora) diva paraense Gaby Amarantos e seu pop tecnobrega para as massas.



Antes, estiveram no palco a Cambriana, banda indie goiana em constante ascensão na cena independente e que fez um bom show, apesar de alguns problemas no equalização do som nas primeiras músicas; Porcas Borboletas, que em casa fez um show curto e bastante seguro, com boa aceitação; a dupla setentista Muñoz, que evoca uma mistura de Wolfmother, Jimi Hendrix e Black Keys (guardadas as devidas proporções, claro); o cuiabano Linha Dura, que seguindo o que parece ser uma tendência no hip hop nacional, agora se apresenta com uma grande banda de apoio (tendo como diferencial em relação a nomes como Emicida, Flávio Renegado e Rael a presença de outros três MCs no palco); e a cantora Fernanda Sant'anna, que abriu a programação do festival (e não vi).

Diferentemente do posicionamento de outros festivais ligados ao Fora do Eixo que antigamente trabalhavam com a postura de não ter headliners, o Goma deste ano colocou Gaby e Criolo como principais atrações de seus últimos dias de programação (gratuita, vale destacar). O resultado foi a presença em peso do público no campus da Universidade Federal de Uberlândia, local de realização dos últimos dias do Goma, para assistir a apresentações diversificadas e que reforçam a qualidade presente na cena musical atual.

Em show curto, o Metá Metá causou estranhamento na maior parte do público presente mas logo após as primeiras músicas deixou claro porque seu afrosamba distorcido é tão comentado, apresentando músicas potentes e que se diferenciam de praticamente tudo que se está fazendo na música brasileira atualmente. Na sequência, para encerrar a noite de sábado, Gaby Amarantos demonstrou porque está entre os ídolos pop nacionais e fez um show redondo com o repertório do CD Treme e potporris que colocaram indies, donas de casa e playboys para dançar.

No domingo, perdi o show da banda local Dom Capaz e comecei a partir da belo-horizontina A Fase Rosa, que mostrou um "tropicalismo universitário" dançante, distorcido, com pressão e ótima execução. Na sequência, O Berço, de Patos de Minas, ganhou o público logo nos primeiros acordes de seu rock rural animado. Quem também era desconhecida do público local e fez um show agitado foi a brasiliense Spance Night Love Dance, que promoveu uma fanfarra plural, com guitarrada e música eletrônica de balada misturados. A Veja Luz, de São Paulo, fez um dos shows mais longos do festival e teve boa resposta de público, apesar da sonoridade reggae genérica da banda.

No quesito "surpresa", ninguém bate a Bandinha Di Dá Dó. Espécie de Gogol Bordello do Rio Grande do Sul, só que mais sincero (assumem, literalmente, serem palhaços) e dadaísta. Ou seja, melhor. Show sensacional que cativa a todos com letras que no fim das contas não dizem nada, mas estão envoltas em ironia e um espírito festivo irrepreensível (com direito a stage dive do vocalista).

Criolo fez o show de encerramento do festival e mesmo dois anos após o lançamento do disco Nó na Orelha o público demonstrou não estar cansado do repertório, resultando no show de maior euforia na plateia.

29 de novembro de 2012

Cobertura de uma longa viagem através das fotos que não fiz

15 de Novembro, Ana Rosa, São Paulo
Origamis coloridos, pendurados em barbantes, decoram o centro do bar. Ao fundo, camisetas de bebê com estampas de bandas de rock também estão penduradas e complementam a decoração improvisada. Enquanto um gordinho de óculos grita ao microfone (cantando Tim Maia, mas impossível saber isso através da foto não feita), um sorridente Jair Naves gira no chão em um movimento inesperado (porém aplaudido), com a mesma sagacidade com que se joga do palco ou sobe nas estruturas montadas em seus shows. À sua esquerda, Siba permanece sentado, olhar intelectual, concentrado na conversa com a bela mulher ao seu lado. Fernando Catatau estava do lado de fora e não sairia na foto (e provavelmente não se deu conta do que acontecia por ali).

1º de Novembro, Lapa, Rio de Janeiro
As duas dançarinas/acrobatas estão na linha dos meus olhos. Estou na parte de cima do Circo Voador e elas, há metros do chão, penduradas em tecidos presos ao teto do local. Apesar dos corpos definidos e dos muitos volumes, ressaltados pelas roupas justas, fica claro os poucos anos que cada uma carrega. Ao meu lado, encostado na barra de proteção (da qual esqueci o nome), um hippie universitário (que em Minas seria simplesmente chamado de "tilelê") as fotografa. Ao fundo da imagem, o Iconili se prepara para a passagem de som para o show que faria ali, horas mais tarde, para centenas de pessoas. Dos 11 integrantes da banda, seis estão olhando para a dança/acrobacia das garotas, três estão concentrados em seus instrumentos e dois não apareceriam na foto, pois saíram para fumar maconha.

10 de Novembro, Leblon, Rio de Janeiro
Um close em uma escada de madeira fina, com poucos degraus, aparentemente molhados. Ao fundo, percebe-se que a escada leva a um palco. Ao lado da escada, um dos integrantes do Dibigode aparece borrado pelo movimento, levando as últimas cervejas do camarim. Faço a foto antes que o Ed Motta suba essa mesma escada e aposto R$ 20 que ela quebrará com ele. 

14 de Novembro, Vila Madalena, São Paulo
Sentados na cozinha, ao redor de uma mesa circular coberta com plástico branco de detalhes azuis, sobre o qual estão um pacote de pão, uma embalagem de 1 litro de suco de uva e meio croissant que comprei no dia anterior (quando a atendente da padaria ria do meu sotaque mineiro e pedia, com uma mistura de prazer e dó, que eu repetisse cada palavra), estão Felipe Cordeiro e seu pai, Manoel Cordeiro, compondo. Manoel está de costas, pode-se ver apenas o braço do violão que carrega no colo. Felipe está de frente para ele, bigode e cabelos atrapalhados, sorrindo. Tocam uma música que compõem em parceria com um renomado artista de São Paulo e que ficaria na minha cabeça por longas horas.

13 de Novembro, Pompeia, São Paulo
Em frente à entrada do camarim da Choperia do Sesc Pompeia, acima da cozinha da unidade do Sesc, paro, de costas para a entrada, e faço uma foto de mim mesmo. Quatro anos antes, naquele mesmo lugar, registrei o momento da minha primeira viagem como produtor cultural. Não gosto da foto e a refaço três vezes. No fim, desisto e encho de efeitos no celular.

12 de Novembro, Rua Augusta, São Paulo
Parece cena de churrasco na casa de um bicheiro, mas estamos durante a madrugada em um "bar de acompanhantes". Apareço na foto com duas garotas seminuas me abraçando, uma de cada lado, fazendo V com os dedos para a foto e, ao fundo, o churrasqueiro oferece um espetinho (gratuito),  a um japonês de óculos, com seus trinta e poucos anos, todo sorridente.

16 de Novembro, Casa das Caldeiras, São Paulo
Estamos eu, o Emicida e a Renata, produtora dele, no camarim, de pé, enquanto o pessoal do Mãodeoito conversa sentado, ao lado. O Emicida sorri e lembra de quando nos encontramos em Londres, enquanto ele traficava Guaraná Antarctica no Barbican. Ele segura um adesivo do Iconili e a Renata, uma camisa da banda. O suor escorre na minha teste e cai no meu olho, fazendo com que ele saia fechado na foto.

23 de Novembro, Centro, Rio de Janeiro
A imagem é apenas um borrão em tons de ferrugem com um rastro de luz incandescente. A foto seria de um dos muitos vagões deteriorados da estação Leopoldina, com sua decadência transformada em atração durante a realização do festival Back2Black. No momento da foto, o baixista da banda ______ (melhor não contar o nome), me puxa pelo ombro e conta que Patrícia Pillar e Regina Casé estão por ali e, acredite, pretende abordar (com interesses sexuais) a primeira delas que encontrar. Finjo que vi a Nneka no meio da plateia, aponto a direção, e ele parte.

16 de setembro de 2012

Festival Porão do Rock 2012: cobertura

O Porão do Rock deve ser o maior festival de heavy metal do Brasil, falta apenas que se assuma como tal. Essa foi uma das principais impressões após conferir de perto a 15ª edição do festival, realizada nos dias 7 e 8 de Setembro no Complexo do Ginásio Nilson Nelson (compreendido pelo ginásio em si e uma grande área ao seu redor), em Brasília. O palco dedicado às bandas mais pesadas, montado no ginásio, esteve lotado a maior parte do tempo e abrigou bandas como a norte-americana Trivium, Sepultura, Almah e D.F.C. Na parte externa, dois palcos montados lado-a-lado receberam o restante da programação, com destaque para os estrangeiros Kyuss Lives!, Red Fang e Gaz Coombes.

Palco dedicado às bandas mais pesadas do festival, montado dentro do Ginásio Nilson Nelson
O Porão é um clássico "festival de roqueiro", daqueles em que 90% do público vai de camisa preta estampando nomes de bandas de heavy metal ou classic rock. A sintonia entre o público e as bandas de sonoridade mais extrema no festival é enorme, mesmo quando não justificada pela qualidade artística dos shows (incrível perceber a melhoria na qualidade do som durante o show dos estrangeiros do Trivium, enquanto nas apresentações das bandas locais, no mesmo espaço, a massa ruidosa tomava conta do ginásio - resultado de músicos ruins ou equipe técnica despreparada). Esse lado headbanger do festival é um dos seus pontos fortes: reúne de forma democrática e com boa estrutura bandas expressivas do cenário heavy metal / hardcore e as apresenta de forma democrática ao público brasiliense. 

Por outro lado, ao tentar diversificar sua programação, o festival acaba por se perder sem definir uma linha estética. O indie folk do Vanguart e o inglês Gaz Coombes (vocalista do Supergrass) soavam deslocados e bandas locais risíveis se apresentaram em horários de destaque na programação. Nos palcos externos, fugindo de shows terríveis como o de Daniel Belleza & Os Corações em Fúria, Darshan e Trampa, foi possível se surpreender com o rockabilly performático da banda local Os Dinamites e assistir aos animados shows de Autoramas com BNegão e dos Raimundos, que, acredite, fez um grande show ao tocar o álbum Lavô tá novo integralmente. Mesmo com boa parte do público indo embora após o show do Raimundos, quem permaneceu pode ver uma das apresentações mais marcantes do festival, feita pelos americanos do Red Fang. Rock'n'roll pesado e sujo, alternando entre o stoner rock e o heavy metal em show mais intenso do que o Kyuss Lives! (reencarnação do Kyuss, ex-banda de Josh Homme, do Queens of the Stone Age), faria no dia seguinte.


Se você foi (ou é) um daqueles adolescentes que saía com orgulho com suas camisetas do AC/DC e Iron Maiden, usava correntes e All Star e qualquer banda que tivesse distorção já agradava um pouco aos seus ouvidos, o Porão do Rock pode lhe proporcionar excelentes horas de diversão. Se você não estiver nesse grupo, é mais um festival para encontrar com os amigos, beber e se divertir rodeado por clichês.


Melhores shows assistidos no Porão do Rock 2012

Red Fang

Kyuss Lives!
Autoramas + Bnegão
Trivium
Os Dinamites

Set lists
Gaz Coombes

Karina Buhr

Kyuss Lives!

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