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11 de maio de 2015

Entrevista para a Puc Campinas sobre o mercado musical independente

O Willian Souza é um aluno do curso de jornalismo da Puc Campinas que tem muito bom gosto e é leitor do Meio Desligado, rs. Ele está produzindo uma reportagem multimídia sobre consumo de música na atualidade e pediu que eu contribuísse respondendo algumas questões, que, como de costume, publico abaixo.

  • Como você avalia o atual cenário musical independente brasileiro?
Pergunta difícil. O cenário musical independente é muito amplo, vai dos produtores de música eletrônica ao instrumental experimental. Cada gênero musical apresenta uma realidade de mercado diferente. Muita gente do funk consegue ser bem remunerada com seus trabalhos autorais e tem a música como fonte de renda primária. O mesmo não pode ser dito da cena indie, na qual a música é, na maioria dos casos, uma fonte complementar de renda. Mas, no geral, considero um mercado que estava em expansão na década passada e se estagnou, economicamente falando, recentemente. Parte disso pode ser reflexo da situação econômica do país. Houve um boom na época da Abrafin, Fora do Eixo, TramaVirtual e depois o dinheiro foi diminuindo, ficou mais difícil dos festivais alternativos captarem recursos e com isso diminuiu a circulação dos artistas.


  • Por que acredita que os artistas começaram a disponibilizar suas músicas gratuitamente pela internet?
Porque a produção é enorme e em meio a uma oferta tão grande é preciso facilitar o acesso do público ao que o artista está produzindo.


  • Sente que isso está acontecendo cada vez mais? É uma tendência?
Sim. Muita gente, como eu, praticamente nem faz mais downloads. É tudo via streaming. Isso facilita a circulação da produção mas também aumenta a volatilidade na relação com a música. O lado positivo disso é que se tem acesso a uma variedade maior de produções, mas, por outro lado, a fugacidade às vezes impede que se aprofunde na relação com uma obra. Em uma entrevista de 2013, o produtor Dr. Luke fala sobre isso, como as músicas pop atualmente praticamente não têm introdução. É preciso captar a atenção do ouvinte logo, o vocal entra rápido e logo já vem o refrão, tudo comprimido pra soar grandioso no fone de ouvido, que é o principal instrumento pra audição atualmente.


  • Acredita que é esse o caminho?
Acho que sim, ao menos para o futuro próximo. Isso não inviabiliza a venda do produto físico, ele só precisa apresentar algum diferencial que justifique a compra. A música online gratuita é a porta de entrada para o trabalho de um artista. Mas quando se diz "música online gratuita" ela pode se referir a diferentes formatos: pode ser em um serviço de streaming, um videoclipe, a trilha sonora de um game ou em um aplicativo por exemplo. Ainda tem muita coisa a se explorar.


  • Como avalia a recepção de novos artistas pelas grandes gravadoras? Isso acontece?
No que diz respeito à absorção do que está sendo produzido na cena independente, só conheço as experiências da Deck e da Slap, e acho que ambas tem feito bons trabalhos dentro de suas respectivas propostas. O disco do Cícero é um dos melhores lançamentos do ano, a Pitty está aí quase com 40 anos já e segue com uma carreira coerente. A Deck também lançou recentemente trabalhos do Wado, Matanza, Gang do Eletro… é uma gravadora pequena mas conectada com a cena. A Slap não é uma gravadora, é um selo da Som Livre, mas é um indicativo de que até uma gravadora que possui todas as facilidades que a Som Livre tem sentiu necessidade de se aproximar da chamada cena independente. Daí a presença de Dom La Nena, Silva, Mombojó e Móveis Coloniais entre os artistas contratados por eles.


  • Sobre a divulgação, o que pensa da internet para esse propósito?
É essencial. Ponto.


  • Acredita que o Brasil se difere dos outros países no que tange ao cenário musical independente?
Acho que cada país tem seus singularidades que variam de acordo com sua cultura e situação econômica. Nos Estados Unidos e na Inglaterra, por exemplo, os mercados são bem diferentes, mais evoluídos e maiores, mas digo isso como observador e leitor, não tenho uma experiência aprofundada nesses países. Posso dizer que em Portugal, por exemplo, a situação não é tão diferente da que temos aqui. Muitos portugueses acham que vivemos uma situação melhor do que a deles, inclusive, com um apoio muito maior do governo, inclusive. E no que diz respeito ao consumo de música independente, é a mesma coisa: os países seguem para um mesmo caminho, mas cada um com suas singularidades. Passei um tempo no Japão e fiquei surpreso ao descobrir que o Spotify não funciona por lá até hoje, acredita? Os japoneses ainda compram muitos CDs e por preços altíssimos, numa média de U$ 25. A Tower Records é uma loja de discos que possui um prédio de cinco andares em Tóquio, imagine isso. Não dá pra dizer que determinada mídia morreu assim tão facilmente, esses contextos locais precisam ser levados em consideração e essa diferença que cada mercado apresenta torna tudo mais interessante (e/ou difícil, dependendo do ponto de vista).


  • O que pensa do futuro da música independente?
Penso que esse termo "música independente" é horrível, rs. Passa a impressão de algo que funcionaria de forma isolada, auto-suficiente, o que é o oposto da realidade. O que eu acho de toda essa música feita fora de grandes gravadoras é que ela é, há muito tempo, a maior parte da música feita no mundo (e provavelmente sempre tenha sido). Só que apenas nas últimas décadas esses artistas têm alcançado mais repercussão, seja localmente (principalmente) ou em escala maior.

E, pra fechar, só queria dizer que isso tudo é só a minha opinião, baseada na minha experiência como jornalista, produtor e consumidor.

28 de outubro de 2013

Entrevista sobre jornalismo musical

Tive uma conversa bem legal com a Adriana Oshiro, que está fazendo um trabalho de conclusão de curso chamado "Manual de jornalismo musical". Algumas respostas acabaram um pouco longas, mas gostei de participar do projeto. No fim, senti falta de falar sobre a proposta da TV Meio desligado e mais sobre o uso de redes sociais, mas fica pra outra ocasião. Abaixo, a entrevista na íntegra.


O Meio Desligado começou em 2006, certo? Como surgiu a ideia de fazer um blog apenas sobre música independente brasileira?

Dezembro de 2006. Vou copiar aqui uma resposta que dei em 2010: "Resumindo muito: queria fazer algo relevante na internet em vez de ter mais um blog sobre cultura pop e bobagens para entreter as pessoas. Percebi que havia uma movimentação crescente na cena musical independente e não existia nenhum blog dedicado totalmente a essa cena. Além disso, quando outros blogs e jornalistas citavam bandas indie nacionais, na maioria dos casos exaltavam bandas que eu considerava (e ainda considero) ridículas ou falavam das bandas dos amigos, coisas do tipo. Eu pensei: "é por causa desses idiotas que o público em geral acha que não existem bandas independentes boas". Por isso criei o Meio Desligado, para fazer uma análise mais crítica dessa cena, sem ter rabo preso com ninguém, sem medo de experimentar." 
Lendo assim parece um pouco prepotente, mas é aquela prepotência irônica através da qual você quer reforçar uma ideia, entende? 


O convite para ser curador de festivais e participar da produção de projetos culturais veio por conta do Meio Desligado?

Sim. Eu já tinha feito estágio na Secretaria de Cultura de MG, trabalhado em um site de música e escrevendo sobre cinema, mas minha entrada na produção cultural, efetivamente, foi através de um convite que surgiu por causa do Meio Desligado. 


Além de tocar o blog, você presta uma série de serviços para bandas e tudo mais. Inclusive, até escreve textos sobre isso no blog. Quais são suas atividades e projetos, atualmente? 

No fim de 2011 montei uma empresa (revrbr.com) para prestar esses serviços junto a dois sócios, profissionalizar a coisa. Mas eles acabaram se mudando e a empresa foi parando. Continuei trabalhando com diferentes artistas e produtoras culturais enquanto planejava o que seria a quente, que é a agência de bandas/produtora cultural que montei com um sócio no ano passado. Somos uma das poucas agências de bandas no mercado independente brasileiro e com pouco tempo já conseguimos alguns resultados relevantes. Também fazemos nossos próprios shows, produzimos eventos para clientes externos, fazemos assessoria de imprensa especializada, elaboramos e gerimos projetos de leis de incentivo (a Elza Soares encomendou um projeto de lei com a gente, por exemplo). E paralelamente a isso continuo a parceria com a Casulo Cultura, que foi a primeira produtora cultural em que trabalhei. Através dela me envolvo em projetos mais mainstream, como grandes festivais como o Rock in Rio e o Natura Musical. 


As bandas que você produz podem entrar no Meio Desligado? Como você separa essa questão para justamente fazer uma análise crítica e não se tornar o cara que fala bem das bandas dos amigos, que vc citou na 1ª pergunta?

Questão super pertinente. Eu vejo certo ativismo aí, uma necessidade de atuar mais diretamente nessa cena e nesse mercado, de poder interferir mais diretamente. Antigamente eu me via principalmente como jornalista e depois como produtor cultural. Atualmente, me considero mais um produtor/gestor cultural que também é jornalista. Acho que tento usar a visão do jornalismo pra tentar contribuir com a produção cultural por dentro. E sinto falta de mais gente fazendo isso, gente que atua na área e que exerça uma função crítica sobre ela, como os envolvidos com a Cahiers du Cinéma faziam, sabe? Quando o jornalista cultural passa a atuar como produtor ele não só observa e analisa, com poder de influência, para se transformar em uma potencial ferramenta de transformação dentro daquele ambiente no qual está envolvido. Quando o Lúcio Ribeiro se transforma em produtor acredito que isso seja extremamente benéfico para a cena. Todos sabemos que é ele quem está promovendo o show de tal banda, tal festival. A partir disso, podemos interpretar o que ele escreve sobre esses artistas da forma como quisermos, o importante é contextualizar. O que não acho válido é deixar de tomar uma atitude dentro desse mercado por receio. É bem diferente de tentar se beneficiar exercendo as duas funções. 
Não escondo de ninguém as bandas com as quais trabalho e quando escrever sobre elas vou deixar isso claro. O que tem acontecido até hoje é que primeiro escrevi sobre as bandas e depois começamos a trabalhar juntos, justamente por eles terem se identificado com o que escrevi sobre eles, sobre o que conversamos. Só trabalho com artistas com os quais me identifico e gosto, então é natural que possa escrever sobre eles - seria algo que o faria se não trabalhasse com eles também.
Se você citar os principais artistas da cena independente de MG talvez eu já tenha trabalhado com a maioria deles, em diferentes momentos (assessoria, festivais, produção, consultoria e afins), porque trabalho com muitas produtoras, muitos eventos. Nem por isso escrevi sobre todos esses artistas. Não é a minha relação comercial que irá pautar o Meio Desligado. 


O blog já tem bastante tempo, principalmente, se você pensar em como tudo se altera rapidamente na internet. O Meio Desligado passou por muitas mudanças significativas? As visitas cresceram durante esses anos? Quantos visitantes únicos o blog possui em média? 

Passou por várias mudanças, acho esse um ponto positivo. Considero a mudança super válida, é preciso experimentar, não se acomodar. No geral, não dou a mínima pra acessos. Fiquei muito tempo sem nem olhar o Analytics pra saber como estava, mas de vez em quando entro porque os anunciantes sempre querem saber disso e pedem dados atualizados. Ontem (22/10/2013), por exemplo, ele teve 1.156 acessos. Já teve mais que isso, mas não é algo que me incomode. 


O layout do blog parece ser bem adequado para dar destaque aos vídeos, imagens e players. Há algum tipo de formato na postagem? Como você edita o conteúdo e pensa no formato para tornar o post mais atrativo?

O layout atual é o que mais se diferencia em toda a trajetória do blog. O Meio Desligado não tem anúncio fixo, não tem banner animado, barra lateral, nada disso. O foco é no conteúdo. E para isso quis explorar um formato que eu ainda não tivesse usado, que ocupasse mais a tela e deixasse tudo bem na cara de quem acessa o blog. Engraçado é que fazia muitos meses que não lia o Tiago Dória, uma das minhas maiores influências no início do blog, e reparei que ele fez algo semelhante no seu próprio blog também. 


Muitos jornalistas que trabalham ou trabalharam no meio cultural reclamam da dificuldade de fazer um veículo dessa área no Brasil. Na internet, você encontra inúmeros blogs sobre isso, mas poucos rentáveis. No caso de um blog que fale especificamente sobre bandas independentes brasileiras, então, penso que essa dificuldade seja ainda maior. Mesmo assim, o Meio Desligado tem espaço para anúncios e ações pagas. Você consegue ganhar dinheiro com o blog? É possível se manter apenas com ele?

Eu me manteria com o blog se morasse na casa dos meus pais, não pagasse ingresso para ir a nenhum show ou festa e parasse de beber. Ou seja, o Meio Desligado é, diretamente, um complemento. Indiretamente, ele intermedia outras possibilidades de trabalho que, essas sim, são rentáveis. 


Nos últimos meses, a frequência de posts caiu bastante. Isso tem alguma relação com o uso de redes sociais ou a popularização das plataformas de música, como Spotify e Last.fm, que recomendam artistas e permitem que o público dependa menos do jornalista para conhecer uma banda nova? Você acredita que as pessoas têm interesse em conhecer e ler sobre bandas novas e brasileiras?

Diminuiu porque tenho tido menos tempo para me dedicar ao blog e porque tenho tido um pavor crescente de excesso de informação. Quando entro no Trabalho Sujo, por exemplo, quase tenho um treco com aquele tanto de informação (e maior parte dela é essa coisa piadista da internet). Já que tenho pouco tempo para o blog, penso duas vezes antes de publicar qualquer coisa. Mas estou longe de achar que estou fazendo uma coisa muito boa. Esse é o meu objetivo, mas por enquanto ao menos estou sendo honesto com a minha realidade e em busca de melhorar. 
Sobre o interesse do público, há sim, apesar de ser um segmento bem específico. É muito mais fácil e gera mais frutos falar de coisas mais populares e gringas, mas não é o que me interessa. 
E sobre plataformas de streaming, amo o Deezer. Minha vida mudou depois que passei a usar essa nova versão. Comecei a usá-lo quando foi lançado, anos atrás, pra conhecer algumas bandas francesas e tal. Agora a história é outra, mudou minha vida. Faz meses que enrolo pra fazer um texto sobre isso. 


Marcelo, mas o que te incomoda é o excesso de informação ou a falta de filtragem dele? Será que o jornalista/blogueiro não seria o responsável por selecionar informações relevantes diante desse excesso? O que você acha disso?

A filtram dele é o ponto crucial aqui. A produção ser grande é positiva. É ótimo ter mais gente podendo se expressar através de diferentes pontos de vista, diferentes experiências de vida envolvidas na produção. Nesse cenário, existe uma necessidade crescente de "curadoria", que seria essa filtragem a partir de critérios definidos por quem exerce essa "curadoria" de conteúdo. Se existem cada vez mais coisas incríveis sendo criadas no mundo todo, também estão sendo surgindo muitas que são medíocres e desinteressantes. Apesar de eu achar que cabe a cada indivíduo avaliar como determinada informação irá afetá-lo, é claro que muitas pessoas vão preferir acessar apenas o que já foi analisado por alguém antes e que foi considerado relevante. Mas não acho que seja uma função específica do jornalista, é uma função de quem se identifica e tem interesse com determinado tema. 
Alguns perfis no Twitter fazem bem isso, com seleções constantes de links. O Itaú Cultural ou o Sérgio Motta uma vez fizeram até uma premiação específica para curadoria de links. O Tumblr funciona muito dentro dessa lógica, com os usuários republicando (ou seja, fazendo uma filtragem) daquilo que mais os interessa. A grande comunidade de pornografia do Tumblr funciona basicamente assim, existem alguns blogs mais genéricos todo tipo de pornografia e a partir desses vários blogs temáticos vão filtrando e republicando somente o que se encaixa com seus perfis e suas análises de qualidade. É um tema que cheguei a começar a pesquisar para o meu artigo de pós-graduação mas depois o troquei por outro assunto.


Sobre o Music Alliance Pact. Quando e como surgiu o convite para participar desse projeto?

Eu atualizava um pouco uma versão em inglês do Meio Desligado e pesquisando sobre música brasileira o criador da MAP, um escocês, encontrou o blog. Na época tinha um brasileiro fazendo doutorado na Escócia tendo o Meio Desligado como objeto e imagino que isso tenha ajudado também. 


Você recebe muito material de divulgação de bandas? Como escolhe o que pode ou não entrar no Meio Desligado?

Recebo muita coisa no email do blog (não foi à toa que te pedi para enviar as perguntas em outro email, rs). É cansativo. E como tenho outras atividades que me demandam muito tempo, acabo fazendo uma leitura bem superficial do que chega. São praticamente três coisas que analiso nos emails, para me poupar tempo: 
1: O nome da banda. Se acho o nome da banda idiota, dificilmente vou ouvir. Se não conseguem sequer dar um nome interessante para a banda, o que esperar das músicas e das letras? Às vezes acabo deixando de conhecer algumas coisas boas, mas é raro. Demorei a ouvir o Macaco Bong, no início da banda, por exemplo, porque não gostava do nome. 
2. Anexos. Se enviam email com anexos pesados eu só não apago se for algo que realmente me prenda a atenção (alguma banda que já conheço e gosto, algum festival ou ação que ache interessante). 
3. Se o email foi enviado só pra mim ou estou em uma lista. Se a pessoa te manda um email direcionado, teve o trabalho de parar para te escrever algo, o mínimo que ela merece é um pouco de atenção. Já faz um tempo que não consigo dar um retorno pra esses emails, mas os que chegam diretamente pra mim quase sempre são lidos. 
Apesar disso tudo, é raro alguma pauta chegar até mim por email. Não faço agenda no blog e praticamente não dou notícias, a maioria dos emails é relacionado a isso - algum lançamento. É sobre isso que as outras pessoas estão escrevendo, então prefiro encontrar minhas pautas por conta própria, tentar criar conteúdo que considere relevante, em vez de mais do mesmo.


Você acompanha outros blogs de música? Quais? (Vale nacionais e internacionais)

Leio poucos blogs fixos. Tipo uma vez por semana (ou ainda mais espaçado) acesso o Hominis Canidae, Trabalho Sujo, Urbe (esses dois últimos d'O Esquema), o Lúcio Ribeiro, Miojo Indie. Nesses eu paro para ler o que está escrito. Mas diariamente acesso blogs aleatórios e não leio nada, só dou play nas músicas para saber sobre o que estão falando e na maior parte do tempo me decepciono. O melhor lugar pra conhecer música, pra mim, é no Deezer e nos blogs da Music Alliance Pact. Cada vez que entro em um dos blogs da MAP isso acarreta em no mínimo umas 10 bandas novas pra ouvir, porque pesquiso sobre elas, ouço artistas da região delas, coisas do tipo. Ah, e de vez em quando leio a Pitchfork também, mas é mais pra rir do tanto de porcaria que eles supervalorizam. 


Qual a sua opinião sobre o jornalismo musical diante das novas mídias? E sobre a blogosfera de música? Quais aspectos positivos e negativos você considera?

Acho que as pessoas que estão nesse meio não pensam muito em explorar o formato. Alguns sequer parecem pensar no conteúdo, mas vejo que alguns escrevem super bem, têm textos mais elaborados, mas se você estivesse lendo em outro suporte, a diferença seria mínima. 
E tem uma coisa que me incomoda muito, que é a forma como utilizam as redes sociais. O sujeito faz uma notícia informando que a banda X foi confirmada em tal festival. Em vez de o imbecil tweetar que "a banda X vai tocar no festival tal" ele escreve "saiba quem é a nova banda confirmada no festival tal". Pra que isso? É uma bobagem fazer esse tipo de coisa pra ganhar uns acessos adicionais. O Twitter pode funcionar por si só. Se você consegue passar a informação em poucos caracteres, faça isso e deixe o link para quem quiser informações adicionais, não use as redes sociais apenas como caminho. 


Quais dicas você daria para alguém que tem um blog e quer ganhar relevância na web?

Não desista. 


Se você pudesse definir o Meio Desligado em algumas músicas ou uma banda, quais seriam?

Não dá. O máximo que consigo é relacioná-lo a algum festival, como o Eletronika e o Escambo (festival que produzi em Sabará através do coletivo Fórceps e que já teve bandas como Black Drawing Chalks, Macaco Bong, Transmissor, Dibigode, Marcelo Jeneci, Emicida, Constantina, Cabruêra, Flávio Renegado e outros). O Eletronika tem esse conceito da música experimental junto com a música mais de entretenimento, da tecnologia e da cultura digital, temas diretamente ligados ao blog. 

Você nasceu e mora em Minas Gerais? Quantos anos você tem?
Nasci em Sabará, uma cidade histórica ao lado de BH, mas vivi meus primeiros 10 anos em outra cidade, a uns 100km da capital. Depois disso, voltei pra Sabará e moro em BH há algum tempo. Tenho 26 anos.

31 de julho de 2013

Jornalismo cultural, internet e Meio Desligado

Demorei para responder a entrevista da Aline Ruiz, estudante de jornalismo que está fazendo seu trabalho de conclusão de curso sobre o tema "As redes sociais e a internet como canal de divulgação de produtos culturais: o espaço da música independente", mas aí estão as respostas que enviei para tentar ajudar no projeto dela.

Observação: os vídeos não são da entrevista, mas os temas estão relacionados.

Jornalismo cultural e internet

Atualmente, como você descreve o jornalismo cultural na mídia tradicional e nos blogs?

Para falar a verdade, eu quase não "leio" blogs sobre música e cultura. No geral, visito alguns blogs e dou play nos vídeos ou nas músicas e vou ler outra coisa. A maioria dos blogs mais atualizados que acompanho têm o texto ruim (nem tanto na questão gramatical, mas principalmente de sentido), escrevem superficialidades que não me interessam. Prefiro focar no que me interessa - no caso, aquela determinada música que estão apresentando aos leitores - e fazer outra coisa simultaneamente. Então, é um pouco difícil eu opinar sobre o jornalismo cultural na web atualmente.

Na mídia tradicional, sinto que é praticamente a mesma coisa desde quando comecei a me interessar por jornalismo cultural, com a diferença da música independente ter maior abertura agora e uma quantidade muito maior de conteúdo online publicado pelos veículos "tradicionais" (e ainda entra aquela questão da velocidade das informações). 

Você acha que a internet afetou um pouco o jornalismo cultural da mídia tradicional?
Sim. Tanto em relação ao que será escrito/gravado como em questões mais estéticas, como diagramação e edição, sem contar que a facilidade de acesso à informação afeta também o jornalista no momento de apuração e redação, uma vez que suas referências podem ser bem maiores agora e demandam menos esforço do que sem internet.

Como você caracteriza essa transição do jornalismo cultural das mídias tradicionais para a internet, no caso, para os blogs?
Hibridismo. Ou multidisciplinaridade. 

Na sua opinião, a internet ‘melhorou’ o jornalismo cultural atual? Por que?
Acredito que a internet potencializa o jornalismo cultural, no sentido de que dá maiores possibilidades em relação ao que pode ser feito. Se o resultado será melhor ou pior, depende mais de quem efetua a ação do que do meio utilizado.

Na sua opinião, a música independente continua ‘invisível’ para a mídia tradicional? Visibilidade é algo que elas (bandas) só encontram na internet mesmo?
Não. Eu não só escrevo sobre bandas independentes como trabalho com elas de diferentes formas e as vejo na Folha de S. Paulo, no O Globo, no Estadão, na Rolling Stone, enfim, nos principais veículos do Brasil. Na internet existe mais material sobre essas bandas, mas há uma inserção crescente desses artistas nos grandes veículos.


Meio Desligado

Por que Meio Desligado?
A ideia era que "se você está meio desligado, esse blog é um lugar para se ligar no que está acontecendo". Não é bem um slogan (porque seria um slogan muito ruim), mas resume a ideia. O endereço original do blog era nemparece.blogspot.com, era uma piada com o título, tipo "nem parece meio desligado".

Como é realizado o seu trabalho no Meio Desligado? Escolhas de pautas, bandas para falar a respeito, etc?
Atualmente varia muito. Às vezes é algo que percebo durante algum trabalho (como nos casos de posts sobre fotos de bandas e empreendedor individual), pode ser desdobramento de alguma coisa que li ou ouvi por aí, alguma conversa na rua, algo que senti durante algum show... o que menos gera conteúdo pra mim é release (apesar de serem cruciais quando já tenho uma ideia sobre a qual escrever).

O Meio Desligado tem impacto sobre as bandas que divulga? Tem exemplo de alguma banda? Se sim, qual?
Vejo as banda usando citações de textos do blog no release, recebendo convites pra shows ou até mesmo pra uso comercial de suas músicas a partir de publicações aqui.

Qual é o diferencial do Meio Desligado?
Eu não me pauto pelo que os outros blogs estão publicando e raramente por algum release recebido. Tento escrever sobre o que os outros não estão falando ou ao menos dar outra perspectiva ao assunto. Nem sempre consigo, mas é bom relembrar quais são os objetivos. =D

Qual a opinião das bandas a respeito do blog e do seu trabalho?
Acho que a maioria queria que eu escrevesse mais sobre bandas, mas imagino que gostem ou ao menos respeitem um pouco. Afinal, recebo no mínimo 20 releases por dia, isso deve significar que estar no Meio Desligado represente algo positivo para o artista.

E o seu público? Qual o papel deles no blog e qual a importância dessa participação?
Já pensei em parar algumas vezes, mas sei que teria a necessidade de escrever e continuar mesmo que ninguém lesse. 
Os leitores já foram mais ativos no Meio Desligado. Costumavam contribuir mais na construção coletiva em torno de um post. Atualmente, a interação costuma se resumir a compartilhamentos nas redes sociais, algum elogio ao artista comentado. Acredito que é um pouco de mudança de hábito dos leitores e resultado do conteúdo que crio, mas não tenho interesse algum em criar enquente ou tentar ser polêmico apenas pra mostrar que as pessoas estão lendo o blog. Saber que as pessoas estão acessando o que você cria é um dos maiores estímulos para continuar. 

26 de março de 2013

Entrevista sobre a cena independente e mídias digitais

Alguns estudantes do curso de Especialização em Mídias Digitais do SENAC/SP estão fazendo uma pesquisa sobre "novas formas de produção e divulgação de música através das mídias digitais" e entraram em contato para conversarmos sobre o assunto. Respondi algumas perguntas para eles, conforme você pode ler abaixo.

Como você situa a produção musical independente nos dias de hoje?
Ela é a maior parte do que se produz mundialmente. Antigamente as grandes empresas de música estavam focadas em vender muito mas de poucos artistas (a lógica inversa da cauda longa, criando poucos grandes astros mas que rendem muito), mas até mesmo elas estão cada vez mais ligadas no que acontece no meio independente agora, pois é a cena mais efervescente, com mais novidades (e, por isso também, com potencial de lucratividade).

O que está dando certo?
As bandas estão alcançando um público maior e com menos custo pra que isso aconteça.

O que não funcionou?
A sustentabilidade na cena independente ainda é muito difícil e o mercado precisa se desenvolver. É preciso formar mais público e profissionais que atuam nesse mercado, assim como se aproximar mais da iniciativa privada para captar recursos para a cena independente.

No seu blog você compilou um manual para a divulgação de bandas independentes, utilizando as plataformas digitais e as mídias sociais. O quão importante hoje é o ambiente digital no sucesso de uma banda/músico?
É através dessas plataformas que a maioria dos artistas chega ao público. Se dependessem exclusivamente de gravadoras e veículos tradicionais de mídia, a difusão de suas obras seria extremamente limitada. A divulgação online é essencial. Mesmo que o próprio artista não disponibilize seu material online, à medida que ele atingir um público interessado sua transposição pro ambiente virtual é quase que natural atualmente.

No contraponto com a estrutura de produção tradicional das gravadoras, o que as iniciativas digitais trazem de diferencial? E o que não funciona?
No ambiente digital são todos produzindo para todos, em vez de alguns detentores dos meios de produção e distribuição definirem o material a ser difundido. Aumenta a produção e, consequentemente, a competitividade e a dificuldade em se destacar em meio ao grande volume disponível.

As plataformas digitais podem ser importantes em outros aspectos? Quais?
O meio digital influencia toda a cadeia produtiva da música. Do empresário que se organiza e fecha shows através da internet às ferramentas de produção e pós-produção acessíveis via web, passando aí pelo cara que aprende a tocar algum novo instrumento pela web (ou cujo próprio "instrumento" tocado é virtual) ao público que compra os produtos da banda e o ingresso do show virtualmente. As possibilidades são inúmeras.

Você apontaria tendências nesse cenário?
O fim do download. As conexões estão cada vez mais rápidas e o volume de músicas disponíveis para audição online não para de crescer. Os números de celulares conectados 24 horas à internet também cresce sem parar. Nesse contexto, se a música está disponível online à qualquer momento, em qualquer lugar, não faz sentido o armazenamento de arquivos da forma como estávamos (ou estamos) acostumados.

Você acha que é possível viver de música hoje? Como?
Claro! É dificil, mas claro que é possível. O que eu percebo trabalhando nesse mercado é que a maioria dos músicos, para sobreviver somente da música, é obrigada a tocar com mais de um artista. Eles geralmente possuem seus trabalhos autorais mas para ter uma renda melhor precisavam trabalhar como músicos de apoio de outros grupos e em gravações de estúdio.

Com tantas ferramentas de produção, onde se situa a figura tradicional do produtor musical? Acredita que esta função tende a desaparecer?
O produtor vai muito além de saber utilizar as ferramentas, é um cara que geralmente tem um grande conhecimento musical, muitas referências e ideias a aplicar ao som da banda. Varia de acordo com a proposta de cada banda, mas não vejo risco para essa função. Uma coisa é se ter alguém que saiba operar tudo, um bom engenheiro de áudio, outra coisa é ter um produtor que entenda a proposta da banda e capte o que ela tem de melhor, que explore seu potencial.

10 de março de 2012

Entrevista sobre blogs, jornalismo cultural e o Meio Desligado

A Izabela Linke é uma estudante de jornalismo em BH e fez uma entrevista comigo no final do ano passado, parte do seu projeto de conclusão de curso. Como de costume, segue abaixo o que respondi para ela. Sempre tento publicar essas entrevistas e divulgar os trabalhos acadêmicos relacionados como tentativa de ampliar o acesso ao conhecimento produzido no meio acadêmico (que muitas vezes fica limitado ao ambiente das próprias instituições de ensino).

- Sobre o Meio Desligado:
Como você descreveria a relação atual entre jornalismo cultural e blogs?
Blogs são uma forma simples e prática de publicar conteúdo, bastante acessível. Acho que o ponto em comum com a abordagem de temas relacionados à cultura é essa facilidade. É muito mais fácil alguém se interessar em escrever sobre música, moda e generalidades de cultura pop do que tratar de outros temas mais complexos.

Onde o Meio Desligado se situa nesse contexto? O que caracteriza o blog nesse meio?
Tento experimentar no formato. Nunca trabalhei em outra mídia a não ser a internet, então não tenho os vícios dos jornalistas que construíram suas carreiras no rádio, na TV ou no impresso. Acho que isso e a consciência de que é importante usar o potencial multimídia da internet facilita explorar o potencial desse meio. Escrevo somente sobre música brasileira e cultura digital, então isso define o Meio Desligado nesse grupo. Acredito que a cultura digital seja uma das partes mais importantes da cultura contemporânea.

Como se seleciona o que é pauta para o blog e o que não é? Quais os critérios de avaliação de uma banda para ela figurar no blog?
Existe muita coisa sendo produzida e pouco tempo para acessar tudo. Meu foco é o que acho mais relevante para as pessoas conhecerem. Se há tanta coisa para fazermos, não quero perder tempo escrevendo sobre coisas que acho irrelevantes ou medianas. No início, publicava muitas críticas negativas à bandas, mas resolvi dedicar meu tempo a destacar o que acho mais interessante e que deveria ser conhecido por mais pessoas.

Para você e para o blog, o que se caracteriza como Música Independente?
No geral, música independente é toda a produção musical feita por artistas fora de grandes gravadoras, só isso. É muito abrangente, então, no Meio Desligado, além de falar somente desse tipo de artista, resolvi focar na música alternativa brasileira. Isso significa abordar artistas que experimentam sonoridades, que possuem singularidades em seus trabalhos e não possuem grande espaço na mídia.

O Meio Desligado tem impacto sobre as bandas que divulga? Quais? Tem exemplos?
O impacto mais óbvio é que as bandas se tornam mais conhecidas e isso pode resultar em mais público nos shows e mais produtos vendidos. Alguns textos podem contribuir para que consigam fechar shows e até mesmo contratos comerciais (uma banda teve uma de suas músicas em um comercial depois que escrevi sobre eles e indiquei a banda). Outras bandas passam a usar trechos do que foi escrito sobre elas no blog em seus releases.


O que é mais relevante/qual o diferencial do seu blog?
Quando vou escrever algo, penso "Já escreveram isso por aí? Se já, vou acrescentar algo?". Se a resposta for negativa, simplesmente não escrevo. Seria perda do meu tempo e do leitor. Isso é um diferencial, mas também acho que um ponto relevante é a tal da "experimentação de linguagem" que em algum texto sobre o blog eu abordo. Tipo, já rolou agenda cultural em formato de conto, cobertura de evento só com comentários publicados por leitores, curta-documental que fiz com o celular para registrar eventos... e tem também essa mistura de formatos, dos relatos pessoais misturados no meio. Acredito que isso torna o conteúdo mais vivo e o torna diferenciado. Quem frequenta o blog passa a me conhecer também. Além de se informar e descobrir coisas novas, é um interesse em saber uma opinião específica sobre temas específicos.

Como é o leitor do Meio Desligado? Caracterize-o. Qual o papel dele no blog?
É jovem, mas não adolescente, principalmente do sudeste e do nordeste. O leitor é fundamental para o blog, uma vez que sem ele não haveria motivos para publicar o conteúdo. Um blog sem leitores é o mesmo que um caderno de anotações na gaveta. Em termos funcionais, um dos papeis do leitor também é a correção do material publicado, por incrível que pareça. O público tem papel fundamental em revisar o material final. Às vezes algum link ou informação no texto está errada e logo chega alguém dando o toque para corrigir. Alguns também enviam coberturas fotográficas de eventos, acho interessante e me identifico mais com isso do que com a colaboração textual, uma vez que agora (depois de cinco anos de existência) o Meio Desligado tem uma identidade nos textos ligada ao meu tipo de escrita.

Como você acha que o blog é visto pelos leitores? E pelas bandas e artistas independentes?
Recebo poucos xingamentos e as ameaças de me baterem na rua quase pararam, então imagino que leitores e bandas estejam gostando do blog. Os acessos também têm crescido a cada mês e sempre recebo dezenas de emails e tweets de bandas apresentando seus trabalhos, é algo positivo.

- Jornalismo cultural e internet:
Como é fazer jornalismo cultural pra blog? É passível de comparação com a mídia tradicional? Existem semelhanças, distinções? Quais?
A autonomia, a praticidade e o potencial multimídia são diferenciais importantes no jornalismo cultural em blogs. Não dá para pensar somente no texto quando se trabalha na internet. Você tem que contextualizar as informações de forma que interesse ao leitor do blog, pensar nos links, pesquisar se há algo disponível para download que complemente a publicação etc. Do meu ponto de vista, ao mesmo tempo em que é mais acessível publicar na internet, criar conteúdo interessante é mais difícil do que nas "mídias tradicionais", até porque a atenção do leitor/usuário está sendo muito disputada enquanto ele lê o blog. Provavelmente está no Gtalk/Skype com alguém, uma aba aberta com o Facebook, o email em outra e o Twitter pipocando a cada instante. Se o seu conteúdo não se destacar você passa despercebido.

O jornalismo cultural tem coberto de forma satisfatória a música independente? Tem espaço? Se não, quais seriam possíveis soluções?
Melhorou demais em relação ao fim de 2006, quando o blog foi criado. Ainda tem pouca gente que saiba ao menos expressar suas ideias de forma satisfatória, mas já dá para encontrar muito mais informações sobre essa cena (não apenas no sudeste, o que é muito importante).


Para onde você acha que tem caminhado o jornalismo cultural em tempos de internet, onde todos podem ser produtores e receptores? Na sua opinião profissional, para onde deve caminhar o jornalista cultural, qual mudança deve ocorrer em seu papel e sua prática para acompanhar os novos tempos e espaços?
Não concordo com a ideia de que o jornalista cultural da atualidade deva ficar conectado o tempo todo ligado no Twitter, Facebook e acompanhando dezenas de blogs. É importante que alguns sejam assim, mas deve haver espaço para todos, para diferentes abordagens da produção cultural. Se todo jornalista cultural fosse como o Alexandre Matias no Trabalho Sujo, por exemplo, seria uma porcaria, uma grande quantidade de informação não necessariamente relevante sendo produzida. Acredito que o excesso de informação é algo que deve ser evitado.

Quadrinhos do Malvados.

28 de junho de 2011

Emicida, garoto-propaganda do Itaú (e do Sonho Brasileiro)


Pode se preparar: a polícia indie e os hipócritas do "rap de raiz" (algo quase que necessariamente relacionado à pobreza e, parece, determinado a nela permanecer) vão torcer o nariz e reclamar (mais) sobre o Emicida, agora que o rapper paulista estrela uma nova campanha do Banco Itaú. O vídeo faz parte do projeto "O Sonho Brasileiro", resultado de pesquisa de mesmo nome realizada pela Box 1824 com jovens brasileiros entre 18 e 24 anos, com patrocínio do Itaú e Pepsi.

É louvável que empresas desse porte apoiem projetos como esse, mesmo usando o discurso ativista/engajado como forma de aproximação com seus potenciais clientes. O que importa, acima de tudo, é que algo relevante foi produzido e que registra o momento do país - seu potencial, expectativas e incertezas de sua população jovem (hoje, cerca de 26 milhões de pessoas).

O site da pesquisa é bastante completo, com informações interessantes sobre como o jovem brasileiro se posiciona em relação ao país, seu futuro, suas relações interpessoais e outros temas. Destaque para a boa abordagem da cultura digital e as transformações que exerce em nossa cultura. A navegação pelo site é altamente indicada, mas demanda boas horas que podem render produtivas reflexões. A pesquisa também pode ser baixada em pdf, por completo, ou de acordo com os tópicos de seu interesse.



"A hiperconexão gera continuamente novos arranjos, combinações e oportunidades. Jovens preferem aproveitar as possibilidades atuais à medida que elas se apresentam do que viver como reféns de um futuro incerto. Por isso, passam a viver muito mais o processo do que focar num fim determinado para suas ações, e não veem mais sentido em planejar futuros rígidos a longo prazo.

As possibilidades infinitas dão espaço para a criação de um “eu” mais ‘multivíduo’ do que ‘indivíduo’. Jovens enxergam que a cultura global não anula as particularidades locais, mas, pelo contrário, cria um espaço mais amplo onde manifestações distintas podem dialogar e realizar trocas.""

 Manifesto do projeto  
Nos arriscaríamos aqui a uma conclusão simples. Como diz Zygmunt Bauman “já não temos uma noção clara de destino”. Diferente da modernidade clássica, não sabemos mais o que exatamente é progresso, onde exatamente devemos chegar. A pluralidade do mundo é tanta que parece ser tolo querermos ter um destino exato.  
Diferente do Sonho Americano que propõe sempre uma vitória, avistando uma sociedade rica que compartimenta a diversidade e as diferenças em seus lugares próprios, o Sonho Brasileiro não parece buscar um destino exato, mas celebrar o próprio caminho. Aos moldes dos nossos ‘Jovens-Ponte’ o Brasil parece ser também uma ponte. Uma ponte entre o novo e o velho, entre a natureza e o homem, entre o lazer e o trabalho, entre um povo e outro, entre um tempo e outro.  
Uma ponte é também um caminho. Um caminho que conecta pontos, às vezes, separados por abismos. Não somos um país que luta por um ponto de chegada. Nosso Sonho não fala de uma Terra Prometida. Mas de um lugar onde já estamos. Um fluxo. Uma procissão constante. Um caminhar festivo onde o prazer do caminho, do movimento e da festa são o próprio Destino.  
E nos parece que não só o Brasil precisa desta consciência, mas também o Mundo como um todo. A consciência de que precisamos de muitas pontes. E a consciência de que o Brasil é um país ponte.

Observação: se é que você não percebeu, usei o mote do Emicida para chamar atenção para a pesquisa, que é muito mais interessante e pertinente do que comentários idiotas sobre um rapper da periferia estrelar um vídeo de uma empresa bilionária. 

Se o Rap tem algo de transgressor desde sua origem, esse mesmo espírito o capacita a não estabelecer regras e utilizar do próprio "sistema" para reforçar seu discurso - como o faz aqui, Emicida.

23 de março de 2011

Ferramentas de produção colaborativa na internet aplicadas à produção cultural

Um estudo de caso a partir da experiência do festival Grito Rock 

Aproveitando que hoje o festival Grito Rock chega a Nova York, achei propício finalmente publicar por aqui o artigo que escrevi (às pressas) para a conclusão da minha pós-graduação em Produção em mídias digitais, no qual analiso o processo de produção do evento. Esta foi uma das pesquisas que apresentei no final do ano passado no Fórum da Cultura Digital e que até então não estava disponível na internet.

Para saber mais sobre o Grito Rock 2011 sugiro a leitura deste texto e uma boa navegada pelo site oficial do festival. Abaixo, o pdf com o artigo completo está acessível para leitura e download e, na sequência, publico as duas primeiras partes do artigo.

Introdução

Entre janeiro e fevereiro de 2010, o festival musical Grito Rock foi realizado simultaneamente em 82 cidades (78 no Brasil, 4 em outros países da América do Sul: Argentina, Bolívia e Uruguai), envolvendo mais de 500 atrações musicais, cerca de 800 pessoas em sua produção e alcançando público estimado de 25.000 pessoas. A maioria dos shows teve seu áudio transmitido em tempo real através da internet e, posteriormente, foram lançados bootlegs (na maior parte dos casos), e coletivamente através da internet, unindo pessoas de diferentes regiões e que na maior parte dos casos sequer se conheciam pessoalmente.

Desenvolvido pela rede intitulada Fora do Eixo, o Grito Rock é exemplo da execução de um trabalho colaborativo em ambientes digitais através do uso de ferramentas de produção e distribuição de conteúdo com intuito de elaborar ações relacionadas a produção cultural (sendo que por “produção cultural” entenderemos todas as ações e etapas necessárias para a elaboração e execução de projetos e ações culturais). Seu processo de produção ocorre através da troca de informações entre os integrantes da rede Fora do Eixo na internet, baseando-se no uso de ferramentas gratuitas que possibilitem a criação e compartilhamento de conteúdo de forma não-linear e colaborativa.

Para se buscar entender e estudar possibilidades de ação no uso dessas ferramentas para diferentes projetos com fins culturais, através da atuação em rede, é necessário mais do que uma análise das funcionalidades ou características das ferramentas utilizadas. É preciso compreender o contexto em que são utilizadas, de que maneira isso ocorre, quais são os agentes envolvidos no processo e de que maneira estão conectados entre si. Para isso, o primeiro passo é entender o que chamamos de rede e em que se constitui a produção colaborativa em rede.

Redes sociais na internet

A figura de rede é utilizada como metáfora para ilustrar as relações sociais na sociedade moderna, podendo representar uma nova forma de organização social (Castells, 1999) e a dinâmica de funcionamento das novas técnicas de comunicação (França, 2000). Conforme escreve França, a metáfora da rede “permite interpretar a funcionamento da sociedade e traduzir a dinâmica dos processos comunicativos”, servindo para analisar a interconexão de elementos e processos comunicacionais que constituem a troca de informações e construção de sentido entre indivíduos.

Uma rede social pode ser definida como a junção de atores (pessoas ou grupos, agentes da ação, os nós da rede) e suas conexões (interações) (Wasserman e Faust, 1994; Degenne e Forse, 1999), ressaltando o caráter de reciprocidade entre os elementos que a constituem. Aplicadas ao meio digital, as redes sociais na internet constituem estruturas sociais através da utilização de ferramentas de comunicação mediada por computador, gerando fluxos de informação e trocas sociais, sendo definidas pelas conexões entre os indivíduos e a forma através da qual ocorre as trocas de informações entre eles (Recuero, 2009).

Em uma rede social na internet, um nó pode ser definido como um indivíduo em si ou por sua representação através de um produto resultante de sua atuação na internet, como um blog ou um perfil no Twitter (Recuero, 2009). Em alguns casos, no entanto, vários atores podem agir na construção de um mesmo nó, em ações como um blog coletivo.

23 de fevereiro de 2011

Meio Desligado é tema de pesquisa acadêmica

Está disponível na internet a pesquisa de graduação no curso de jornalismo realizada pelo Marcelo de Franceschi sobre o Meio Desligado. Marcelo se formou no fim de 2010 na Universidade Federal de Santa Maria, no Rio Grande do Sul, e fez a monografia intitulada "Permissão para copiar: mapeamento da circulação de posts do blog jornalístico Meio Desligado".

Ainda não consegui ler todo o material com atenção, mas fico extremamente feliz em saber que, além de informar as pessoas, contribuo de alguma forma para a construção de conhecimentos mais aprofundados sobre comunicação e mídias digitais no Brasil.

Você pode ler uma entrevista que capta parte do processo de pesquisa que resultou na monografia ou ir direto ao material final, que disponibilizo abaixo.
 

7 de novembro de 2010

Meio Desligado e a construção de conhecimento (acadêmico)

Ultimamente tem crescido o número de pessoas que entra em contato comigo, Marcelo Santiago, para colaborar com pesquisas acadêmicas relacionadas à internet e cultura. São projetos focados em disseminação de informação cultural em blogs, divulgação de bandas em mídias independentes, etc. É extremamente gratificante saber que este humilde blog (com ocasionais ataques de prepotência irônica) pode contribuir para que pesquisadores de diferentes regiões do país, ou até mesmo do exterior, desenvolvam seus trabalhos de forma a registrar e refletir sobre o momento que vivemos.

O Marcelo De Franceschi, do Rio Grande do Sul, é um desses pesquisadores. Sua pesquisa envolve blogs jornalísticos que estejam sob licenças Creative Commons e desde junho deste ano trocamos emails e dados (apesar de eu constantemente não conseguir atender à demanda dele nos prazos ideais).

Publico aqui uma das últimas (e maiores) entrevistas que ele fez comigo e que talvez interesse também a outras pessoas. E que venham mais!

Blog e seus derivados

Por que criou o blog? Por que escolheu o sistema Blogger?
Resumindo muito: queria fazer algo relevante na internet em vez de ter mais um blog sobre cultura pop e bobagens para entreter as pessoas. Percebi que havia uma movimentação crescente na cena musical independente e não existia nenhum blog dedicado totalmente a essa cena. Além disso, quando outros blogs e jornalistas citavam bandas indie nacionais, na maioria dos casos exaltavam bandas que eu considerava (e ainda considero) ridículas ou falavam das bandas dos amigos, coisas do tipo. Eu pensei: "é por causa desses idiotas que o público em geral acha que não existe bandas independentes boas". Por isso criei o Meio Desligado, para fazer uma análise mais crítica dessa cena, sem ter rabo preso com ninguém, sem medo de experimentar.

Fiz no Blogger porque já conhecia a plataforma e porque achava o Wordpress muito limitado para quem não tivesse uma hospedagem própria. Como minha intenção era (e continua sendo) usar serviços gratuitos na internet, o Blogger me pareceu a melhor opção.

Por que não usa um Twitter específico para o blog e outro pessoal?
Durante muito tempo tentei não relacionar o blog à minha pessoa, mas como todos os outros integrantes participavam pouco e não encontrava pessoas interessantes e interessadas na proposta, o Meio Desligado foi ficando cada vez mais ligado a mim. Como muita gente já me conhecia como "o Meio Desligado", resolvi assumir de vez a alcunha.
Acho mais interessante desse jeito, creio que aproxima o público de quem está por trás das informações que estão lendo. Sem contar que muita coisa da minha vida particular se mistura com o tema do blog e seria bastante confuso separar o que publicar em cada perfil (pessoal e "institucional").

Por que decidiu utilizar Tumblr?
Comecei a usar o Tumblr por achar interessante a integração que ele proporciona da agilidade e conectividade do Twitter com uma plataforma "tradicional" de publicação de blogs, como Blogger e Wordpress. Com o passar do tempo o Tumblr tem se mostrado uma das ferramentas mais versáteis e em constante transformação que conheço, mas o utilizo somente em projetos paralelos ou em trabalhos específicos que realizo, porque a indexação do conteúdo publicado nele é ruim nas ferramentas de pesquisa como Google e Yahoo!.

Recebe acesso de outros perfis teus em outras redes?
Sim. Muitos acessos do Meio Desligado têm origem no meu Twitter e no Facebook. Atualmente são as únicas redes que uso com frequência.

Quantos assinantes tem a newsletter?
Cara, não consigo acessar minha conta no Feedburner desde que ele foi comprado pelo Google há alguns anos. Na época, o blog tinha 179 assinantes, a maioria recebendo as atualizações diretamente em seus emails.

Tu utilizas de estratégias como comentar em outros blogs, divulgar em comunidades virtuais, listas de e-mails, ou usar de títulos que sejam mais fáceis de serem achados pelos buscadores?
De todas essas ações a única que pratico é relacionado aos títulos das publicações, mas principalmente às urls. Mesmo que um post tenha um título mais literário e menos factual, procuro criar urls que facilitem a indexação em ferramentas de busca. O post "Festival Goiânia Noise 2010: bandas confirmadas até o momento", por exemplo, tem a url meiodesligado.com/2010/10/festival-goiania-noise-2010-programacao.html
 
Acho intrusivo e chato comentar em outros blogs para se divulgar, odeio essa prática. Só acho válido quando a pessoa deixa o link para algo que publicou em seu blog e que esteja relacionado ao assunto do post em que está comentando, sabe? Se não for assim é só mais spam. Ninguém precisa de mais spam.
Antigamente enviava uma espécie de newsletters do blog, com resumos do que de mais interessante foi publicado no mês, mas parei por falta de tempo.
Como funcionam as festas do blog? Desde quando ocorrem, como surgiram?
Comecei a fazer as festas para trazer a BH artistas que considero interessantes e nenhum outro produtor trazia. A primeira festa aconteceu com a banda recifense Júlia Says em maio de 2008, se não me engano. A maioria das festas Meio Desligado aconteceu n´A Obra, reduto indie em BH. Como o público era bom, até me perguntaram se queria fazer com maior frequência, mas preferi fazendo poucas por ano, cerca de duas ou três. Assim consigo me dedicar mais a elas.

Entre as bandas que já tocaram nessas festas estão Black Drawing Chalks, Camarones Orquestra Guitarrística, Jair Naves e Fusile. Uma coisa engraçada é que no fim de 2009 eu tinha uma festa marcada com duas bandas legais e poucos dias antes de iniciar a divulgação as duas tiveram que cancelar por motivos diversos. Em vez de convidar outra banda, montei a minha própria, rs. Aí teve origem a Fanfarra dos Funcionários da Embaixada Colombiana, um aglomerado (meio no sentido "favela" do termo) de músicos locais (gente de bandas como UDR, Fusile, Grupo Porco de Grindcore Interpretativo, FadaRobocopTubarão, Esquadrão Relâmpago Monster Surf, entre outras) tocando punk rock com alguns toques latinos. Acabou sendo uma das melhores noites que já vi na cidade, mais de 10 pessoas  na banda (incluindo aí gente que eu nem conhecia) com microfone na mão, subindo no palquinho da Obra e tal. E no final ainda rolou um karaokê punk que também foi super divertido. Agora a ideia é juntar a Fanfarra pra fazer apenas 1 show por ano em cada cidade, sempre com uma formação diferente.


Desde quanto tem instalado o Google Analytics? Por que? Costuma monitorar com frequencia os acessos?
Alguns dias após criar o Meio Desligado instalei o Analytics. Desde então, somente por alguns dias os acessos ao blog não foram contados porque fiz alterações no código do blog e acabei esquecendo de voltar com o código de rastreamento do Analytics. 
Ter uma ferramenta que analise seus acessos é crucial para o desenvolvimento de uma ação desse tipo na internet. É através dela que posso ter noção de quem são as pessoas que acompanham o blog, onde elas estão, o que tem chamado mais atenção, como elas conhecem o Meio Desligado, etc. A internet é o único meio que permite esse controle, esse conhecimento sobre sua audiência.

Depois de alguns anos parei de ler os dados de acesso do blog pois eles acabavam me influenciando para escrever sobre os assuntos que geravam mais acessos. Agir dessa forma seria repetir uma estratégia que repudio que é focar seu conteúdo no que gera mais acessos, não naquilo que considero mais interessante. Veículos comerciais podem agir dessa forma, mas não há sentido que a mídia independente se guie pelos mesmos parâmetros.

Nota alguma participação do público na divulgação dos posts? Não só no Twitter mas em algum outro site  (Facebook, Orkut)?
Principalmente no Twitter e Facebook. Praticamente não uso Orkut e muitos acessos têm origem lá, então as pessoas estão divulgando o blog por lá.


Conteúdo


Como tu seleciona o que vai ser publicado? Costuma consultar fontes por e-mail ou telefone? 
Acho que nunca liguei pra uma fonte! Isso é muito anos 90, rs. Falando sério, é tudo pela internet: email, redes sociais, serviços de mensagem instantânea. E muita coisa acontece presencialmente também, claro.

Pra selecionar o que vou publicar, acho que as coisas básicas em que penso são:
- está na linha temática do blog?
- centenas de blogs vão escrever sobre esse mesmo assunto específico? E, se forem, posso abordar de forma mais interessante, mais relevante, mais profunda?
- quem acompanha o blog precisa saber disso em detrimento de outras coisas que deixarei de publicar para me dedicar a esse assunto?

Considera teus posts mais opinativos ou mais informativos?
Opinativo informativo. Posts diferentes tendem para lados diferentes. Essa é a vantagem de ter um blog: liberdade.

Como funcionava a versão em inglês? Ainda recebem acessos da versão em inglês? 
Ela está sendo reformulada e volta em formato diferente em 2011, se tudo der certo. Antigamente ela deveria funcionar como um resumo do que foi publicado na versão em português, mas a falta de tempo para traduzir tudo sempre foi um grande empecilho. Não confiro seus acessos, mas continuava a ter público vindo de ferramentas de busca.

Publica os textos em outros espaços na internet?
Já escrevi muita coisa no Overmundo e colaborei em outros blogs e sites, mas atualmente o que escrevo sobre música independente brasileira é direto para o Meio Desligado.

Recebe muitos comentários?
Eu usava uma ferramenta pra contar o número de comentários, mas parou de funcionar. Sei que desde o começo do blog são mais de 2 mil, mas considero o número de comentário baixo. Percebo a mesma coisa em outros blogs. Na maioria dos blogs que usam o Wordpress, por exemplo, se você olhar nos comentários a maioria deles se refere às vezes que aquele post foi citado no Twitter (tem um plugin pra isso). Se eu usasse um plugin como esse no Meio Desligado o número de comentários saltaria pra uns 5 mil, mas acho que isso mais polui do que agrega informação relevante ao blog.

Uma coisa que percebo é que alguns anos atrás, até mesmo em outros blogs que tive, muita gente deixava comentários como "massa!", "legal", coisas do tipo. Agora isso diminuiu, mas é pequeno o número de pessoas que realmente participam da construção de conhecimento através dessa ferramenta. É claro que muita coisa boa vem dos comentários no Meio Desligado, correções, sugestões, dicas e tal. Até mesmo elogios e críticas são super bem-vindos. Mas, se analisarmos de forma mais geral, é uma pequena parcela dos "leitores" que perceberam que as informações que publicam ali podem resultar em transformações no conteúdo final.

Já recebeu propostas de patrocínio, como espaço publicitário ou anúncios no blog?
Já recebi grana e produtos para comentar ações específicas, como ganhar alguns tênis para falar de uma revista, ganhar uma grana pra falar de uma ação promocional de uma empresa e tal, mas pouca coisa. Mas sempre que isso rola tento deixar bem claro que se trata de uma ação promocional e não publico as informações do jeito que me enviam. Posso escrever sobre o produto deles, mas será através do meu ponto de vista.


Creative Commons

Por que colocaram o conteúdo sob licença Creative Commons?
Desde 2005 estudo o Creative Commons e diferentes aspectos da cultura digital. Acredito que o Creative Commons é uma importante ferramenta para a democratização do acesso à informação.

Por que aquela licença e com aquelas condições?
A licença usada no Meio Desligado é a de Atribuição-Uso não-comercial-Compartilhamento pela mesma licença, porque é uma forma de garantir que o conteúdo que produzo continuará livre e mantém o respaldo de que sua exploração comercial permanecerá sendo minha (ou de seu respectivo autor).

Que tipo de duvidas já receberam sobre o sistema de licenças?
No início muita gente não entendia o que era o Creative Commons, me perguntava até na rua o que era isso. Agora há tanta informação sobre isso, inclusive no MD, que já faz um tempão que ninguém me pergunta nada sobre isso.

O que mais acontecia era gente entrando em contato pra saber se podia republicar algum texto do MD no seu blog particular. Aí eu explicava o funcionamento do Creative Commons e passava o link pra licença usada no blog.

Já teve o conteúdo copiado e linkado? E não linkado? 
Já, vários posts foram republicados e linkados por aí., o que é muito legal. Somente uma vez descobri um moleque do interior do Rio de Janeiro republicando os textos do Meio Desligado como se fossem dele, mas o blog dele foi tirado do ar.

10 de junho de 2009

Mapa Musical

"Qual o tamanho da cena musical independente? Como o público conhece novas bandas? De onde vem esse público? O que as bandas pensam da cena e dos locais em que tocam?". Essas são as perguntas que norteiam a pesquisa Mapa Musical, realizada pela Agência Alavanca e a Identidade Musical.

A primeira parte da pesquisa é dedicada às pessoas que produzem conteúdo sobre a cena musical em sites, blogs e outros meios na internet e estará online até o dia 15 de junho.

Para quem mora em BH e região hoje é o último dia para se inscrever para a palestra com Tiago Barizon, da Identidade Musical, sobre produção musical. A palestra acontecerá na quinta-feira, dia 11, das 15 às 19 horas no Minueto centro musical (Rua Paulo Simoni, 54, Santo Antônio). O evento é gratuito e realizado pelo coletivo Pegada. Para se inscrever, envie email para coletivopegada@yahoo.com.br.

3 de maio de 2009

O mercado musical brasileiro em 2008

Se tivéssemos estilos de vida um pouco mais Amélie Poulain, valorizando as pequenas coisas da vida, todos os dias, ao acordar, agradeceríamos pela existência da internet, banda larga e programas de compartilhamento de arquivos. Afinal, sem eles a trilha sonora de nossas vidas seria extremamente mais chata, menos diversificada e nos custaria pequenas fortunas. Lendo o relatório anual da ABPD - Associação Brasileira de Produtores de Discos, "Mercado Brasileiro de Música 2008", esse é o primeiro pensamento que me vem à mente enquanto observo a lista de CDs e DVDs mais vendidos no ano passado, com nomes como Padre Fábio de Mello (responsável pelo CD mais vendido no Brasil em 2008, Vida), Padre Marcelo Rossi (com os dois volumes de Paz Sim, Violência Não entre os 10 CDs mais vendidos e também na lista de DVDs campeões de venda) e outros grandes nomes da música brasileira que nos dão orgulho de ser brasileiro: Claudia Leitte, Xuxa, Victor e Leo, Sandy e Júnior, NX Zero...

Além desses dados superempolgantes, o balanço da ABPD traz algumas informações interessantes, como a do crescimento de 6,5% no valor movimentado pelo mercado fonográfico brasileiro em 2008 (R$ 359,9 milhões) e o aumento na venda de CDs e DVDs na ordem de 4,5% em relação a 2007. O mercado de música digital, grande esperança para boa parte do mercado, apresentou o maior crescimento: 79,1% em relação a 2007 - bem à frente da média mundial no setor, de 25% no mesmo período.

Gráfico da venda de música digitalAtualmente o mercado digital representa 12% do faturamento da indústria fonográfica brasileira, seguido pela venda de DVDs, 27%, e CDs, que correspondem a 61% dos R$ 43,5 milhões faturados por esta indústria em 2008. Desse total, R$ 9,68 milhões (ou 22%) tiveram origem em vendas na internet e R$ 33,82 milhões (78%) através de telefonia móvel.

Foram vendidos 25,5 milhões de CDs e 5,8 milhões de DVDs musicais no Brasil em 2008, gerando, respectivamente, R$ 220,2 milhões e R$ 96,2 milhões. A música brasileira representa 74,5% desse total. É importante lembrar que os números de unidades de CDs e DVDs refere-se à venda ao varejo, o que não significa que todos esses produtos realmente chegaram ao consumidor final.

O documento completo está disponível para download no site da ABPD e é bem enxuto, podendo ser lido em poucos minutos. Vendo esses números imagino qual seria o verdadeiro número de álbuns que circularam durante esse período, não somente os que foram vendidos. Por exemplo, há seis anos não compro um CD e nunca paguei por um download, então nenhum dos 263 álbuns que ouvi em 2008 são incluídos em relatórios como esse, que é focado apenas na venda de produtos. Segundo a própria ABPD, cerca de 3 milhões de pessoas fizeram downloads de música no Brasil em 2005. Passados quase quatro anos, não seria exagero imaginar que esse número aumentou próximo de 50%, com a proliferação de lan houses e o crescimento dos pontos de acesso a internet com banda larga.

Lista dos 20 CDs mais vendidos no Brasil em 2008
1. Padre Fábio de Mello - Vida
2. Padre Marcelo Rossi - Paz Sim,Violência Não (Volume 1)
3. Victor & Leo - Borboletas
4. Victor & Leo - AoVivo Em Uberlândia
5. Ivete Sangalo - Multishow AoVivo No Maracanã
6. Padre Marcelo Rossi - Paz Sim,Violência Não (Volume 2)
7. Zezé Di Camargo & Luciano - Zezé Di Camargo & Luciano (2008)
8. Roberto Carlos - Roberto Carlos e Caetano Veloso e A Música de Tom Jobim
9. Ana Carolina - Multishow AoVivo “Dois Quartos”
10. Leonardo - Coração Bandido
11. Amy Winehouse - Back To Black
12. Ivete Sangalo - Perfil
13. Vários - A Favorita Sertanejo
14. Vários - High School Musical 3 (Regular)
15. Rihanna - Good Girl Gone Bad
16. Diversos - O Melhor Do Pantanal
17. Michael Jackson - Thriller (25th Anniversary Edition)
18. Diversos - Sambas De Enredo 2009
19. Daniel - Difícil Não Falar De Amor
20. Sandy & Júnior - Acústico MTV

Ps.: o link das "pequenas coisas da vida" foi uma piada, caso você não tenha percebido.

8 de janeiro de 2009

Pesquisa de opinião da Abrafin

A Abrafin - Associação Brasileira de Festivais Independentes está com um questionário eletrônico, desenvolvido em parceria com o Bruno Ramos, do Música e Mercado, para se aproximar e compreender a opinião do público em relação a suas ações, além de utilizar a pesquisa como guia para a atuação da associação em 2009.

São questões breves e de múltipla escolha, rápidas de serem respondidas, e que podem colaborar bastante para que a Abrafin evolua ainda mais em 2009. A ação faz parte de um projeto maior, que resultará em um relatório sobre a atuação da Abrafin e o circuito de festivais independentes em 2008, com previsão de publicação ainda no primeiro trimestre deste ano.

Acesse o questionário aqui.

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