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21 de agosto de 2012

Quanto vale a mú$ica?

Escrevi o texto que abre o nova edição da revista Overmundo, cuja temática era open business. A revista está disponível para download grátis em pdf e para iPad. Abaixo, minha matéria completa.


Festival de música independente em Goiânia adota modelo em que o público decide quanto pagar pelas apresentações das bandas – e faz sucesso!

Sexta-feira, 10 de Outubro de 2007. Inglaterra, Marrocos, Rússia, Brasil, Bolívia. Pessoas nestes e em quaisquer outros países com acesso à internet faziam o download de In Rainbows, sétimo álbum da banda britânica Radiohead. Mais do que um trabalho que, meses depois, estaria na maioria das listas de melhores álbuns daquele ano, tratava-se de um divisor de águas no mercado musical. Pela primeira vez, uma das maiores bandas do mundo lançava um CD de forma independente e cujo preço de venda era definido pelo próprio público (com a possibilidade, inclusive, de optar por não pagar nada para se obter a obra).

Domingo, 6 de Maio de 2012. Goiânia, Brasil. Centenas de pessoas reunidas no Centro Cultural da Universidade Federal de Goiânia para o último dia da 14ª edição do Festival Bananada, iniciado na semana anterior. Assim como no caso do Radiohead, o valor da entrada era definido pelo público. O diferencial é que, no caso do festival goiano, não contribuir com nenhum valor não era uma opção (e moedas não eram aceitas).

A evolução do modelo colaborativo na definição de preços para o acesso a bens culturais tem se dado de forma relevante nos últimos anos. No Festival Bananada, por exemplo, ela é resultado de um longo processo de mapeamento da cena, do trabalho pela formação de público e pela busca de formas funcionais de gestão de carreiras artísticas. Assim como o sistema de crowdfunding tem possibilitado a realização de ações colaborativas através do financiamento coletivo, o “pagamento 2.0” é outro elemento cada vez mais presente na lógica do mercado cultural contemporâneo. A nova geração de consumidores cresceu em meio às mídias digitais, com acesso fácil, rápido e, na maior parte dos casos, gratuito ao conteúdo que desejam. Entender as transformações nos hábitos de consumo do público e manter sustentável a cadeia produtiva é um dos desafios de produtores culturais em todo o mundo.

Fabrício Nobre é um desses produtores. Vocalista da banda de rock MQN, ex-presidente da Asso- ciação Brasileira de Festivais Independentes (Abrafin) e atual diretor da produtora A Construtora Música e Cultura, Fabrício é um dos responsáveis pelo projeto “Qto vale o show?”. A ideia é extremamente simples: a pessoa vai ao show, se diverte e, na hora de ir embora, dá uma nota para o que viu. Nota, no caso, literalmente. O julgamento da qualidade da apresentação presenciada é convertido em uma cédula de R$ 2, R$ 5, R$ 10, R$20 ou até mesmo R$50 e R$100. Ao sair, a pessoa também conta qual o show a levou ao evento, qual a sua apresentação favorita naquela noite. Do valor arrecadado, 80% é dividido entre as bandas que se apresentaram e o restante é destinado à gestão do projeto.


O procedimento de votação foi criado para descobrir quais bandas o público local tinha mais interesse em assistir e quais bandas precisavam investir mais na formação de público. Edimar Filho, produtor n’A Construtora, conta que, assim, descobriram que algumas bandas que afirmavam ter determinado número de pagantes garantidos em seus shows tinham, na verdade, público bem menor. “Entre 2,5 mil pagantes no Bananada, bandas que juravam ter muito público foram citadas por 50 pessoas. Descobrimos também, que, se a banda fizer o mínimo de esforço durante a semana nas redes sociais, isso resulta em um resultado melhor no bolso delas”, diz Edimar.

E o quando o assunto é cachê, a discussão é calorosa. Grande parte dos festivais de música independente no Brasil possui recursos escassos e os dedicam para custear despesas de estrutura. Muitas vezes, as bandas não recebem cachês e custeiam o próprio transporte investindo na repercussão que a apresentação no festival pode resultar. Até o surgimento do “Qto vale o show?”, as bandas que se apresentavam no Bananada tinham todas as despesas cobertas pela produção, exceto transporte e cachê. Agora, recebem de acordo com resultado efetivo de seus shows.

“A internet possibilitou pela primeira vez na história que o público taxasse o preço dos produtos culturais. Se a pessoa discorda do valor do ingresso ou do CD, não vai ao show, não compra o disco”, afirma Edimar. Além de trabalhar como produtor cultural, ele é guitar-rista da Black Drawing Chalks, banda que fez turnê por todas as regiões do Brasil e se apresentou em grandes festivais como SWU e Lollapalooza. Com a experiência obtida trabalhando em diferentes momentos da cadeia produtiva da música, Edimar é taxativo: “Se a banda não leva público em um show em que o ingresso pode ser R$ 2, a culpa é dela. É sinal de que a banda precisa rever seu modelo de trabalho, repertório e relacionamento com o público”.

O Bananada antes e depois da utilização do formato “Qto vale o show?”, segundo Edmar Filho, d’A Construtora Música e Cultura: 
ANTES 
# O Bananada tinha menos visibilidade.
# Cada banda tocava para cerca de 800 pessoas.
# 4 mil pessoas tinham acesso ao festival.
# As bandas não ganhavam um cachê. 
DEPOIS 
# O Bananada tem mais visibilidade, com público duas vezes maior do que em 2010.
# A banda que antes tocaria para 800 pessoas está tocando para 1.600.
# Em 2012, foram quase 10 mil pessoas ao longo da programação do festival.
# Todas as bandas receberam cachê em 2012, e em alguns dias receberam R$ 650, cada. Nenhum festival do país, nem com patrocínio de grandes empresas, paga isso para bandas novas, que tocam às 16h da tarde. Além disso, as bandas venderam mais materiais de merchandising do que nos outros anos. O cara pagou R$ 5 para ver o show e sobrou grana para comprar a camiseta da banda no fim. Uma das bandas que tocaram no festival conseguiu R$ 1,1 mil vendendo CDs e camisetas.
# O festival está mais democrático e atinge um público muito mais jovem, o que significa renovação e formação de plateias. A edição de 2012 teve o maior público, a melhor remuneração para as bandas e gerou o maior número de empregos diretos e indiretos da história do festival, que completou 14 anos este ano.

A experiência do “Qto vale o show?” no Bananada e em outros eventos em Goiânia tem sido tão positiva que passou a ser utilizada nos shows do projeto “Cedo e Sentado”, realizado no Studio SP (em São Paulo) e no Granfinos (em Belo Horizonte), a partir de Junho. Nesses casos, o valor arrecadado será revertido integralmente para os artistas.

7 de março de 2012

Projeto audiovisual com Jorge Mautner, M Takara, Dona Onete, Alessandra Leão e outros

Maurício Takara improvisa com um gameboy no centro de São Paulo; Alessandra Leão e amigos tocam músicas de candomblé no Recife; Jorge Mautner (um dia após comemorar seus 70 anos ao lado de Gil e Caetano) toca com Nelson Jacobina no Rio de Janeiro; Dona Onete entoa canções de umbanda no Pará; Carlinhos Brown faz uma performance exclusiva em seu estúdio em Salvador... a diversidade da música brasileira registrada de forma documental é resultado da passagem do diretor francês Vincent Moon pelo Brasil e apresentada em seu projeto Petites Planètes, já comentado no Meio Desligado anteriormente.

Os vídeos estão licenciados em Creative Commons e fazem parte da seção "outtakes" do projeto de Moon, onde figuram os resultados de filmagens que não constam na parte principal do Petite Planètes (na qual aparecem Tom Zé, Naná Vasconcellos, Elza Soares, José Domingos, Thalma de Freitas e Ney Matogrosso). Outros artistas, como Gaby Amarantos, Sebastião Tapajós e Mestre Lourimbau também foram registrados pelo cineasta mas ainda não tiveram seus vídeos divulgados.

24 de dezembro de 2011

Mod MTV, meu programa de “TV” favorito em 2011

Comandado pelo Ronaldo Lemos, principal nome no Brasil (e um dos principais em todo o mundo) em relação ao Creative Commons e direitos autorais na internet, o Mod MTV é um programa que aborda a relação da tecnologia e da cultura digital com o mundo contemporâneo. As aspas no "TV" no título devem-se ao modelo de distribuição do programa, cada vez mais recorrente: apesar de ser transmitido pela MTV, está disponível para ser assistido no site do canal e no YouTube, além de ter uma versão em inglês para o público internacional exclusiva na web. E, ao longo de todo o ano, nunca o assisti na TV. Acompanho todos os programas pela internet, navegando entre o site do Mod no portal da MTV e vídeos publicados por usuários no YouTube (uma vez que a própria MTV não disponibilizou todas as edições em seu site).

Além de poder ser assistido na web, o Mod é complementado por seu blog, no qual diversos links sobre os temas tratados nos programas são reunidos para que o público possa se aprofundar nos assuntos.

Abaixo, algumas das edições do Mod que exemplificam o modo como o programa lida com a tecnologia e a cultura contemporânea.

23 de fevereiro de 2011

Meio Desligado é tema de pesquisa acadêmica

Está disponível na internet a pesquisa de graduação no curso de jornalismo realizada pelo Marcelo de Franceschi sobre o Meio Desligado. Marcelo se formou no fim de 2010 na Universidade Federal de Santa Maria, no Rio Grande do Sul, e fez a monografia intitulada "Permissão para copiar: mapeamento da circulação de posts do blog jornalístico Meio Desligado".

Ainda não consegui ler todo o material com atenção, mas fico extremamente feliz em saber que, além de informar as pessoas, contribuo de alguma forma para a construção de conhecimentos mais aprofundados sobre comunicação e mídias digitais no Brasil.

Você pode ler uma entrevista que capta parte do processo de pesquisa que resultou na monografia ou ir direto ao material final, que disponibilizo abaixo.
 

23 de dezembro de 2010

Tentando entender a juventude ou porque sempre queremos ser jovens

Apresentado como resultado de anos de pesquisa de tendências de comportamento e consumo, "We All Want to Be Young", praticamente um curta documental, apresenta boas questões sobre o modo como os jovens transformaram o mundo nas últimas décadas (e elevaram o hedonismo e o consumo a novos níveis). Conforme é apresentado, "jovens representam novas linguagens e comportamentos", portanto, sendo cruciais para se tentar entender um pouco melhor o atual momento, marcado por rápidas transformações nos mais distintos aspectos que se possa imaginar.


Com edição primorosa, o vídeo foi dirigido pelos brasileiros Lena Maciel, Lucas Liedke e Rony Rodrigues para a BOX1824, empresa especializada em tendências comportamentais.

O único fato que me deixou em dúvida foi como eles registraram o filme em uma licença Creative Commons se ele é (praticamente) feito somente a partir de imagens que não estão liberados em Creative Commons. Ou seja, registrar uma obra resultante da mistura de outras obras protegidas por Copyright seria uma infração de direitos autorais.

E para quem se interessar, aqui está a lista com as músicas usadas como trilha sonora (tem até uma mixtape com todas):
Keyboard Cat / "Building All is Love" – Karen O & the Kids / "When the War Ends" – Portugal The Man / "Danger Danger High Voltage" – Electric Six / "Young Americans" – David Bowie / "Children of the Revolution" – T-Rex / "99 Luftballons" – Nena / Double Rainbow / "Bed Intruder Song" – Antoine Dodson & Gregory Brothers / "15 step" – Radiohead / "Come Back Home" – Two Door Cinema Club / "Single Ladies" – Pomplamoose / "Don’t Make Me a Target" – Spoon / "The Mall and the Misery" – Broken Bells / "Night Time" – The xx / "No Cars Go" – Arcade Fire

23 de novembro de 2010

Criminosos do Copyright

Por Baixacultura

Cartaz Copyright Criminals 1

Lançado nos Estados Unidos no início deste ano no canal público PBS, ”Copyright Criminals” é um documentário que destrincha uma técnica cada vez mais conhecida nestes tempos: o sampling, que poderia ser resumidamente explicado como o “ato de usar um trecho de uma produção como parte de uma produção própria“. Uma técnica que tem origem no início dos anos 1960, nas experimentações caseiras de malucos como William Burroughs e Brion Gysin, e entra na década seguinte como um dos elementos centrais do hip-hop, de onde desde então costuma ser mais associado.

O documentário trata de falar dos mais diversos aspectos da técnica, partindo dessa época de nascimento do hip hop, nos bairros negros da Nova York da década de 1970, chegando até a indústria milionária do rap deste anos 2000 (inclusive, como ilustração, há uma timeline do sampling feito pela produção do filme e disponibilizada no site da emissora PBS).

De um modo quase didático, primeiro o filme mostra algumas das, digamos, “vantagens sentimentais” do uso do sampling, como a potencialização da lembrança de músicas antigas e dos consequentes momentos em que elas foram escutadas, visto que a vida é (sempre foi) permeada de música. Isso tanto valoriza o que passou quanto traz a tona um repertório desconhecido pra pessoas que não viveram a época da música em questão, tornando-se assim um link divulgador de um contexto aplicado em um novo.

Aparece também o “outro lado”,  aquele que diz que o sampling pode ser considerado um modo “preguiçoso” de se produzir música – afinal, dizem, é muito fácil pegar algo que já está bom e por o próprio nome nisso do que compor esse trecho.  Nesse caso, joga-se os holofotes em artistas como Clyde Stubblefield, baterista de James Brown, considerado uma das pessoas mais sampleadas da história, mas que nunca ganhou nem mesmo crédito nestes trocentos samplers de sua rica batera funkeada.

Desta e outras histórias contadas ficam alguns questionamentos: usar determinado trecho de uma música e inserí-la em outro contexto, transformando do jeito que lhe parecer melhor, seria aprimoramento, progresso, regresso, roubo, criação ou o quê?

Questionamentos a parte, é claro que tem gente que não gosta que mexam com uma linha de suas músicas, especialmente quem as vê somente como mercadoria que vale X dinheiros no mercado. Visão esta que também é mostrada no filme, através de entrevista com alguns músicos e gravadoras que não aprovam quaisquer versões derivadas de “suas” canções.

copyright criminals 2
Como já falado aqui e sabido de muitos, os samplers são a base musical do hip hop, criado a partir das batidas do funk e da música de raiz negra em geral com o acréscimo dos vocais ritmados/rimados – o tal do rap, frequentemente relacionado como sinônimo de hip-hop, o que não é (entre nos links de cada uma das palavras para saber mais sobre suas diferenças).

Como toda essa importância, o hip-hop é bem representado em “Copyright Criminals” com os depoimentos de ícones como Public Enemy, Pete Rock, De La Soul e Prefuse 73. Eles falam principalmente do seu trabalho de mixers na recriação sobre criações alheias, e de como que, assim que passaram a chamar atenção com o dinheiro que geravam, tiveram sua existência notada pelos tais detentores dos copyrights das músicas, uma simpática coincidência motivada sabe se lá porquê, não?

Samplers cleared!
Desse sucesso do rap,  as “melodias emprestadas” tornaram-se “infrações de copyright”, o que fez surgir complicações judiciai$ com Djs que se utilizaram de trechos de canções de outros artistas. Não é demais dizer que muitos grupos mundialmente famosos se utilizaram de samplers, como os Beatles em Revolution 9, e muitos impérios se formaram se aproveitando de outras criações, como a Disney.

Injustiças a parte, é bom lembrar que o sampling virou um meio de subsustência pra artistas que vivem puramente disso. Não, não são os atuais barõe$ do rap. Um exemplo mais explícito são os londrinos do Eclectic Method, um trio de VJs que prefere não lançar sua produção. Isso porque tudo que eles “criam” é ao vivo, improvisando com imagens e sons de qualquer produção audiovisual. Há alguns remixes disponíveis pra download no site oficial deles e, nos canais Youtube e no Vimeo, algumas amostras do que é gerado no show deles:


Analisando tudo, em “Copyright Criminals” também há os depoimentos de advogados, promotores e professores. Destaque para as falas de Jeff Chang – autor de Can’t Stop Won’t Stop: A History of the Hip-Hop Generation – e Siva Vaidhynathan – autor de “Copyrights & Copywrongs: The Rise of Intellectual Property and How It Threatens Creativity”, disponível aqui.

*

“Copyright Criminals” é uma realização de Benjamin Franzen, fotógrafo e videomaker radicado em Atlanta, e Kembrew Mcleod, professor de comunicação da Universidade de Iowa. Entramos em contato com os dois realizadores através do site para saber se eles possuíam um arquivo de legendas. Felizmente fomos atendidos e Mcleod, roteirista e produtor executivo, simpaticamente nos enviou as transcrições das falas. Então resolvemos sincronizar as falas em inglês e traduzir para o português, disponibilizando ambas para download nos links acima.

Kembrew também é autor do livro Freedom of Expression®: Overzealous Copyright Bozos and Other Enemies of Creativity lançado em 2005, e cujo capítulo 2 serviu de inspiração para boa parte do documentário, como já tinha alertado o Remixtures. A versão pirata de “Copyright Criminals” pode ser baixada em duas partes – aqui e aqui. Esperamos que as legendas em inglês também sirvam para outras traduções – espanhol, francês e qualquer outra língua que tu queira se botar a traduzir.

Enquanto faz o download, assista ao trailer do documentário aqui abaixo:

1 de agosto de 2010

Como a tecnologia fomenta transformações democráticas

Em meio às minhas pesquisas para meu artigo final na pós-graduação em Produção em Mídias Digitais (meu tema aborda o uso de ferramentas gratuitas de produção de conteúdo de forma colaborativa na produção cultural) encontrei este vídeo do Ronaldo Lemos na TEDx São Paulo, no ano passado.

Assim como grande parte da produção de Lemos, o vídeo de sua curta apresentação (15 minutos, assim como todas da TED) é excelente e aborda exemplos de transformações sociais e culturais que surgiram e/ou se expandiram por meio do desenvolvimento tecnológico, tendo a internet como principal instrumento.

Fantasmão, Calypso e tecnobrega são apresentados junto a dados sobre lan houses, processos de desenvolvimento de leis através da internet, indústria fonográfica e marco civil da internet, entre outros.

23 de março de 2009

Formatos colaborativos e a propriedade intelectual

Abaixo publico trecho do meu projeto experimental de conclusão do curso de jornalismo na PUC Minas, apresentado em novembro de 2008. O projeto, intitulado "PROJETO BLOGS: Uma experiência de mediação cultural em blogs de cultura urbana", foi realizado por mim, Carlos Andrei Siquara, Gustavo Andrade, Juliana Semedo e Flávia de Magalhães e orientado por Geane Alzamora.

Ainda não preparei um PDF com o projeto completo para publicar no Overmundo, então seleciono alguns trechos que se encaixam com a linha editorial do Meio Desligado e publico aqui.

Enquanto surgiam os primeiros blogs, ainda focados nos diários pessoais, a participação de outras pessoas além dos próprios autores limitava-se aos comentários, já que as ferramentas não permitiam a presença de vários autores em um mesmo blog – o que continua ocorrendo em serviços como Tumblr e Vox, que não possibilitam mais de um usuário como administrador de um determinado blog. A partir do desenvolvimento das ferramentas de blogs, abriu-se a possibilidade de vários autores atualizarem um mesmo blog, cada um deles identificado por um pseudônimo (ou, no inglês, nick). Essa possibilidade de atualização de um blog por mais de uma pessoa representou uma nova forma de produção coletiva de conteúdo e de mediação.

Ronaldo Lemos (2008) aponta que “a criação depende cada vez menos do indivíduo e mais da coletividade”. Lemos refere-se a iniciativas como a Wikipedia, softwares de código livre e aos blogs coletivos, criados a partir da interação entre diversas pessoas que, juntos, representam uma alternativa mais democrática ao conteúdo produzido pelas chamadas mídias tradicionais: TV's, rádios e meios impressos, além de suas versões digitais.

As novas possibilidades de produção de conteúdo dividem-se por diferentes áreas, desde pesquisas científicas ao entretenimento, porém todas dividem um elemento em comum, crucial para a existência de qualquer ação colaborativa: o consentimento do autor de uma determinada obra para que a mesma seja retrabalhada e adaptada por outras pessoas. Do contrário, a produção em conjunto limita-se a pensamentos e comentários acerca das obras analisadas, sem efetivamente alterá-las. Sendo assim, toda produção coletiva e colaborativa, seja ela realizada em blogs coletivos ou no desenvolvimento de softwares, debate-se com o conceito de propriedade intelectual e direito autoral, que estabelece, desde o século 19, que toda a criação intelectual nasce protegida e é exclusiva de seu autor, podendo ser utilizada apenas mediante autorização do mesmo. Tal forma de direito autoral limita as possibilidades de interatividade e torna o processo de criação coletiva lento.

Em resposta a esse cenário, novas formas de direito autoral surgiram, visando desde sua criação o fomento à criação descentralizada. A partir do fim da década de 1980, o copyleft mostrou-se como a principal delas, posicionando-se no caminho oposto ao copyright, direito autoral tradicional, famoso pela expressão que acompanha sua logomarca: “all rights reserved”, indicando que todos os direitos relativos à obra junto a qual a marca de copyright é apresentada pertencem exclusivamente a seu autor. Já o copyleft indica que as obras licenciadas desta forma não precisam de autorização prévia para serem difundidas ou alteradas. Outro avanço na área ocorreu em 2001 (Rocha, 2008), com a criação do Creative Commons, um modelo de licenças que permite ao criador intelectual definir o que pode ou não ser feito com sua obra sem a necessidade de sua autorização prévia.

Tais formatos de direito autoral estão diretamente ligados à cultura digital e ao desenvolvimento tecnológico, que permitiram o enorme crescimento no número de pessoas criadoras de obras intelectuais (LEMOS, 2007). Lawrence Lessig, um dos fundadores do Creative Commons, compartilha da idéia de que a produção colaborativa é uma das formas de se alcançar maior desenvolvimento intelectual e disseminar a cultura, sendo, para tanto, necessária maior flexibilidade nas leis que regulamentam os direitos autorais. Sem essa flexibilidade em relação à propriedade intelectual, toda a produção coletiva na rede estaria atada e dependente de formas arcaicas que possibilitassem a colaboração entre indivíduos na rede.

As ações colaborativas em rede, portanto, necessitam de alguma licença de direito autoral copyleft, como Creative Commons ou GNU (esta, mais voltada à área de softwares, mas também utilizada em sites como Wikipedia e Last.Fm, através de sua “licença de documentação livre”), de modo a possibilitar a criação coletiva sem infringir as leis de direito autoral. Assim, é possível afirmar que as novas formas de direito autoral possibilitaram o crescimento dos blogs coletivos e da colaboração na blogosfera, assim como em ambientes colaborativos diferenciados e complementares à blogosfera, como a Wikimedia.

A partir dessa maior liberdade de fluxo de conteúdo, os blogs não estão limitados à possibilidade de linkar o conteúdo produzido por outras pessoas, mas podem reutilizá-lo e recriá-lo, fortalecendo a chamada “cultura do remix”, (Lessig, 2005), na qual todo conteúdo está aberto e passível de ser transformado.

Como conseqüência, ao publicar um texto sobre a tipologia urbana da cidade de São Paulo no blog Dispepsia, por exemplo, é possível fazer uma busca entre imagens da cidade liberadas sob licenças Creative Commons e republicá-las junto no blog sem infringir os direitos autorais do autor da fotografia. A possibilidade de utilização do conteúdo gerado por outra pessoa, nesse caso, enriquece o post do blog Dispepsia e gera novas conexões entre o blog e o autor da fotografia, uma vez que o mesmo será linkado ao ter sua foto utilizada no blog. Ações como essa geram um novo fluxo de troca de conteúdo e criação de laços na blogosfera.

15 de dezembro de 2007

Pílulas

- Festas de 5 anos de Creative Commons (o que é isso?) neste sábado!
- Festival Temporal.PE termina em BH, amanhã, com show da Nação Zumbi (lançamento do CD "Fome de Tudo") e outros
- Já foi lançado o CD solo de Fernanda Takai (Pato Fu) em homenagem à Nara Leão
- Fundação Padre Anchieta lança nesta segunda-feira o RadarCultura, espécie de rádio 2.0 em que o público escolhe a programação
- Mini-festival Disco Poney na Mary in Hell
- Nota sobre o ESCAMBO - Festival de Experiências Musicais no site da Obra, incluindo uma ilustríssima citação à minha pessoa ("o integrante do Coletivo Fórceps, Marcelo Santiago, ministrará a oficina 'Produção e divulgação punk', que pretende mostrar como fazer uso dos instrumentos tecnológicos disponíveis para divulgar música")
- O paulista Gui Boratto arrebentando nas listas de melhores de 2007 feitas por sites do exterior, com sua "Beautiful Life"

11 de março de 2007

Os tempos mudaram. As respostas também.

Muito se comenta sobre as grandes mudanças ocorridas nos últimos tempos no mercado musical, mas são poucas as discussões que se aprofundam no assunto. Desta forma, faltam debates sobre os efeitos da chamada "revolução digital" na vida daqueles que vivem (de) ou se interessam por música.

Para ajudar a mudar este cenário, eis que surge o Chappa - nova música, novas oportunidades, uma espécie de coletivo que visa promover o "desenvolvimento sustentável da indústria da música", através de ações de integração dos produtores e trabalhadores da indústria musical em meio às alterações provocadas pela internet e o desenvolvimento tecnológico.

Focado apenas na produção carioca, o Chappa se define como "o canal carioca da nova música" e trabalha pela "transformação social e a geração de riquezas e empregos em torno de um arranjo produtivo mais eficiente para os agentes locais", como está disponível em seu site, chappa.com.br.

É uma iniciativa que chama bastante atenção não apenas pelo fato de relacionar nova música, internet e avanços tecnológicos, mas também por tratar a música como uma forma de desenvolvimento e geradora de empregos e riqueza. Esta discussão mercadológica-administrativa é ainda mais rara em meio à cena independente.

Os responsáveis por tudo isso são quatro empresas cariocas, todas relacionadas à internet e/ou cultura: Tecnopop, agência de design e desenvolvedora de sites; Rinoceronte, produtora cultural; sobremusica, blog carioca sobre música (dãããã); e a Lunuz, empresa de gestão de projetos culturais.

Para alcançar seus objetivos o Chappa realiza durante todo o mês de março, e início de abril, o Música Chappa Quente, uma série de debates sobre "indústria da música pós-revolução digital", sempre às quartas-feiras, em algumas faculdades do Rio de Janeiro. Serão mais de 40 convidados, entre jornalistas (Alexandre Matias, André Barcinski, Lúcio Ribeiro, etc), produtores musicais e culturais (Fabrício Nobre, Rodrigo Lariú, etc) e gente envolvida em projetos como Creative Commons e C.E.S.A.R, discutindo oito temas relacionados à música nos tempos atuais.

Confira abaixo as datas dos debates, com seus respectivos temas, convidados e locais de realização:

14 de março
9h - A CADEIA PRODUTIVA DA MÚSICA NO ESTADO DO RIO DE JANEIRO
Convidados já confirmados: Sérgio Sá Leitão (BNDES), Arthur Bezerra (SEBRAE-RJ), Sydney Sanches (advogado, um dos responsáveis pelo estudo Cadeia Produtiva da Economia da Música no estado do RJ), Bruno Levinson (Humaitá Pra Peixe) e Rodrigo Lariú
14h - PÓS-JORNALISMO: BLOGS E INTERNET 2.0
Convidados já confirmados: Diego Assis (G1), Felipe Vaz (Overmundo), Celso Fonseca (Terra) e Berna Ceppas
Local: PUC-Rio, Auditório Pe. José Anchieta. Rua Marquês de São Vicente, 225 – Gávea

21 de março
9h - RÁDIOS ON-LINE E PODCASTS: DE OUVINTE A PROGRAMADOR
Convidados já confirmados: Maestro Billy (ABPod), Giuliano Djadjah (Rádio Janela) e Paulo Daudt (Multishow)
14h - YOUTUBE, MYSPACE, NAPSTER, ITUNES: AS NOVAS PLATAFORMAS ON-LINE
Convidados já confirmados: Alexandre Matias, Gisela Castro (ESPM), André do Valle (FGV), Marcelo Ferla e Silvio Meira (C.E.S.A.R)
Local: UFRJ, Salão Dourado do FCC. Av. Pasteur, 250 – 2º andar – Urca

28 de março
9h - ARTISTAS S/A: O TRABALHO ALÉM DOS PALCOS
Convidados já confirmados: André Barcinski, Mauro Benzaquem e Luciano Marsiglia (Revista BIZZ)
14h - NOVOS CONSUMIDORES E NOVAS FORMAS DE MARKETING
Convidados já confirmados: Lúcio Ribeiro, Jerome Vonk, Léo Feijó e André Eppinghaus
Local: ESPM, Auditório. Rua do Rosário, 90 – 12º andar – Centro

04 de abril
9h - MERCADO INDEPENDENTE: EXPERIÊNCIAS E VIABILIZAÇÕES
Convidados já confirmados: Fabrício Nobre (pres. ABRAFIN), Paulo André (Abril Pro Rock), Gabriel Moptop, Gabriel Autoramas e Ricardo Cruz (Rolling Stone)
14h - DIREITO AUTORAL NA NOVA MÚSICA
Convidados já confirmados: Paulo Rosa (pres. ABPD), Creative Commons, Felippe Llerena (iMúsica/ABMI), Bruno Natal e Antonio Carlos Miguel
Local: UERJ, Teatro Noel Rosa. Rua São Francisco Xavier, 524 – Maracanã


Obs.: (Impressão pessoal) A única coisa que incomoda é o "todos direitos reservados" no fim da página do Chappa. Uma iniciativa como esta poderia muito bem (e deveria) estar sob uma licença Creative Commons.

2 de março de 2007

membro do Mombojó lança álbum solo

Marcelo Campello, multi-instrumentista do Mombojó, acaba de lançar seu álbum solo, intitulado "Projeções e mais duas séries para violão de sete cordas". Algumas músicas estão disponíveis na Trama Virtual e também em sua página no MySpace, onde você também encontra o link para baixar o álbum completo (olhe na seção "sounds like").

O álbum é dividido em três partes: "Projeções", formado por composições do período 2005-2006; "Soturnos", por composições de 2004; e "Sonhos", com canções escritas em 2002 e 2003.

Pode não agradar muito aos fãs de sua banda, já que em seu trabalho solo Campello fixa-se exclusivamente em seu violão de sete cordas, como o próprio nome bem diz. Não há vocais ou acompanhamentos, apenas o dedilhado calmo e triste de Marcelo ao longo de 35 músicas, a maioria com cerca de 2 minutos de duração.

Como era de se esperar de Campello, engajado com as questões do direito autoral na internet e de liberdade criativa, "Projeções e mais duas séries para violão de sete cordas" é licenciado através do Creative Commons e pode ser baixado e distribuído livremente, contanto que sem fins lucrativos.

O arquivo zip no qual o álbum está disponível vem acompanhado de toda a arte gráfica que compõe o encarte, para que cada pessoa monte seu cd em casa. Você pode fazer o download diretamente por aqui.

O cd também pode ser comprado em qualquer Livraria Cultura do Brasil e também pode ser encomendado através do email cndantas@livrariacultura.com.br.



13 de fevereiro de 2007

sobre o Creative Commons e seu uso

Completando o post anterior, aqui estão algumas informações garimpadas na rede para que você conheça melhor o Creative Commons e sua utilização no meio musical.

1. Seja Criativo. Vídeo explicativo sobre Creative Commons, copyright e seus usos



2. Copyleft e Creative Commons. Texto do Marcelo Terça-Nada

O CreativeCommons é um site onde há vários tipos de licença de uso para obras. Há licenças como “Domínio Público”, “Uso não Comercial”, “Recombinação” e muitas outras.

E o que há de mais nisso tudo? O grande lance do CreativeCommons é que é uma regulamentação a nível mundial de como as pessoas querem compartilhar o seu trabalho. E está disponível em várias línguas (inclusive português).

Numa época de meios eletrônicos de criação e distribuição descentralizada e de discussões quentes sobre autoria, propriedade intelectual, cópia, criação colaborativa etc, faz muito sentido e é muito justo com quem cria….


Leia o texto completo no Vírgula-Imagem, blog do Terça-Nada.

3. Entrevista com Ronaldo Lemos, do Creative Commons Brasil, feita pelo Alexandre Matias.

1) O disco (como suporte físico) acabou?
Acabou sim. O CD hoje já é uma tecnologia obsoleta. É uma mídia grande, com pouca capacidade de armazenamento. No entanto, ele ainda terá uma sobrevida, especialmente nos países em desenvolvimento, da mesma forma como cassetes e vídeo-cassetes ainda são usados na Índia e na África. Até mesmo as periferias brasileiras já usam o CD não para músicas, mas sim para arquivos de MP3, sem falar no uso de DVD-R. O futuro da distribuição musical é digital, o suporte só fará sentido em casos específicos.

2) Como a música será consumida no futuro? Quem paga a conta?
A tendência é a música se distanciar cada vez mais do conceito de mercadoria e se aproximar da idéia de um serviço. O iTunes hoje faz sucesso vendendo música como mercadoria. Mas o site de música que mais cresce no mundo hoje e já está em segundo lugar, chamado E-Music, já vende música mais como serviço: você paga uma taxa mensal e pode fazer um número específico de downloads. O serviço que todos os consumidores gostariam de ter é pagar uma taxa e poder fazer downloads ilimitados de música.


Leia a entrevista completa no Trabalho Sujo, blog do Matias.

4.
Creative commons: uma espécie de fermento criativo. Texto de Fernand Alphen, publicado no Webinsider.

Se a criação é um bem de consumo, portanto, não há tempo para degustar, contemplar, refletir, analisar. Consome-se como se lê, vê ou ouve, digere-se como se pode, e regurgita-se como se quer.

Em tempos de conteúdo colaborativo, de livre expressão, de canais abertos, de democratização criativa, de contágio viral, em tempos de acesso irrestrito aos megafones das mídias freeware, o autor que se cuide. Principalmente se ele tem a veleidade de preservar sua autoria em prol da biografia, da vaidade, da contribuição intelectual desinteressada ou não.

Enquanto a interpretação dos conteúdos ou das obras era individual, as autorias sofriam poucos ou nenhum risco. O “criador” produzia e a audiência qualificava sem conseqüências. Mas a partir do momento em que a audiência torna-se também mídia espontânea e formadora de opinião, as conseqüências significam, para além da permeabilidade das idéias, a desintegração da própria noção de autoria.

E dessa desintegração nascem certos perigos e muitas virtudes.

Perigos da difusão equivocada de conteúdos e análises, por exemplo. Perigos de comprometer reputações. Perigos inerentes a tudo aquilo que é novo e como tal, desconhecido.


Leia o texto completo no Webinsider.

5. Matéria sobre CC no Trama Universitário.

O CC (creative commons) não compete com o C (símbolo utilizado em produtos protegidos pelas leis tradicionais de direito autoral), ele o complementa. Você não está abdicando dos seus direitos autorais. Você os está usando para dizer o que quer que façam com sua obra”, resumiu, ao explicar que o Creative Commons abrange uma série de usos diferenciados, citando a alteração ou não da obra por terceiros, o direito a samplear trechos dela e o impedimento de uso para fins comerciais como algumas das opções que o autor possui ao licenciar seu trabalho.


O texto completo está aqui.

6. Trecho de entrevista com o grupo Esquadrão Atari, no qual falam sobre as licenças do Creative Commons.



Veja a entrevista completa no YouTube.

2 de fevereiro de 2007

crie, remixe, compartilhe

"Remixe a cultura". Este é um dos lemas do Creative Commons. Ao transpor este mesmo pensamento para a área musical, nada mais óbvio do que pensar em "samples" e "remix".

É exatamente interligado a esse pensamento que surgiu o ccMixter, uma iniciativa do Creative Commons, que funciona como uma grande comunidade de remixers, pessoas interessadas em remix e manipulação de áudio, que disponibilizam samples, vocais e canções completas para que outras pessoas com os mesmos interesses possam usá-los na composição de novas faixas. E tudo isso é livre para que qualquer pessoa possa utilizar, sem ter de se preocupar com copyright, autorizações ou infringir a lei.

Simplificando, o Creative Commons (CC) permite a cada pessoa registrar sua obra de modo pessoal. Ou seja, você decide o que pode, ou não, ser feito com sua obra. Se você deseja que nada possa ser feito com sua obra sem sua autorização, continue com o copyright, ele significa justamente isso (lembra-se do "todos os direitos reservados"?).

Então, por padrão, uma licença CC significa que outras pessoas podem usar sua obra, mas é você que determina quais os usos podem ser feitos da mesma. Como bem explica o site brasileiro do projeto,
"O Creative Commons Brasil disponibiliza opções flexíveis de licenças que garantem proteção e liberdade para artistas e autores. Partindo da idéia de 'todos os direitos reservados' do direito autoral tradicional nós a recriamos para transformá-la em 'alguns direitos reservados' ".

Tendo essa noção básica do que é Creative Commons fica mais fácil entender o que é ccMixter e, conseqüentemente, sua extensão brasileira, o Overmixter.

Ambos os 'mixters' tem como função "permitir que pessoas que manipulam música compartilhem seus arquivos e criem coletivamente", como está descrito no release do projeto. Desta forma, a partir da colaboração de cada pessoa, "quanto mais músicas, samples ou remixes forem disponibilizados, mais idéias vão surgindo", formando uma comunidade auto-sustentável.

No caso do Overmixter, há a vantagem da relação com uma comunidade já formada: a dos usuários do Overmundo, site colaborativo brasileiro que tem como objetivo registrar a cultura brasileira em suas mais diversas e amplas formas.

Totalmente conectado ao conceito de web 2.0, o site também permite que todos os seus participantes votem e façam críticas das colaborações presentes.

Além do Overmundo, o Overmixter conta com o apoio da Fundação Getúlio Vargas, Petrobrás e Ford Foundation.


Fechando, vale lembrar, como bem foi escrito no blog do Centro de Tecnologia e Sociedade da Escola de Direito da Fundação Getulio Vargas, "do idioma à culinária, no Brasil tudo é remix". Portanto, não há lugar mais propício a iniciativas como o Overmixter do que o nosso país.

Para quem
O Overmixter (e o gringo ccMixter) é bom não apenas para aqueles que apreciam a música ou para djs, mas também para bandas ou produtores de conteúdo autoral. Disponibilizando suas faixas (na forma de loops, a cappellas, etc) no site, você torna o seu trabalho mais conhecido e incentiva a produção cultural. Tanto que artistas conhecidos como Nervoso, Mombojó, Gilberto Gil e BNegão também já disponibilizaram algumas de suas canções.

Como funciona
"Você pega um sample que esteja disponível em um dos bancos de samples indicados no site, mistura com outros samples (e/ou vocais), e cria um remix. Então, você envia o seu remix para o Overmixter indicando quais samples (e/ou vocais) utilizou, e outras pessoas vão poder usá-lo em seus próprios remixes. Quando alguém cria um remix a partir de uma música sua, seu nome aparece junto à ficha técnica da música e todo mundo pode conhecer o seu trabalho" (da página "sobre o overmixter").

Concursos
Periodicamente o Overmixter pretende realizar concursos que incentivem a colaboração no site. O primeiro deles é o Overmix BraSA, em parceria com o ccMixter África do Sul.
A proposta é aumentar a integração cultural entre brasileiros e sul-africanos, a partir da criação de novas faixas utilizando-se de samples oriundos de ambos os países. Saiba tudo sobre o concurso aqui.
O vencedor sul-africano já foi definido e se chama Whispa. Você pode ouvir a faixa dele aqui. Para os brasileiros, as inscrições estão abertas até 16 de fevereiro.


Então, o que você está esperando para grudar essa seu bumbum (cada vez maior) na cadeira em frente ao pc? Crie, remixe, compartilhe... esse é o lema.

31 de dezembro de 2006

As gravadoras ainda comandam o mercado fonográfico?

Por Marcelo Santiago, Juliana Rocha, Carlos Andrei, Clara Isabel, Clara Guimarães e Carolina Rausch


Mercado musical comercial, mercado musical alternativo. Quem ganha a disputa?


Reflexo da popularização da internet e do avanço das novas tecnologias, a troca de arquivos através da internet acarretou nos últimos anos em uma enorme queda na venda das gravadoras. No Brasil não é diferente, ainda mais tratando-se do país que encontra-se na terceira posição dos países nos quais mais se comercializa CDs falsificados. As vendas que antes ultrapassavam um bilhão, agora estão a R$ 600 milhões de reais.

As grandes gravadoras (majors), estáticas a mais de 20 anos, estão repensando suas estruturas. As pequenas empresas do setor (indies) experimentam um período de crescimento, mesmo em meio à crise. Elas, mais novas no mercado, parecem saber enxergar a sua mudança. Segundo a jornalista Maria Luiza Kfouri, no ano passado, gravadoras independentes, como a Biscoito Fino, a Acari, a Revivendo, a Fina Flor, a Bizarre, a Delira Música, a Dubas, a YB, a Maritaca, a CPC-Umes, a Trama, a Tratore, a Lua Discos, a Visom, a Velas, a Palavra Cantada e o Núcleo Contemporâneo foram responsáveis pelo lançamento de mais de 100 títulos de excelente qualidade de música instrumental e vocal. Segundo dados apresentados pelo Ministro da Cultura Gilberto Gil, as gravadoras indies já representam cerca de 40% do mercado fonográfico brasileiro. Além delas, outros tantos lançamentos foram produzidos independentemente, pelo próprio músico.

Uma das origens da pirataria, o MP3, vem ensinando a indústria que a velocidade da mudança tende a ser mais rápida e que os seus impulsionadores, os consumidores, têm que ser ouvidos.

Em setembro deste ano, a Universal, maior gravadora do mundo, anunciou que disponibilizará todo o seu catálogo para download gratuito, ainda este ano. A atitude foi seguida pela EMI, outra das maiores gravadoras do mundo. Perceber que as maiores gravadoras do mundo estão se rendendo a internet deixa claro que chegamos a um ponto do qual não há volta, e, para conseguirem sobreviver em meio aos novos tempos, terão de mudar.



As marcas da revolução digital

Voltar-se contra a troca de arquivos na internet atualmente, para as gravadoras, é como mover-se em areia movediça. Já não há um grande site para se responsabilizar pela distribuição das músicas, como o Napster ou o MP3.com, no fim da década de 90. Programas de peer-to-peer (pessoa-para-pessoa), como Emule, Kazaa, Shareaza e os diversos controladores de torrent tornam impossível o controle, já que os usuários fazem o download diretamente do computador de outros usuários, em redes criadas em torno destes programas.


Uma alternativa utilizada pelas gravadoras, na tentativa de se desestimular o download ilegal de músicas, é processar o usuário final, a pessoa que faz o download. Mas, como afirma Túlio Borges, sócio do clube Mary In Hell em Belo Horizonte e membro das bandas Esquadrão Atari e Millicents, "esta é apenas uma forma de tentar amedrontar as pessoas". Túlio e seu companheiro de banda, Daniel Werneck, acreditam que as gravadoras podem alterar seus métodos ou falirem. "O compartilhamento de arquivos na internet não deixará de existir, não importa se você acabará com este ou aquele software, sempre aparecerão novos programas, porque a internet é um meio vivo", diz Túlio.


Daniel relembra que "quando surgiram os vídeos cassetes, os grandes estúdios de cinema queriam processar as empresas que produziam estes equipamentos. Só depois é que perceberam que ali se criava um novo nicho a ser explorado". Para os dois, a situação atual é a mesma: as gravadoras brigam, ao invés de se adaptarem à situação. (Assista ao vídeo da entrevista aqui).



A banda americana Clap Your Hands Say Yeah!. A foto só está aqui porque o rapaz que a tirou, Justin Cox, liberou-a pelo Creative Commons

No exterior, a situação é mais extrema. Alguns dos maiores fenômenos do rock e pop da Inglaterra nos últimos tempos surgiram na internet, sem participação alguma de grandes gravadoras. Foi assim com o grupo Arctic Monkeys, que conquistou uma enorme legião de fãs apenas com sua página no site MySpace e fez diversos shows pela Europa sem ter lançado nenhum disco. Ao lançar seu primeiro álbum, por uma gravadora independente, vendeu 150 mil cópias na primeira semana. Com a banda americana Clap Yor Hands Say Yeah aconteceu caso semelhante. De forma independente, apenas com sua a divulgação em sites como o MySpace, conseguiu vender 50 mil cópias de seu álbum de estréia.

Esse mercado alternativo de produção e consumo de música, seduziu também o ministro da cultura Gilberto Gil. Em um fórum realizado na cidade de São Paulo, com o objetivo de discutir o futuro da indústria da cultura em função da convergência digital, o ministro não cansou de ressaltar que é primordial que as grandes gravadoras se adequem aos novos modelos viabilizados pela democratização da internet. Para ele, a internet já se transformou em objeto imprescindível para aqueles que fazem música. Além disso, se instituída de maneira positiva, a venda de músicas na rede pode servir como antídoto contra a pirataria. Porém, o dado mais relevante e gerador de controvérsias foi aquele relacionado ao crescimento de gravadoras independentes no Brasil. De acordo com os dados apresentados por Gil, as indies representam cerca de 40% do mercado fonográfico do país.


Rick Bonadio contesta a estatística afirmando que as gravadoras alternativas não devem representar mais que 5%. "Não sei de onde ele tirou esse número. Basta você ir até uma loja de CD ou escutar uma emissora de rádio para perceber que a informação não confere", diz o dono da Arsenal Music alguns dias antes de negociar seu selo com a Universal. Já Leo Bigode, do selo goiano Monstro Discos, acredita no Ministro da Cultura, mas é mais realista: "Concordo, mas aí entra tudo: gospel, Calcinha Preta...Tudo o que não está nas majors. Se considerarmos isso, concordo com o patrão Gil", afirma Bigode.

Esclarecendo a confusão de Gil

Segundo a pesquisa realizada pela jornalista Andréa Thompson, “As Gravadoras Independentes e o Futuro da Indústria Fonográfica no Brasil”, disponível no site Overmundo, não existe um consenso a respeito do termo “independente”.

Nesse trabalho, a jornalista revela algumas opiniões acerca disso. Para Jerome Vonk, diretor executivo da Associação Brasileira da Música Independente (ABMI), “Independentes são aquelas [gravadoras] que não fazem parte do oligopólio, daquelas quatro empresas históricas que detém 72% do mercado mundial. Pela leitura IFPI (International Federation of the Phonographic Industry52), 72% estaria na mão das multis e 28% na mão das independentes”

As quatro empresas históricas que o diretor executivo da ABMI menciona são a Warner, a EMI, a Sony-BMG e a Universal Music. Estas seriam “as poderosas majors, fruto de um conglomerado internacional que desde os primórdios da indústria fonográfica foi abocanhando o mercado mundo a fora. Do outro lado, estariam os independentes, historicamente mais fracos do ponto de vista econômico”, afirma Andréa Thompson.

Para outros, a palavra independente foi perdendo a sua representatividade original a partir do momento que ocorreu sua popularização e ela passou a designar também artistas (indies) que estão fora da grande mídia e da tendência predominante (mainstream).

O maestro Antonio Adolfo, que em 1977 lançou um disco independente, chamado Feito em Casa, com uma primeira tiragem de 500 cópias, em entrevista à Andréa Thompson, fala sobre o que pensa a respeito disso: “No início, a palavra era utilizada por aqueles selos pequenininhos e por quem se auto-produzia, como eu fiz e como vários outros fazem até hoje. Hoje em dia passou-se a utilizá-lo o termo independente para qualquer gravadora que não faça parte desse conglomerado internacional. (...) Usam o termo porque dá prestígio.”


Majors e Indies

Conhecidas como empresas que produzem e distribuem músicas, as gravadoras são divididas em dois modelos de negócio: major e indie. A expressão major é utilizada para identificar todas as gravadoras transnacionais, grandes conglomerados internacionais que atuam em múltiplos setores e diversificam seus negócios, investindo em cultura e entretenimento. As indies, ou independentes, são as pequenas gravadoras nacionais. Os selos e gravadoras independentes são as empresas que se propõem a tarefa de descobrir os talentos musicais e promovê-los, investindo nisso seus próprios recursos, sem financiamentos ou mecanismos de incentivos específicos.

O Brasil abriga cerca de 80 gravadoras e selos independentes, segundo dados da ABMI ( Associação Brasileira de Música Independente) de 2003. A maior dificuldade enfrentada pelas indies no mercado é a distribuição. Apesar de poder produzir o CD com a mesma qualidade de uma gravadora major, a divulgação e distribuição não é tão fácil como é para uma major, que possui uma média de 20 representantes espalhados pelo país, os quais divulgam e vendem seus CDs para os lojistas, um número impensável para os indies.

O caso de maior sucesso entre as gravadoras independentes é a Trama. Fundada no ano de 1998, a gravadora tem como objetivo lançar e divulgar a música brasileira de qualidade no país e no mundo, buscando a constante renovação, além de apostar na disponibilização gratuita de alguns de seus lançamentos à título de promoção e na distribuição on-line, uma demonstração de utilização da ferramenta que deu origem a pirataria como estratégia de marketing.

Na contramão do crescimento do mercado alternativo tem-se o exemplo da gravadora Arsenal Records. A major Universal Records de propriedade do produtor Rick Bonadio adquiriu o selo Arsenal. Com a aquisição, bandas e artistas como CPM 22, IRA!, NXZero, Hateen, Tihuana, Leela e Supla não pertencem mais ao mundo da música independente. Rick Bonadio porém, segue nas funções artísticas e de marketing.



A pirataria atrapalha o mercado fonográfico?

O Brasil ocupa desde 1999 o 3º lugar no ranking mundial da pirataria, perdendo apenas para a Rússia e a China.

A pirataria não passa apenas pela questão econômica. Se assim fosse as pessoas de baixa renda tenderiam a comprar mais CDs e não é o que acontece, segundo a pesquisa de Romana D'Angelis Ramos dos Santos Leal. A questão também se relaciona ao valor percebido do produto em detrimento de seu valor real.

A compra do CD pirata ocorre em sua maioria devido aos altos preços praticados no mercado. Um outro fator para a compra destes tipos de CDs é a não existência do mesmo lançados por gravadoras oficiais. O não conhecimento do produto ou interesse pelo todo também é apontado como motivo para a compra do CD pirata.

Com o crescimento do mercado ilegal, foram fechados dois mil pontos de venda de discos, houve redução de 30% do número de funcionários das gravadoras e 7% nos lançamentos e diminuição de 18% dos artistas contratados.

A pirataria ocorre através de diversos programas e/ou sites que permitem o download de arquivos musicais. Exemplo disso é o Napster, um sistema de trocas de arquivos musicais, criado em 1999, que avançou quando possibilitou a instalação de uma rede de distribuição musical, até então de exclusividade das majors.

O MP3 e o Napster deram início a um novo formato de negócios: a venda de músicas pela Internet. Segundo Alexandre Agra, diretor de marketing do site iMusica, o Napster determinou uma mudança não controlada pela indústria fonográfica, contribuindo basicamente ao saber dominar a tecnologia disponível e inventando um novo modelo de venda de música.

Criado em 2003, o iTunes da Apple, é um dos modelos mais avançados de venda de música pela Internet. Através de seu cartão de crédito qualquer pessoa pode comprar um arquivo musical, tanto das indies quanto das majors, por 99 centavos de dólar.

Assim, percebe-se que a pirataria é uma das grandes inimigas do mercado fonográfico. Ela se torna um grande obstáculo para as gravadoras, que se preocupam em combatê-la ao invés de pensar no porque de tamanho sucesso e alcance. Um novo modelo de negócio surgiu e cabe às empresas da indústria fonográfica, daqui pra frente, saber explorá-lo para não só recuperar os clientes perdidos como também conquistar novos.


Estratégias para vender

O crescimento e desenvolvimento do mercado alternativo musical obriga as bandas pop que ainda dependem de uma gravadora a adotar estratégias de lançamento de discos. Com a banda mineira, Skank, não foi diferente. Uma das estratégias encontradas pelo grupo para promover seu novo disco, Carrossel, é uma ação voltada para usuários da operadora de telefonia celular Tim. Aqueles consumidores que adquirirem o celular Walkman RW300i levam para casa o novo CD e mais três faixas bônus. As versões ao vivo de "As Noites" e "Amores Imperfeitos", além do videoclipe do single "Uma canção é prá isso". É a primeira vez que um CD completo é lançado em versão para celular no Brasil.

"Para que CD se artistas e fãs já estão conectados"?

As grandes gravadoras exercem ainda grande influência na produção musical, determinam o que será lançado e até aquilo que será tocado nas rádios. Porém, esse fenômeno está relacionado principalmente à música pop, pois, bandas bandas independentes como Cansei de Ser Sexy, Mombojó e Cordel do Fogo Encantado se firmaram como grandes sensações de 2006 sem a ajuda de uma gravadora ou de uma estratégia de marketing eficiente para impulsionar a venda de discos.
Todas elas representam produtos dessa nova cultura musical, baseada no uso da ferramenta internet e até mesmo do antigo "boca-a-boca". Utilizando a mesma estratégia de bandas estrangeiras como a inglesa Arctic Monkeys ou a americana Clap Your Hands Say Yeah!, esses grupos nacionais também lançaram todas as suas músicas na rede, e o melhor sem a ajuda de ninguém.

O único homem do CSS, Adriano Cintra, em show no Lapa Multishow em BH (foto: Marcelo A. Santiago)


O exemplo que melhor comprova a eficácia dessa nova tendência é o da banda paulista Cansei de Ser Sexy. Composta por cinco mulheres e apenas um homem, o grupo fez a mesma coisa que muitas bandas em busca de sucesso fazem atualmente. Colocaram as músicas no TramaVirtual, que é hoje o site de referência da música alternativa, pois acreditavam que era a melhor forma de fazer com que as pessoas as escutassem. A tática deu certo, o grupo começou a fazer shows e em pouco tempo foi convidado pela gravadora alternativa Trama para gravarem um CD. O pessoal da banda nem esperava por isso, argumenta a guitarrista da banda Ana. "Na época não pensávamos em lançar disco, mas depois quando ficou sério, começamos a gravá-lo com versões diferentes das que estão online". O sucesso das meninas (ops, tem um cara também), foi tamanho que eles foram contratados em pela SubPop, gravadora que revelou grandes nomes do grunge como Nirvana e Mudhoney e seguem hoje em turnê nos Estados Unidos e Europa. A banda ganhou mais destaque em diversos jornais e revistas americanos especializados em música do que a também brasileira Mutantes que voltou com uma nova formação e se apresentou nos EUA no mesmo período que o Cansei de Ser Sexy. Indagadas se elas acreditam que estamos hoje caminhando para uma época na qual as bandas viverão apenas de shows, elas respondem que sim, e que isso é muito positivo.

"Achamos que há uma nova ordem, mais democrática na indústria, e que isso é muito bom, porque o mundo da música não é mais dominado por meia dúzia de grandes gravadoras", afirmam. Além disso elas reconhecem que o sucesso que elas têm hoje é fruto dessa nova alternativa de divulgação de música.

Outra banda que se privilegiou com a estratégia, foi a pernambucana Mombojó. Formada em abril de 2001, a banda já em 2002 se apresentou na décima edição do Abril Pro Rock ganhando diversos elogios da crítica local. Em 2003 eles gravaram seu primeiro CD "NadadeNovo" após serem contemplados com recursos do Sistema de Incentivo à Cultura da Prefeitura de Recife.



Mombojó no Conexão Telemig Celular, em Belo Horizonte. O público adorou (foto: Marcelo A. Santiago)

Eles disponibilizaram o CD na íntegra no site da banda: www.mombojo.com.br. E caíram no gosto da galera da cena alternativa nacional. Esse ano eles lançaram seu segundo disco "Homem-Espuma" e já são conhecidos do público mineiro. Só em 2006 eles se apresentaram em Belo Horizonte três vezes. Esgotaram os ingressos para as três apresentações. O Mombojó é hoje a banda que melhor representa a nova MPB.

Para especialistas no assunto como o advogado e um dos fundadores do site Overmundo, Ronaldo Lemos, essa nova tendência não favorece apenas o artista, mas também seu fã. Segundo ele, a internet começou como um ótimo lugar para distribuir música, porém, hoje ela se torna também um canal perfeito para o marketing feito pelos próprios fãs. Pode ser encaixado como exemplo disso a banda Cordel do Fogo Encantado. O grupo pernambucano só fez sucesso graças aos fãs que passavam e trocavam as músicas através de mp3. Sem uma grande gravadora, a banda conseguiu vender 15 mil cds.

Na mesma onda, está o website MySpace, uma espécie de Orkut que permite que seus amigos sejam suas bandas preferidas.

Ronaldo Lemos é enfático, "Para que CD se artistas é fãs já estão conectados"?


Jabá e gravações independentes

O músico Mário Moura acredita que viver de música depende da entrega. “Tem muito artista bom, que faz um trabalho ótimo que não está na mídia. Dá para sobreviver - sem muito luxo, é verdade”, comenta. Sambista mineiro, com veia carioca, Moura vive e acompanha as transformações que a música – e os músicos – têm sofrido.

A facilidade com que se grava hoje em dia faz com que artistas desconhecidos possam divulgar o trabalho de maneira mais eficiente do que se fazia há algum tempo. O problema, de acordo com Moura, não é gravar e, sim, distribuir o produto. “Hoje a tecnologia permite o acesso fácil à gravação, mas aí depois que a pessoa grava não tem como distribuir. Tinha-se que pensar em uma solução, um subsídio cultural, correios com taxas mais baratas. O governo tem que ajudar”, diz o músico.

Para a cantora e estudante de psicologia Luciana Bekerman, no entanto, é fácil gravar, mas em geral as gravações não são de boa qualidade. “Fica tudo muito caseiro, amador. E a gravação profissional requer um investimento inicial maior, que é uma quantia alta para muita gente”, reflete.

Luciana considera também ser difícil “viver de música”. “É difícil porque não tem mercado e dependendo do estilo de música é mais difícil ainda! O que se pode fazer é tocar em barzinho, que paga pouco. Além disso tem que estudar e trabalhar com outra coisa, para poder investir em uma formação, que é cara”, observa.

Independente das dificuldades encontradas para gravar, distribuir e viver bem através da música, a paixão acaba sempre imperando entre os músicos. Tanto é que o tom muda quando se fala em jabá, ou o dinheiro que as grandes gravadoras pagam às rádios para tocar músicas de artistas específicos. Moura acredita que tem que haver punição para este tipo de ação. “É um absurdo! Funciona como um caixa dois, é corrupção como qualquer outra. As gravadoras já têm um público grande, se não quer investir nos independentes, tudo bem, mas invadir o espaço do rádio dessa forma é crime”, critica.

As rádios deveriam funcionar como um espaço democrático de comunicação, que toca músicas de todos os tipos, permitindo ao ouvinte conhecer novos talentos, produções desconhecidas, assim como tudo que está freqüentemente na mídia. “O cara bom que não tem gravadora não é ouvido, isso é uma palhaçada”, reclama Luciana. A cantora completa: “A manipulação que ocorre com o jabá é terrível, as gravadoras não podem decidir o que o público vai ouvir”.


A situação dos artistas, Mário Moura e Luciana Bekerman, são exemplos de um grande número de músicos brasileiros que ainda aguardam uma oportunidade maior para deslanchar suas carreiras. Um dado revelado por Ronaldo Lemos, em palestra realizada em Belo Horizonte, no Palácio das Artes, dia 24 de Outubro, dá o tom da realidade para os artistas nacionais. Segundo Ronaldo, atualmente, a gravadora Sony-BMG possui apenas 52 músicos brasileiros contratados.



O "Udora"

O caso da banda mineira, Udora, que já se chamou Diesel é um pouco curioso. O grupo ganhou o festival Escalada do Rock o que culminou com a apresentação no palco principal do Rock in Rio 3 e na promessa de gravação de um CD pela gravadora Trama. Porém, o lançamento do CD nunca se concretizou, porque a banda nunca aceitou cantar em português. "Não assinamos com ninguém no Brasil porque nunca abrimos mão de cantar em inglês", afirma Gustavo Drummond, vocalista e guitarrista da banda.

No mesmo ano o grupo decidiu sair do Brasil e voar para Los Angeles a fim de tentarem uma carreira internacional. A banda conseguiu contrato com a gravadora J Records, porém o disco foi arquivado por "não ter viabilidade comercial". Lançaram então, em 2005, um disco independente intitulado Liberty Square. O CD vendeu dez mil cópias e eles se apresentaram mais de 150 vezes em território americano. Porém, ironia do destino ou não, o Udora, está de volta ao Brasil e - pasmem!- cantando em português. Algumas músicas em português já podem ser ouvidas no site do Trama Virtual.



Lobão versus Skank

Dois artistas de peso no cenário musical defendem opiniões opostas na mídia. Por um lado, Lobão, cantor, compositor e criador da revista Outracoisa, acredita que a as gravadoras estão com os dias contados. Do outro lado, Skank, umas das maiores bandas do rock / pop do país, com milhares de discos vendidos, diz que o poder ainda é deles.

Por mais polêmico que possa parecer aos olhos dos desatentos, Lobão é sim, uma das figuras mais importantes da música no Brasil. Não por sua obra especificamente, mas por sua briga contra as gravadoras e pelo seu trabalho frente à Revista Outracoisa.

A Revista Outracoisa foi criada em 2003 tendo como mote a cultura alternativa e com um grande truque na manga: em cada edição é lançado um CD inédito de um artista independente. Já foi distribuído CDs de artistas como BNegão (ex Planet Hemp), Cachorro Grande, Arnaldo Baptista (ex Mutantes), Plebe Rude, Bidê ou Balde, do próprio Lobão, entre outros. Além da revista, Lobão ainda conseguiu através de articulação política aprovar a lei da numeração dos discos e encabeça a campanha a favor da criminalização do jabá.

Em entrevista ao site Rock em Geral Lobão diz que é uma questão de tempo para os independentes dominarem o mercado e diz que as gravadoras estão falidas e que ainda as mantém em pé é a pratica do jabá: “E você vê bem, o que hoje em dia essas majors são? Não têm dinheiro, estão falimentares e qual é o trunfo que elas têm? Elas são um monopólio de agenciamento para as rádios. Então é uma formação de quadrilhas, aqueles caras, meia dúzia de três ou quatro que estão ali. Tem que acabar com esses caras.”

Do outro lado da moeda, está o Skank. Completamente inserido no mainstream o quarteto mineiro é um fenômeno de vendas de discos no meio dessa suposta crise. As rádios tocam suas músicas em exaustão, seus novos clipes são exibidos diariamente nos programas musicais e suas músicas são hits de novelas. São autores de grandes sucessos e músicos talentosos. E, por essas e por outras, defenderam as majors em entrevista ao site do Programa Alto Falante: “A gente tá vendo que eles estão meio moribundos, mas ainda tem muito poder. (...) Pros profetinhas de plantão, se eles estão anunciando que as gravadoras morreram, então venham tirar o morto da porta, porque eles não estão deixando ninguém tirar o morto da porta, não estão deixando ninguém passar (risos). Os caras ainda detém um poder mesmo. Tem uma ordem nova que não se estabeleceu por completo e tem uma velha que não morreu ainda.”

Claro que essa discussão vai durar muito. As gravadoras ainda têm uma relevância dentro do cena musical, no entanto a cena independente lança mais artistas e seus discos que as majors. Há uma carência sentida tanto pelo público quanto pelos artistas de novos nomes no mainstream. A impressão que dá é de um eterno déjà vu. Os velhos conhecidos em novas embalagens e os recém-chegados com suas velhas fórmulas. A época é transição e ninguém perde por esperar para ver (e ouvir) o que vai acontecer.

(você pode perceber algumas variações na formatação desta matéria, mas estas são devidas ao fato de ter sido escrita de forma colaborativa através do Google Docs, para a disciplina Cibercultura e Jornalismo Digital. A formatação original dos autores de cada trecho foi mantida, corrigindo-se apenas os eventuais erros ortográficos. A matéria também foi publicada, com destaque na capa, no site da PUC Minas.)

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