Pesquisar nos arquivos

Mostrando postagens com marcador matérias especiais. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador matérias especiais. Mostrar todas as postagens

19 de março de 2018

Política na música e rock contra o racismo

Música e política possuem longa história juntas. Limitando-se ao século 20, se destacam o folk politizado gravado a partir dos anos 30, o rock dos anos 60 e 70, no contexto da contracultura, a cena punk dos anos 70/80 e, posteriormente, o rap. Em 1976, após Eric Clapton fazer declarações racistas durante um show e em meio ao crescimento de grupos de supremacia branca na Inglaterra, mais um marco histórico aconteceu na interseção entre música e política. Ativistas se mobilizaram para criar o Rock Against Racism, um movimento que utilizava a música como instrumento de conscientização sobre questões raciais no Reino Unido.

Tendo em vista que os discursos de ódio tem se proliferado mundialmente e a atual situação político-social do Brasil, achei relevante traduzir os quadrinhos que a ilustradora norte-americana Bianca Xunise fez para o site The Nib. Intitulado "Keep Politics in Music! - How the UK’s Rock Against Racism showed us how it was done", ele contextualiza de forma resumida o surgimento do Rock Against Racism e mostra algumas semelhanças com o momento atual. Apesar da ingenuidade do texto em alguns momentos, iniciativas como essa são importantes para aproximar a política do debate cotidiano e atingir diferentes parcelas do público, principalmente os jovens.

Vale lembrar que a fala original de Clapton foi muito mais pesada do que a versão apresentada nos quadrinhos (veja a transcrição nessa matéria do The Quietus).


14 de março de 2018

Sofrência indie, o novo pop rock e o aniversário da Autêntica

Quinta-feira, 8 de março de 2018
Sobram poucos lugares vazios no Teatro Bradesco, o que indica que quase 600 pessoas estão ali para assistir ao lançamento do primeiro disco solo de Tim Bernardes, vocalista e guitarrista d'O Terno, em BH. Diferentemente do que eu esperava, o público não é completamente formado por adolescentes. No chutômetro, diria que ao menos 1/3 dos presentes estaria entre os 25 e os 34 anos (pra usar um recorte etário também usado pelo Instagram). Músicos, arquitetos, designers, jornalistas... basicamente uma aglomeração de ex-estudantes de Humanas (não que isso seja ruim, que fique claro).
Recomeçar, o disco de Tim Bernardes, foi uma unanimidade em 2017 entre a crítica. Nesses casos, geralmente me abstenho de ouvir os discos mais comentados no auge do hype e deixo para ouvi-los quando der vontade (e não pelo impulso da novidade). Aqueles que se sustentam com o passar do tempo se mostram mais interessantes de se dedicar atenção. Assim, fui ao show conhecendo poucas músicas, mas ciente de sua estética crua e intimista.
Sentado, disposto entre um piano e duas guitarras, poucas luzes ao redor, Tim disse tentar reproduzir seu quarto, ambiente onde surgiram aquelas composições. Amigos (músicos e jornalistas) me disseram que sentiram falta dos arranjos do disco, que alguns trejeitos vocais e na guitarra limitaram o show ao ter exclusivamente Tim no palco. Eu, talvez por não ter ouvido o disco e não ter nenhum vínculo emocional já construído, nenhuma memória daquelas composições, considerei o minimalismo um grande acerto, um ponto essencial para a imersão. Como se a imagem aparentemente frágil daquele grandalhão magro, um Napoleon Dynamite hipster-tilelê, sozinho no palco espaçoso e de luzes fracas, fosse o elemento chave que nos dissesse que "sim, estamos invadindo seu espaço e entendemos sua timidez, estamos juntos".
Solo, Tim demonstra a mesma perspicácia das letras d'O Terno, permitindo-se mais emotivo e menos irônico. "Sofrência indie", brinca. O pouco uso de efeitos na guitarra e as canções ao piano as limitam ao essencial e o reverb na voz e guitarra reforçam a solidão, como se estivesse sozinho ouvindo a si mesmo por um tempo estendido. Do Terno, tocou "Melhor do que parece", "Volta" e "Minas Gerais", todas do disco mais recente da banda, sendo que a última foi originalmente composta pro seu disco solo. Ainda teve tempo para um medley de "Changes", balada do Black Sabbath, com Belchior, e uma versão de arrepiar de "Soluços", do Jards Macalé. "Acho que vou chorar", disse mais de uma vez a garota sentada atrás de mim. Entendo.


Sexta-feira, 9 de março de 2018
No fim dos anos 90 e início dos 2000, tudo classificado como pop rock chegava até mim como algo deplorável. Provavelmente, com razão. O símbolo disso, em BH, era o festival de mesmo nome realizado em estádios da capital. Basicamente um festival onde todos os anos tocavam Charlie Brown Jr, O Rappa, Tianastácia, Biquini Cavadão, Capital Inicial e Jota Quest. Creio que isso seja suficiente para sentir o drama. (Nota para não ser ingrato: em 2006 o New Order tocou no festival, apesar de a mesma edição também ter tido CPM 22, Nando Reis, Reação em Cadeia e, adivinhem só, Tianastácia e O Rappa).
O estigma do pop rock como gênero asséptico e limitado (tanto musicalmente como nas letras) fez com que nos últimos anos as próprias bandas tentassem se distanciar da classificação. Trabalhei por um tempo em um grande portal de música onde os artistas podiam criar seus perfis e ninguém se autoclassificava como pop rock. Por mais que fosse exatamente a sonoridade que criassem, se autodenominavam como bandas de rock alternativo ou até mesmo experimental, como se isso representasse um posicionamento estético de maior aceitação, de melhor reputação.
Isso tudo porque me peguei pensando sobre o estilo (pop rock) durante os shows da mineira Devise e dos baianos da Vivendo do Ócio na sexta, dia 9, para quase 300 pessoas na Autêntica, também em BH (no dia seguinte ambas as bandas se apresentariam em São João del-Rei, interior de Minas, em um pub lotado). Diferentes no resultado final, as duas têm uma pegada pop na essência. Enquanto o Devise vem do britpop, com muita (muita mesmo) influência de Oasis e em alguns momentos também lembra Teenage Fanclub e Snow Patrol, o Vivendo do Ócio tem muito do rock do início dos anos 2000, do Arctic Monkeys do início, The Bravery, Strokes e afins. Shows enérgicos e musicalmente no meio termo entre o pop radiofônico e o rock de suas principais influências. O resultado são boas bandas de entrada ao universo desse tipo de rock produzido entre os anos 90 e o início dos anos 2000 e, não por acaso, seus públicos são majoritariamente jovens. Rock jovem, de melodias cativantes e que rende hits latentes como "Prisioneiro do futuro" e "Qualquer hora".

Sábado, 10 de março de 2018
Depois de Thiago Pethit e O Terno (com participação da Tulipa Ruiz), que tocaram em 2016 e 2017, a atração da festa de aniversário da Autêntica em 2018 foi Ava Rocha com abertura do mineiro Lucas Avelar. Primeira vez que a vi fora de um festival. Performance mais contida, talvez pelo palco menor do que nas outras ocasiões em que a vi (no Coquetel Molotov em Recife, na edição mineira e no Popload Festival). Além dos três anos da Autêntica, a data também marcou o mesmo tempo desde o lançamento do disco Ava Patrya Yndia Yracema, segundo e mais recente álbum de Ava. Dele, vieram logo no início do show dois dos "hits" de Ava: "Você não vai passar" e "Transeunte coração".
Difícil escrever sobre um show realizado no aniversário da Autêntica porque, se você trabalha com música em BH e está ali, invariavelmente aquele é um espaço por onde passou algumas (provavelmente muitas) vezes e que nesse dia encontra muitos conhecidos. Um espaço convidativo não somente para o público local mas também para os músicos, como provam os convidados do show da Ava: não somente a já anunciada Juliana Perdigão participou como também Tulipa Ruiz, Gustavo Ruiz e Lucas Santtana, que estavam em BH por causa de shows em outros espaços e terminaram a noite no palco da Autêntica.
Celebrar os três anos da Autêntica é parte do reconhecimento do trabalho dos sócios e de sua equipe, que luta diariamente para manter uma casa de shows autorais com capacidade para 400 pessoas em uma cidade onde a música cover predomina e se paga R$ 30 para ouvir playlists do Spotify em boates mas é difícil cobrar R$ 20 por shows alternativos. Da minha parte, posso dizer que comemorei tanto que mal me lembro do que aconteceu para poder terminar este texto.


A foto do público no dia dos shows do Devise e Vivendo do Ócio é do Luciano Viana. A foto do encontro entre Ava Rocha, Juliana Perdigão, Tulipa Ruiz e Lucas Santtana é do Flávio Charchar.

18 de fevereiro de 2018

Como fazer um mapa de palco (além de rider e input list)

Em 2013 fiz uma publicação indicando um site no qual era possível fazer mapas de palco para bandas de forma rápida e gratuita. Infelizmente, o site foi tirado do ar e deixou muitos músicos na mão. Para tentar suprir essa necessidade, publico abaixo alguns exemplos de mapas de palco (que não é nada mais do que um documento que indica o posicionamento dos músicos e seus respectivos equipamentos no palco), riders (lista dos equipamentos necessários no palco para realização do show) e input lists (lista que indica em qual canal da mesa de som cada um dos instrumentos/fontes sonoras deve ir).

Existem várias formas de apresentar graficamente o posicionamento da banda. Alguns artistas desenham até mesmo à mão, enquanto outros criam PDFs caprichados e com figuras tridimensionais. O importante é ser funcional. O mapa de palco não deve vir com sua foto e release, por exemplo (acredite, isso acontece). O ideal é uni-lo ao rider, input list e mapa de luz (caso tenha um). Esse material será importante tanto para o contratante do show (que precisa saber exatamente qual a estrutura necessária para a realização da apresentação) como para a equipe que irá efetivamente montar o palco para que a performance seja realizada. Tenha em mente que é um material que deve funcionar bem se for impresso em preto e branco (raramente alguma equipe técnica irá imprimir seu mapa colorido) e também na tela do celular (aquele clássico recorrente, quando você enviou todo o material para o contratante mas nenhum técnico da casa de show recebeu e você precisa mostrá-lo na hora da passagem de som, pelo próprio celular).

Enviar os arquivos sempre em PDF evita que alguma informação seja excluída sem querer por parte da equipe do contratante de show. Para preparar o seu material técnico (mapa de palco, rider e input list) você pode se basear nos modelos abaixo, exemplos para saber como outros artistas apresentam suas necessidades técnicas.

Exemplos de mapa de palco




A segunda imagem é um exemplo de mapa e rider unificados, de uma banda que não possui seu próprio técnico de som e por isso não tem um input list preparado. Para esse último exemplo de mapa, acima, rider e input list são esses:

RIDER
- Bateria com bumbo, pedal de bumbo, estante de caixa, uma estante de prato, máquina de chimbal, um tom e banco (repare que nesse caso ele não usa surdo e tem poucos pratos).
- 1 amplificador de baixo Ampeg SVT-2PRO ou 3PRO through 4x10 ou 8x10 - ideal)
- 2 amplificadores Marshall JCM 800 ou 900
- 2 microfones para voz
- 2 direct box
- 3 suportes de guitarra
- 5 monitores

INPUT LIST
1 bumbo
2 caixa (superior)
3 caixa (inferior)
4 tom
5 over (ambiência)
6 Baixo DI
7 Baixo (mic)
8 Guitarra 1
9 Guitarra 1 DI
10 Guitarra 2
12 Vocal 1
13 Vocal 2

Esse é um caso de banda que usa poucos canais da mesa de som e tem um input simples, além de não especificarem canais de monitores ou marcas dos outros equipamentos. Um exemplo de input mais completo é este abaixo, de um quinteto.




Você também pode fazer o download de mais alguns exemplos de mapas de palco, riders e input lists para ter mais referências..

16 de novembro de 2017

Popload Festival 2017: PJ Harvey pegando um bronzeado, Phoenix na balada, Ventre e Carne Doce mostrando a força do indie BR


Criado em 2013, o Popload Festival já nasceu sendo um dos mais interessantes eventos musicais do país. Desde seu surgimento, trouxe ao Brasil artistas como Iggy Pop, Wilco, Tame Impala e Cat Power ao lado de brasileiros como Cidadão Instigado e Céu. Desdobramento do site (ex-coluna) de mesmo nome e principal veículo sobre música indie no Brasil, neste ano teve como atrações principais PJ Harvey e Phoenix, além das ótimas Ventre e Carne Doce, ambas brasileiras, Neon Indian e Daughter.

PJ Harvey atendeu às expectativas com o melhor show da noite. Passaram-se 13 anos desde sua primeira vinda ao país, quando tocou no Tim Festival (na mesma edição em que tocaram Kraftwerk, Brian Wilson e Primal Scream), e seus dois shows por aqui dificilmente poderiam ser mais distintos entre si. Em 2004, fez um show pesado, enérgico e distorcido acompanhada de um trio de bateria, baixo e guitarra (tocada pelo mini-Frusciante Josh Klinghoffer, atualmente no Red Hot Chilli Peppers). Agora, em 2017, são 10 músicos no palco (entre eles os colaboradores de longa data Mick Harvey, que também toca com Nick Cave desde o Birthday Party, e John Parish, com quem PJ tem dois discos lançados em parceria, além de Alain Johannes, que foi do Eleven, Queens of the Stone Age e Them Crooked Vultures) para construir um clima soturno, politizado e musicalmente mais complexo. A atual turnê estreou em 2016 no Primavera Sound, em Barcelona, e é focada nos dois discos mais recentes de PJ, The Hope Six Demolition Project, de 2016, e Let England Shake, de 2011. Se nos dois primeiros shows da turnê o clima sombrio, cheio de sopros e percussão minimalista assustava (depois de Barcelona, também vi o show dela no Nós Primavera, em Porto, Portugal, e em ambos as reações da plateia foram parecidas), o público brasileiro chegou preparado para a atual fase de PJ e recebeu em troca uma banda ainda mais afiada, de performance excepcional (e em dose dupla, já que na noite anterior ela se apresentou em um teatro de São Paulo em uma ação social do festival que beneficiou doadores de sangue e pessoas que exercem trabalhos junto a ONGs parceiras do Popload Festival).

O show começou em estilo banda marcial com todos os músicos entrando enfileirados (PJ entre eles, empunhando seu saxofone), ao som de "Chain of keys", a pesada "The Ministry of Defense" e o single "The Community of Hope" (um dos poucos momentos "pop" do show), nessa sequência. Depois da roqueira "Shame", uma das melhores do disco Uh Hu Her, de 2004 (e única dele no set), PJ emendou uma série de canções do Let England Shake (com o qual ganhou o Mercury Prize pela segunda vez) e duas do calmo White Chalk, de 2007: "Dear darkness" e "White chalk". A música mais antiga (e barulhenta) do show foi a punk "50 ft Queenie", do álbum Rid of Me, de 1993, seguida no show dos hits "Down by the water" e a blueseira desértica "To bring you my love", de 1995, para encerrar com "River anacostia", do disco mais recente, canção sobre a poluição das águas que tinha seu sentido reforçado ao ser tocada a menos de 2km do Rio Tietê.



De escalação aparentemente deslocada e anacrônica ("quem ainda ouve esses caras?", pensei quando saiu a programação), a francesa Phoenix fez um show bastante animado e que funcionou bem como encerramento da noite. É aquele indie pop que explodiu mundialmente há quase 10 anos e que hoje em dia é um pouco brega, um pouco música de publicitário, um pouco balada de playboy que quer ser minimamente descolado. Mas são extremamente bons no que fazem, o pacote completo de entretenimento do rock pop mundial com muitas luzes, pressão sonora e performance ensaiada bem ao gosto do público instagramer. Além dos megahits "Lisztomania" e "1901" e de hits como "Trying to be cool" e "Lasso", músicas novas como "Ti amo" e "J-boy" funcionaram bem ao vivo.



Mais cedo, sob o sol de mais de 30º que castigava o público, os americanos do Neon Indian abriram o festival para um público pequeno que enfrentou o calor pra conferir o synth-pop oitentista hipster da banda. Ainda sobre um sol de matar, o trio carioca Ventre, sem dúvida uma das melhores bandas ao vivo atualmente em atividade, fez seu habitual show sujo e melódico, algo próximo do The Dead Weather misturado com Los Hermanos. Começaram com "Quente" (não por acaso) e fecharam com "Pernas". Se o segundo disco da banda, atualmente em produção, conseguir se aproximar da pressão do show, é certeza de um grande disco à caminho.

Outro nome frequente nos festivais de rock nacionais, o Carne Doce também fez um bom show e deixou claro, mais uma vez, não se tratar de um simples hype. A banda tem construções melódicas interessantes e letras pungentes. É dos raros casos no indie nacional em que os vocais são tão bons quanto o instrumental da banda (nesse caso, ambos excepcionais).

O público, que mais tarde chegaria a cerca de 8 mil pessoas (segundo dados do festival), começou a crescer durante o show do Daughter. Quem perdeu Ventre e Carne Doce e chegou somente na hora da banda inglesa se deu mal, já que foi o show mais fraco do dia. Apesar de mais interessante ao vivo do que em disco, é uma banda genérica, pastiche de Florence + The Machine, Cat Power e outros nomes. Opção mais interessante era sacar as ofertas gastronômicas (aproveitando que, na maior parte do tempo, havia poucas filas) e fugir do sol na grama nas poucas áreas com sombra no Memorial da América Latina.

AlunaGeorge, da Inglaterra, foi a atração surpresa entre os shows da PJ Harvey e do Phoenix, com a brasileira Iza como convidada especial. Tudo o que tenho a dizer sobre esse show é que durante ele eu comi um ótimo sanduíche do Maní e experimentei um energético de tangerina da TNT.


Playlist com os sets da PJ Harvey e Phoenix no Popload Festival 2017

Ps: A foto que abre o post é do G1.

25 de outubro de 2017

Tremor

Um dos trabalhos que me deu mais prazer (e ocupou tempo) em 2017 foi o Tremor, um festival que criamos (Quente) com o pessoal da Obra com o intuito inicial de comemorar os 20 anos da casa (principal reduto de rock alternativo de BH). Fizemos a primeira edição em novembro de 2016 (com o retorno do Ludovic a BH) e encerramos em agosto com uma noite especial: o primeiro show solo do Lee Ranaldo (Sonic Youth) em BH. Uma das coisas mais legais tem sido apresentar a Obra a um público jovem que nunca tinha entrado lá e fazer com que gente que quase não sai mais pra shows resolva se aventurar novamente na noite pra ver artistas que marcaram suas vidas anos atrás (casos dos shows do Pin Ups e do Oceania, que além das músicas novas, também toca parte do repertório do Diesel, banda onde o novo grupo tem suas origens).

Agora que essa primeira edição terminou, marcando os 20 anos da Obra, aproveito pra reunir por aqui os vídeos de cobertura de todas as edições (com exceção da primeira, do Ludovic, que foi registrada somente em fotos)

Estamos registrando imagens e entrevistas pra um mini-documentário sobre a Obra também. Quem puder ajudar com fotos e vídeos de noites marcantes vividas lá (ou de alguma forma relacionadas à Obra) pode entrar em contato com a gente no Facebook ou no contatoARROBAquente.org.br.

Lee Ranaldo em BH

Hurtmold na noite de comemoração dos 20 anos da Obra

Rakta (primeira vez em BH) + Carahter

Pin Ups (de volta a BH depois de mais de uma década) + Miêta

Macaco Bong + Constantina

Vivendo do Ócio + Oceania

Inky + El Toro Fuerte + Miss Francis

Autoramas + Pequena Morte

1 de setembro de 2017

Fuji Rock 2017 e mais alguns rolês no Japão

O Fuji Rock é um festival de grandes distâncias em todos os sentidos. Do Brasil, são no mínimo 24 horas de viagem de São Paulo a Tóquio, embora a maioria dos voos leve entre 28 e 30 horas. Chegando em Tóquio, são necessárias mais duas horas de trem-bala para se chegar a Echigoyuzama, no noroeste do país. Lá, o festival oferece um ônibus por cerca de $5 para se chegar até a estação de ski, no meio da floresta, onde o festival é realizado (mais 50 minutos de transporte). O local é uma espécie de parque florestal gigante, no qual um campo de golfe é utilizado como área de camping e são montados mais de 10 palcos, sendo que os principais shows estão concentrados em quatro deles. Somente no principal, o Green Stage, a capacidade é de cerca de 50 mil pessoas, segundo a produção do festival. Da entrada do parque até o palco mais distante, Field of Heaven (também apelidado por alguns como "hippie stage"), são 30 minutos de caminhada. Tudo isso em pleno verão japonês, com picos de 35º.

Tanto esforço é justificado pelo line-up e pela experiência proporcionada pelo Fuji Rock. Este ano a programação teve Gorillaz, Björk, Aphex Twin, Queens of the Stone Age, LCD Soundsystem, Lorde, The XX, Major Lazer, Death Grips, Slowdive, Bonobo, Thundercat, Father John Misty, The Avalanches, Rhye, entre vários outros nomes. Sem contar os muitos artistas japoneses da programação, como o veterano Cornelius, o trio de jazz moderno Mouse on the Keys e o pop bizarro da Suiyoubino Campanella. Além disso, é um evento com uma lógica um pouco diferente da que estamos acostumados. Você pode entrar com comidas e bebidas à vontade e é comum os japoneses levarem carrinhos cheios de suprimentos. A grande presença de idosos e crianças também surpreende.


Todos os anos chove durante o festival e o figurino padrão é composto de galochas, capas de chuvas e chapéus de pescador. É proibido fumar na maior parte da área do evento (sim, um grande parque ao ar livre onde não se pode fumar), as lixeiras são espalhadas em pontos estratégicos e têm assistentes para indicar ao público como o separar corretamente para reciclagem e, como a maratona de shows é longa (as primeiras atrações começam às 9h da manhã e as últimas terminam às 6h do dia seguinte), os japoneses andam de um lado para o outro carregando cadeirinhas desmontáveis. As áreas mais distantes, em frente a cada palco, são sempre ocupadas por centenas (às vezes milhares) de pessoas com suas cadeirinhas montadas sobre a grama (ou lama).

A grande maioria do público é de orientais. No primeiro dia, Father John Misty brincou que os poucos gritos que ouvia eram com sotaque americano e pediu desculpas por seus conterrâneos não conseguirem assistir um show em silêncio. Show bonito e calmo, que começou com as quatro primeiras faixas de Pure Comedy na mesma sequência que no disco e que teve como ponto alto a sequência com "Hollywood Forever Cemetery Sings" e "I Love You, Honeybear".

Caminho para o palco Field of Heaven

Com a distância entre os palcos, foi preciso correr antes do fim do show pra pegar o The XX no início. Abriram com "Intro" e "Crystalised" e ali já ficava claro que aquele seria um dos shows mais legais do festival. Um pouco depois, em outro palco, começaria o Queens of the Stone Age, prestes a lançar disco novo. Com Josh Homme mancando, fizeram um show repleto dos hits da banda (como "I Sat by the Ocean", "No One Knows", "Little Sister", "Go With the Flow") e tocaram somente uma nova, "The Way You Used to Do". Durante outro hit, "Feel Good Hit of the Summer", Josh ainda tirou onda emendando um trecho de "Clint Eastwood", do Gorillaz, que começava seu show no palco principal. Era o primeiro show da banda de Damon Albarn no Japão desde 2001 e um dos mais aguardados do Fuji Rock. As participações especiais do disco novo foram substituídas por projeções sincronizadas dos vocalistas convidados nos telões (de resolução incrível, vale dizer). Deu pra pegar a sequência de "DARE", "We Got the Power", "Stylo", "Kids With Guns" e "Clint Eastwood". Som incrível e público feliz, apesar da chuva que caía de hora em hora. Madrugada adentro ainda rolariam muitos shows, entre eles DJs mais experimentais como Clark, Arca e o ótimo trio japonês Mouse on the Keys, de dois pianos e bateria.

Sábado foi o dia mais lotado do festival. Tanto que o acesso ao palco onde o LCD Soundsystem tocava foi impedido em certo momento, tamanha a quantidade de pessoas na área. Simultaneamente à banda de James Murphy, o Aphex Twin fez um show caótico e incrível no palco principal, durante a chuva mais forte do fim de semana. Um set de uma hora e meia que começou no tecno mais “acessível” e terminou na melhor barulheira glitch (meu show favorito do Fuji Rock). Outro show que impressionou foi o Death Grips. Pesado e denso, como era de se esperar, e muito cheio. Funcionaria melhor se fosse de noite dentro do galpão do palco Red Marquee e não durante a tarde, ao ar livre, mas mesmo sem a atmosfera ideal as pessoas não pareceram se importar. Ao longo do dia, decidi circular mais pelo festival e espiar os artistas japoneses e djs em pequenos palcos (como uma tenda com alguns DJs figuraças, mais velhos, na qual cabia menos de 100 pessoas). Conferi um pouco mais dos shows do Cornelius (cada música parece um show diferente) e Temples (pop psicodélico asséptico e genérico) e também teve Avalanches, Nina Kraviz, Mondo Grosso e Ramona Flowers (dos que estavam na minha lista "a conferir").



Do domingo, meus favoritos foram Björk, Suiyōubi no Campanella, Bonobo e Slowdive. Björk fez o show de encerramento do Fuji Rock acompanhada do Arca como DJ e uma orquestra. Com projeções enormes e mais climático (em grande parte pelos arranjos da orquestra), foi um show baseado no disco mais recente da cantora, Vulnicura (1/3 do set foi dele),  que empolgou efetivamente as massas cansadas de três dias seguidos de shows e caminhadas quando vieram hits como "Jóga", "Hyperballad" e "Bachelorette". Simultaneamente, Thundercat tocava no distante "hippie stage" e o Major Lazer fechava o White Stage (não vi nada desses shows). Logo após o show da Björk, principal atração do dia, grande parte do público começou a ir embora e, entre as muitas atrações que durariam madrugada adentro, a que parecia atrair mais gente era a Suiyōubi no Campanella (às vezes grafado como Wednesday Campanella). Apesar de ser um trio, a vocalista KOM_I se apresenta completamente sozinha no palco, sem DJs ou dançarinos. Defini-la como uma "Bjórk do J-pop" é reducionista, mas não chega a ser uma mentira, apesar de ficar longe de abranger sua sonoridade (que mistura muito rap, diversos subgêneros da eletrônica, música tradicional japonesa e pop eletrônico ocidental, às vezes tudo isso na mesma música).

Mais cedo, conferi brevemente enquanto Lorde lotava o palco principal durante uma versão minimalista do mega hit "Royals" (e bastante sonolenta, diga-se). Quase tão chato quando o show do indie superestimado Real Estate. Se deu muito melhor quem se programou pra ver os shows do Trombone Shorty & Orleans Avenue (dos mais animados do festival), a pedrada depressiva do Slowdive e a estreia do Bonobo acompanhado de banda no Japão. Enquanto o Jet tocava, mais divertido era assistir a versão japonesa do John Cusack discotecar jazz latino ou rodar pelo festival (em uma das tendas de roupas diferentonas, um casal já mais velho me explicou que tinham aprendido algumas coisas em português com um brasileiro professor de capoeira: "chapado de maconha" e "obrigado" era tudo que sabiam dizer).

Aproveitando o fato de que muitas pessoas que foram ao festival precisam passar por Tóquio em seus caminhos de volta (por causa das linhas de trem), é comum ver grandes shows na cidade logo na sequência. Este ano, foi o caso do Sigur Rós, que fez dois shows na cidade nos dias seguintes ao término do Fuji Rock. Dois dias depois, foi a vez dos japoneses do Toe e D.A.N esgotarem os ingressos pra festa de aniversário do Liquidroom. Espaço com capacidade pra mil pessoas, o Liquidroom recebe nomes mundiais em ascensão e bandas de médio porte em suas turnês japonesas. Bandas que são enormes hoje em dia tocaram lá quando começaram a despontar no cenário musical: Beck e Blur (1994), Radiohead (1995), Foo Fighters (1998, que nessa época já era uma banda relativamente grande mas antes de explodir mundialmente com o There is Nothing Left to Lose, de 1999), Coldplay (2002) e outros (puxando pro nosso lado, o Cansei de Ser Sexy tocou lá em 2008). Som e luz são incríveis, a área da plateia tem uma inclinação que permite que você veja facilmente o palco de qualquer ponto e no andar superior (sem acesso ao show) há um café e um grande lounge. Fomos convidados pelos caras do Toe pra assistir a esses shows e isso resultou em uma cena que demonstra a educação dos japoneses: a plateia fica em pé, mas a banda colocou duas cadeiras reservadas pra gente perto da mesa de som, no meio do público. Mesmo com a casa lotada, ingressos esgotados, ninguém se sentou ali e quando informamos que estavam reservados pra nós, ninguém questionou. Outro ponto bastante diferente é que fotos são proibidas nos shows (isso se repete na maioria dos locais maiores em que vi shows no Japão), por uma questão de educação: para evitar que os celulares levantados tampem a visão de quem está atrás querendo ver o palco.

O D.A.N tem apenas três anos de existência e tem crescido bastante no Japão. Originalmente um trio mas um quarteto ao vivo e em algumas gravações, é uma banda de rock alternativo dançante influenciada por math rock. Lembra Foals, mas com composições mais complexas. Show bastante fiel aos discos e que encaixou perfeitamente como abertura para o Toe. Banda de math/post-rck mais conhecida do Japão, fizeram um show irrepreensível. Muito mais enérgico e pesado ao vivo do que em disco, é um show de muita dinâmica e variações, com o acréscimo de um quinto integrante em algumas músicas. Repertório bem dividido, com três músicas de cada disco, exceto do Songs, Ideas, We Forgot, do qual não tocaram nada. O set teve "Goodbye", "After image" e "Esoteric" do For Long Tomorrow, "C" e "Past and language" do The Book About My Idle Plot On A Vague Anxiety, "Run for word" e The Future is now" do EP The Future is Now, "My little wish", "Song silly" e "Because I hear you" do Hear You e "1/21", do EP New Sentimentality. Facilmente, um dos melhores shows que já vi.



Na mesma semana o Guitar Wolf, outro ícone do rock underground japonês, tocou no festival Meteo Night, junto de mais de 10 bandas. A brasileira Carla Boregas, baixista do internacional Rakta, também se apresentou na cidade no período, em um evento de música eletrônica experimental. Na semana seguinte, outro festival reuniria "apenas" Mogwai, St Vincent, Cigarettes After Sex, Ride, Beak>> (dos melhores shows que vi ano passado) e Blanck Mass (projeto de um dos caras do Fuck Buttons). Apesar da grande oferta de atrações e da qualidade dos espaços de shows (até os lugares mais improvisados e pequenos têm equipamentos de som e luz sensacionais), o bolso também pesa. O ingresso pra cada dia de Fuji Rock custava o equivalente a R$ 600 e a média de ingresso pros shows alternativos variava (nesse período) entre  R$ 70 e R$ 100.

8 de junho de 2017

Sobre ser dono de uma casa de shows autorais


Leo Moraes é arquiteto e músico, vocalista e guitarrista da Valsa Binária, criador do estúdio Pato Multimídia (onde alugamos o primeiro escritório da Quente, vale dizer) e um dos três sócios da A Autêntica, principal palco de médio porte para shows autorais em BH desde 2015.

Notório contador de causos e cronista, Leo expandiu esse talento ao Facebook e algumas de suas publicações mais populares são destinadas a desmistificar o cotidiano da manutenção de uma casa de show. Pedi sua autorização pra publicar aqui esses relatos, que reuni abaixo. São depoimentos diretos nos quais ele abre os custos da casa, divide dúvidas dos sócios, propões alternativas e se mostra aberto ao diálogo (qualidade que se estende aos demais sócios casa).


[permita o intervalo pra um breve jabá: nos próximos dias a Quente faz quatro eventos na Autêntica: Jaloo e Disputa Nervosa no dia 9 de junho; Kiko Dinucci lança o ótimo Cortes Curtos no dia 14, véspera de feriado; Gui Hargreaves (prestes a lançar disco) e o baiano Giovani Cidreira (lançamento de seu primeiro disco em BH) no dia 16 de junho; e dia 14 de julho faremos o lançamento do Boca, novo álbum do Curumin]



CUSTOS FIXOS
(29 de março de 2017)

Bom pessoal, vamos lá mais uma vez. A Autêntica tem um custo mensal fixo de aproximadamente 42 mil. Nesse valor estão incluídos aluguel, água, luz, telefone, internet, e folha salarial. Isso significa que abertos ou fechados, com ou sem evento, aconteça o que acontecer, a gente paga 1400 Reais por dia(42 mil dividido por 30 dias). Vamos chamar esse valor de F.

Além de F, temos um outro custo que pagamos pelo fato de fazermos eventos. Inclui aluguel de som, cachê de técnico, segurança, frilas, e ecad. Esse valor por evento (chamemos de E) é de aproximadamente 1500 Reais.

Então, somando F + E chegamos ao valor de 2900 Reais. É isso que custa um dia da Autêntica.

Quando a gente negocia um evento, a gente considera apenas o custo E, pois entendemos que o F tem que ser pago pela venda de bar. Então, na nossa visão, E tem que ser pago pela bilheteria, pois são custos que nós não teríamos se abríssemos só como bar, percebem?

Mas tem um agravante: Quando fazemos eventos com shows, o consumo do bar cai a menos da metade. Então a gente dobra nosso custo (de 1400 pra 2900) e reduz pela metade a nossa venda. Sério, qualquer consultor de negócios ia dizer pra gente parar com esse troço de show.

Agora, imaginem um evento com menos de 100 pessoas. A gente perde duas vezes, em E e em F. É melhor nem abrir.

O que eu gostaria que as pessoas entendessem, é que o escalonamento de bilheteria não é pra gente encher o rabo de dinheiro, nem pra explorar músico, mas pra gente minimizar um pouco o prejú em caso de fracasso do evento. Lembrem-se que a gente basicamente tem 8 dias no mês (as sextas e sábados) pra pagarmos essa conta. Um dia que não vira é um desastre, o buraco demora a ser coberto.

E aqui não estão gastos com produtos, impostos, etc. Não é mole não gente, um pouquinho de compreensão cai bem.


PAGAMENTO DOS ARTISTAS
(21 de novembro de 2016)

Pessoal, mais uma vez venho dividir com vocês umas angústias d' A Autêntica, sempre no esquema papo reto, sem vaselina, como a gente costuma fazer. Quem sabe alguém nos dá uma luz? O desafio agora é conseguir remunerar melhor as bandas quando o evento não vira. Eu já falei disso em posts anteriores, mas vou explicar de novo pra vocês entenderem o problema.

A gente vem trabalhando com um esquema de escalonamento de bilheteria, em que a porcentagem da casa vai diminuindo a medida que o público pagante aumenta. Chegamos nessa forma de trabalhar depois de quebrar muito a cabeça, sempre no intuito de pagar o máximo possível à banda, sem ficar no prejuízo em caso de fracasso do evento. Vou explicar com números.

Cada noite custa pra gente aproximadamente 2.500 Reais. Desse valor, 1.200 são custos diretamente ligados ao show (aluguel de som, técnico, ecad, etc). Ou seja, se a gente quiser abrir sem música, botecão mesmo, o custo cai pra 1.300. Então, pra gente, uma noite começa a ficar boa financeiramente quando a porcentagem da casa na bilheteria chega nesse número mágico de 1.200 Reais.

Então vamos lá, tendo em mente que a capacidade da casa é de 400 pagantes, considerando nossa entrada padrão de 20 Reais, imaginemos os seguintes cenários:

Com 300 pagantes, 6 mil de renda bruta, a casa fica com 40%, ou 2.400 Reais, e a(s) banda(s) levam 60%, ou 4.600 Reais. Gente, vamos combinar que está lindo pra todo mundo, né?

Já num evento com 200 pagantes, que segundo nosso escalonamento está na faixa do 50-50, o total da bilheteria é 4 mil Reais, dos quais 2 mil ficam com a gente. Isso significa meia lotação, e já fica legal pra ambas as partes. A gente paga nosso custo de 1.200, e ainda sobra um lucrinho, e certamente o bar vai vender o suficiente pra cobrir os custos e também dar um lucrinho. Se for uma banda só, leva 2 mil no bolso, ou mil cada uma se forem duas. Não é nada mal, na atual conjuntura.

O problema é quando fica muito abaixo disso. Vamos pegar o exemplo de um evento com 70 pagantes, ou 1.400 Reais de bilheteria bruta. A casa fica com 70%, ou 980 Reais, e a banda leva 420 Reais. 210 cada, se forem duas. A gente tem um prejuzinho, e a banda leva muito pouco. E dá um aperto no coração quando vamos fazer o acerto com uma banda que fez um show maravilhoso e depositamos 210 Reais. O que dá dó nesse cenário, é que um evento com 70 pagantes na Autêntica é lindo! A pista fica bacana, não é noite caída não! Mas não se paga como deveria.

A constatação que a gente chegou é que pra ser bom pra todo mundo tem que ter pelo menos 150 pagantes na casa. Estamos buscando formas de poder aumentar a porcentagem destinada às bandas em noites desse tipo, pra ver se a gente consegue fazer esse tipo de evento continuar sendo viável. Alguns dos melhores shows que vimos na casa tiveram menos que 100 pagantes.

Uma idéia é fazer os shows mais cedo um pouco, e transformar a casa numa balada depois de 00:30. Com DJ's legais, e tal. Pegar um público que não está interessado no show, que chegaria depois. Aí a banda teria uma porcentagem bem maior dos ingressos vendidos até meia-noite, e a partir desse horário a bilheteria seria toda da casa. Tipo dividindo a noite em duas mesmo. Lembro que o Claudao Pilha já fez algo parecido n'a A Obra Bar Dançante, como funcionou isso, Claudão? E Anderson Foca, Letícia Rezende, Ricardo Rodrigues, Mancha, Andre Araujo, como vocês lidam com isso? Olha eu aqui, pedindo ajuda aos universitários. kkkkkk

E um comentário no mesmo post:
A gente vem experimentando com esse formato da banda garantir um mínimo pra casa, e não o contrário. Tipo, os primeiros 1200,00 serem para a casa, e a partir daí a banda ficaria com 80% da bilheteria, por exemplo. A galera que confia mais no próprio taco gosta, pois eles têm a possibilidade de ganhar mais, pois sabem que o evento vai virar. Mas tem gente que fica ofendida com esse tipo de proposta. Pra você ter uma idéia, tem gente que questiona por que que abaixo de 40 pagantes a bilheteria fica toda pra casa. Tipo, se você está com medo de não ter 40 pessoas no evento, talvez esse evento não tenha que ser em uma casa pra 400 pessoas. Sério, não dar nem 10% da lotação é duro. E a gente vê que muita banda tem aquela percepção de achar que tem que ser contratada pra tocar, e não encarar aquilo como um empreendimento em parceria com a casa, saca?


MODELOS DE FUNCIONAMENTO
(18 de agosto de 2016)

No embalo do post anterior, e motivado pela provocação do amigo Thales, vou expôr mais um pouquinho do que a gente vem percebendo nessa aventura louca que é A Autêntica. Nesse ramo de casas shows, existem dois modelos básicos de negócios.

1-A balada;
2-O espaço de eventos;

As fontes de arrecadação são diferentes entre os dois modelos, mas principalmente a relação entre o estabelecimento e o artista é muito diferente.

Na "balada" as fontes de arrecadação são a bilheteria e o consumo. O objetivo aqui ter um grande número de pessoas que paguem pra entrar, e que consumam no bar. A casa é a produtora, e o músico é visto como um prestador de serviços, que vai contribuir para atrair essas pessoas ao estabelecimento. O sonho é que a casa conquiste um público que não dependa do artista, que frequente a casa independente da atração musical. Se eu sou o dono, e sei que todo sábado eu terei 400 pessoas pagando 30 reais, não importa quem esteja no palco, eu posso estabelecer um cachê fixo de, digamos 3000 reais, que ainda sobram 9000 reais de bilheteria limpos. E se as pessoas não estão indo pela atração musical, estão indo por outro motivo, que costuma ser paquerar, dançar, beber, comer, etc. Dificilmente o público vai ter a atenção desejada por artistas autorais, uma vez que a música ali é entretenimento puro. Mas o risco é inteiro da casa, caso o público não apareça. O Circuito do Rock opera nesse modelo.

No caso do "espaço de eventos", a fonte de arrecadação é o aluguel do espaço. O cara tem um imóvel, que pode ou não contar com estrutura de luz, som, bar, etc, e ele aluga o espaço para produtores que querem trazer artistas, artistas que querem lançar discos, etc. O artista é o contratante, e não o prestador de serviços. Uma vez alugada, o risco da casa é zero. Se lotar, ou se não for ninguém, não faz a menor diferença. É o do produtor/artista que está na reta, cabe a ele promover e divulgar o evento. Em caso de sucesso, a bilheteria é toda dele; em caso de fracasso, o preju também. Teatros costumam funcionar assim, bem como casas como o Music Hall e Chevrolet Hall.

A grande dificuldade de locais como A Autêntica, o Matriz, como era o saudoso Lapa Multshow, é que esses operam em uma área cinza, que é um híbrido entre esses dois modelos. E pra complicar, como sempre tentamos ser o mais flexíveis o possível nas negociações, essa relação entre a casa e o produtor/artista varia de evento pra evento. A maneira como nós enxergamos a maioria dos casos, é uma relação de sociedade entre a casa e o artista. Ambos os lados assumem os riscos e as responsabilidades pelo sucesso do evento.

Esquematizando:
Na balada, o artista tem público e cachê garantidos e risco zero, mas como não é ele quem traz o público, não pode exigir bilheteria.

No espaço de eventos, o artista paga o aluguel da estrutura e assume o risco total, mas se der certo leva a bolada toda.

No modelo híbrido, a casa entra com a estrutura, como se estivesse pagando o aluguel, e o artista com o show. O risco é dividido. Portanto é justo que o lucro seja dividido também. A bilheteria progressiva é uma boa forma de fazer essa divisão. Como o risco direto em dinheiro é maior por parte da casa(*), é natural que em caso de prejuízo uma parte maior da bilheteria vá pra amortizar isso; no caso de lucro, como a venda do bar não é dividida com o artista, é justo que uma porcentagem maior vá para ele. Basicamente, quando dá certo é bom pra todo mundo, o difícil é dividir o prejú.

Só esse mês tivemos a felicidade de fazer repasses de bilheteria superiores a 5 mil reais pra duas bandas locais que fizeram eventos aqui. Se somar nossa porcentagem da bilheteria com o lucro do bar, é mais ou menos o mesmo valor que entrou pra gente nos eventos. Justo. Todo mundo ficou feliz. O chato do discurso de "a bilheteria tem que ser toda do artista" é que na prática isso significa que, se der ruim a casa assume o rombo sozinha e, se der lucro o artista ganha tudo. É querer o bônus dos dois modelos, sem o ônus de nenhum.

Já tiveram vezes que a gente alugou a casa, o evento virou bonito, e ficamos pensando "nó, se tivéssemos feito porcentagem de bilheteria teríamos ganhado muito mais". Mas entendemos que é o preço de abrir mão do risco. O fixo do aluguel nos deu tranquilidade pra planejar o pagamento de compromissos. E o produtor que assumiu o risco alugando a casa se deu bem, merecidamente. Se tivesse dado errado estaríamos tranquilos e o abacaxi estaria com ele.

Aí, Thales, mais uma vez a perspectiva do empresário :-D. Mas repare que não estou culpando o artista por nada, apenas explicando o porquê da porcentagem de bilheteria.
_______________________________

(*) Uma vez eu falei isso pra um produtor, e ele argumentou que a banda tinha investido muito dinheiro na gravação do disco, e que tinha custos com ensaios, manutenção de instrumentos, etc. Pessoalmente acho que isso não deve entrar na conta de um único evento. Seria o mesmo se falássemos do quanto investimos na obra, fazendo a reforma, comprando equipamentos, dando manutenção nos banheiros, etc.


PREÇO DA CERVEJA
(17 de agosto de 2016)

"Leo, a cerveja n' A Autêntica está muito cara."

Não, não está. Vamos lá, desenhando. A long neck lá está custando 8 Reais, mas se você comprar o combo de 5 por 35, cada uma sai a 7 Reais.

Lembram do meu outro post, em que eu explico a história do ticket médio? Recordando, o ticket médio é o quanto o bar vendeu, dividido pelo público presente. O nosso gira em torno de R$15,00. Então, a lógica é a seguinte, imagine a pessoa que chega lá com a intenção de beber múltiplos de 5 cervejas. Ela está disposta a gastar mais do dobro do nosso ticket médio, então podemos reduzir nossa margem. Dá pra ganhar na quantidade. Agora, se você é nosso cliente médio, e vai lá mais pra curtir o show, ficar umas quatro horas na casa, e tomar duas cervejas, a sua conta vai ser de 16 Reais. Você vai pagar 1 Real "a mais" em cada uma das suas duas cervas. Vamos combinar que 2 Reais a mais ou a menos numa noitada é quase nada, né? Mas pra gente é muito. Numa noite com 100 pessoas tomando duas cervejas, esse Realzinho a mais significa 200 Reais a mais no nosso caixa, o que paga a diária de dois frilas. Vocês não fazem idéia da diferença que isso faz.

"Mas o ambulante que fica lá na porta vende o latão por 6 Reais, véi."

A gente compra a long neck por 3,69 cada. Vendendo a 7,50 (média) temos um "lucro" de 3,81. O cara compra o latão por 3,19. Vendendo por 6 ele tem um lucro de 2,81. A diferença é que o dele é lucro, o nosso é "lucro", entre aspas. Ele pega esses 2,81, enfia no bolso e é isso. No máaaximo ele compra um saco de gelo, põe 20 conto de gasolina, e esse é o custo operacional dele. Dos nossos 3,81 a gente tem que pagar aluguel, salários, água, luz, impostos, taxas, encargos, etc. A gente basicamente abre a casa devendo 2 mil reais todo dia. Faz a conta aí pra ver quantas cervejas temos que vender pra chegar no zero a zero. Esse real que você "economiza" comprando do ambulante, e não da casa que está te proporcionando o show que você está assistindo, faz muita falta pra gente.

"É, mas eu sei que nos destilados e na comida a margem de lucro é muito mais alta."

Verdade. A gente até tentou estimular a venda desses produtos criando um cardápio incrível de drinks. É legal, mas sabe o que descobrimos? Nosso público é cervejeiro. Nós somos cervejeiros. Cerveja representa 70% das nossas vendas. O segundo lugar é água (!!!) com quase 15%. Então, mesmo a margem sendo boa, a quantidade de vendas não é suficiente pra que isso tenha um impacto significativo na receita.

Então é isso, galera. Comprar cerveja de ambulante na porta de show independente é paia demais, e 8 Reais numa long neck, se você vai tomar só uma ou duas, é honestão.


MERCADO MUSICAL
(19 de maio de 2016)

Textão chatão sobre mercado musical. Mas pra quem é da área vale a pena :-)

Outro dia eu fiz um post dizendo que o "você vai divulgar seu trabalho" está para o músico assim como o "você vai ganhar no bar" está pra casa de shows. Várias pessoas vieram conversar comigo me questionando sobre isso, e percebi que de fato existe uma visão equivocada sobre a realidade financeira do nosso negócio. Então resolvi escrever um relato mais detalhado sobre alguns pontos.

Existe uma percepção generalizada na classe musical de que o artista é sempre o elo mais fraco da cadeia, e que todo mundo ganha em cima do seu trabalho, explorando sua vontade de produzir. É uma frustração compreensível com o atual estado do cenário musical, decorrente da desvalorização do produto musical, que se seguiu à revolução digital. Napster, fim das gravadoras, blá blá blá. Aquele assunto que todo mundo já cansou de discutir. Sou artista, também estou desse lado, sei muito bem como é.

Hoje, com mais de um ano de experiência de Autêntica, eu posso dizer que tenho uma visão bem mais ampla do que significa investir e trabalhar com música, não apenas com a visão do artista. E com a autoridade dos médicos das piadas afirmo: "Tenho boas e más notícias."

Primeiro as más. Ninguém está te explorando e ganhando dinheiro em cima do seu talento e trabalho por um simples motivo: ninguém está ganhando dinheiro com música! Uma coisa que ouvimos com frequência é que a bilheteria tem que ser toda do artista, já que a casa vai ganhar no bar. Vou compartilhar com vocês alguns dados que detectamos aqui na Autêntica em 2015.

Tem um conceito usado na administração de bares e restaurantes que é o "ticket médio". O ticket médio de um evento nada mais é do que o total arrecadado pelo bar dividido pelo número de pessoas presentes. Ou seja, quanto cada pessoa gastou, em média, na noite. Não inclui a bilheteria.

Pra vocês terem uma idéia, o ticket médio da Autêntica em noites de shows foi de quase R$15,00. Isso é ridiculamente baixo. Quando foi a última vez que você sentou numa mesa de boteco e a conta veio menos de quinze reais? Agora outro dado interessante. Em noites de festas, sem show, com DJ's, o ticket médio foi de R$48,00. (!!!)

Existem alguns fatores que explicam essa diferença tão grande, mas acredito que o principal seja o fato de que a pessoa que vai a uma festa, vai com a intenção de curtir a balada, beber, paquerar, dançar, etc, enquanto a pessoa que vai a um show vai para assistir a um espetáculo. Não é incomum termos um número grande de cartelas em branco em noites de show. Gente que veio e não comprou nem uma coca-cola. Por um lado, isso demonstra um interesse do público desses eventos no que realmente importa, que é o show, mas para a casa o resultado de vendas do bar é desastroso. Mas uma coisa é certa:

O bar vende MUITO mais quando não tem música ao vivo.

Sem contar que para o show nós temos que pagar aluguel de som, de backline, e cachê do técnico de som, custos que não temos quando é festa. E na festa o ingresso é mais caro, ninguém pede meia, e quase não tem cortesias. Basicamente a opção por trabalhar com cultura faz com que a gente se ferre por todos os lados.

É por isso que precisamos do dinheiro da bilheteria. E a idéia da divisão progressiva (quanto maior o público, maior a porcentagem que vai para o artista) foi a forma mais justa que encontramos pra fazer a divisão. Nossos custos são muito altos, e a margem é tão apertada que basta um fim de semana fraco para jogar nosso mês no vermelho. Então, quando fizer um show e receber 30% da bilheteria, não pense "estou sendo explorado, a casa vai ficar com 70%". Pense "puxa, a noite foi meio fraca, consegui salvar uma graninha pra ajudar nos custos, e a casa minimizou o prejuízo e vai poder continuar existindo. E na próxima, quem sabe, a casa enche e eu é que ganho 70%."

A boa notícia é que a gente já vem observando uma sensível melhora, as noites fracas estão cada vez mais raras, e já estamos entendendo bem melhor a dinâmica do negócio. E vamos continuar firmes na proposta da música contemporânea, pois é pra isso que abrimos, é o que amamos, e é o que sabemos fazer. Só que às vezes dá uma certa aflição com a falta de empatia por parte de alguns, que parecem nos ver como "a indústria", como se estivéssemos rachando de ganhar de dinheiro e amarrando migalhas para os artistas. Mas acho que é falta de entendimento mesmo, ninguém é obrigado a conhecer os números de uma casa noturna, é normal tirar conclusões sem ter uma compreensão de todos os fatores. Acredito que com transparência e boa vontade a gente consegue ir aparando essas arestas.

Por favor entendam que não é mimimi, é uma tentativa de abrir um pouco pra vocês a nossa realidade, pra que fique claro que não existe lado de cá e lado de lá, é tudo um lado só. O que a gente quer é ampliar o público interessado em música nova, proporcionar experiências legais para os músicos, e contribuir para o fortalecimento desse mercado. Ou seja: tamo juntos!

24 de abril de 2017

Não é que as pessoas não entendem sua música. Talvez elas simplesmente não gostem dela (e isso é ok)

Conversando com um jovem produtor um tempo atrás ele me perguntou o que eu achava de determinado artista. Eu disse que tinha sido um dos piores shows que vi nos últimos anos, um som tão medíocre que tinha seu valor justamente por ser tão ruim - afinal, ao menos provocou alguma reação, considerando que uma das piores respostas à arte pode ser a apatia em relação a ela. "Pois é, não consigo ouvir muito. Acho que não entendi ainda. Mas é legal", ele disse, um pouco envergonhado. Achei a fala estranha na época mas não dei muita importância. No entanto, nos últimos meses tenho reparado o argumento do "você não entendeu" como constante resposta a críticas, principalmente entre o público mais jovem. Isso leva a algo maior.

Apesar de ser reproduzido principalmente pelos millennials, é algo que não se restringe unicamente aos jovens. As redes sociais têm fortalecido as manifestações narcisistas e egocêntricas e as bolhas cognitivas: as pessoas falam sobre si mesmas e para seus semelhantes, discordâncias e diferenças são exceções. Nesse contexto, opiniões dissonantes são alvo de um verdadeiro bullying digital. Ou linchamento virtual, pra ser mais assertivo. E não só referente a questões políticas e sociais, mas também na música.

O que percebo é uma estratégia (talvez até inconsciente, às vezes) por parte de artistas e fãs de calar qualquer opinião divergente através da opressão, da desqualificação do argumento crítico. "Você não entendeu" é a manifestação mais comum e intelectualmente carente. Reflexo de uma geração que não aceita críticas e as leva para o lado pessoal (mais um sinal narcisista).

Nossos gostos são subjetivos e resultado de nossas experiências pessoais. Cada detalhe de nossas vidas influencia nisso: onde nascemos e crescemos, classe econômica, esfera social, aparência, o que lemos, ouvimos e assistimos, o que nossos amigos fazem, o clima na cidade... enfim, a lista é infinita. É reconfortante encontrar pessoas que compartilhem os mesmos interesses e gostos, a mesma (ou semelhante) visão de mundo que temos. Mas é importante ir além e ultrapassar esses limites não só para buscar novos e diferentes conteúdos mas também pra entender melhor o outro. Aquele que é diferente de você.

Nossas experiências também são fundamentais na forma como interpretamos a música (e o mundo em geral) porque a arte é essencialmente incompleta até que alguém a interprete, já dizia Walter Benjamin uns 50 anos atrás. É a partir do que somos/estamos que interpretamos a música, que a sentimos. Por exemplo: é normal que uma pessoa muito jovem goste de artistas limitados musical e conceitualmente, com letras sobre conflitos existenciais da adolescência, por se identificar naquele contexto. Assim como é natural que pessoas com mais referências e experiências sintam-se imersas no loop cultural infinito e possam responder aos mesmos artistas com repulsa. Não há certo ou errado a não ser na abordagem maniqueísta (essa sim, um erro).

São várias as metáforas possíveis e uma delas (apesar de ruim, confesso) é a de que a música gravada seria como uma estrada cujas características são bem definidas e definitivas (afinal estamos falando de algo gravado) mas que se reconstrói em diferentes lugares de acordo com quem a escuta. O caminho é definido, está ali registrado, mas cabe a cada pessoa escolher pra onde olhar ao longo do percurso e aonde chegará depende de ambos, artista e ouvinte. Não é que as pessoas não entendam esse processo. Pode ser que hoje elas simplesmente não se sintam tocadas por determinada obra, aquilo não provoque o sentimento almejado pel@ artista. E, novamente, não há problema nisso. Dá pra dizer, por outro lado, que haveria uma relação com o famoso isentão. Na música, ele não afirma que não gosta. Apenas "não entendeu" ainda. Seria um resultado do patrulhamento da opinião online, 1984 nos blogs de música, olhem que merda. Talvez o único erro (questionável) em questão seja esconder-se atrás do argumento de "não entender" determinado som, de não manifestar uma opinião própria sem medo de ir contra o consenso do seu círculo relacional ou das mídias que te influenciam em busca de identificação social com seus pares em vez de expressar essa maravilha singular que todos temos que é o cu gosto pessoal.


________________________________________

Pessoas com transtorno de personalidade narcisista são descritas no Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders como aquelas que têm grande necessidade de admiração, senso inflado em relação a própria importância e que escolhem as amizades de acordo com seu prestígio e status. Dá pra montar um festival (ruim) só com pessoas com essa descrição, uh?

________________________________________

Do texto na Carta Capital ("A bolha do Facebook e a astúcia do capitalismo") que linkei anteriormente: "Com os algoritmos, descobrimos que a mercadoria somos nós, nossos pares de olhos (a mais-valia da sociedade da hipervisibilidade), nossos desejos. Os desdobramentos disso já se fazem sentir: homogeneização das identidades, padronização de gostos (com a Netflix nos indicando filmes porque nosso amigo assistiu), empobrecimento da curiosidade cultural..."

________________________________________

Uma matéria interessante do The Guardian sobre o narcisismo da juventude atual tem relação com o que aponto aqui. Nessa faixa etária (a matéria cita entre 17 e 21 anos) as pessoas seriam mais influenciadas pelas opiniões de seus pares pra criar uma impressão positiva e assim fazerem partes de grupos sociais que substituam a vida com os pais. Daí a ausência de opinião própria em troca de um consenso (no caso, sobre gostos musicais).

________________________________________

Foda ter que explicar isso, mas deu pra sacar que o "maravilha singular" na última frase era uma piada, né?

________________________________________

Pra encerrar: as pessoas estão realmente mais egocêntricas e narcisistas (minha opinião) ou temos essa impressão porque mais pessoas publicam conteúdo online agora? A quem interessar, mais uma matéria sobre o tema.

6 de dezembro de 2016

Achei que devia fazer um texto sobre os 10 anos do blog mas não pensei num título bom



6 de dezembro de 2006. As capas dos jornais informam sobre o caos nos aeroportos brasileiros (uma prévia do "relaxa e goza"). Nasa encontra provas de água em Marte. Saddam Hussein ainda está vivo e acaba de ser sentenciado à morte. Um Golpe de Estado em curso em Fiji. Lula reeleito com mais de 60% dos votos. Playstation 3 e o Wii são lançamentos recentes.  Randy Rhoads faria 50 anos se estivesse vivo. Sarah Sheeva ainda vê AQUILO MARAVILHOSO.

Às 11:19 daquela quarta-feira, provavelmente durante uma aula chata de diagramação, fiz a primeira publicação por aqui. Talvez fosse a época em que eu estudava jornalismo pela manhã, trabalhava de tarde, estudava design de noite e chegava em casa à meia-noite, na região metropolitana de BH. A memória falha, mas não é necessariamente um problema, já que o que esquecemos também é parte do que define o que somos. 1.329 posts depois, percebo que parte do que sou hoje passa por aqui. E que durou todo esse tempo porque sempre escrevi para mim em primeiro lugar, independente de visitantes. Porque em meio a todas as falhas, textos ruins e a prepotência irônica da adolescência também havia a curiosidade, o prazer do descobrimento e ____________ (complete com outras coisas que vemos em textos motivacionais).

Eu não conhecia nenhum músico, nenhum produtor, nenhum jornalista. No meu blog anterior, tampava os rostos de todos os músicos nas fotos porque acreditava que a única coisa que importava era a música em si, não a aparência, os egos. Achava a coisa mais brega e egocêntrica os nomes próprios dos artistas em suas carreiras solo (quer dizer, ainda acho). Acreditava que a arte só poderia ser sincera e livre se gratuita, desvinculada de relações mercadológicas. Só que a realidade pro filho de uma ex-caixa de supermercado e um ex-entregador de pães é bem distinta de uma utopia artística. O processo é lento. E se em um primeiro momento imaginar certo conformismo gera decepção, em outro a mesma lentidão te faz acreditar que é possível mudar as coisas por dentro. Estar dentro do sistema para tentar mudá-lo. "Você vai escolher o que tiver mais perto de você, o que tiver dentro da sua realidade", dizem os Racionais.

Revisito os arquivos com parcimônia (não sei de onde me veio a vontade de usar essa palavra, mas veio), faz parte de um processo de autocrítica. Por mais que às vezes eu não reconheça o autor daquelas publicações, os textos que geraram 80 mil acessos em um dia e os que ficaram nos 100 leitores importam da mesma forma porque têm um valor pessoal (há anos, aliás, sequer acompanho as métricas de acesso do blog). E, imagino, algum valor pra outras pessoas.

É só mais uma entre várias abstrações, mas considerei a data um momento pertinente pra recapitulações. O rio nunca é o mesmo, não é? Recentemente anotei a fala de um neurologista (no contexto original, sobre sinapses e esquizofrenia): "o segredo do aprendizado é a eliminação sistemática do excesso. É principalmente morrendo que nós crescemos". Tem a ver com a euforia da infância e da adolescência, os processos do corpo. E funciona também aqui.

Em 2006, escrevia da perspectiva de alguém com muitos "nuncas" na vida (como nunca ter saído de Minas Gerais) e a ingenuidade de acreditar que poderia fazer o que quisesse na vida. Cortei alguns nuncas e continuo tentando, mas se der errado a preparação já foi feita. E no geral, a gente sabe, o que vale é o processo.

E sobre música, cena independente, indie e afins? Esqueci das aspas. Muitas.

Aff...

Bem, melhorou. Tanto pra quem produz como pra quem gosta de ouvir (pra evitar a palavra "consome"). E também derrubou ainda mais a barreira entre esses dois pontos da cadeia (quem produz e quem ouve). Os algoritmos do Spotify e afins, por exemplo, são uma alternativa bem mais interessante do que textos de Facebook sobre as bandas dos amigos dos seus amigos ou blogueiros querendo pagar de descolados com suas escolhas diferentonas. É relativamente fácil descobrir as casas de show que abrangem determinado gênero musical em cada cidade e entrar em contato com produtores do mundo todo. Não que isso já não fosse possível em 2006, mas agora mais gente já se tocou de que, opa, isso dá pra fazer (piada geograficamente localizada, entendedores entenderão).

Parte do que é ruim permanece da mesma forma. Produtores que pensam apenas no dinheiro, jornalismo à base de amizade, músicos que tentam tirar os méritos do outro que começar a se destacar mais. Recalque, inveja, insegurança? Em cada cidade a história se repete, é comum encontrar aqueles que se acham injustiçados e reclamam dos demais, das panelas da cena (as "panelas", quase sempre mal-acompanhadas em um contexto fora do culinário).  E assim se fecham nos próprios nichos, às vezes reproduzindo uma das práticas mais questionáveis do rap, que é identificar oponentes de maior visibilidade e tentar chamar atenção para si ao atacá-los (sobre o assunto, vale a audição dessa e dessa outra música - gosto de ambas, apesar de discordar de pontos dos discursos). Não que sejam críticas vazias (apesar de serem só chorume na maior parte das vezes). Mas o que mais vejo são pessoas que sequer contribuem efetivamente pra que aconteça uma real melhora, apenas pensam em seus próprios egos trabalhos, não vão aos shows de outros artistas, não divulgam trabalhos alheios (em um sentido mais amplo, alguém fora da sua patota), não buscam uma troca maior. E trocas, intercâmbios, a gente sabe, são geralmente bons.

Voltando ao assunto original.

Este ano também marcou um desejo antigo, o Festival Meio Desligado. Ingressos esgotados e uma satisfação enorme por ter a Guizado, E A Terra Nunca Me Pareceu Tão Distante, Sara Não Tem Nome e Luneta Mágica na primeira edição. Os planos são uma segunda edição em breve, independente de patrocínios ou apoios. Por aqui, continuar com um texto semanal (pensei em definir uma atualização sempre na segunda-feira mas gosto da liberdade de publicar quando quiser) e algumas séries temáticas já em andamento. Além de continuar e ampliar as atividades da Quente, claro. Aproveito pra pedir desculpas a todos que enviam emails e não têm resposta, eu realmente leio muito pouco os emails do blog e por isso peço pra enviar via Twitter.

Pensei em citar Belchior agora, mas achei cafona (apesar de real). Quem sabe com o tempo a gente acerte mais, né?


31 de agosto de 2016

Registro da cena: Flávio Charchar

Às vezes estamos tão perto de algo que é difícil ter uma visão crítica, perceber a real dimensão daquilo. Geralmente o resultado disso é a superestimação de iniciativas próximas da gente, como aquela banda ruim de amig@s que você gosta principalmente devido ao valor sentimental. Mas o inverso também acontece e por vezes subestimamos aquilo com o qual estamos acostumados. Reparar no trabalho do fotógrafo Flávio Charchar me fez pensar nisso.

Talvez você não o conheça pessoalmente mas, se já se envolveu de alguma forma com a cena musical independente de BH, é bem provável que já tenha visto alguma(s) de suas fotos. São dele ensaios fotográficos de diversos artistas da cena local como Nobat, Todos os Caetanos do Mundo, Sentidor, Aline Calixto, Túlio Araújo e outros. É daquele raro (infelizmente) tipo de pessoa com presença constante nos mais diversos shows, de Napalm Death a Eumir Deodato, de balada de playboy a experimental fritação.

Antigo bancário, enveredou pelo audiovisual fazendo parte do Coletivo Pegada e atualmente é um dos principais fotógrafos do meio musical em BH. Conferir seu portifólio no Flickr (com mais de 30 mil fotos) é também acompanhar um recorte do que tem acontecido na cultura de BH.

Lote 42 na Benfeitoria Silva Tiago Iorc Nobat Luneta Mágica

12 de julho de 2016

Aquele texto no qual não consigo esconder a nostalgia em ver uma (quase) volta do Black Drawing Chalks


Zé Celso Martinez para atrás de nós e pergunta se estamos esperando um táxi. Chico César passa ao fundo com sua equipe. Aeroporto movimentado por causa da Virada Cultural de BH que começaria no dia seguinte. Os integrantes do Black Drawing Chalks comentam a morte do Baixo Astral enquanto penso em como seria uma selfie unindo a banda aos artistas ao nosso redor. Um encontro inusitado que remete à época em que o quarteto goiano era um dos grupos que mais circulava pelo underground brasileiro e nos encontrávamos de tempos em tempos em festivais como o Calango, em Cuiabá, e o Bananada, em Goiânia, e também em cidadezinhas do interior. Ao lado do Macaco Bong, é uma das bandas que definiu o rock alternativo brasileiro no fim da década passada. Até o Rogério Flausino se dizia fã deles.

Lá se vão quase 10 anos desde a primeira vez que os vi ao vivo (já comentei isso em outro momento). Pensar na história do Black Drawing me faz pensar no processo de desenvolvimento deste blog e da cena em que estamos envolvidos. Em 2009, foram uma das primeiras bandas a tocar em uma festa do Meio Desligado e enquanto estavam hospedados na casa dos meus pais eu acompanhava o Victor e o Douglas desenhando o que viria a ser o clipe de "My favorite way", hit da banda. Além de converter uma grande leva de ouvintes ao rock alternativo brasileiro (roqueiros ortodoxos que não acreditavam que pudesse existir boas bandas nacionais cantando em inglês), o BDC definiu uma estética visual marcante que contribuiu para catapultar a carreira (internacional) do estúdio Bicicleta Sem Freio, de seus integrantes Douglas (baterista) e Victor (vocalista e guitarrista, mas que atualmente atua como tatuador).

Em um semi-hiato desde meados de 2014, o Black Drawing Chalks voltou a BH dia 8 de julho, dentro da programação da mostra Música Quente, depois de dois anos. Período este em que seus conterrâneos do Boogarins alcançaram uma exposição internacional que provavelmente já ultrapassa os feitos do CSS, até então o grupo indie brasileiro de maior presença no exterior nos anos 2000. Não por acaso, o Boogarins tem como baterista Ynaiã Benthroldo (ex-Macaco Bong) e Renato Cunha, guitarrista do Black Drawing, como técnico de som. Retroalimentação e continuidade. Douglas, o baterista, não participou do show de BH por estar em Las Vegas em um trabalho do Bicicleta Sem Freio para o UFC. Em seu lugar, Rodrigo Miranda, do MQN - "tios" do BDC. "O Douglas começou a tocar por sua causa", alguém diz ao Miranda em determinado momento. Retroalimentação e continuidade.

Contextualizações à parte, o efeito ao vivo continua o mesmo de outrora. Energia crua e direta, aquela descarga barulhenta que aos poucos acaba com nossa audição e resulta em uma pulsão de morte que se transforma na vontade de destruição expressa fisicamente por moshs, cabeças inquietas e saltos do palco. Catorze músicas foram pouco. Focado no segundo disco da banda, Life is a big holiday for us (tocado na íntegra com exceção de uma das minhas favoritas, "Finding another road"), o repertório ainda teve "Cut myself in 2"e "Simmer down", do No dust stuck on you (terceiro e mais recente álbum), "Red love", presente apenas no disco ao vivo Live in Goiânia e somente uma do disco de estreia da banda (um crime!), a essencial "Big deal" (que dá nome ao álbum). A boa notícia é que, a julgar pelo crowd surfing dos integrantes durante o show e pela expressão em seus rostos mais tarde, tudo vai ficar bem e não deve demorar muito pra que mais pessoas voltem a ter essa experiência (e, torço, com mais músicas do primeiro disco inclusas). Help me.


Mais fotos na página da Quente no Facebook.

Arquivos do blog