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4 de setembro de 2019

Sobre listas de melhores e o vício em novidades

Neofilia é a atração que sentimos pelo novo, pelo desconhecido. É relacionado ao instinto e, muito tempo atrás, uma questão de sobrevivência, pois era essencial na busca por novos alimentos na natureza e locais que apresentassem melhores condições de sobrevivência. É algo que permeia toda a nossa vida e, segundo alguns autores, ligado também à atração por parceiros sexuais diferentes. E, claro, algo muito utilizado no sistema capitalista para estimular o consumo. Imprensa musical e indústria fonográfica cresceram criando hypes constantes e lucrando a partir disso. É preciso criar novidades para vender cada vez mais. Construir ídolos que estimulem a curiosidade dos consumidores.

Décadas atrás, época em que a distribuição musical era mais difícil, era normal visualizar o consumidor em dois extremos: o de receptor de novidades via canais de marketing da indústria e mídias (rádio, tv, jornalismo musical, anúncios) ou de consumidor de obras já estabelecidas e que se enquadravam nos esquemas de distribuição da época. Ao acessar vários sites/blogs em busca de listas e pesquisar seus acervos, é triste perceber como a grande maioria está pautada somente nos lançamentos. A novidade como um valor em si, mais importante do que a análise de determinada obra. Solte três parágrafos clichês e um vídeo e parta pra próxima publicação. Queremos novidade. O artista que não tem seu trabalho publicado nesses sites nos meses seguintes ao lançamento vê sua obra se afundar num fosso digital. Em termos de visibilidade nos veículos online, depois da virada do ano as chances de destaque de um lançamento do ano que termina são mínimas. Parte-se para a criação de mais novidades. E assim caminha a indústria, com incontáveis obras interessantes se perdendo nesse processo. Nesse sistema, às vezes os próprios artistas sentem-se desestimulados em continuar a divulgação de um trabalho "ultrapassado", mesmo que lançado há alguns meses, e entram no processo de criação de novas obras que atendam ao mercado sedento por lançamentos de vida curta.


A ironia é que nunca antes na história deste país (e do mundo) foi tão fácil ter acesso à música, seja ela contemporânea ou de outras épocas. Em 2016, percebi a grande dificuldade que tive em fazer minha lista de melhores discos do ano (coisa que odeio) simplesmente porque não sabia em que ano os discos que mais ouvi em 2015 foram lançados. Só aí percebi que não me pautava pelo novo (ui, diferentão), mas de acordo com o tipo de som que queria ouvir ou pelas indicações apresentadas diariamente pelos sistemas de recomendação do Spotify ou do Deezer (uma das principais formas de descobrir novos artistas, pra mim, é olhar os "artistas relacionados" ou pesquisar playlists de países, cidades ou subgêneros específicos). 

Esse é um dos problemas das listas de melhores do ano. Elas fazem um recorte limitado da criação dentro de determinado período e é essencial ter isso em mente. Uma lista de melhores do ano, por si só, diz mais sobre quem a criou do que sobre os períodos, objetos e contextos retratados. É baseada nas experiências e limitações de seu(s) autor(es). Uma lista é influenciada pela situação econômica, gênero e raça de quem a cria. No fim, as listas que pautam o cenário musical brasileiro são basicamente criações de homens brancos de classe média/alta do sudeste. Em um mundo de enorme volume de informações e novidades constantes, a hipervalorização das listas cria a sensação de que toda a produção não selecionada para essas listas está jogada ao marasmo. 

Qual o tempo de vida de um disco? Depois dos primeiros meses seguintes ao lançamento, uma última chance de espaço na mídia é figurar em uma lista de melhores do ano. Passado o reveillon, é quase como se a vida útil daquela obra estivesse próxima do fim (em termos de espaço de divulgação). Não só entre jornalistas, mas também entre produtores de shows e festivais. "Seu disco tem mais de um ano? Precisa de algo novo pra tocar". Isso faria sentido no caso de um artista que já tocou em determinado festival ou cidade. Para aqueles ainda inéditos nesses cenários, não há o menor sentido nessa exigência senão a simples reprodução da lógica comercial do mercado mainstream.

Um experimento interessante é a Lista das listas, iniciativa do Pena Schmidt junto a parceiros como o Elson, da Sinewave (selo e grupo no Facebook), e o Rafael, do site Hits Perdidos. São analisadas dezenas de listas e contabilizadas as indicações para se identificar os artistas mais recorrentes. Ao menos, capta parte do que foi a visão da "crítica especializada" (e um pouco além) sobre a música brasileira em certo ano (a ideia de zeitgeist cabe aqui). Um (enorme) ponto negativo, no entanto, é a credibilidade dessas listas. Em 2018, por exemplo, a Lista das listas foi construída a partir de 183 listas de melhores do ano, mas não há uma publicação identificando quais são elas. Apesar da importância em se ter uma amostra ampla, há o risco de se basear em listas amadoras de pouca relevância, criadas por pessoas sobre as quais não sabemos nada (o que ouviram, o que assistiram ao vivo naquele ano? Como confiar na opinião de alguém que ouvir apenas 20 discos e colocou todos eles na sua lista de melhores?). Outro ponto questionável: em 2017 identificaram as 44 listas com mais de 10 "acertos" entre os 51 artistas mais citados. É complicado. Na busca por mais acessos, os sites foram crescendo cada vez mais suas listas de melhores. Se antes era normal termos 10 ou 20 melhores, agora não é raro listas de 100 nomes. Isso acontece porque os autores sabem que todos os artistas indicados divulgarão suas presenças nessas listas e, com isso, seus sites terão mais audiência. É bem pouco provável que todas essas pessoas tenham escutado com atenção mais de 100 álbuns brasileiros lançados ao longo do ano corrente em que a lista é feita. O que sinto acontecer, de fato, é que listas de veículos mais relevantes pautam as demais listas. Dessa forma, os 10 ou 20 primeiros colocados seriam as efetivas escolhas, os discos que mais tocaram o autor da lista, enquanto nas demais colocações estariam os artistas cuja principal função é completar a lista. Nomes "obrigatórios" que às vezes mal foram ouvidos, mas estão presentes em outras listas e são reproduzidos. Por isso considero importante conhecer quem faz cada lista, ler o que escreveu sobre cada um daqueles álbuns. De outra forma, é difícil ter credibilidade ou confiar que a pessoa sequer realmente ouviu  todos aqueles discos. Mas, deixo claro, digo a partir somente da minha experiência pessoal.

Resumindo, o que quero ressaltar é a importância da visão crítica em relação às listas, considerando os elementos que indiquei, e de se incluir outros critérios de influência ao definir programações de shows e festivais.

8 de junho de 2017

Sobre ser dono de uma casa de shows autorais


Leo Moraes é arquiteto e músico, vocalista e guitarrista da Valsa Binária, criador do estúdio Pato Multimídia (onde alugamos o primeiro escritório da Quente, vale dizer) e um dos três sócios da A Autêntica, principal palco de médio porte para shows autorais em BH desde 2015.

Notório contador de causos e cronista, Leo expandiu esse talento ao Facebook e algumas de suas publicações mais populares são destinadas a desmistificar o cotidiano da manutenção de uma casa de show. Pedi sua autorização pra publicar aqui esses relatos, que reuni abaixo. São depoimentos diretos nos quais ele abre os custos da casa, divide dúvidas dos sócios, propões alternativas e se mostra aberto ao diálogo (qualidade que se estende aos demais sócios casa).


[permita o intervalo pra um breve jabá: nos próximos dias a Quente faz quatro eventos na Autêntica: Jaloo e Disputa Nervosa no dia 9 de junho; Kiko Dinucci lança o ótimo Cortes Curtos no dia 14, véspera de feriado; Gui Hargreaves (prestes a lançar disco) e o baiano Giovani Cidreira (lançamento de seu primeiro disco em BH) no dia 16 de junho; e dia 14 de julho faremos o lançamento do Boca, novo álbum do Curumin]



CUSTOS FIXOS
(29 de março de 2017)

Bom pessoal, vamos lá mais uma vez. A Autêntica tem um custo mensal fixo de aproximadamente 42 mil. Nesse valor estão incluídos aluguel, água, luz, telefone, internet, e folha salarial. Isso significa que abertos ou fechados, com ou sem evento, aconteça o que acontecer, a gente paga 1400 Reais por dia(42 mil dividido por 30 dias). Vamos chamar esse valor de F.

Além de F, temos um outro custo que pagamos pelo fato de fazermos eventos. Inclui aluguel de som, cachê de técnico, segurança, frilas, e ecad. Esse valor por evento (chamemos de E) é de aproximadamente 1500 Reais.

Então, somando F + E chegamos ao valor de 2900 Reais. É isso que custa um dia da Autêntica.

Quando a gente negocia um evento, a gente considera apenas o custo E, pois entendemos que o F tem que ser pago pela venda de bar. Então, na nossa visão, E tem que ser pago pela bilheteria, pois são custos que nós não teríamos se abríssemos só como bar, percebem?

Mas tem um agravante: Quando fazemos eventos com shows, o consumo do bar cai a menos da metade. Então a gente dobra nosso custo (de 1400 pra 2900) e reduz pela metade a nossa venda. Sério, qualquer consultor de negócios ia dizer pra gente parar com esse troço de show.

Agora, imaginem um evento com menos de 100 pessoas. A gente perde duas vezes, em E e em F. É melhor nem abrir.

O que eu gostaria que as pessoas entendessem, é que o escalonamento de bilheteria não é pra gente encher o rabo de dinheiro, nem pra explorar músico, mas pra gente minimizar um pouco o prejú em caso de fracasso do evento. Lembrem-se que a gente basicamente tem 8 dias no mês (as sextas e sábados) pra pagarmos essa conta. Um dia que não vira é um desastre, o buraco demora a ser coberto.

E aqui não estão gastos com produtos, impostos, etc. Não é mole não gente, um pouquinho de compreensão cai bem.


PAGAMENTO DOS ARTISTAS
(21 de novembro de 2016)

Pessoal, mais uma vez venho dividir com vocês umas angústias d' A Autêntica, sempre no esquema papo reto, sem vaselina, como a gente costuma fazer. Quem sabe alguém nos dá uma luz? O desafio agora é conseguir remunerar melhor as bandas quando o evento não vira. Eu já falei disso em posts anteriores, mas vou explicar de novo pra vocês entenderem o problema.

A gente vem trabalhando com um esquema de escalonamento de bilheteria, em que a porcentagem da casa vai diminuindo a medida que o público pagante aumenta. Chegamos nessa forma de trabalhar depois de quebrar muito a cabeça, sempre no intuito de pagar o máximo possível à banda, sem ficar no prejuízo em caso de fracasso do evento. Vou explicar com números.

Cada noite custa pra gente aproximadamente 2.500 Reais. Desse valor, 1.200 são custos diretamente ligados ao show (aluguel de som, técnico, ecad, etc). Ou seja, se a gente quiser abrir sem música, botecão mesmo, o custo cai pra 1.300. Então, pra gente, uma noite começa a ficar boa financeiramente quando a porcentagem da casa na bilheteria chega nesse número mágico de 1.200 Reais.

Então vamos lá, tendo em mente que a capacidade da casa é de 400 pagantes, considerando nossa entrada padrão de 20 Reais, imaginemos os seguintes cenários:

Com 300 pagantes, 6 mil de renda bruta, a casa fica com 40%, ou 2.400 Reais, e a(s) banda(s) levam 60%, ou 4.600 Reais. Gente, vamos combinar que está lindo pra todo mundo, né?

Já num evento com 200 pagantes, que segundo nosso escalonamento está na faixa do 50-50, o total da bilheteria é 4 mil Reais, dos quais 2 mil ficam com a gente. Isso significa meia lotação, e já fica legal pra ambas as partes. A gente paga nosso custo de 1.200, e ainda sobra um lucrinho, e certamente o bar vai vender o suficiente pra cobrir os custos e também dar um lucrinho. Se for uma banda só, leva 2 mil no bolso, ou mil cada uma se forem duas. Não é nada mal, na atual conjuntura.

O problema é quando fica muito abaixo disso. Vamos pegar o exemplo de um evento com 70 pagantes, ou 1.400 Reais de bilheteria bruta. A casa fica com 70%, ou 980 Reais, e a banda leva 420 Reais. 210 cada, se forem duas. A gente tem um prejuzinho, e a banda leva muito pouco. E dá um aperto no coração quando vamos fazer o acerto com uma banda que fez um show maravilhoso e depositamos 210 Reais. O que dá dó nesse cenário, é que um evento com 70 pagantes na Autêntica é lindo! A pista fica bacana, não é noite caída não! Mas não se paga como deveria.

A constatação que a gente chegou é que pra ser bom pra todo mundo tem que ter pelo menos 150 pagantes na casa. Estamos buscando formas de poder aumentar a porcentagem destinada às bandas em noites desse tipo, pra ver se a gente consegue fazer esse tipo de evento continuar sendo viável. Alguns dos melhores shows que vimos na casa tiveram menos que 100 pagantes.

Uma idéia é fazer os shows mais cedo um pouco, e transformar a casa numa balada depois de 00:30. Com DJ's legais, e tal. Pegar um público que não está interessado no show, que chegaria depois. Aí a banda teria uma porcentagem bem maior dos ingressos vendidos até meia-noite, e a partir desse horário a bilheteria seria toda da casa. Tipo dividindo a noite em duas mesmo. Lembro que o Claudao Pilha já fez algo parecido n'a A Obra Bar Dançante, como funcionou isso, Claudão? E Anderson Foca, Letícia Rezende, Ricardo Rodrigues, Mancha, Andre Araujo, como vocês lidam com isso? Olha eu aqui, pedindo ajuda aos universitários. kkkkkk

E um comentário no mesmo post:
A gente vem experimentando com esse formato da banda garantir um mínimo pra casa, e não o contrário. Tipo, os primeiros 1200,00 serem para a casa, e a partir daí a banda ficaria com 80% da bilheteria, por exemplo. A galera que confia mais no próprio taco gosta, pois eles têm a possibilidade de ganhar mais, pois sabem que o evento vai virar. Mas tem gente que fica ofendida com esse tipo de proposta. Pra você ter uma idéia, tem gente que questiona por que que abaixo de 40 pagantes a bilheteria fica toda pra casa. Tipo, se você está com medo de não ter 40 pessoas no evento, talvez esse evento não tenha que ser em uma casa pra 400 pessoas. Sério, não dar nem 10% da lotação é duro. E a gente vê que muita banda tem aquela percepção de achar que tem que ser contratada pra tocar, e não encarar aquilo como um empreendimento em parceria com a casa, saca?


MODELOS DE FUNCIONAMENTO
(18 de agosto de 2016)

No embalo do post anterior, e motivado pela provocação do amigo Thales, vou expôr mais um pouquinho do que a gente vem percebendo nessa aventura louca que é A Autêntica. Nesse ramo de casas shows, existem dois modelos básicos de negócios.

1-A balada;
2-O espaço de eventos;

As fontes de arrecadação são diferentes entre os dois modelos, mas principalmente a relação entre o estabelecimento e o artista é muito diferente.

Na "balada" as fontes de arrecadação são a bilheteria e o consumo. O objetivo aqui ter um grande número de pessoas que paguem pra entrar, e que consumam no bar. A casa é a produtora, e o músico é visto como um prestador de serviços, que vai contribuir para atrair essas pessoas ao estabelecimento. O sonho é que a casa conquiste um público que não dependa do artista, que frequente a casa independente da atração musical. Se eu sou o dono, e sei que todo sábado eu terei 400 pessoas pagando 30 reais, não importa quem esteja no palco, eu posso estabelecer um cachê fixo de, digamos 3000 reais, que ainda sobram 9000 reais de bilheteria limpos. E se as pessoas não estão indo pela atração musical, estão indo por outro motivo, que costuma ser paquerar, dançar, beber, comer, etc. Dificilmente o público vai ter a atenção desejada por artistas autorais, uma vez que a música ali é entretenimento puro. Mas o risco é inteiro da casa, caso o público não apareça. O Circuito do Rock opera nesse modelo.

No caso do "espaço de eventos", a fonte de arrecadação é o aluguel do espaço. O cara tem um imóvel, que pode ou não contar com estrutura de luz, som, bar, etc, e ele aluga o espaço para produtores que querem trazer artistas, artistas que querem lançar discos, etc. O artista é o contratante, e não o prestador de serviços. Uma vez alugada, o risco da casa é zero. Se lotar, ou se não for ninguém, não faz a menor diferença. É o do produtor/artista que está na reta, cabe a ele promover e divulgar o evento. Em caso de sucesso, a bilheteria é toda dele; em caso de fracasso, o preju também. Teatros costumam funcionar assim, bem como casas como o Music Hall e Chevrolet Hall.

A grande dificuldade de locais como A Autêntica, o Matriz, como era o saudoso Lapa Multshow, é que esses operam em uma área cinza, que é um híbrido entre esses dois modelos. E pra complicar, como sempre tentamos ser o mais flexíveis o possível nas negociações, essa relação entre a casa e o produtor/artista varia de evento pra evento. A maneira como nós enxergamos a maioria dos casos, é uma relação de sociedade entre a casa e o artista. Ambos os lados assumem os riscos e as responsabilidades pelo sucesso do evento.

Esquematizando:
Na balada, o artista tem público e cachê garantidos e risco zero, mas como não é ele quem traz o público, não pode exigir bilheteria.

No espaço de eventos, o artista paga o aluguel da estrutura e assume o risco total, mas se der certo leva a bolada toda.

No modelo híbrido, a casa entra com a estrutura, como se estivesse pagando o aluguel, e o artista com o show. O risco é dividido. Portanto é justo que o lucro seja dividido também. A bilheteria progressiva é uma boa forma de fazer essa divisão. Como o risco direto em dinheiro é maior por parte da casa(*), é natural que em caso de prejuízo uma parte maior da bilheteria vá pra amortizar isso; no caso de lucro, como a venda do bar não é dividida com o artista, é justo que uma porcentagem maior vá para ele. Basicamente, quando dá certo é bom pra todo mundo, o difícil é dividir o prejú.

Só esse mês tivemos a felicidade de fazer repasses de bilheteria superiores a 5 mil reais pra duas bandas locais que fizeram eventos aqui. Se somar nossa porcentagem da bilheteria com o lucro do bar, é mais ou menos o mesmo valor que entrou pra gente nos eventos. Justo. Todo mundo ficou feliz. O chato do discurso de "a bilheteria tem que ser toda do artista" é que na prática isso significa que, se der ruim a casa assume o rombo sozinha e, se der lucro o artista ganha tudo. É querer o bônus dos dois modelos, sem o ônus de nenhum.

Já tiveram vezes que a gente alugou a casa, o evento virou bonito, e ficamos pensando "nó, se tivéssemos feito porcentagem de bilheteria teríamos ganhado muito mais". Mas entendemos que é o preço de abrir mão do risco. O fixo do aluguel nos deu tranquilidade pra planejar o pagamento de compromissos. E o produtor que assumiu o risco alugando a casa se deu bem, merecidamente. Se tivesse dado errado estaríamos tranquilos e o abacaxi estaria com ele.

Aí, Thales, mais uma vez a perspectiva do empresário :-D. Mas repare que não estou culpando o artista por nada, apenas explicando o porquê da porcentagem de bilheteria.
_______________________________

(*) Uma vez eu falei isso pra um produtor, e ele argumentou que a banda tinha investido muito dinheiro na gravação do disco, e que tinha custos com ensaios, manutenção de instrumentos, etc. Pessoalmente acho que isso não deve entrar na conta de um único evento. Seria o mesmo se falássemos do quanto investimos na obra, fazendo a reforma, comprando equipamentos, dando manutenção nos banheiros, etc.


PREÇO DA CERVEJA
(17 de agosto de 2016)

"Leo, a cerveja n' A Autêntica está muito cara."

Não, não está. Vamos lá, desenhando. A long neck lá está custando 8 Reais, mas se você comprar o combo de 5 por 35, cada uma sai a 7 Reais.

Lembram do meu outro post, em que eu explico a história do ticket médio? Recordando, o ticket médio é o quanto o bar vendeu, dividido pelo público presente. O nosso gira em torno de R$15,00. Então, a lógica é a seguinte, imagine a pessoa que chega lá com a intenção de beber múltiplos de 5 cervejas. Ela está disposta a gastar mais do dobro do nosso ticket médio, então podemos reduzir nossa margem. Dá pra ganhar na quantidade. Agora, se você é nosso cliente médio, e vai lá mais pra curtir o show, ficar umas quatro horas na casa, e tomar duas cervejas, a sua conta vai ser de 16 Reais. Você vai pagar 1 Real "a mais" em cada uma das suas duas cervas. Vamos combinar que 2 Reais a mais ou a menos numa noitada é quase nada, né? Mas pra gente é muito. Numa noite com 100 pessoas tomando duas cervejas, esse Realzinho a mais significa 200 Reais a mais no nosso caixa, o que paga a diária de dois frilas. Vocês não fazem idéia da diferença que isso faz.

"Mas o ambulante que fica lá na porta vende o latão por 6 Reais, véi."

A gente compra a long neck por 3,69 cada. Vendendo a 7,50 (média) temos um "lucro" de 3,81. O cara compra o latão por 3,19. Vendendo por 6 ele tem um lucro de 2,81. A diferença é que o dele é lucro, o nosso é "lucro", entre aspas. Ele pega esses 2,81, enfia no bolso e é isso. No máaaximo ele compra um saco de gelo, põe 20 conto de gasolina, e esse é o custo operacional dele. Dos nossos 3,81 a gente tem que pagar aluguel, salários, água, luz, impostos, taxas, encargos, etc. A gente basicamente abre a casa devendo 2 mil reais todo dia. Faz a conta aí pra ver quantas cervejas temos que vender pra chegar no zero a zero. Esse real que você "economiza" comprando do ambulante, e não da casa que está te proporcionando o show que você está assistindo, faz muita falta pra gente.

"É, mas eu sei que nos destilados e na comida a margem de lucro é muito mais alta."

Verdade. A gente até tentou estimular a venda desses produtos criando um cardápio incrível de drinks. É legal, mas sabe o que descobrimos? Nosso público é cervejeiro. Nós somos cervejeiros. Cerveja representa 70% das nossas vendas. O segundo lugar é água (!!!) com quase 15%. Então, mesmo a margem sendo boa, a quantidade de vendas não é suficiente pra que isso tenha um impacto significativo na receita.

Então é isso, galera. Comprar cerveja de ambulante na porta de show independente é paia demais, e 8 Reais numa long neck, se você vai tomar só uma ou duas, é honestão.


MERCADO MUSICAL
(19 de maio de 2016)

Textão chatão sobre mercado musical. Mas pra quem é da área vale a pena :-)

Outro dia eu fiz um post dizendo que o "você vai divulgar seu trabalho" está para o músico assim como o "você vai ganhar no bar" está pra casa de shows. Várias pessoas vieram conversar comigo me questionando sobre isso, e percebi que de fato existe uma visão equivocada sobre a realidade financeira do nosso negócio. Então resolvi escrever um relato mais detalhado sobre alguns pontos.

Existe uma percepção generalizada na classe musical de que o artista é sempre o elo mais fraco da cadeia, e que todo mundo ganha em cima do seu trabalho, explorando sua vontade de produzir. É uma frustração compreensível com o atual estado do cenário musical, decorrente da desvalorização do produto musical, que se seguiu à revolução digital. Napster, fim das gravadoras, blá blá blá. Aquele assunto que todo mundo já cansou de discutir. Sou artista, também estou desse lado, sei muito bem como é.

Hoje, com mais de um ano de experiência de Autêntica, eu posso dizer que tenho uma visão bem mais ampla do que significa investir e trabalhar com música, não apenas com a visão do artista. E com a autoridade dos médicos das piadas afirmo: "Tenho boas e más notícias."

Primeiro as más. Ninguém está te explorando e ganhando dinheiro em cima do seu talento e trabalho por um simples motivo: ninguém está ganhando dinheiro com música! Uma coisa que ouvimos com frequência é que a bilheteria tem que ser toda do artista, já que a casa vai ganhar no bar. Vou compartilhar com vocês alguns dados que detectamos aqui na Autêntica em 2015.

Tem um conceito usado na administração de bares e restaurantes que é o "ticket médio". O ticket médio de um evento nada mais é do que o total arrecadado pelo bar dividido pelo número de pessoas presentes. Ou seja, quanto cada pessoa gastou, em média, na noite. Não inclui a bilheteria.

Pra vocês terem uma idéia, o ticket médio da Autêntica em noites de shows foi de quase R$15,00. Isso é ridiculamente baixo. Quando foi a última vez que você sentou numa mesa de boteco e a conta veio menos de quinze reais? Agora outro dado interessante. Em noites de festas, sem show, com DJ's, o ticket médio foi de R$48,00. (!!!)

Existem alguns fatores que explicam essa diferença tão grande, mas acredito que o principal seja o fato de que a pessoa que vai a uma festa, vai com a intenção de curtir a balada, beber, paquerar, dançar, etc, enquanto a pessoa que vai a um show vai para assistir a um espetáculo. Não é incomum termos um número grande de cartelas em branco em noites de show. Gente que veio e não comprou nem uma coca-cola. Por um lado, isso demonstra um interesse do público desses eventos no que realmente importa, que é o show, mas para a casa o resultado de vendas do bar é desastroso. Mas uma coisa é certa:

O bar vende MUITO mais quando não tem música ao vivo.

Sem contar que para o show nós temos que pagar aluguel de som, de backline, e cachê do técnico de som, custos que não temos quando é festa. E na festa o ingresso é mais caro, ninguém pede meia, e quase não tem cortesias. Basicamente a opção por trabalhar com cultura faz com que a gente se ferre por todos os lados.

É por isso que precisamos do dinheiro da bilheteria. E a idéia da divisão progressiva (quanto maior o público, maior a porcentagem que vai para o artista) foi a forma mais justa que encontramos pra fazer a divisão. Nossos custos são muito altos, e a margem é tão apertada que basta um fim de semana fraco para jogar nosso mês no vermelho. Então, quando fizer um show e receber 30% da bilheteria, não pense "estou sendo explorado, a casa vai ficar com 70%". Pense "puxa, a noite foi meio fraca, consegui salvar uma graninha pra ajudar nos custos, e a casa minimizou o prejuízo e vai poder continuar existindo. E na próxima, quem sabe, a casa enche e eu é que ganho 70%."

A boa notícia é que a gente já vem observando uma sensível melhora, as noites fracas estão cada vez mais raras, e já estamos entendendo bem melhor a dinâmica do negócio. E vamos continuar firmes na proposta da música contemporânea, pois é pra isso que abrimos, é o que amamos, e é o que sabemos fazer. Só que às vezes dá uma certa aflição com a falta de empatia por parte de alguns, que parecem nos ver como "a indústria", como se estivéssemos rachando de ganhar de dinheiro e amarrando migalhas para os artistas. Mas acho que é falta de entendimento mesmo, ninguém é obrigado a conhecer os números de uma casa noturna, é normal tirar conclusões sem ter uma compreensão de todos os fatores. Acredito que com transparência e boa vontade a gente consegue ir aparando essas arestas.

Por favor entendam que não é mimimi, é uma tentativa de abrir um pouco pra vocês a nossa realidade, pra que fique claro que não existe lado de cá e lado de lá, é tudo um lado só. O que a gente quer é ampliar o público interessado em música nova, proporcionar experiências legais para os músicos, e contribuir para o fortalecimento desse mercado. Ou seja: tamo juntos!

31 de agosto de 2016

Registro da cena: Flávio Charchar

Às vezes estamos tão perto de algo que é difícil ter uma visão crítica, perceber a real dimensão daquilo. Geralmente o resultado disso é a superestimação de iniciativas próximas da gente, como aquela banda ruim de amig@s que você gosta principalmente devido ao valor sentimental. Mas o inverso também acontece e por vezes subestimamos aquilo com o qual estamos acostumados. Reparar no trabalho do fotógrafo Flávio Charchar me fez pensar nisso.

Talvez você não o conheça pessoalmente mas, se já se envolveu de alguma forma com a cena musical independente de BH, é bem provável que já tenha visto alguma(s) de suas fotos. São dele ensaios fotográficos de diversos artistas da cena local como Nobat, Todos os Caetanos do Mundo, Sentidor, Aline Calixto, Túlio Araújo e outros. É daquele raro (infelizmente) tipo de pessoa com presença constante nos mais diversos shows, de Napalm Death a Eumir Deodato, de balada de playboy a experimental fritação.

Antigo bancário, enveredou pelo audiovisual fazendo parte do Coletivo Pegada e atualmente é um dos principais fotógrafos do meio musical em BH. Conferir seu portifólio no Flickr (com mais de 30 mil fotos) é também acompanhar um recorte do que tem acontecido na cultura de BH.

Lote 42 na Benfeitoria Silva Tiago Iorc Nobat Luneta Mágica

29 de fevereiro de 2016

Baleia, Câmera e outros vídeos ao vivo no Sonâncias 2015



Realizado entre 27 e 30 de outubro de 2015, o Sonâncias foi uma mistura de festival, seminário e rodada de negócios realizado pela Quente em BH. Todos os quatro debates realizados estão disponíveis na íntegra no YouTube e uma música de cada banda também foi registrada. Alguns desses vídeos você assiste abaixo (do Baleia, Câmera, Pequeno Céu, Reallejo e Douglas Din).



DEBATES 

Música e política:
– Pena Schmidt (SP): Diretor do Centro Cultural São Paulo; também foi superintendente do Auditório Ibirapuera/SP, presidente da Associação Brasileira de Música Independente e diretor da gravadora Warner.
– Murilo Pereira (BH): Chefe do Departamento de Fomento e Incentivo à Cultura da Fundação Municipal de Cultura de Belo Horizonte.
– Felipe Amado (BH): Superintendente de Fomento e Incentivo à Cultura da Secretaria de Cultura de Minas Gerais.
– Carlos Paiva (BSB): Secretário de Fomento e Incentivo à Cultura do Ministério da Cultura.
– Leonardo Beltrão (BH): Coordenador de projetos e programação do Sesc Palladium. Foi gerente de projetos do museu Inhotim e diretor de projetos do Instituto Cultural Sérgio Magnani.
– Mediador _ Gabriel Murilo (BH): Mestre em Música e Cultura pela UFMG e sócio da Embaixada Cultural. Foi um dos coordenadores do programa Música Minas e baixista do Macaco Bong.
  Música e palcos:
– Mancha (SP): Proprietário do espaço Casa do Mancha, principal palco da cena indie paulistana.
– Gutie (PE): Jornalista e produtor cultural, diretor do festival pernambucano Rec-Beat, realizado durante o carnaval do Recife.
– Bruno Golgher (BH): Idealizador e curador do Savassi Jazz Festival e proprietário do Café com Letras.
– Victor Diniz (BH): Sócio da produtora Híbrido, responsável pelo festival S.E.N.S.A.C.I.O.N.A.L., dentre outros. Também é sócio-proprietário do Baixo Centro Cultural.
– Mediador _ Leo Moraes: Músico e sócio-proprietário da casa de shows A Autêntica e do Estúdio Pato Multimídia.
  Música e mídia:
– Alexandre Matias (SP): Editor do Trabalho Sujo. Foi editor do caderno Link do jornal O Estado de S. Paulo, diretor de redação da revista Galileu, e editor-chefe do projeto Trama Universitário.
– Fabiana Batistela (SP): Fundadora da Inker Agência Cultural e diretora geral da Semana Internacional da Música de São Paulo. Jornalista, foi repórter da revista Bizz.
– Guilherme Guedes (RJ): Jornalista, apresentador do Multishow, Canal Bis e parte da equipe do site Tenho Mais Discos que Amigos.
– Paulo Proença (SP/BH): Jornalista, cofundador e o gestor de conteúdo do site de entrevistas Motif. Também é editor de conteúdo web na Rádio Inconfidência.
– Mediador _ Daniel Barbosa (BH): Jornalista do caderno de cultura do jornal O Tempo. Curador de projetos como Natura Musical, Música Minas, Vozes do Morro e Música Independente.
  Música e mercado:
– Coy Freitas (SP): Diretor artístico da plataforma Skol Music, que reúne artistas como Karol Conká e Boogarins.
– Fernanda Bas (RJ): Coordenadora de marketing digital na Som Livre / Slap.
– Fernando Dotta (SP): músico e sócio do selo Balaclava Records (SP)
– Yannick Falisse (Bélgica) e Leonardo Marques (BH): Músicos e proprietários do selo belga/belorizontino La Femme Qui Roule.
– Marcos Boffa (BH/SP): Curador dos festivais Planeta Terra e Sónar SP, diretor artístico da casa de shows Audio Club. Um dos criadores da Motor Music e do festival Eletronika.
– Mediador _ Rômulo Avelar: Administrador e gestor cultural. Consultor de grupos e entidades como o Grupo Galpão e a Casa do Beco. Autor do livro “O Avesso da Cena: Notas sobre Produção e Gestão Cultural”.

28 de novembro de 2015

Os novos festivais de BH que se destacaram em 2015

Em um ano em que a recessão econômica foi um dos assuntos mais comentados, ao menos sete novos festivais dedicados à música alternativa surgiram em BH. Enquanto alguns tradicionais eventos não tiveram edições realizadas em BH neste ano (caso do Natura Musical e do Conexão), outros tiveram edições reduzidas ou pouco inspiradas, o que abriu espaço para novas iniciativas se destacarem.

Abaixo, uma breve lista dos novos festivais belorizontinos que chamaram mais atenção em 2015.

festival Furor

Furor
O Furor, na verdade, começou em dezembro de 2014 e se estendeu até o fim de janeiro de 2015 promovendo uma série de shows às terças e sábados no Mercado Distrital do Cruzeiro, um espaço até então distante da música independente. Apesar do nome um pouco bobo (Furor é acrônimo de "Férias Urbanas Repletas de Ótimos Rolês"), o evento ocupou um período do ano geralmente carente de shows e incluiu alguns bons nomes na programação, como O Terno, Thiago Pethit, Pequeno Céu e Renato Godá. Outro diferencial foi a venda de ingressos no esquema "pague o quanto quiser" (em cotas limitadas) e a opção de comprar o ingresso junto de produtos de bandas locais.


festival Viva

Viva
Além de uma boa programação com algumas das principais bandas indie de BH (e com produção artística da Quente) se apresentando em diferentes casas de shows, o Viva teve como grande diferencial utilizar o Parque da Serra Curral para a realização do seu último dia de programação. Desconhecido da maior parte do público, o parque contribuiu com o clima descontraído de piquenique e ainda permitiu que o público tivesse uma das melhores vistas da cidade, de seu mirante. Na programação, Boogarins, Dibigode, Câmera, Young Lights, Pequeno Céu, The Junkie Dogs e Valv, além de vários DJs.


Sonâncias

Sonâncias
Esse entra na lista de forma especial, já que sou um dos idealizadores e produtores, através da Quente. O Sonâncias é uma mistura de festival, seminário e rodada de negócios. Fizemos quatro noites de debates e em todas elas estavam presentes cerca de 70 pessoas, algo que até então eu nunca tinha visto em ações do tipo. Buscamos experimentar formatos diferentes para as conversas de forma a integrar mais os participantes e (parece que) funcionou bem. Além de reunir nomes representativos do mercado musical nacional, rolaram showcases de novas bandas autorais de BH (reallejo, Douglas Din, Young Lights e Mordomo) e quatro shows principais encerrando cada noite (Baleia, Câmera, Pequeno Céu e Banda Gentileza).

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Outros festivais iniciantes que merecem ser citados são o La Femme Qui Roule (também produção da Quente, vale dizer), o Chacoalha (que vem na onda do Viva de ocupar diferentes casas), Musa e
Shake Shake (que na verdade é mais uma festa itinerante, mas que surgiu esse ano vale ser comentada por aqui).

16 de janeiro de 2015

Linha do tempo da música

Não é novidade, mas outro dia me deparei com esse Music Timeline, um gráfico temporal interativo feito pelo Google que registra as variações de popularidade de diversos gêneros musicais e suas interligações e achei bastante interessante.


Clique em um gênero (rock, por exemplo) para ver a época de "surgimento" e as curvas de popularidade de seus sub-gêneros. Indo mais à fundo, selecionado um determinado sub-gênero, ele apresenta alguns dos principais representantes daquele estilo.

Um bom passatempo que também serve para conhecer novos artistas de estilos sobre os quais você tenha pouco conhecimento.

16 de dezembro de 2014

Micsur, o encontro da economia criativa da América do Sul

Fechando o assunto "feiras e encontros do mercado musical" em 2014 preciso comentar sobre a Micsur - Mercado de Industrias Culturales del Sur, que teve sua primeira edição realizada entre 15 e 18 de maio em Mar del Plata, na Argentina. Com o intuito de aproximar agentes da economia criativa dos países sul-americanos e estimular a circulação da produção cultural da região por outros continentes, a Micsur teve uma estreia bem-sucedida.

Existe uma legítima vontade de integração entre artistas e produtores do continente e esse movimento de aproximação foi extremamente benéfico para a Micsur. Apesar de seu protagonismo econômico, o Brasil permanece distante da produção contemporânea de seus países vizinhos e ocasiões proporcionadas por eventos como a Micsur são cruciais para mudar esse cenário. Outro ponto positivo é que por se tratar de países com realidades econômicas próximas, os agentes envolvidos no mercado cultural da região entendem as peculiaridades de se trabalhar com recursos escassos, o que torna as negociações mais fáceis do que se comparado com as realizadas com empresas europeias ou norte-americanas, por exemplo.



Foram promovidas muitas rodadas de negócios e debates envolvendo não apenas profissionais da música, mas também de áreas como design, artesanato, audiovisual, teatro, games e literatura. Showcases apresentaram artistas dos países participantes do evento (a saber: Argentina, Bolívia, Brasil, Chile, Colômbia, Equador, Paraguai, Peru, Uruguai e Venezuela) e festas temáticas permitiram maior aproximação com a cultura desses países (e entre os participantes da feira). Os representantes da música brasileira presentes na programação oficial estavam direcionados para a world music (Jaraguá Mulungu, Frutos do Pará e Dois por Quatro), com exceção do folk pop da cantora Tiê, o que se mostrou um erro. Diferentemente de feiras como a Womex, onde as manifestações regionais são o ponto principal, a Micsur se mostrou aberta à produção contemporânea, até mesmo pela pluralidade de seus participantes.

Além das negociações, feiras desse tipo também são ótimas oportunidades para se conhecer culturas e locais diferentes e com Mar del Plata não foi diferente. Famoso destino turístico durante o verão, por causa de suas praias, a cidade também se destaca pelos portos e cassinos. Durante a Micsur, as melhores festas aconteciam no Club de Pesca. Com um luxo decadente que deixa à mostra um passado requintado e localizado à beira-mar, o clube se parece com um grande barco ancorado ao fim de um píer, com uma vista incrível.




Prevista para ser bienal, as próximas edições da Micsur acontecerão na Colômbia em 2016 e no Brasil em 2018.

8 de dezembro de 2014

Alguns comentários sobre a SIM SP

Comparada com sua edição anterior, em 2013, a SIM São Paulo deste ano teve como ponto negativo não realizar shows no mesmo espaço em que aconteceram a maioria dos debates, a Praça das Artes. A programação extensa e fragmentada por vários locais resultou em shows e discussões com baixa presença de público, com algumas exceções, mesmo com convidados relevantes em suas mesas. O que leva à questão: esse formato de evento realmente funciona? Quem atua no mercado musical há mais anos se depara com questões repetidas e a maratona é cansativa.  Talvez um formato mais produtivo unisse maior quantidade de showcases (shows mais curtos, com a intenção de apresentar o trabalho de determinado artista para possíveis contratantes) e speed meetings (breves reuniões com esses mesmos contratantes), tudo em um único espaço, durante o dia, e a programação noturna contasse com um único evento por noite, trocando-se as casas de show ao longo da semana.

Dos debates em que estive presente, os mais movimentados e interessantes foram o que reuniu Thiago Pethit, Karina Buhr, China, Maurício Pereira, Tim Bernardes e Irina Bertolucci para discutir o atual mercado da música a partir da visão do artista e o debate sobre o papel das assessorias de imprensa atualmente. Ambas as discussões mais próximas do dia a dia dos próprios artistas e, talvez por isso, resultando em conversas mais calorosas, ainda que sem grandes novidades ("o mercado é difícil", "querem que eu toque de graça", "é preciso investir em merchandising" e afins). Para os jovens artistas e produtores, talvez um choque de realidade, imagino.

A francesa Zaza durante show no Centro Cultural Rio Verde

Sobre os shows, uma das coisas interessantes foi apresentar diferentes espaços culturais para quem não é de São Paulo. Centro Cultural Rio Verde, Galeria Olido, Espaço Verona, Jongo Reverendo (no espaço do antigo Studio SP da Vila Madalena), Puxadinho da Praça, Studio Emme e Beco 203 receberam uma leva diversificada de artistas que incluiu o elogiado e simpático rapper francês Féfé, o indie tropical do Holger, a nova MPB da Filarmônica de Pasárgada e alguns dos artistas da nova geração que mais se destacaram nos últimos anos: Tulipa Ruiz, Emicida, Marcelo Jeneci e Céu.

2 de dezembro de 2014

Semana Internacional de Música de São Paulo

A Semana Internacional de Música de São Paulo realiza sua segunda edição entre 4 e 7 de dezembro e ocupa nove espaços culturais da capital paulista com mais de 30 shows e dezenas de debates, workshops e rodadas de negócios. Apesar de ser um evento recente, já se estabelece como um dos principais do mercado musical brasileiro devido ao nível de sua programação, com importantes articuladores do mercado cultural internacional e artistas de destaque da cena nacional (além de também apresentar ao público brasileiro artistas internacionais ainda desconhecidos por aqui).



Na programação musical da SIM SP estão artistas como Tulipa Ruiz, Anelis Assumpção, China e Marcelo Jeneci (dia 6 no Studio Verona), Aláfia e Aldo, The Band (dia 7 no Cine Joia), Holger (dia 5 no Estúdio Emme) e Aline Calixto e Coutto Orchestra (dia 4 no Jongo Reverendo).

Os debates e workshops envolvem mais de 70 profissionais, com opções para quem atua em diversos ramos da cadeia produtiva da música. Audiovisual, comunicação, produção de festivais, agenciamento, gestão de carreiras, criação de conteúdo e participação do poder público na cultura são alguns dos diversos temas que serão abordados.


Estive na primeira edição da SIM SP, realizada em dezembro de 2013, e assisti a alguns bons shows (Karina Buhr, Céu, e, principalmente, a colombiana El Reino del Mar, entre outros), mas participei de poucas atividades das conferências.

Veja abaixo a (enorme) programação desta edição da Sim São Paulo.

22 de março de 2014

Sobre a importância das bandas "sem futuro"



Qual a sua definição de sucesso? Na maioria das profissões, é uma mistura de altas remunerações e elogios sobre o trabalho realizado (o tal do "reconhecimento"). Na música independente brasileira, seguindo esse ponto de vista, seriam pouquíssimos os casos de sucesso. Para facilitar e ser mais realista, as altas remunerações poderiam até dar lugar a "remunerações que permitam a independência financeira". Por "independência financeira", segundo o site O Pequeno Investidor, muitos brasileiros podem entender "ter a casa própria e um emprego que pague as contas". Aí complica novamente. Quantos músicos independentes conseguiram comprar suas casas e pagar suas contas através da música? Vamos cortar a parte da casa própria e nos contentar apenas com a parte de pagar as contas. Ainda assim, aposto que não apareceram em sua mente muitos novos exemplos de músicos bem-sucedidos atuando no underground tupiniquim (aliás, adoro essa palavra, que remete à primeira tribo indígena encontrada por Pedro Álvares Cabral em 1500 - ou seja, os primeiros a se fuder).

Sucesso na música independente brasileira, então, se aproximaria de um pinto com mais de 20 cm: 1) você sabe que existe, mas poucos têm 2) muitos fazem de tudo para convencer aos outros de que o tem, apesar de terem noção de que é uma mentira relativamente difícil de manter 3) em ambos os casos, muitos gastam grandes quantias tentando obtê-lo.

Mas falemos menos de falos.

Análise de mercado, investimento, planilha financeira, cronograma, projeto, estratégia de divulgação, planejamento, fluxo de caixa, stakeholders... Termos da rotina empresarial mas que estão cada vez mais presentes no dia a dia das bandas. Se por um lado demonstram uma busca por profissionalização no mercado musical, também representam uma perigosa caminhada rumo à mercantilização excessiva da música independente/alternativa, supostamente mais sincera e original do que a produção mainstream justamente por não se basear nas necessidades mercadológicas.

A vontade de obter repercussão e dinheiro (sucesso?) faz com que bandas e artistas gastem cada vez mais tempo com planejamento. Os resultados positivos mais óbvios são o crescimento de público e uma bem-vinda profissionalização que se expande pela cadeia produtiva do setor. Por outro lado, cresce também a padronização na execução das carreiras artísticas e, pior, na produção resultante. Mesmo na cena indie. 

Nesse cenário pasteurizado, um tipo de artista passa a ser ainda mais crucial: aquele por vezes marginalizado e taxado como "sem futuro". Esses artistas, conscientemente ou não, são atores essenciais. Eles não fazem planos de largar seus empregos e contratar assessores de imprensa. Ao mesmo tempo em que diminuem as chances de se decepcionarem com os rumos de suas carreiras, permanecem fieis ao que os motivou a montar uma banda. Caso não tenha percebido, estou me referindo à música.

Essa deveria ser a essência do underground, um grande espaço de liberdade de criação no qual o futuro é uma incógnita - e isso é um grande ponto positivo. Um dos aspectos mais interessantes do punk/hardcore são justamente os limites de ambição inerentes ao gênero. Ninguém cria uma banda de hardcore almejando se tornar milionário. A música, o contato com as pessoas, a necessidade de se expressar, junto de outros elementos, vêm antes do "sucesso". E, claro, transformar tudo isso em uma atividade sustentável é uma boa meta.

Não existe nada de errado em querer viver da sua música. Mas, antes de ser um produto ela é sua forma de expressão, capaz de provocar as mais diversas reações e sentimentos nas pessoas por todo o planeta. Se ao pensar nas possibilidades da sua criação artística ela ainda não estiver em primeiro lugar nos seus planos, talvez você devesse, sim, repensar o seu futuro.

Essas bandas podem não ter um futuro comercial relevante, mas são essenciais para o futuro da música. Se todos estiverem preocupados especificamente em obter remunerações que os sustentem, haverá cada vez menos espaço para as manifestações artísticas mais experimentais, mais ousadas. E quem também perde nesse cenário é o público.

Parte do ponto de vista é: muitos nunca vão ganhar grandes quantias com seus trabalhos artísticos e, paralelamente, também podem gastar quantias significativas, e é preciso ter isso em mente. O que é diferente também de ter a música como um hobby eventual.

A sensação, conversando com músicos de diferentes cidades, é que existe um clima de insatisfação e certa decepção com o mercado, mas talvez isso seja fruto de ambições exageradas. A internet criou a imagem de que todos podem ter o tal sucesso (assim como alguns acreditam na história do "aumente seu pênis"), mas a realidade é dura e nem todos estão preparados para a cauda longa (ou para o pinto curto - não resisti ao trocadilho).

Da mesma forma que a ausência de um pau enorme pode ser compensada de diversas formas (inclusive, ficando claro que tamanho, definitivamente, não é o mais importante), a concepção de sucesso deve ser retrabalhada. Às vezes, tocar para 50 pessoas em cada cidade visitada pode ser um excelente bom resultado. Depende de como você se prepara (seus gastos, quais produtos complementares você tem a oferecer etc) e como você lida com isso. E frente ao poder de publicitários, pesquisadores de tendências, jornalistas desinformados e outros seres abomináveis que costumam contribuir para o sucesso ou não de algo, não ter um futuro pode ser uma boa opção.

Ps: dispenso o mimimi de quem interpretar o texto como sendo um incentivo à não-remuneração dos músicos, beleza? E opinião, afinal, é tipo herpes: quase todo mundo tem, mas só alguns manifestam.

1 de março de 2014

Midem 2014: como foi uma das maiores feiras do mercado musical mundial

Entre o fim de janeiro e o início de fevereiro estive em Cannes, no sul da França, para participar da Midem, considerada uma das maiores (talvez a maior) feira do mercado musical mundial. Em 2014, a Midem aconteceu entre os dias 1º e 4 de fevereiro no Palais des Festivals, mesmo espaço que recebe o famoso festival de cinema da cidade, e teve o Brasil como país homenageado em uma parceria com a Funarte.

Para conhecer mais sobre o mercado musical a feira é uma alternativa realmente interessante, mas não são tantas as oportunidades diretas de venda de show para os artistas. Dos dois andares utilizados pela feira, por exemplo, um deles foi praticamente todo dedicado a startups de tecnologia cujos produtos/serviços dialogam com a música.

Outro ponto é que quase todos os profissionais que estão por lá estão vendendo algum serviço (a maioria deles ligados à distribuição digital), são pouquíssimas as pessoas interessadas em contratar shows. A maioria dos estandes é de países apresentando seus artistas e isso acaba sendo muito mais interessante para os produtores de festivais que estão lá, por exemplo, mas não tanto para os artistas que querem tocar nesses países. Nesse ponto, percebe-se que Minas Gerais é um Estado que se diferencia e está à frente até mesmo de muitos países: em Minas existe o edital Música Minas, que custeia as passagens de artistas que receberem convites para se apresentar em eventos relevantes no Brasil e no exterior. A maioria dos países participantes da Midem sequer possui editais desse tipo e outros, como a Alemanha, possuem iniciativas quase idênticas. Aqui, no entanto, temos a opção de tentar viabilizar as passagens tanto através do Ministério da Cultura (e seu edital de intercâmbio) ou do Música Minas. Ponto para o governo brasileiro.

As melhores oportunidades para artistas estavam ligadas a empresas que trabalham com sincronização (venda de música pra comerciais, trilhas e afins) e alguns produtores interessados em intercâmbio cultural. O fato do Brasil estar na moda no exterior (e, em fevereiro, ainda havia toda a euforia por causa da Copa do Mundo no Brasil) aumentaram o interesse pela nossa música. Mesmo assim, é nítido que a produção contemporânea nacional ainda é pouquíssimo conhecida no exterior. Criolo, por exemplo, mesmo sendo muito badalado no Brasil e já tendo feito uma quantidade considerável de shows na Europa (além de ter tido relativo espaço na mídia especializada internacional) não passava de mais um desconhecido entre as atrações musicais da Midem. Por outro lado, foi interessante conhecer alguns jovens parisienses, mestrandos em marketing, que não apenas conheciam, mas estavam pesquisando iniciativas brasileiras como o Queremos e a Mídia Ninja.

As conversas oficiais com os produtores e profissionais do mercado aconteciam nos chamados speed meetings, rápidos encontros de cinco minutos, nos quais ter um material organizado e bem trabalhado é essencial para vender o seu produto. No entanto, é consenso que os melhores contatos são feitos fora das reuniões oficiais, durante os shows ou nas festas não-oficiais. Um dos melhores momentos da feira, por exemplo, foi uma festa promovida pelo site Pleimo no luxuoso hotel Carlton, à beira da praia, na famosa avenida La Croisette. Lá, entre a grande diversidade de bebidas gratuitas e a música ao vivo (tudo dentro da suíte do hotel), era possível bater um papo (entre outras coisas) com produtores de bandas famosas como Radiohead e My Bloody Valentine, dividir drinks com diretores de festivais como o Rock in Rio, ensinar um pouco de português pra diretoras de comerciais ou até se apaixonar por advogadas do Google (uma das melhores partes).

O Pleimo, site brasileiro que é uma mistura de MySpace com plataforma de prestação de serviços para bandas, investiu bastante na feira (Henrique Portugal, tecladista do Skank, é um dos sócios). Eles também produzem material promocional como canecas, capa de celular e afins, além de promoverem venda de ingressos e outros produtos. Estranhamente, desde do término da feira até hoje, tive pouquíssimas notícias do desenvolvimento do Pleimo.

E por falar em tecnologia e startups, esse foi um dos ramos mais interessantes da Midem. Muitos aplicativos e serviços online usam a feira como ponte para obter financiamento. Alguns dos que saíram de Cannes com novos investidores foram o estranho Nagual Dance (que permite "tocar" instrumentos virtuais e disparar samples através de gestos corporais - veja vídeo abaixo), Weezic (app que ajuda estudantes de música a estudar) e Starlize (aplicativo para criação de vídeoclipes no celular), destaque também para o Cubic FM (para criação de playlists através de diferentes serviços de streaming).
 

Os shows promovidos durante a Midem geralmente não contam com artistas famosos internacionalmente e são oferecimentos dos países participantes. Eles usam a plataforma como meio de divulgação de sua produção cultural, caso dos showscases brasileiros (com Criolo, ZeMaria, Raquel Coutinho e Alceu Valença) e Taiwan, por exemplo. Mas como a pequena cidade é tomada por profissionais da indústria musical durante o evento, eventos paralelos também podem contar com boas atrações, como foi o caso da ótima banda japonesa Lite, que se apresentou fora da programação oficial.

As palestras são outro ponto forte da Midem. Foram dezenas, abordando os mais diversos temas dentro da cadeia produtiva da música. A grande maioria delas, felizmente, está disponível na íntegra no canal do evento no Youtube. Uma das mais interessantes e divertidas em que estive foi a do francês Olivier François, diretor de markerting e membro do conselho do grupo Chrysler, que explicou a estratégia das empresas do grupo em se relacionar com a música. Uma história engraçada contada por Olivier: em 2012,  a Chrysler abriu mão de utilizar, de graça, a música "Blurred Lines", do Robin Thicke, por não achar que ela tinha potencial. Posteriormente, a música virou um dos maiores e mais rentáveis hits de 2013. Depois dessa experiência, quando o produtor do Pharrel Williams foi até a empresa tentar fechar uma parceria para a música "Happy", a Chrysler não quis cometer o mesmo erro e investiu na música. O resultado? Um hit mundial em 2014, com cerca de 500 milhões de views no Youtube e prêmios para o Pharrel.

No geral, a dica que fica é que se você for um artista interessado em ir à Midem, repense. A inscrição é cara (para 2015, quando a Midem acontece entre 5 e 8 de junho, a inscrição custa incríveis €525, mais de R$ 1.600) e ainda existem todos os custos da viagem até Cannes, além da hospedagem. Agora, se você tiver dinheiro disponível, vale pela experiência e por eventuais desdobramentos para a carreira, mas não crie muitas expectativas.

4 de julho de 2013

Empreendedor individual: o que é e como fazer

A situação é simples e se repete com frequência: o artista costuma tocar em bares e casas de show pequenas e quando é convidado para se apresentar em algum festival ou instituição pública se vê diante da necessidade de emitir nota fiscal. Nesses casos, muitos buscam alguma empresa que possa emitir uma nota por eles e acabam recorrendo a esses "atravessadores" sempre que precisam de nota fiscal. O que a maioria não sabe é que parte do processo de profissionalização constituindo-se como pessoa jurídica (tendo um CNPJ) pode ser extremamente simples através do cadastro como Microempreendedor Individual.

O Portal do Empreendedor o define Microempreendedor Individual (MEI) como "a pessoa que trabalha por conta própria e que se legaliza como pequeno empresário. Para ser um microempreendedor individual, é necessário faturar no máximo até R$ 60.000,00 por ano e não ter participação em outra empresa como sócio ou titular. O MEI também pode ter um empregado contratado que receba o salário mínimo ou o piso da categoria". 

Ao se registrar, é possível escolher até 15 tipos de serviços prestados, entre eles o de cantor/músico independente, DJ, produção eventos, locação de palcos e instrumentos e muitos outros. Caso o MEI se formalize no decorrer do ano, a receita bruta de R$ 60.000,00 será proporcional aos meses após formalização.  Por exemplo: R$ 60.000,00  dividido por 12 meses = R$ 5.000,00 por mês. Logo, se uma empresa for registrada em Abril, a receita bruta não poderá ultrapassar R$ 45.000,00 (R$ 5.000,00 x 9 meses = R$ 45.000,00).

Após a formalização, você pagará imposto "zero" para o Governo Federal e apenas valores simbólicos para o Município (R$ 5,00 de ISS, para prestadores de serviço) e para o Estado (R$ 1,00 de ICMS, no caso de comércio). Já o INSS será reduzido a 5% do salário mínimo (R$ 33,90), somando o total entre R$ 34,90 e R$ 39,90 por mês pra emitir notas sem desconto algum. Dependendo da cidade do empreendedor, a emissão das notas fiscais será eletrônica ou física (através dos blocos carbonados). No interior de MG, por exemplo, cidades como Ipatinga e Sabará permitem somente a emissão de notas fiscais eletrônicas. Em BH, é possível escolher entre emitir a nota eletrônica ou ter o bloco de notas.

O Microempreendedor Individual não precisa de contador e só faz uma declaração no fim do ano, via internet, com os rendimentos do ano que se encerra. Caso o faturamento anual ultrapasse R$ 60.000, há dois cenários possíveis:
- Faturamento foi maior que 60.000,00, porém não ultrapassou R$ 72.000,00
Nesse caso o seu empreendimento passará a ser considerado uma Microempresa. A partir daí o pagamento dos impostos passará a ser de um percentual do faturamento por mês, que varia de 4% a 17,42%, dependendo do tipo de negócio e do montante do faturamento. O valor do excesso deverá ser acrescentado ao faturamento do mês de janeiro e os tributos serão pagos juntamente com o DAS referente àquele mês. 
- Faturamento foi superior a R$ 72.000,00. 
Nesse caso o enquadramento no Simples Nacional é retroativo e o recolhimento sobre o faturamento, conforme explicado na primeira situação, passa a ser feito no mesmo ano em que ocorreu o excesso no faturamento, com acréscimos de juros e multa.

Para registrar-se o processo é simples e pode ser feito no Portal do Empreendedor. No caso de bandas, cada integrante pode fazer seu cadastro individual e assim evitar ultrapassar o limite anual da categoria.

Feito o cadastro, é preciso ficar atento às cobranças: sindicatos e outras empresas tentam tirar proveito do desconhecimento dos recém-cadastrados e costumam enviar boletos que fingem ser de contribuições obrigatórias. Como o próprio Governo alerta, o único custo da formalização é o pagamento mensal de R$ 33,90 (INSS), R$ 5,00 (no caso de prestadores de serviço) e R$ 1,00 (comércio e indústria) por meio de carnê emitido exclusivamente no Portal do Empreendedor. "Qualquer outra cobrança, mesmo que legal, é de pagamento voluntário. Informe-se antes de pagar", avisa, no Portal do Emprendedor.

26 de março de 2013

Entrevista sobre a cena independente e mídias digitais

Alguns estudantes do curso de Especialização em Mídias Digitais do SENAC/SP estão fazendo uma pesquisa sobre "novas formas de produção e divulgação de música através das mídias digitais" e entraram em contato para conversarmos sobre o assunto. Respondi algumas perguntas para eles, conforme você pode ler abaixo.

Como você situa a produção musical independente nos dias de hoje?
Ela é a maior parte do que se produz mundialmente. Antigamente as grandes empresas de música estavam focadas em vender muito mas de poucos artistas (a lógica inversa da cauda longa, criando poucos grandes astros mas que rendem muito), mas até mesmo elas estão cada vez mais ligadas no que acontece no meio independente agora, pois é a cena mais efervescente, com mais novidades (e, por isso também, com potencial de lucratividade).

O que está dando certo?
As bandas estão alcançando um público maior e com menos custo pra que isso aconteça.

O que não funcionou?
A sustentabilidade na cena independente ainda é muito difícil e o mercado precisa se desenvolver. É preciso formar mais público e profissionais que atuam nesse mercado, assim como se aproximar mais da iniciativa privada para captar recursos para a cena independente.

No seu blog você compilou um manual para a divulgação de bandas independentes, utilizando as plataformas digitais e as mídias sociais. O quão importante hoje é o ambiente digital no sucesso de uma banda/músico?
É através dessas plataformas que a maioria dos artistas chega ao público. Se dependessem exclusivamente de gravadoras e veículos tradicionais de mídia, a difusão de suas obras seria extremamente limitada. A divulgação online é essencial. Mesmo que o próprio artista não disponibilize seu material online, à medida que ele atingir um público interessado sua transposição pro ambiente virtual é quase que natural atualmente.

No contraponto com a estrutura de produção tradicional das gravadoras, o que as iniciativas digitais trazem de diferencial? E o que não funciona?
No ambiente digital são todos produzindo para todos, em vez de alguns detentores dos meios de produção e distribuição definirem o material a ser difundido. Aumenta a produção e, consequentemente, a competitividade e a dificuldade em se destacar em meio ao grande volume disponível.

As plataformas digitais podem ser importantes em outros aspectos? Quais?
O meio digital influencia toda a cadeia produtiva da música. Do empresário que se organiza e fecha shows através da internet às ferramentas de produção e pós-produção acessíveis via web, passando aí pelo cara que aprende a tocar algum novo instrumento pela web (ou cujo próprio "instrumento" tocado é virtual) ao público que compra os produtos da banda e o ingresso do show virtualmente. As possibilidades são inúmeras.

Você apontaria tendências nesse cenário?
O fim do download. As conexões estão cada vez mais rápidas e o volume de músicas disponíveis para audição online não para de crescer. Os números de celulares conectados 24 horas à internet também cresce sem parar. Nesse contexto, se a música está disponível online à qualquer momento, em qualquer lugar, não faz sentido o armazenamento de arquivos da forma como estávamos (ou estamos) acostumados.

Você acha que é possível viver de música hoje? Como?
Claro! É dificil, mas claro que é possível. O que eu percebo trabalhando nesse mercado é que a maioria dos músicos, para sobreviver somente da música, é obrigada a tocar com mais de um artista. Eles geralmente possuem seus trabalhos autorais mas para ter uma renda melhor precisavam trabalhar como músicos de apoio de outros grupos e em gravações de estúdio.

Com tantas ferramentas de produção, onde se situa a figura tradicional do produtor musical? Acredita que esta função tende a desaparecer?
O produtor vai muito além de saber utilizar as ferramentas, é um cara que geralmente tem um grande conhecimento musical, muitas referências e ideias a aplicar ao som da banda. Varia de acordo com a proposta de cada banda, mas não vejo risco para essa função. Uma coisa é se ter alguém que saiba operar tudo, um bom engenheiro de áudio, outra coisa é ter um produtor que entenda a proposta da banda e capte o que ela tem de melhor, que explore seu potencial.

17 de setembro de 2012

Edital da Funarte oferece bolsa para artistas e técnicos

A Funarte recebe inscrições para o edital de "Bolsa de aperfeiçoamento técnico e artístico em música" até o dia 1º de Outubro. O programa apoiará a participação de artistas e/ou técnicos da área musical em atividades de aperfeiçoamento no Brasil ou no exterior, por meio de concessão de 36 bolsas para realização de estágios e cursos de média e longa duração.

- Quem pode concorrer:
Podem concorrer no edital jovens músicos, compositores e arranjadores, bem como técnicos nas áreas de sonorização, iluminação, produção fonográfica e luteria, na faixa etária de 18 a 35 anos e que tenham formação e experiência artística ou técnica compatível com o nível e a finalidade do estágio ou curso.

- Tipo das bolsas:
a) módulo A: 8 (oito) bolsas para cursos/estágios no Brasil com duração de 3 (três) a 6 (seis) meses, no valor de R$16.000,00 (dezesseis mil reais);
b) módulo B: 10 (dez) bolsas para cursos/estágios no Brasil com duração de 6 (seis) a 12 (doze) meses, no valor de R$31.000,00 (trinta e um mil reais);
c) módulo C: 8 (oito) bolsas para cursos/estágios no exterior com duração de 3 (três) a 6 (seis) meses, no valor de R$35.000,00 (trinta e cinco mil reais);
d) módulo D: 10 (dez) bolsas para cursos/estágios no exterior com duração de 6 (seis) a 12 (doze) meses, no valor de r$65.000,00 (sessenta e cinco mil reais).

- Q que precisa para se inscrever:
I - Para os candidatos às bolsas para cursos/estágios no Brasil:
ficha de inscrição preenchida e assinada, com indicação do módulo de concorrência (a ficha pode ser obtida em www.funarte.gov.br);
Descrição detalhada do projeto de estudo ou estágio, com objetivo, justificativa de sua necessidade e relevância, conteúdos e atividades previstas e cronograma;
Currículo, com grau de escolaridade e detalhamento da experiência artística ou técnica;
material que permita avaliar o desempenho do candidato na área (gravações, críticas, composições, arranjos, material de divulgação etc.);
Duas cartas de recomendação emitidas por profissionais de mérito reconhecido;
Cópia da correspondência trocada com instituição onde será realizado o curso ou estágio, ou carta de aceitação provisória, onde conste, inclusive, o período de
duração do curso ou estágio.

II - Para os candidatos às bolsas para cursos/estágios no exterior:
ficha de inscrição preenchida e assinada, com indicação do módulo de concorrência (a ficha pode ser obtida em www.funarte.gov.br);
Descrição detalhada do projeto de estudo ou estágio, com objetivo, justificativa de sua necessidade e relevância, conteúdos e atividades previstas e cronograma;
Currículo, com grau de escolaridade e detalhamento da experiência artística ou técnica;
material que permita avaliar o desempenho do candidato na área (gravações, críticas, composições, arranjos, material de divulgação etc.);
Duas cartas de recomendação emitidas por profissionais de mérito reconhecido;
Comprovante de proficiência no idioma do curso ou estágio;
Cópia da correspondência trocada com a instituição no exterior onde será realizado o curso ou estágio, ou carta de aceitação provisória, onde conste, inclusive, o período de duração do curso ou estágio.

30 de julho de 2012

Formato "álbum" na mira dos assassinos da era digital

(Escrito em 2009 e na pasta de rescunhos desde então)

Uma das maiores características da música nesta primeira década do século 21 é um certo "retorno" ao formato dos singles no que diz respeito ao modo como as pessoas se relacionam com a música. A liberdade permitida pela digitalização da música, velozes conexões de internet e tecnologias mais avançadas de pesquisa e troca de arquivos permitiram que cada vez mais pessoas tivessem o controle sobre o que e quando ouvir. Sem a necessidade de se comprar, obrigatoriamente, álbuns completos nas lojas, cada um pôde buscar músicas isoladamente em serviços de compartilhamento, sites como MySpace e Virb ou comprar apenas a música que lhe interessasse em formato digital nos iTunes da vida.

Se até mesmo o download de músicas é questionado para um futuro recente, dando espaço ao streaming (uma vez que todos estaremos conectados continuamente, não necessitando o arquivamento das músicas em nossos meios pessoais de reprodução), o que dizer da permanência do formato álbum para o lançamento dos trabalhos dos artistas?

Continuará sendo viável comercialmente gastar tempo e dinheiro para se reunir entre 9 e 15 músicas, em média, para serem lançadas juntas? Os LPs (dos original "long play") ainda são uma forma de expressar uma série de músicas conectadas por uma série de ideias ou conceitos (mesmo quando não caem na usual chatice do "álbum conceitual"), gerando uma unidade, ou se tornaram, no geral, apenas mais um vício cômodo do mercado musical?


6 de abril de 2012

Leitura indicada: Ronaldo Lemos e "Código aberto"

"Existe um segredo bem guardado que grande parte dos músicos brasileiros ainda não descobriu. Em setembro de 2010, o Ecad fechou um acordo com o YouTube e o Google para recolher direitos autorais....
Resultado: a partir de novembro de 2010 um bom dinheiro adicional passou a entrar nos cofres do Ecad em nome de toda e qualquer pessoa que posta um vídeo musical no YouTube. A notícia do acordo (divulgada de forma bastante discreta) diz que ele abrange 'todo o repertório musical que estiver disponível na plataforma do YouTube' (veja em bit.ly/f1FFbw). Como se isso não bastasse, o Google comprometeu-se a pagar valores retroativos desde 2001! Ou seja, uma dinheirama.
Com isso, o Google faz a sua parte: paga aos músicos os valores devidos. A questão é se o Ecad vai pagar todos os que têm direito a receber. Na prática, se você colocou uma música que tem qualquer participação sua no YouTube, tem direito a receber – mesmo que não seja associado ao Ecad ou às associações que o constituem. Afinal, sua parte já está sendo cobrada por você".

Estes são trechos do artigo "O mistério do E-cad", publicado por Ronaldo Lemos em sua coluna "Código Aberto" na revista Trip de Março de 2011. Longos 12 meses depois, o Ecad virou manchete ao cobrar ilegalmente de blogs que veiculavam vídeos do YouTube com músicas e que serviu de estopim para que seu nebuloso funcionamento fosse alvo de muitas matérias, com destaque para as publicadas no Farofafá.

Referência em direito autoral na internet, Ronaldo Lemos é figura essencial na divulgação do Creative Commons e pesquisador da cultura digital. Além de sua coluna na Trip, apresenta o programa Mod na MTV e foi um dos fundadores do Overmundo.  Na "Cógido Aberto", Lemos demonstra como a cultura digital é parte cada vez mais essencial da cultura contemporânea e afeta aspectos distintos de nossas vidas, desde nossas relações interpessoais à economia das nações.

Atento às transformações culturais, os textos mensais de Lemos abordam vanguardismo, tecnologia, mudanças sociais e registram  pontos importantes da cultura contemporânea que poderiam facilmente passar despercebidos. A música tem destaque em suas colunas e serve como base para se (tentar) entender uma série de mudanças comportamentais e do mercadológicas, como as destacadas nos textos "Radinho de pilha 2.0" ("Nas periferias da América Latina, as músicas mais populares circulam hoje em celulares"), "Chupa chups musical", "A mensagem é o meio" (de 2009, quando fazia sentido escrever "Quem faz rock independente utiliza o MySpace, já a música de periferia prefere o Youtube", hoje pode-se trocar o MySpace pelo Facebook) e "Os números erram" ("dinheiro público x combate à pirataria").

* Ilustração de Luba Lukova publicada junto a uma das colunas de Lemos na revista Trip.

25 de dezembro de 2011

Por um FDE mais rancoroso e humano

O texto sobre o Fora do Eixo / Abrafin / Pernambuco que publiquei na semana passada rendeu uma série de comentários extremamente interessantes sobre o tema, mas um deles me chamou mais atenção que os demais. Seu diferencial é se tratar de uma opinião com a qual me identifico muito e que, apesar de aparentemente ser o oposto do que propus, complementa o que escrevi. 

De autoria do ser onipresente da internet, o famoso "anônimo", o texto propõe que o Fora do Eixo assuma mais os seus erros, que dê mais transparência inclusive aos sentimentos das pessoas que formam a rede FDE. Ou seja, que se humanize.

Parabéns ao autor. Abaixo, o texto publicado na caixa de comentários, na íntegra. A "carta de desculpas" a que ele se refere está no site da Casa Fora do Eixo, o vídeo com a polêmica fala do Capilé está no YouTube e a reclamação do "preguiçoso e birrento" China está no blog do artista.

Muito legal mesmo esse texto. De tudo que já saiu dessa história, incluindo aí a carta de desculpas escrito pelo parnasiano Olavo Bilac do FDE, esse texto com certeza foi o mais esclarecedor. 
Tentando colaborar mais pra discussão, tenho algumas considerações: 
- O FDE é foda. Se tem uma coisa que eles não fazem é mamar nas tetas do governo, editais, e etc. A galera trampa igual uns malucos, não estão ficando ricos, e trabalham em algo que realmente acreditam, com tesão. Só por causa disso, antes de qualquer um falar mal do movimento, procure saber mais sobre o assunto, conhecer, conversar com as pessoas; 
- apesar disso, o FDE tá virando um "chato". Explico. No facebook e no twitter, tá pior do que aquelas correntes de "ajude esse meninininho com essa doença". Todo mundo é feliz, tá tudo ok, tudo up. Você já viu alguém do FDE escrever no Facebook: "caralho, to estressado, to triste". Jamais. Parece que rola uma forçação de barra violenta, o que torna qualquer comentário de qualquer pessoa do FDE meio "falsa". Não que seja falsa de verdade, mas é tudo muito bom, tudo perfeito, todos os comentários são lindos. É claro, tem que haver uma auto-afirmação, mas quando é tudo assim, perde a graça e o valor. 
- Pablo Capilé mandou muito mal nas declarações. Fiquei até surpreso, pois o cara é uma das pessoas mais visionárias que eu já tive notícia. Aquela fala no vídeo sobre pernambuco, por mais fora de contexto que esteja, é horrível. Deletar o vídeo do canal do ustream foi coisa de Veja, Estadão. E a resposta no site da Casa FDE SP foi pior ainda. Longo, cansativo, não conectado com a linguagem da internet. O texto desse site é mil vezes melhor e nem pede desculpas. 
- Aquele texto do China falando mal do FDE pela enésima vez, também é horrível, pois replica as mesmas críticas de 5 anos atrás. O China, no fim das contas, é um preguiçoso birrento. O problema é que a fala do Capilé também foi preguiçosa e birrenta. Fez a mesma crítica a Pernambuco de 5 anos atrás, e pior, COM rancor. Aí fica difícil falar do pós-rancor.  
- falando em pós-rancor, esse história também já tá virando outra "chatisse". A gente viu, que o maior representante do FDE - sim, o Pablo é o grande representante FDE, e não "um dos gestores", me poupe Olavo - tem rancor, isso é claro. E não tem nada de errado com isso. As vezes, é bom ter rancor, faz crescer, e superar o rancor, é melhor ainda. 
- Essa história toda serviu pra mostrar o quanto o FDE tá grande, e o Pablo, já é uma pessoa pública. Vídeos paródia no Youtube, notícias e mais notícias, memes, comentários fervorosos. Falem mal, mas falem de mim... ops, do FDE. Praqueles que tão achando que isso é o fim do FDE, só peço pra vocês se informarem melhor, pois quem acha isso nem sabe direito o que é o FDE. 2 mil pessoas num congresso, não é pra qualquer um.
Enfim, por um FDE mais rancoroso e humano.

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