Fechando o assunto "feiras e encontros do mercado musical" em 2014 preciso comentar sobre a Micsur - Mercado de Industrias Culturales del Sur, que teve sua primeira edição realizada entre 15 e 18 de maio em Mar del Plata, na Argentina. Com o intuito de aproximar agentes da economia criativa dos países sul-americanos e estimular a circulação da produção cultural da região por outros continentes, a Micsur teve uma estreia bem-sucedida.
Existe uma legítima vontade de integração entre artistas e produtores do continente e esse movimento de aproximação foi extremamente benéfico para a Micsur. Apesar de seu protagonismo econômico, o Brasil permanece distante da produção contemporânea de seus países vizinhos e ocasiões proporcionadas por eventos como a Micsur são cruciais para mudar esse cenário. Outro ponto positivo é que por se tratar de países com realidades econômicas próximas, os agentes envolvidos no mercado cultural da região entendem as peculiaridades de se trabalhar com recursos escassos, o que torna as negociações mais fáceis do que se comparado com as realizadas com empresas europeias ou norte-americanas, por exemplo.
Foram promovidas muitas rodadas de negócios e debates envolvendo não apenas profissionais da música, mas também de áreas como design, artesanato, audiovisual, teatro, games e literatura. Showcases apresentaram artistas dos países participantes do evento (a saber: Argentina, Bolívia, Brasil, Chile, Colômbia, Equador, Paraguai, Peru, Uruguai e Venezuela) e festas temáticas permitiram maior aproximação com a cultura desses países (e entre os participantes da feira). Os representantes da música brasileira presentes na programação oficial estavam direcionados para a world music (Jaraguá Mulungu, Frutos do Pará e Dois por Quatro), com exceção do folk pop da cantora Tiê, o que se mostrou um erro. Diferentemente de feiras como a Womex, onde as manifestações regionais são o ponto principal, a Micsur se mostrou aberta à produção contemporânea, até mesmo pela pluralidade de seus participantes.
Além das negociações, feiras desse tipo também são ótimas oportunidades para se conhecer culturas e locais diferentes e com Mar del Plata não foi diferente. Famoso destino turístico durante o verão, por causa de suas praias, a cidade também se destaca pelos portos e cassinos. Durante a Micsur, as melhores festas aconteciam no Club de Pesca. Com um luxo decadente que deixa à mostra um passado requintado e localizado à beira-mar, o clube se parece com um grande barco ancorado ao fim de um píer, com uma vista incrível.
Prevista para ser bienal, as próximas edições da Micsur acontecerão na Colômbia em 2016 e no Brasil em 2018.
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16 de dezembro de 2014
8 de dezembro de 2014
Alguns comentários sobre a SIM SP
Comparada com sua edição anterior, em 2013, a SIM São Paulo deste ano teve como ponto negativo não realizar shows no mesmo espaço em que aconteceram a maioria dos debates, a Praça das Artes. A programação extensa e fragmentada por vários locais resultou em shows e discussões com baixa presença de público, com algumas exceções, mesmo com convidados relevantes em suas mesas. O que leva à questão: esse formato de evento realmente funciona? Quem atua no mercado musical há mais anos se depara com questões repetidas e a maratona é cansativa. Talvez um formato mais produtivo unisse maior quantidade de showcases (shows mais curtos, com a intenção de apresentar o trabalho de determinado artista para possíveis contratantes) e speed meetings (breves reuniões com esses mesmos contratantes), tudo em um único espaço, durante o dia, e a programação noturna contasse com um único evento por noite, trocando-se as casas de show ao longo da semana.
Dos debates em que estive presente, os mais movimentados e interessantes foram o que reuniu Thiago Pethit, Karina Buhr, China, Maurício Pereira, Tim Bernardes e Irina Bertolucci para discutir o atual mercado da música a partir da visão do artista e o debate sobre o papel das assessorias de imprensa atualmente. Ambas as discussões mais próximas do dia a dia dos próprios artistas e, talvez por isso, resultando em conversas mais calorosas, ainda que sem grandes novidades ("o mercado é difícil", "querem que eu toque de graça", "é preciso investir em merchandising" e afins). Para os jovens artistas e produtores, talvez um choque de realidade, imagino.
Sobre os shows, uma das coisas interessantes foi apresentar diferentes espaços culturais para quem não é de São Paulo. Centro Cultural Rio Verde, Galeria Olido, Espaço Verona, Jongo Reverendo (no espaço do antigo Studio SP da Vila Madalena), Puxadinho da Praça, Studio Emme e Beco 203 receberam uma leva diversificada de artistas que incluiu o elogiado e simpático rapper francês Féfé, o indie tropical do Holger, a nova MPB da Filarmônica de Pasárgada e alguns dos artistas da nova geração que mais se destacaram nos últimos anos: Tulipa Ruiz, Emicida, Marcelo Jeneci e Céu.
Dos debates em que estive presente, os mais movimentados e interessantes foram o que reuniu Thiago Pethit, Karina Buhr, China, Maurício Pereira, Tim Bernardes e Irina Bertolucci para discutir o atual mercado da música a partir da visão do artista e o debate sobre o papel das assessorias de imprensa atualmente. Ambas as discussões mais próximas do dia a dia dos próprios artistas e, talvez por isso, resultando em conversas mais calorosas, ainda que sem grandes novidades ("o mercado é difícil", "querem que eu toque de graça", "é preciso investir em merchandising" e afins). Para os jovens artistas e produtores, talvez um choque de realidade, imagino.
Sobre os shows, uma das coisas interessantes foi apresentar diferentes espaços culturais para quem não é de São Paulo. Centro Cultural Rio Verde, Galeria Olido, Espaço Verona, Jongo Reverendo (no espaço do antigo Studio SP da Vila Madalena), Puxadinho da Praça, Studio Emme e Beco 203 receberam uma leva diversificada de artistas que incluiu o elogiado e simpático rapper francês Féfé, o indie tropical do Holger, a nova MPB da Filarmônica de Pasárgada e alguns dos artistas da nova geração que mais se destacaram nos últimos anos: Tulipa Ruiz, Emicida, Marcelo Jeneci e Céu.
2 de dezembro de 2014
Semana Internacional de Música de São Paulo
A Semana Internacional de Música de São Paulo realiza sua segunda edição entre 4 e 7 de dezembro e ocupa nove espaços culturais da capital paulista com mais de 30 shows e dezenas de debates, workshops e rodadas de negócios. Apesar de ser um evento recente, já se estabelece como um dos principais do mercado musical brasileiro devido ao nível de sua programação, com importantes articuladores do mercado cultural internacional e artistas de destaque da cena nacional (além de também apresentar ao público brasileiro artistas internacionais ainda desconhecidos por aqui).
Na programação musical da SIM SP estão artistas como Tulipa Ruiz, Anelis Assumpção, China e Marcelo Jeneci (dia 6 no Studio Verona), Aláfia e Aldo, The Band (dia 7 no Cine Joia), Holger (dia 5 no Estúdio Emme) e Aline Calixto e Coutto Orchestra (dia 4 no Jongo Reverendo).
Os debates e workshops envolvem mais de 70 profissionais, com opções para quem atua em diversos ramos da cadeia produtiva da música. Audiovisual, comunicação, produção de festivais, agenciamento, gestão de carreiras, criação de conteúdo e participação do poder público na cultura são alguns dos diversos temas que serão abordados.
Estive na primeira edição da SIM SP, realizada em dezembro de 2013, e assisti a alguns bons shows (Karina Buhr, Céu, e, principalmente, a colombiana El Reino del Mar, entre outros), mas participei de poucas atividades das conferências.
Veja abaixo a (enorme) programação desta edição da Sim São Paulo.
Na programação musical da SIM SP estão artistas como Tulipa Ruiz, Anelis Assumpção, China e Marcelo Jeneci (dia 6 no Studio Verona), Aláfia e Aldo, The Band (dia 7 no Cine Joia), Holger (dia 5 no Estúdio Emme) e Aline Calixto e Coutto Orchestra (dia 4 no Jongo Reverendo).
Os debates e workshops envolvem mais de 70 profissionais, com opções para quem atua em diversos ramos da cadeia produtiva da música. Audiovisual, comunicação, produção de festivais, agenciamento, gestão de carreiras, criação de conteúdo e participação do poder público na cultura são alguns dos diversos temas que serão abordados.
Estive na primeira edição da SIM SP, realizada em dezembro de 2013, e assisti a alguns bons shows (Karina Buhr, Céu, e, principalmente, a colombiana El Reino del Mar, entre outros), mas participei de poucas atividades das conferências.
Veja abaixo a (enorme) programação desta edição da Sim São Paulo.
1 de março de 2014
Midem 2014: como foi uma das maiores feiras do mercado musical mundial
Entre o fim de janeiro e o início de fevereiro estive em Cannes, no sul da França, para participar da Midem, considerada uma das maiores (talvez a maior) feira do mercado musical mundial. Em 2014, a Midem aconteceu entre os dias 1º e 4 de fevereiro no Palais des Festivals, mesmo espaço que recebe o famoso festival de cinema da cidade, e teve o Brasil como país homenageado em uma parceria com a Funarte.
Para conhecer mais sobre o mercado musical a feira é uma alternativa realmente interessante, mas não são tantas as oportunidades diretas de venda de show para os artistas. Dos dois andares utilizados pela feira, por exemplo, um deles foi praticamente todo dedicado a startups de tecnologia cujos produtos/serviços dialogam com a música.
Outro ponto é que quase todos os profissionais que estão por lá estão vendendo algum serviço (a maioria deles ligados à distribuição digital), são pouquíssimas as pessoas interessadas em contratar shows. A maioria dos estandes é de países apresentando seus artistas e isso acaba sendo muito mais interessante para os produtores de festivais que estão lá, por exemplo, mas não tanto para os artistas que querem tocar nesses países. Nesse ponto, percebe-se que Minas Gerais é um Estado que se diferencia e está à frente até mesmo de muitos países: em Minas existe o edital Música Minas, que custeia as passagens de artistas que receberem convites para se apresentar em eventos relevantes no Brasil e no exterior. A maioria dos países participantes da Midem sequer possui editais desse tipo e outros, como a Alemanha, possuem iniciativas quase idênticas. Aqui, no entanto, temos a opção de tentar viabilizar as passagens tanto através do Ministério da Cultura (e seu edital de intercâmbio) ou do Música Minas. Ponto para o governo brasileiro.
As melhores oportunidades para artistas estavam ligadas a empresas que trabalham com sincronização (venda de música pra comerciais, trilhas e afins) e alguns produtores interessados em intercâmbio cultural. O fato do Brasil estar na moda no exterior (e, em fevereiro, ainda havia toda a euforia por causa da Copa do Mundo no Brasil) aumentaram o interesse pela nossa música. Mesmo assim, é nítido que a produção contemporânea nacional ainda é pouquíssimo conhecida no exterior. Criolo, por exemplo, mesmo sendo muito badalado no Brasil e já tendo feito uma quantidade considerável de shows na Europa (além de ter tido relativo espaço na mídia especializada internacional) não passava de mais um desconhecido entre as atrações musicais da Midem. Por outro lado, foi interessante conhecer alguns jovens parisienses, mestrandos em marketing, que não apenas conheciam, mas estavam pesquisando iniciativas brasileiras como o Queremos e a Mídia Ninja.
As conversas oficiais com os produtores e profissionais do mercado aconteciam nos chamados speed meetings, rápidos encontros de cinco minutos, nos quais ter um material organizado e bem trabalhado é essencial para vender o seu produto. No entanto, é consenso que os melhores contatos são feitos fora das reuniões oficiais, durante os shows ou nas festas não-oficiais. Um dos melhores momentos da feira, por exemplo, foi uma festa promovida pelo site Pleimo no luxuoso hotel Carlton, à beira da praia, na famosa avenida La Croisette. Lá, entre a grande diversidade de bebidas gratuitas e a música ao vivo (tudo dentro da suíte do hotel), era possível bater um papo (entre outras coisas) com produtores de bandas famosas como Radiohead e My Bloody Valentine, dividir drinks com diretores de festivais como o Rock in Rio, ensinar um pouco de português pra diretoras de comerciais ou até se apaixonar por advogadas do Google (uma das melhores partes).
O Pleimo, site brasileiro que é uma mistura de MySpace com plataforma de prestação de serviços para bandas, investiu bastante na feira (Henrique Portugal, tecladista do Skank, é um dos sócios). Eles também produzem material promocional como canecas, capa de celular e afins, além de promoverem venda de ingressos e outros produtos. Estranhamente, desde do término da feira até hoje, tive pouquíssimas notícias do desenvolvimento do Pleimo.
E por falar em tecnologia e startups, esse foi um dos ramos mais interessantes da Midem. Muitos aplicativos e serviços online usam a feira como ponte para obter financiamento. Alguns dos que saíram de Cannes com novos investidores foram o estranho Nagual Dance (que permite "tocar" instrumentos virtuais e disparar samples através de gestos corporais - veja vídeo abaixo), Weezic (app que ajuda estudantes de música a estudar) e Starlize (aplicativo para criação de vídeoclipes no celular), destaque também para o Cubic FM (para criação de playlists através de diferentes serviços de streaming).
Os shows promovidos durante a Midem geralmente não contam com artistas famosos internacionalmente e são oferecimentos dos países participantes. Eles usam a plataforma como meio de divulgação de sua produção cultural, caso dos showscases brasileiros (com Criolo, ZeMaria, Raquel Coutinho e Alceu Valença) e Taiwan, por exemplo. Mas como a pequena cidade é tomada por profissionais da indústria musical durante o evento, eventos paralelos também podem contar com boas atrações, como foi o caso da ótima banda japonesa Lite, que se apresentou fora da programação oficial.
As palestras são outro ponto forte da Midem. Foram dezenas, abordando os mais diversos temas dentro da cadeia produtiva da música. A grande maioria delas, felizmente, está disponível na íntegra no canal do evento no Youtube. Uma das mais interessantes e divertidas em que estive foi a do francês Olivier François, diretor de markerting e membro do conselho do grupo Chrysler, que explicou a estratégia das empresas do grupo em se relacionar com a música. Uma história engraçada contada por Olivier: em 2012, a Chrysler abriu mão de utilizar, de graça, a música "Blurred Lines", do Robin Thicke, por não achar que ela tinha potencial. Posteriormente, a música virou um dos maiores e mais rentáveis hits de 2013. Depois dessa experiência, quando o produtor do Pharrel Williams foi até a empresa tentar fechar uma parceria para a música "Happy", a Chrysler não quis cometer o mesmo erro e investiu na música. O resultado? Um hit mundial em 2014, com cerca de 500 milhões de views no Youtube e prêmios para o Pharrel.
No geral, a dica que fica é que se você for um artista interessado em ir à Midem, repense. A inscrição é cara (para 2015, quando a Midem acontece entre 5 e 8 de junho, a inscrição custa incríveis €525, mais de R$ 1.600) e ainda existem todos os custos da viagem até Cannes, além da hospedagem. Agora, se você tiver dinheiro disponível, vale pela experiência e por eventuais desdobramentos para a carreira, mas não crie muitas expectativas.
Para conhecer mais sobre o mercado musical a feira é uma alternativa realmente interessante, mas não são tantas as oportunidades diretas de venda de show para os artistas. Dos dois andares utilizados pela feira, por exemplo, um deles foi praticamente todo dedicado a startups de tecnologia cujos produtos/serviços dialogam com a música.
Outro ponto é que quase todos os profissionais que estão por lá estão vendendo algum serviço (a maioria deles ligados à distribuição digital), são pouquíssimas as pessoas interessadas em contratar shows. A maioria dos estandes é de países apresentando seus artistas e isso acaba sendo muito mais interessante para os produtores de festivais que estão lá, por exemplo, mas não tanto para os artistas que querem tocar nesses países. Nesse ponto, percebe-se que Minas Gerais é um Estado que se diferencia e está à frente até mesmo de muitos países: em Minas existe o edital Música Minas, que custeia as passagens de artistas que receberem convites para se apresentar em eventos relevantes no Brasil e no exterior. A maioria dos países participantes da Midem sequer possui editais desse tipo e outros, como a Alemanha, possuem iniciativas quase idênticas. Aqui, no entanto, temos a opção de tentar viabilizar as passagens tanto através do Ministério da Cultura (e seu edital de intercâmbio) ou do Música Minas. Ponto para o governo brasileiro.
As melhores oportunidades para artistas estavam ligadas a empresas que trabalham com sincronização (venda de música pra comerciais, trilhas e afins) e alguns produtores interessados em intercâmbio cultural. O fato do Brasil estar na moda no exterior (e, em fevereiro, ainda havia toda a euforia por causa da Copa do Mundo no Brasil) aumentaram o interesse pela nossa música. Mesmo assim, é nítido que a produção contemporânea nacional ainda é pouquíssimo conhecida no exterior. Criolo, por exemplo, mesmo sendo muito badalado no Brasil e já tendo feito uma quantidade considerável de shows na Europa (além de ter tido relativo espaço na mídia especializada internacional) não passava de mais um desconhecido entre as atrações musicais da Midem. Por outro lado, foi interessante conhecer alguns jovens parisienses, mestrandos em marketing, que não apenas conheciam, mas estavam pesquisando iniciativas brasileiras como o Queremos e a Mídia Ninja.
As conversas oficiais com os produtores e profissionais do mercado aconteciam nos chamados speed meetings, rápidos encontros de cinco minutos, nos quais ter um material organizado e bem trabalhado é essencial para vender o seu produto. No entanto, é consenso que os melhores contatos são feitos fora das reuniões oficiais, durante os shows ou nas festas não-oficiais. Um dos melhores momentos da feira, por exemplo, foi uma festa promovida pelo site Pleimo no luxuoso hotel Carlton, à beira da praia, na famosa avenida La Croisette. Lá, entre a grande diversidade de bebidas gratuitas e a música ao vivo (tudo dentro da suíte do hotel), era possível bater um papo (entre outras coisas) com produtores de bandas famosas como Radiohead e My Bloody Valentine, dividir drinks com diretores de festivais como o Rock in Rio, ensinar um pouco de português pra diretoras de comerciais ou até se apaixonar por advogadas do Google (uma das melhores partes).
O Pleimo, site brasileiro que é uma mistura de MySpace com plataforma de prestação de serviços para bandas, investiu bastante na feira (Henrique Portugal, tecladista do Skank, é um dos sócios). Eles também produzem material promocional como canecas, capa de celular e afins, além de promoverem venda de ingressos e outros produtos. Estranhamente, desde do término da feira até hoje, tive pouquíssimas notícias do desenvolvimento do Pleimo.
E por falar em tecnologia e startups, esse foi um dos ramos mais interessantes da Midem. Muitos aplicativos e serviços online usam a feira como ponte para obter financiamento. Alguns dos que saíram de Cannes com novos investidores foram o estranho Nagual Dance (que permite "tocar" instrumentos virtuais e disparar samples através de gestos corporais - veja vídeo abaixo), Weezic (app que ajuda estudantes de música a estudar) e Starlize (aplicativo para criação de vídeoclipes no celular), destaque também para o Cubic FM (para criação de playlists através de diferentes serviços de streaming).
Os shows promovidos durante a Midem geralmente não contam com artistas famosos internacionalmente e são oferecimentos dos países participantes. Eles usam a plataforma como meio de divulgação de sua produção cultural, caso dos showscases brasileiros (com Criolo, ZeMaria, Raquel Coutinho e Alceu Valença) e Taiwan, por exemplo. Mas como a pequena cidade é tomada por profissionais da indústria musical durante o evento, eventos paralelos também podem contar com boas atrações, como foi o caso da ótima banda japonesa Lite, que se apresentou fora da programação oficial.
As palestras são outro ponto forte da Midem. Foram dezenas, abordando os mais diversos temas dentro da cadeia produtiva da música. A grande maioria delas, felizmente, está disponível na íntegra no canal do evento no Youtube. Uma das mais interessantes e divertidas em que estive foi a do francês Olivier François, diretor de markerting e membro do conselho do grupo Chrysler, que explicou a estratégia das empresas do grupo em se relacionar com a música. Uma história engraçada contada por Olivier: em 2012, a Chrysler abriu mão de utilizar, de graça, a música "Blurred Lines", do Robin Thicke, por não achar que ela tinha potencial. Posteriormente, a música virou um dos maiores e mais rentáveis hits de 2013. Depois dessa experiência, quando o produtor do Pharrel Williams foi até a empresa tentar fechar uma parceria para a música "Happy", a Chrysler não quis cometer o mesmo erro e investiu na música. O resultado? Um hit mundial em 2014, com cerca de 500 milhões de views no Youtube e prêmios para o Pharrel.
No geral, a dica que fica é que se você for um artista interessado em ir à Midem, repense. A inscrição é cara (para 2015, quando a Midem acontece entre 5 e 8 de junho, a inscrição custa incríveis €525, mais de R$ 1.600) e ainda existem todos os custos da viagem até Cannes, além da hospedagem. Agora, se você tiver dinheiro disponível, vale pela experiência e por eventuais desdobramentos para a carreira, mas não crie muitas expectativas.
12 de dezembro de 2013
Sobre o fenômeno dos trabalhos de merda
Deu trabalho, mas segue abaixo a tradução que fiz do texto de David Graeber, professor de antropologia na London School of Economics, para a revista ativista Strike Mag sobre o mercado de trabalho. O título original refere-se aos "bullshit jobs". Apesar de ter traduzido "bullshit" ao longo do texto como "besteira" ou "bobagem", decidi traduzir o termo "bullshit jobs" como os "trabalhos de merda" acima, apesar de não ser o correspondente literal.
Em 1930, John Maynard Keynes previu que, ao fim do século, a tecnologia teria avançado o suficiente ao ponto de países como Grã-Bretanha e Estados Unidos terem alcançado jornadas de 15 horas semanais de trabalho. Temos toda a razão em acreditar que ele estava certo. Em termos tecnológicos, somos perfeitamente capazes disso. Mas ainda não aconteceu. Em vez disso, a tecnologia foi trabalhada, por assim dizer, para conseguir meios de nos fazer trabalhar mais. Em ordem para conseguir isso, foram criados empregos que são, efetivamente, inúteis.
Uma grande quantidade de pessoas, na Europa e na América do Norte principalmente, passam suas vidas ativas inteiras exercendo funções que secretamente acreditam não precisarem realmente serem feitas. O dano moral e espiritual que vem dessa situação é profundo. É uma cicatriz em nossa alma coletiva, apesar de ninguém conversar sobre isso.
Por que a utopia prometida por Keynes - ainda que avidamente esperada nos anos 60 - nunca se materializou? A constatação padrão atualmente é que ele não calculou o aumento massivo no consumismo. Dadas as opções de se trabalhar menos ou ter mais brinquedos e prazeres, escolhemos coletivamente a última opção. Isso apresenta uma boa estória de moralidade, mas até mesmo uma reflexão momentânea mostra que isso não pode ser verdade. Sim, nós assistimos à criação de uma infinita variedade de novos trabalhos e indústrias desde os anos 20, mas muitos poucos deles têm a ver com a produção e distribuição de sushi, iPhones ou tênis extravagantes.
Então, quais são esses novos trabalhos, precisamente? Uma matéria recente sobre o emprego nos EUA entre 1910 e os anos 2000 nos dá uma imagem clara (e, noto, algo igual ecoou no Reino Unido). Durante o último século, o número de trabalhadores empregados com serviços domésticos, na indústria e nas fazendas entrou em colapso dramaticamente. Ao mesmo tempo, trabalhos "gerenciais, de escritório, vendas e de serviços" triplicaram, passando "de um quarto a três quartos do emprego geral". Em outras palavras, os trabalhos de produção, exatamente como previsto, foram largamente automatizados (mesmo se você considerar os trabalhadores da indústria globalmente, incluindo as massas trabalhadoras na Índia e na China, essas pessoas não formam um percentual tão grande em relação à população mundial como era antigamente).
Mas em vez de permitir uma redução massiva das horas de trabalho para liberar a população mundial para buscar seus projetos pessoais, prazeres, visões e ideias, nós vimos o inchaço não necessariamente do setor de "serviços" mas do setor administrativo, incluindo a criação de novas indústrias como a de serviços financeiros e telemarketing, além da expansão sem precedentes de setores como o de leis corporativas, administração acadêmica e de saúde, recursos humanos e relações públicas. E esses números sequer refletem todos aqueles que prestam serviços administrativos, técnicos ou de segurança para essas indústrias, nem todo o tipo de serviços auxiliares (lavadores de cães, entregadores de pizza 24h) que só existem porque todas as outras pessoas estão passando tempo demais trabalhando.
Esses são os que proponho em chamar de "trabalhos de merda".
É como se alguém lá fora nos mantivesse fazendo trabalhos sem sentido apenas para que estejamos trabalhando. E aqui, precisamente, está o mistério. No capitalismo, isso é exatamente o que não deve acontecer. No velho estado socialista ineficiente, no qual o emprego era considerado tanto um direito como um dever sagrado, o sistema criava quantos empregos fossem necessários (por isso na União Soviética as lojas tinham três balconistas para se vender um pedaço de carne). Mas, é claro, esse é o tipo de problema que a competição de mercado supostamente corrigiria. De acordo com a teoria econômica, ao menos, a última coisa que uma firma em busca de lucro iria querer seria gastar dinheiro com empregados desnecessários. Apesar disso, de alguma forma, isso acontece.
Enquanto corporações estão empenhadas em reduções implacáveis, as demissões e cortes recaem naqueles que estão realmente produzindo, movendo, consertando e mantendo as coisas; através de uma estranha alquimia que ninguém sabe explicar exatamente o número de assalariados empurradores de papel parece crescer e mais e mais empregados encontram-se, não diferente dos antigos trabalhadores da União Soviética, em jornadas de 40 ou até mesmo 50 horas semanais sobre papeis, mas efetivamente trabalhando apenas 15 horas exatamente como Keynes previu, uma vez que o resto do tempo de trabalho é gasto organizando ou frequentando seminários motivacionais, atualizando perfis de Facebook ou fazendo downloads de box-sets de TV.
A resposta claramente não é econômica: é moral e política. A classe dominante percebeu que uma população feliz e produtiva com tempo livre disponível é um perigo mortal (pense no que começou a acontecer quando nos aproximamos disso nos anos 60). E, por outro lado, o sentimento de que o trabalho possui um valor moral em si mesmo e que qualquer um que não esteja disposto a se submeter a uma intensa disciplina de trabalho durante a maior parte de seu dia não merece nada é extremamente conveniente a eles.
Uma vez, enquanto contemplava o aparentemente infinito crescimento das responsabilidades administrativas nos departamentos acadêmicos ingleses, cheguei a uma possível visão do inferno. Inferno é uma reunião de indivíduos que estão passando a maior parte do tempo trabalhando em tarefas das quais não gostam e não são necessariamente bons as executando. Digamos que eles tenham sido contratados por serem ótimos marceneiros e então descobrem que se espera que eles passem boa parte do tempo fritando peixes. Essa função não precisa necessariamente ser feita - ou, ao menos, há apenas uma quantidade limitada de peixe que precisa ser frita. Mas, de alguma forma, todos eles passam a ficar ressentidos com o fato de que outros colegas podem estar passando mais tempo realmente trabalhando com marcenaria e não cumprindo as funções de fritar peixe, o que resulta em longas pilhas de peixes mal fritos ao longo da oficina e isso é tudo o que qualquer um faz.
Acredito que atualmente essa é uma descrição precisa da dinâmica moral da nossa própria economia.
Agora, percebo que qualquer argumento levará a objeções imediatas: "quem é você para dizer quais trabalhos são realmente 'necessários'? O que é necessário, afinal? Você é um professor de antropologia, qual a 'necessidade', disso?" (e de fato um monte de leitores de tabloides pode considerar a existência do meu trabalho como a exata definição de desperdício de despesas sociais). Em um nível, isso é obviamente verdade. Que não há uma medida objetiva de valor social.
Agora, percebo que qualquer argumento levará a objeções imediatas: "quem é você para dizer quais trabalhos são realmente 'necessários'? O que é necessário, afinal? Você é um professor de antropologia, qual a 'necessidade', disso?" (e de fato um monte de leitores de tabloides pode considerar a existência do meu trabalho como a exata definição de desperdício de despesas sociais). Em um nível, isso é obviamente verdade. Que não há uma medida objetiva de valor social.
Eu não me atreveria a dizer a alguém convicto de estar fazendo uma contribuição significativa para o mundo de que eles, na verdade, não o estão fazendo. Mas e em relação àqueles que estão convencidos de que seus trabalhos são sem sentido? Não muito tempo atrás voltei a ter contato com um amigo de escola com o qual não encontrava desde os 12 anos de idade. Estava assombrado por descobrir que nesse meio tempo ele se tornou primeiro um poeta, depois o líder de uma banda de indie rock. Havia escutado algumas de suas músicas no rádio sem saber que o vocalista era alguém que eu conhecia. Ele era, claramente, brilhante, inovador e seu trabalho inquestionavelmente melhorou as vidas de pessoas ao redor do mundo. Apesar disso, após alguns álbuns mal-sucedidos, ele perdeu seu contrato e atormentado pelas contas e uma filha recém-nascida, acabou, como ele disse, "escolhendo a opção padrão de muitas pessoas sem direção: a faculdade de direito". Agora ele é advogado corporativo de uma proeminente firma de Nova York. Ele foi o primeiro a admitir que seu trabalho era completamente sem sentido, contribuindo em nada para o mundo e, na sua própria opinião, sequer deveria existir.
Existem várias perguntas que alguém poderia fazer aqui, começando com o que isso diz sobre nossa sociedade além de que ela parece criar uma demanda limitada para talentosos poetas-músicos e uma demanda aparentemente infinita para especialistas em lei corporativa? (Resposta: se 1% da população controla a maior parte do dinheiro disponível, o que chamamos de "mercado" reflete o que eles consideram útil ou importante, não o que os outros pensam).
Porém, mais um vez, isso mostra que grande parte das pessoas nesses trabalhos estão conscientes disso. De fato, não tenho certeza se alguma vez encontrei algum advogado corporativo que não achasse que seu trabalho fosse uma besteira. O mesmo vale para quase todos os trabalhos que destaquei acima. Há toda uma classe de profissionais assalariados que, se você os encontrar em uma festa e o seu emprego for considerado interessante (um antropólogo, por exemplo), eles irão fugir completamente de qualquer conversa que envolva os trabalhos deles. Dê-lhes alguns drinks e eles estarão soltando tiradas sobre o quão estúpidos e sem sentido são seus trabalhos.
Há uma intensa violência psicológica aqui. Como alguém pode sequer começar a falar sobre dignidade no trabalho quando se pensa que o emprego do outro não deveria existir? Como isso pode não criar uma profunda sensação de raiva e ressentimento? No entanto, o gênio peculiar dos que comandam nossa sociedade descobriu uma maneira, como no caso dos fritadores de peixe, para garantir que a raiva seja dirigida precisamente contra aqueles que realmente fazem algum trabalho significativo. Por exemplo: em nossa sociedade parece haver uma regra geral que, quanto mais o trabalho de alguém traga benefícios aos outros, menos ele deve receber em troca. Mais uma vez, uma medida objetiva é difícil de encontrar, mas uma maneira fácil de chegar a um sentido é perguntar: o que aconteceria se toda esta classe de pessoas simplesmente desaparecesse? Diga o que quiser sobre enfermeiros, lixeiros ou mecânicos, mas é óbvio que se eles desaparecessem em uma nuvem de fumaça, os resultados seriam imediatos e catastróficos. Um mundo sem professores ou trabalhadores de docas logo estaria em apuros e até mesmo um mundo sem escritores de ficção científica ou músicos de ska seria claramente um lugar pior. Não é totalmente claro como a humanidade sofreria se todos os CEOs, lobistas, relações públicas, atendentes de telemarketing, oficiais de justiça ou consultores legais simplesmente desaparecessem da mesma forma (muitos suspeitam que o mundo poderia melhorar significativamente). No entanto, para além de um punhado de exceções entre os que ganham muito (como no caso dos médicos), a regra funciona surpreendentemente bem.
Ainda mais perverso, há um senso comum de que é assim que as coisas devam ser. Esse é um dos segredos do populismo de direita. Você pode ver isso quando os tabloides gritam contra os funcionários do metrô por entrarem em greve por melhores condições: o simples fato de os funcionários do metrô poderem paralisar Londres mostra o quanto o trabalho deles é necessário, mas isso parece ser exatamente o que incomoda as pessoas. Fica ainda mais claro nos EUA, onde os republicanos tiveram enorme sucesso em mobilizar rancor contra professores, funcionários das montadoras (e não contra os administradores das escolas ou gerentes das indústrias automotivas, que são quem realmente causa os problemas) por seus salários e benefícios inflados. É como se eles dissessem "vocês têm que ensinar as crianças! Ou fazer carros! Vocês têm que ter trabalhos de verdade! E acima de tudo vocês ainda têm a coragem de esperar ter pensões de classe média e planos de saúde?".
Se alguém tivesse desenhado um sistema de trabalho perfeitamente adequado à manutenção de poder do capital financeiro, é difícil ver como eles poderiam ter feito um trabalho melhor. Os verdadeiros trabalhadores produtivos são espremidos e explorados implacavelmente. O restante é dividido entre uma camada aterrorizada, insultada universalmente, desempregada, e uma parcela maior que basicamente é remunerada para fazer nada, em posições criadas para fazê-los se sentir identificados com as perspectivas e valores da classe dominante (gerentes, administradores etc) - e particularmente seus avatares financeiros - mas, ao mesmo tempo, fomentar um ressentimento latente contra qualquer um cujo trabalho tenha claro e inegável valor social. Claramente, o sistema nunca foi conscientemente construído. Ele emergiu ao longo de um século de tentativa e erro. Mas essa é a única explicação do porquê, apesar de nossas capacidades tecnológicas, não estamos trabalhando 3 ou 4 horas diárias.



