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19 de outubro de 2015

As origens do heavy metal mineiro

Recentemente assisti novamente ao documentário Ruído das Minas, sobre o início da cena de heavy metal de BH, e me lembrei da série de entrevistas feitas pelo Sávio Vilela sobre o mesmo tema e reunidas em seu blog, o Desova.

O Ruído das Minas é um documentário lançado em 2009, realizado como parte de um projeto de conclusão de curso na Faculdade de Comunicação da UFMG. Apresenta imagens de arquivo e entrevistas com integrantes de bandas que fizeram parte da primeira geração do metal mineiro, como Sepultura, Overdose, Chakal, Sarcófago e Witchhammer. Alguns de seus personagens se repetem nas entrevistas feitas pelo Sávio desde 2005 e que (em algum momento, segundo ele me disse da última vez que nos encontramos) devem resultar em um livro.


Para quem se interessa pelo assunto, sugiro assistir primeiro ao filme (lembrando que é uma produção independente e feita por estudantes, sem muita produção) e depois se aprofundar nas entrevistas, uma vez que alguns assuntos pontuados no documentário são desenvolvidos nas conversas publicadas no blog.

Abaixo, trehos de algumas entrevistas.

Max Cavalera
Já ouvi falar que foi o Neurosis que fez o Sepultura começar a experimentar percussão na música de vocês. É isso mesmo? 
Foi uma das bandas pesadas que a gente viu, eu, o Igor e todo mundo, naquela época, que tinha um lance de percussão. Um lance totalmente diferente da gente, meio industrial, sei lá… Nem sei categorizar o Neurosis. O Neurosis é uma banda completamente diferente de tudo. Mas, bom, eles tinham percussão e já a gente viu um show deles e ficou “oh! Que do caralho”. Eu lembro que o Igor disse: “que doideira que os caras estão fazendo”. Meio que a semente veio daí. Não lembro exatamente qual foi a ordem, mas quando eu fiz o Nailbomb, o Dave (Edwardson), baixista do Neurosis, tocou baixo nos nossos shows ao vivo.
E a primeira vez que a gente fez uma jam ao vivo com percussão foi na Argentina, com o Titãs abrindo para a gente (N.: abril de 1994, turnê do Chaos A.D., no Estádio Obras, em Buenos Aires. O Titãs, na abertura, tomou uma chuva de cuspes dos fãs do Sepultura.). Os Titãs subiram no palco com a gente e fizemos essa jam. Uma coisa do nada.
Outro dia eu estava vendo uns lançamentos da Roadrunner, eles lançaram um DVD especial do Roots. E uma coisa que eu nem me lembrava mais o Andy Wallace (N.: produtor do Chaos A.D.) comentou nesse DVD. A gente foi fazer uma foto em Phoenix, num lugar que tinha uma monte de coisa mexicana, umas coisas xamânicas, de magia e tal… Essa casa estava cheia de instrumentos de percussão e a gente fez uma jam session.
Acho que o Andy Wallace tá certo, a primeira jam de percussão que a gente fez foi nessa casa, que eu nem lembro de quem era ou onde foi. O Andy Wallace viu aquilo e disse: “seria legal se vocês gravassem alguma coisa assim desse tipo”. E acabou virando “Kaiowas”.
Mas o Neurosis, de todos nós, o Igor que era fanzão mesmo de Neurosis. Eu comecei a ouvir mais depois dele. O Igor sempre foi mais por esse lado, ele gostava de Neurosis, Amebix, Eyehategod… E pouco a pouco eu comecei a gostar dessas bandas também. O Igor sempre foi diferente. No Sepultura, já na época do Schizophrenia, nós escutávamos Hellhammer e Slayer e ele ia para o ensaio ouvindo Beastie Boys. Mas a gente sempre ouvia coisa misturada: Slayer, Morbid Angel, Dead Kennedys, Discharge, as bandas punk finlandesas…

Sílvio Bibika Gomes
(primeiro empresário do Sepultura e colaborador de longa data da banda, co-autor da biografia Sepultura – Toda a história)
O que você acha que fez a cena eclodir e crescer da maneira que foi? 
Éramos bem mais agilizados do que a moçada de agora, o povo hoje é meio mimado. Tem show, ninguém vai. Venom veio em Belo Horizonte, foi sensação, parou. Hoje em dia, vem uma pá de banda,e neguinho: “ah não, ingresso tá caro, tá chovendo, rachei minha unha”…
A gente na década de 80 corria mais atrás. Ninguém fazia show. Então resolvemos fazer uma banda e fazer show, foi quando surgiu a cena. Eu falo que a única época que teve cena em BH foi nos anos 80. Nas devidas proporções, a gente virou a Seattle do Brasil, mas na versão heavy metal. Teve gente que mudou de São Paulo pra vir pra cá pra e montar banda. Como o Rapadura, que depois tocou no The Mist e no Soulfly. O João Gordo vinha pra cá quase que mensalmente, ficava na minha casa ou na casa do Max. O Andreas veio pro Sepultura porque Belo Horizonte era o lugar, saiu de São Paulo e veio passar férias aqui. Hoje em dia neguinho fala “aaahn Sepultura…”. Se não tivesse Sepultura, Overdose, Chakal, não tinha nada aqui hoje. Estariam escutando rádio FM até hoje.
Em 84 tinha uma cena muito pobrezinha aqui, o Rock in Rio que fez dar um boom, em janeiro de 85. O Rock in Rio mudou isso no Brasil inteiro, neguinho começou a se interessar.
Tinha o Tropa de Choque, do Reis, que era um cara que agilizava show aqui, legal pra caralho. O Overdose, que era mais velho, tinha uma base de fãs forte pra caralho, muito forte. Tinha um monte de coisa legal, não era só o Sepultura. O Sepultura, inclusive, teve uma época que era a pior banda de Belo Horizonte, era ruim pra caralho.
No final de 85, quando saiu o disco split do Overdose e Sepultura a gente tinha que vender de mão em mão, ninguém gravava disco, até o Bolão (n.: dono do tradicional restaurante Bolão Rei do Espaguete) comprou disco da gente. Era igual rifa de colégio, em seis meses a gente vendeu as mil cópias. Era uma coisa impensável um ano antes.
A partir daí a gente começou a fazer intercâmbio: vamos tocar no Rio, vamos tocar em São Paulo. Sepultura toca no Rio, depois o Dorsal Atlântica vem pra Belo Horizonte, Sepultura toca em São Paulo depois o Vulcano vem junto e toca… Era um intercâmbio muito forte, uma coisa que só é perceptível ainda na cena hardcore.

Idelber Avelar
(PhD em literatura e estudos culturais, autor do artigo Heavy Metal Music in Postdictatorial Brazil: Sepultura and the Coding of Nationality in Sound)

Em seu artigo “De Mílton ao Metal: Política e Música em Minas”, você sugere que há uma relação entre o Clube da Esquina e a cena metal de BH dos anos 80. O que há de comum entre esses dois? 
Não há uma relação direta, claro. Mas é a perda de representatividade da MPB entre a juventude que abre o caminho para as tribos que surgem nos anos 80, entre elas o metal. Ao longo dos anos 70, a MPB havia representado anseios de rebeldia e transformação social. Na medida em que a MPB vai sendo incorporada à indústria cultural e seus ícones vão se transformando em estrelas globais, a juventude começa a se apropriar de um estética roqueira que se opõe a ela. O metal surge negando, rasgando, implodindo a estética emepebista. O Clube da Esquina e o heavy metal compartilham uma relação com a iconografia cristã de Minas Gerais, mas a tomam em sentidos contrários. Mílton tentava reapropriá-la para uma política fraternal e emancipatória (pensemos em discos como Sentinela e Missa dos Quilombos). O heavy metal usaria uma estratégia oposta: esvaziaria essa simbologia de todo o significado, revirando-a pelo avesso e submetendo-a ao furor do satanismo.

Vá ao Desova para ler estas e outras entrevistas na íntegra.

Ainda sobre documentários musicais, mas sobre punk/harcdcore no Brasil, indico o Guidable - A verdadeira história do Ratos de Porão e o Botinada - A historia do punk no Brasil, ambos disponíveis online.

16 de março de 2015

"Liberdade"

"O mundo jamais o desencorajará de operar na configuração padrão, porque o mundo dos homens, do dinheiro e do poder segue sua marcha alimentado pelo medo, pelo desprezo e pela veneração que cada um faz de si mesmo. A nossa cultura consegue canalizar essas forças de modo a produzir riqueza, conforto e liberdade pessoal. Ela nos dá a liberdade de sermos senhores de minúsculos reinados individuais, do tamanho de nossas caveiras, onde reinamos sozinhos.

Esse tipo de liberdade tem méritos. Mas existem outros tipos de liberdade. Sobre a liberdade mais preciosa, vocês pouco ouvirão no grande mundo adulto movido a sucesso e exibicionismo. A liberdade verdadeira envolve atenção, consciência, disciplina, esforço e capacidade de efetivamente se importar com os outros - no cotidiano, de forma trivial, talvez medíocre, e certamente pouco excitante. Essa é a liberdade real. A alternativa é a torturante sensação de ter tido e perdido alguma coisa infinita."


Trecho de uma fala do David Foster Wallace.

17 de dezembro de 2014

Filosofia do dub (e do filtro)

Deparei-me com esse texto do Hermano Vianna, publicado na Folha de S. Paulo em 2003, e achei o tema bastante atual. Uma constante da nossa época é o grande volume da produção cultural, ampliado pela democratização dos meios de produção (softwares e hardwares) e de difusão. Quanto maior a produção, mais se destaca a necessidade de filtros que a explorem e selecionem as produções que se sobressaem. O que Hermano destaca – entre outras coisas – é o que se perde nesse processo de “curadoria”. Basta uma breve visita aos principais blogs e sites culturais brasileiros para se perceber isso: estão, praticamente todos, repercutindo as seleções de veículos estrangeiros como Pitchfork, Stereogum, NME e outros. É como se não houvesse outra produção musical além daquela realizada na América do Norte, Europa e Brasil. Em 2015 (praticamente), continuamos reproduzindo processos de séculos atrás, guiados pelo que é determinado pelo “mundo desenvolvido”.

Com isso em mente, é ainda mais interessante perceber fenômenos locais e “fora do eixo”, como ele mesmo aponta, como o reggae (décadas atrás) ou o funk brasileiro (atual).

Longe da clareza e da amplitude de Hermano, me limito aqui a fomentar a reflexão. Boa leitura!

Lee Perry

Filosofia do Dub
Por Hermano Vianna
publicado no caderno Mais!, Folha de S. Paulo, 09/11/2003

A bibliografia dos mais militantes textos anti-imperialistas é uma aula de imperialismo. Os autores básicos são sempre os mesmos: Karl Marx; Theodor Adorno; Eric Hobsbawn; Stuart Hall e por aí afora, ou melhor, cada vez mais para dentro de um certo “cânone” ocidental, aquele que inventou a crítica do Ocidente. Quando aparece um nome “fora-do-eixo”, é fácil perceber as razões que motivaram sua escolha: ou leciona numa poderosa universidade européia/norte-americana, ou teve algum dos seus livros publicado por essas universidades. Mesmo a recente onda dos estudos “pós- coloniais”, com tantos nomes aparentemente indianos ou africanos fazendo sucesso, foi produzida no âmbito das editoras, revistas acadêmicas e seminários dessas universidades. O resto do mundo, como nos chama a revista Colors (da Benetton), segue com submissão efusiva (Sartre voltou à moda!) o hit-parade intelectual que povoa as páginas da New York Review of Books, do Times Literary Supplement ou dos Actes de la recherche.

Poucas vezes, a não ser em estudos muito especializados - e só lidos obviamente por especialistas -, temos notícias sobre a produção editorial (aqui incluo também a literatura) de países como a Indonésia, o Japão, a África do Sul ou a vizinha Colômbia. Geralmente esperamos que gente como Nestor Garcia Canclini, Kenzaburo Oë ou Mia Couto faça sucesso em Londres, em Paris, na reunião da Modern Language Association ou ganhe um Prêmio Nobel para que possamos publicá- los, lê-los ou mesmo ouvir seus nomes no Brasil. O “Primeiro Mundo” filtra as informações provenientes do “resto do mundo” que devem chegar até nós, mesmo ao ambiente anti-pop de nossa vida acadêmica. São raros os intelectuais brasileiros que mantêm canais de comunicação freqüentes com a produção universitária de países “periféricos”, sem a mediação de Harvard/Yale/Princeton ou de seus representantes.

Pena: não temos nem idéia do que estamos perdendo. (Imagine o que perderíamos se tudo o que pudéssemos ler sobre o Brasil fosse o que foi publicado em inglês ou francês.) Estamos deixando de estabelecer contato com muitas novas idéias que poderiam ser importantes, justamente por estarem baseadas em perspectivas saudavelmente distanciadas dos padrões TOEFL ou CNRS (gostei de juntar os dois níveis bem diferentes!), para dar novos rumos a debates que se tornaram insuportáveis com a reciclagem de duas ou três velhas teorias eurobeligerantes. Por outro lado, deixamos também de ser lidos por gente que pode nos fazer críticas não-viciadas pelas últimas obsessões do filósofo francês ou sociólogo alemão em voga.

Por exemplo: qual foi o último livro de um autor jamaicano publicado no Brasil? Houve um primeiro? Acho que não. E quem decidiu, por todos nós, leitores brasileiros, que tudo que é escrito na Jamaica, ou por jamaicanos, não nos interessa?

Tive o prazer de ver O Mistério do Samba publicado na Jamaica - e também em Barbados e Trinidad e Tobago - pela University of West Indies Press. A editora jamaicana me convidou (junto com a embaixada brasileira em Kingston) para promover o lançamento com palestras e noites de autógrafos. Aceitei o convite sem pestanejar. Afinal, totalmente ignorante com relação à produção universitária caribenha (descontando alguns livros cubanos comprados nos anos 70), foi com surpresa radical e enorme alegria que recebi a notícia do interesse jamaicano em publicar o meu livro.

Tenho uma razão muito pop para ter ficado tão alegre. Jamaica, para mim, sempre foi país amado e respeitado por, antes de ser a terra do reggae ou de Bob Marley, ser a terra do dub. Muita gente pode não ter noção do que estou falando. O dub foi a maneira que os produtores musicais e os engenheiros de som jamaicanos inventaram, desde meados dos anos 60, para fazer música e pensar a música. As canções deixaram de ser encaradas de maneira linear. Os sons passaram a ser montados não-linearmente, antecipando a maneira de editar textos/barulhos/imagens (o cortar-e- colar, ou cut-and-paste) que se tornou dominante a partir da personalização dos computadores.

As técnicas do dub, desenvolvidas por gênios - para mim tão geniais quanto Ludwig Wittegenstein ou Roman Jackobson, mas não quero impor meus critérios de julgamento para ninguém - como King Tubby ou Lee “Scratch” Perry, estão hoje na base da totalidade da produção musical de todo o mundo. Sem dub não haveria hip hop, techno, drum’n’bass, ou mesmo o mais recente sucesso da Britney Spears ou do Zeca Pagodinho.

No encarte do primeiro disco - lançado em 1999 - da gravadora de Bally Sagoo, um dos principais produtores/compositores do pop indiano (tendo iniciado a onda de remixes das trilhas sonoras de Bollywood), o dub está definido da seguinte maneira: “estilo de música com a combinação da contínua pancada da bateria com linhas pesadas de baixo, acompanhadas por uma colagem de efeitos sonoros de eco maluco onde os vocais estão esparsa mas inventivamente ecoando ao fundo...” Uma definição certamente engraçada, mas enganosa.

O dub não é um estilo musical: é mais um procedimento filosófico. O dub não é uma forma, mas sim um “modo de agenciamento de formas”. Roubo essas palavras de Jean Laude, um dos principais pensadores da relação entre o modernismo e a África. Segundo Laude, o que interessava a Picasso na “arte negra” não era o exotismo ou o primitivismo, mas sim a maneira mais-que- moderna que as máscaras e as estatuetas africanas propunham para se pensar o mundo visual, onde a combinação, as redes de sentido e a "montagem" têm mais importância que a organização via a linearidade da lei da perspectiva. O que os jamaicanos nos ensinaram com o dub era semelhante: uma outra maneira de se relacionar com os sons, como se fossem elementos arquitetônicos que podem ser combinados de muitas formas diferentes, não privilegiando nenhuma dessas formas como a original. E fizeram tudo isso através de uma revolução tecnológica tremenda, e praticamente sem recursos tecnológicos.

O primeiro grupo de rock a aprender e utilizar o conteúdo mais importante da lição jamaicana foi o Roxy Music. Brian Eno, tecladista desse grupo, já usava sintetizador e era fã de La Monte Young e John Cage - por isso conseguiu entender imediatamente a importância do dub. Os produtoresmusicais jamaicanos não tinham sintetizadores nem, acredito, informações sobre as pesquisas de ponta na música contemporânea. Mesmo assim podiam e podem ser descritos como filósofos. Na definição de Deleuze e Guattari, um filósofo é um “sintetizador de pensamentos”, um artesão de conceitos.

Os estúdios de gravação de Kingston eram precários (e continuam não tendo condições de competir com os estúdios do “Primeiro Mundo”). Lição: não precisamos ter os últimos upgrades, ou as máquinas mais poderosas, para ter as idéias - ou inventar os procedimentos - que vão determinar os futuros desenvolvimentos das máquinas que - por sermos pobres - não podemos ter ou construir.

Os jamaicanos ainda se maravilham com o sucesso mundial do reggae, como se até não fossem totalmente dignos de sua invenção. Como um país tão pequeno, tão pobre, tão periférico foi capaz de tal façanha? Ainda bem que tamanho e riqueza não são documentos. Tanto o dub quanto o reggae são produtos de uma corrente de energia alternativa que sempre resistiu a ser submissa intelectualmente, com a desculpa de ser pobre, com relação ao resto do mundo. A Jamaica poderia pensar/executar o que o resto do mundo nunca pensou/executou, o que o resto do mundo seria obrigado a copiar. E foi o que fez. Nenhum outro país do “Terceiro Mundo” tem presença tão marcante e influente no cenário da nova cultura popular globalizada.

Porém, repito, mais que uma revolução musical ou tecnológica, o dub significava uma revolução conceitual, tão importante para a música pop como foram o aparecimento da música concreta para o campo “erudito” ou o choque da edição “acossada” de Godard, ou - antes dele - de Vertov, para o campo cinematográfico. Uma invenção como o dub não surge totalmente do nada, sem conexão com outros focos vizinhos de “novo pensamento”. A “energia” (a “vibration”, como dizem os cantores de reggae) que alimentou a criação do dub deveria estar presente em outros ambientes da vida intelectual jamaicana. E estava. E está.

Onde está? Não sabia, apenas intuía. Não sabia nada sobre a Jamaica, além da música. O Brasil também não sabe. Apesar da importância cada vez maior que o reggae têm entre nós. Exemplos? Ligue o rádio. Ouça Skank, Natiruts, Paralamas, Cidade Negra, Gilberto Gil. Vá a São Luís do Maranhão dançar juntinho em qualquer festa de radiola. Pense na maneira como os bloco afros de Salvador transformaram o reggae em samba-reggae, base de toda a axé music. Que outro estilo musical internacional tem tanta penetração no nosso gosto popular? Mas nesse gosto popular, a Jamaica é imaginada apenas como um território mítico, uma ilha tropical, terra de Bob Marley, das tranças rastas e da maconha. Mito é bom. Mas cair na realidade, de vez em quando, pode ser melhor. Foi o que fiz, indo parar logo numa universidade jamaicana, que nenhum turista visita (aliás turista que vai para Jamaica só fica em resorts praianos totalmente separados da realidade do povo da ilha), mas é lugar extremamente revelador sobre o que acontece de realmente importante no país.

A primeira revelação - bastante óbvia e que não deveria causar nenhum estranhamento - que um brasileiro tem ao entrar numa universidade jamaicana é ver que ali só há negros, do reitor ao servente, passando por praticamente todos os alunos. Imediatamente ficamos tomados pela vergonha de ter tão poucos negros nos nossos cursos superiores. Passei horas sem ver um único outro "branco" nas imediações. Fiquei alegre por ser tão minoria.

Minha primeira atividade no campus não poderia ser mais adequada para uma imersão profunda - com jeito de tratamento de choque - na sociedade local. Era uma palestra do Tony Rebel, estrela politizada do ragga, o estilo mais popular do reggae atualmente. Sem muita preparação, cai dentro de um debate onde todos os ânimos estavam exaltados. Era para mim impossível acompanhar o que estava acontecendo, pois ninguém no recinto falava, literalmente, o mesmo dialeto. Havia um professor com sotaque de Oxford. Tony Rebel falava o inglês esperto das ruas de Kingston. Um estudante vociferava em crioulo, e outro na linguagem especial dos rastafari. Ninguém trocava de "estilo lingüístico" ao falar com os outros. Mas todo mundo se entendia perfeitamente. Todo mundo ali era barulhentamente poliglota, menos eu.

A palestra tinha sido organizada pela Reggae Studies Unit, um centro de estudos da cultura popular jamaicana, responsável entre outras coisas pela Bob Marley Lecture, importante palestra anual que já contou com a participação de Omar Davis, na época ministro da fazenda, dissertando sobre a contribuição de Peter Tosh para a identidade nacional.

Fundadora da Reggae Studies Unit, Carolyn Cooper atuou como uma espécie de cicerone no meu tour pela academia jamaicana. Não poderia haver guia melhor. Carolyn é autora de um livro brilhante, chamado Noises in The Blood (o subtítulo é "Oralidade, gênero e o corpo 'vulgar' na cultura popular jamaicana"), que deveria ser lançado no Brasil. Há vários capítulos que são de leitura obrigatória para quem debate o pop contemporâneo de qualquer lugar do mundo: um que faz a análise literárias das letras de Bob Marley; outro que leva o dancehall (outros intelectuais jamaicanos desprezam essa nova forma de reggae, do mesmo modo como o funk carioca é desprezado entre brasileiros) a sério, e ainda outro que disseca o filme Harder They Come.

Todos esses assuntos convivem dentro de uma trama conceitual caribenha, ou negro-atlântica, onde aparecem lado a lado pensamentos de Edouard Glissant, Derek Walcott, Zora Neale Hurston, George Lamming, Paul Gilroy, Mutabaruka, Shabba Ranks e da magnífica Louise Bennett, pioneira no uso do crioulo jamaicano como língua literária, autora - nos anos 50 - do poema Colonização em Reverso que profetizava ironicamente a importância que os imigrantes jamaicanos iriam ter na cultura da Inglaterra de hoje. Entre exemplos tipicamente locais, nos quais quase sempre nos reconhecemos, descobrimos também atalhos para novas maneiras de perceber nossas velhas obsessões nacionais como a questão da mistura de culturas e raças.

Voltei da Jamaica com uma idéia fixa: a da necessidade de haver no Brasil seminários pop- acadêmicos, pelo menos anuais, onde nos fossem apresentadas a cada vez as complexidades surpreendentes de pensamentos produzidos em partes diferentes do mundo, partes tão distantes do "centro do mundo" quanto o nosso país. Espaços de reflexão onde nós pudéssemos conviver com as idéias de gente como Carolyn Cooper, ou Epeli Hau'ofa (de Tonga), ou Renato Constantino (das Filipinas - isso só para ficar em ilhas), ou mais gente que infelizmente não conheço, gente que nos faça pensar coisas diferentes, diferentemente, bem longe do lugar comum nosso velho conhecido euro-norte-americano.

Fica aqui meu apelo: por canais diretos de comunicação intelectual com o mundo! Com o mundo inteiro!

6 de abril de 2012

Leitura indicada: Ronaldo Lemos e "Código aberto"

"Existe um segredo bem guardado que grande parte dos músicos brasileiros ainda não descobriu. Em setembro de 2010, o Ecad fechou um acordo com o YouTube e o Google para recolher direitos autorais....
Resultado: a partir de novembro de 2010 um bom dinheiro adicional passou a entrar nos cofres do Ecad em nome de toda e qualquer pessoa que posta um vídeo musical no YouTube. A notícia do acordo (divulgada de forma bastante discreta) diz que ele abrange 'todo o repertório musical que estiver disponível na plataforma do YouTube' (veja em bit.ly/f1FFbw). Como se isso não bastasse, o Google comprometeu-se a pagar valores retroativos desde 2001! Ou seja, uma dinheirama.
Com isso, o Google faz a sua parte: paga aos músicos os valores devidos. A questão é se o Ecad vai pagar todos os que têm direito a receber. Na prática, se você colocou uma música que tem qualquer participação sua no YouTube, tem direito a receber – mesmo que não seja associado ao Ecad ou às associações que o constituem. Afinal, sua parte já está sendo cobrada por você".

Estes são trechos do artigo "O mistério do E-cad", publicado por Ronaldo Lemos em sua coluna "Código Aberto" na revista Trip de Março de 2011. Longos 12 meses depois, o Ecad virou manchete ao cobrar ilegalmente de blogs que veiculavam vídeos do YouTube com músicas e que serviu de estopim para que seu nebuloso funcionamento fosse alvo de muitas matérias, com destaque para as publicadas no Farofafá.

Referência em direito autoral na internet, Ronaldo Lemos é figura essencial na divulgação do Creative Commons e pesquisador da cultura digital. Além de sua coluna na Trip, apresenta o programa Mod na MTV e foi um dos fundadores do Overmundo.  Na "Cógido Aberto", Lemos demonstra como a cultura digital é parte cada vez mais essencial da cultura contemporânea e afeta aspectos distintos de nossas vidas, desde nossas relações interpessoais à economia das nações.

Atento às transformações culturais, os textos mensais de Lemos abordam vanguardismo, tecnologia, mudanças sociais e registram  pontos importantes da cultura contemporânea que poderiam facilmente passar despercebidos. A música tem destaque em suas colunas e serve como base para se (tentar) entender uma série de mudanças comportamentais e do mercadológicas, como as destacadas nos textos "Radinho de pilha 2.0" ("Nas periferias da América Latina, as músicas mais populares circulam hoje em celulares"), "Chupa chups musical", "A mensagem é o meio" (de 2009, quando fazia sentido escrever "Quem faz rock independente utiliza o MySpace, já a música de periferia prefere o Youtube", hoje pode-se trocar o MySpace pelo Facebook) e "Os números erram" ("dinheiro público x combate à pirataria").

* Ilustração de Luba Lukova publicada junto a uma das colunas de Lemos na revista Trip.

5 de abril de 2012

Todas as edições da revista [] Zero para download

Publicação fundamental do jornalismo musical produzido no Brasil no início dos anos 2000, a revista [] Zero teve vida curta (14 edições), porém marcante. Cobriu a lacuna deixada pela Bizz durante um período, contribuiu na formação musical de muitas pessoas e estimulou outros a se aventurarem no jornalismo cultural. No início de 2002, o Leo Santiago (meu irmão), fez uma matéria sobre o lançamento da revista - publicada aqui no Meio Desligado em 2007. Agora, todas as edições da revista estão disponíveis no site do Luiz César Pimentel, um de seus criadores.

A qualidade da digitalização é ruim mas permite a leitura de algumas matérias. Mesmo com esse problema, vale para se ter noção das pautas e das bandas abordadas na publicação (principalmente as brasileiras independentes que, em sua maioria, já acabaram).

É até estranho pensar que houve uma época em que boas revistas eram vendidas por R$ 4,90.

11 de janeiro de 2012

Diplo, tecnobrega e a visão da nova música brasileira no exterior

Quer uma prova do quanto o Brasil está bombado no exterior?

Diplo escrevendo (e fotografando) sobre tecnobrega na Vanity Fair. Só faltou avisarem pra ele que a Banda Uó é uma piada.


"O Brasil compete com qualquer nação em termos de diversidade musical. MPB, bossa nova e samba ditam as regras agora, mas durante anos, cada região distante agia como uma ilha incubadora de sons estranhos, do forró ao heavy metal; do samba e reggae ao frevo; do baile funk ao axé; e ao tecno brega.  Atualmente o país está se transformando em lugar de estranhas mutações musicais - alguns desses micro-gêneros crescem e avançam através de vendedores de gravações ao vivo em CD/DVD, MSN e links do YouTube.  Um dos grupos mais geniais dos últimos tempos é a Banda UÓ (algo pronunciado como Bonda Wah), um grupo de garotos vindos do centro-oeste do Brasil, da metrópole agrícola de Goiânia. Eles adotaram um estilo de música amazônica de Belém chamada tecno brega - que pode ser traduzido livremente como 'Cheesy Techno'. É menos techno e mais reggaeton industrial metanfetamina. Os membros são Davi, Mateus e a transgênero Candy Mel".

22 de dezembro de 2011

Balanço oficial do Fora do Eixo em 2011

Para complementar o texto oficial da nova fase da Abrafin e contribuir para a contextualização do debate, segue abaixo o comunicado oficial do Fora do Eixo sobre suas atividades em 2011. Em breve, meu texto sobre tudo isso.


O Fora do Eixo divulga os indicadores das ações realizadas pela rede durante o ano de 2011. Compartilhar estas informações é uma ação que reforça o caráter de código aberto defendido pelo FdE e também funciona como uma provocação: quais outras iniciativas tem seu código aberto, tecnologias compartilhadas e publiciza suas informações detalhadamente?
Dos estudos ao “Império do Empírico”, a rede se destaca – principalmente – pela capacidade de multiplicar os dividendos através da sistematização da troca de serviços, atuando na teoria e prática dos processos da Economia Solidária. Assim, 85% de tudo que o FdE investiu no ano foi em FdE Cards, totalizando 75.400.000,00, que somados aos R$13.000.000,00 investidos, nos fez chegar ao número de 88.400.000,00 de investimento na cultura brasilieira.
A frente da música ainda é o vagão chefe puxando o trem. São 20.000.000,00 FdE Cards e R$12.000.000,00 investidos, totalizando 32.000.000,00. Assim, em 2011, o ano começou forte, com uma das grandes ações da rede, o Festival Grito Rock, que teve 133 edições, sendo 22 em SP e MG; 17 nos estados de RJ e ES; 20 no Nordeste; 12 no Norte; 9 no Centro Oeste; 18 no Sul e mais 13 edições em outros países da América Latina.
Um dos grandes gargalos da música independente em países como o Brasil sempre foi a questão da circulação. O investimento do Fora do Eixo fez com que 13.500 artistas circulassem em nossas plataformas, num total de 5.152 shows por todo o país. Foram realizadas 150 turnês, passando por 133 cidades, 26% delas em SP e 24% no Nordeste, com uma média de 12 shows a cada turnê. Ainda em 2011, foram realizados 1.133 eventos, sendo 31,6% no Nordeste, 27,3% em SP, 13,7% em MG, 9,9% no Norte, 8,7% no Sul, 6,1% no Centro Oeste e 2,6% no RJ e ES.
Foram realizados 170 festivais nos 27 estados do Brasil. A Distro FdE alcançou o número de 61 pontos, com mais de 8.000 títulos distribuídos. A Agência pagou R$ 2.500.000,00 em cachês. Na relação com bandas internacionais, tivemos 51 bandas, sendo 14 da Argentina e 37 de outros países.
Ações do Banco FdE movimentaram 10.550.000,00 FdE Cards, sendo 13,99% do produzido na rede. A frente do Banco FdE compreende as ações de sustentabilidade da rede, como planejamento de projetos, sistematização de dados, gestão das SEDAs (Semana do Audiovisual) dos coletivos e Casas Fora do Eixo, além da elaboração de projetos para lei de incentivo, gestão de recursos financeiros, gestão de recursos humanos e do sistema Fora do Eixo Card. A frente conta com pelo menos um agente de cada ponto Fora do Eixo dedicado a realizar essas atividades diariamente, compartilhando as tecnologias sociais e as plataformas desenvolvidas coletivamente. Este ano foram ao todo 153 projetos escritos e enviados para captação pública ou privada. O Banco FdE é quem faz a interface direta com o movimento de economia solidária, conectando empreendimentos por todo o Brasil.
O PCult movimentou 6.150.000,00 FdE Cards, 8,16% do produzido na rede. Um dos projetos mais significativos do PCult deste ano foram as Colunas Fora do Eixo, que em 2011 percorreram além de 23 estados brasileiros, países como Equador, Colômbia, Panamá, Costa Rica, Nicarágua, El Salvador, Honduras, Guatemala, Chile, Argentina, França e Estados Unidos, promovendo debates abertos sobre políticas públicas para cultura. Além disso, realizamos seis Congressos Regionais nas cidades de Porto Alegre (RS), Sabará (MG), Araraquara (SP), Manaus (AM), João Pessoa (PB) e Anápolis (GO), encerrando o ano com a realização do Congresso Nacional FdE em São Paulo (SP), com a participação de mais de 2.000 pessoas e 200 convidados, que debateram durante sete dias o tema da cultura como transformadora das relações de trabalho, sociais e econômicas.
A Universidade Fora do Eixo é o hiperlink da rede com as universidades brasileiras e instituições de ensino formais e não-formais, estabelecendo diálogos com estudantes, professores, reitorias, radios e TVs universitárias. Mas é fora do ambiente acadêmico que a UniFdE se destaca, valorizando a formação livre, faculdades da rua e da vida, ampliando a âmbito da formação para além do ambiente acadêmico, que muitas vezes é engessado e anacrônico. A frente mobilizou 17.000.000,00 FdE Card, 22,55% do investimento total da rede, por meio de projetos como o Observatório Fora do Eixo, que em 2011 teve 85 edições, além do programa de imersões, que envolveu cerca de 65 coletivos diferentes em mais de 70 imersões temáticas e de gestão, e o programa de vivências, que lançou 17 editais que somam 305 vagas de vivência e envolveu mais de 3.000 pessoas de todas as regiões do país.
O Centro Multimídia Fora do Eixo (Comunicação FdE) em suas ações movimentou 7.000.000,00 FdE Cards, correspondentes a 9,28% do produzido na rede. Alinhavado com os preceitos da auto-gestão e do multi-protagonismo, o CMM FdE é grande entusiasta do #CidadãoMultimídia, estimulando o poder de voz de cada indivíduo e a maior comunicabilidade na sociedade, atenuando a necessidade de intermediadores de notícia, atual papel da dita “mídia de massa”. O mapeamento de contas de twitter aponta 2.500 perfis entre institucionais e pessoais. O mesmo para o facebook. Nosso Banco de Mailing – Emails coletados para envio de newsletters periódicas (semanais e/ou especiais) totaliza hoje mais de 46.000 endereços eletrônicos. São 92 sites e blogs que compõe a plataforma de comunicação da rede. E em 2011, o número de transmissões de shows, debates, oficinas e reuniões chega a 894, mais de 2 eventos diários.
Outras frentes também mobilizaram muita força de trabalho, produção de capital tangível e intangível. O Clube de Cinema Fora do Eixo movimentou 6.600.000,00 FdE Cards, o que corresponde a 8,75% da receita produzida. A inovadora #PósTv trouxe uma nova perspectiva televisiva, realizando programas diferenciados que alcançaram um público de 6.485 pessoas, através das 150 edições do Programa Na Casa, 64 Observatórios FdE, 9 #PósCine, 30 transmissões do #DomingonaCasa e 34 transmissões do #CedoeSentado.
A ação em cineclubes realizou 750 sessões no Brasil, sendo 226 em SP, 167 em MG, 33 em RJ e ES, 45 no Centro Oeste, 130 no Norte, 65 no Nordeste, e 84 na Região Sul, totalizando 22.500 espectadores. Outra ação em destaque é a SEDA – Semana do Audiovisual – que teve 17 edições em 2011, sendo a Região Norte, que sofre graves deficiências de infraestrutura em transporte e acesso à internet, a que mais sediou o evento, com 4 edições. O canal da Web TV Fora do Eixo no YouTube publicou 452 videos. Parcerias importantes foram feitas na área audiovisual como o Festival Internacional de Curtas-metragens de São Paulo e Festival Internacional de Curtas-metragens de Belo Horizonte.
O Palco Fora do Eixo é a frente que desenvolve ações visando fomentar, estimular e gerar sustentabilidade na cadeia produtiva das artes cênicas. Movimentou 2.500.000,00 FdE Cards, 3,32% do produzido na rede. Atualmente possuí 40 grupos e 20 artistas independentes diretamente vinculados ao projeto, espalhados pelas regionais Sul, Norte, Nordeste e Sudeste. Suas principais campanhas para fomentar a integração das artes foram o Grito Encena (campanha lançada no Grito Rock e mais aderida em 2011) e o Intera, realizado durante as SEDAs. Como plataformas de circulação, divulgação e fomento, foram realizados Cabarés FdE, participação em Festivais FdE, Encontro Palco FdE, Mostra de Teatro FdE, Festivais de Teatro, turnês, oficinas, observatórios, palestras, mapeamentos, elaboração de um catálogo de artistas e apresentações, totalizando 160 ações até dezembro de 2011.
Já a FEL – Fora do Eixo Letras – é a frente que desenvolve ações visando fomentar, estimular e gerar sustentabilidade na cadeia criativa e produtiva da literatura. A FEL movimentou 1.300.000,00 FdE Cards, 1,72% do total da rede. Sua editora publicou 1.500 exemplares de sua edição impressa, o Seda Poemas. Entre os projetos da frente, o Varal da Arte esteve presente em todos os estados do país, passando por mais de 30 cidades. A #ROTAFEL teve 25 textos publicados (RS, PR, SP, MG, BA, RO, AM, AP, RJ, ES, RR), além de textos vindos da Alemanha e Portugal. A frente criou um zine literário intitulado Orfel, que circulou nas versões virtual e impressa por todas as regiões do Brasil. Visando o foco nas Artes Integradas, a FEL teve 10 videopoemas cadastrados que podem ser exibidos em cineclubes, festivais, saraus e outros eventos culturais de todo o país. Em menos de um ano, foram feitas intervenções, leituras dramáticas e recitações literárias em Saraus, Festivais e Noites FdE em mais de 30 cidades. No segundo semestre de 2011, grupos de escritores e revistas circularam com a Fora do Eixo Letras em seus lançamentos, como Leonardo Panço (RJ), Leonardo Prata (ES), Thiago Cascabulho (SP) e Revista Café Espacial (SP). Foram feitas parcerias com Feiras literárias nacionais como a FliPoços (Poços de Caldas), FestPOA Literária e AltFest Olinda. Também houve a inserção da temática da literatura em mesas de debates, observatórios, oficinas, clube de leitores e lançamentos de publicações impressas em mais 20 cidades.
O FESL – FdE Software Livre – produziu 1.100.000,00 FdE Cards, 1,46% do total da rede, trazendo fortemente a pauta de compartilhamento de informação e tecnologia livre. A frente atua desde 2010 na rede e promove ações ligadas à discussão e uso de soluções livres, install fests, oficinas, suporte tecnológicos entre outros. Já migrou aproximadamente 50 máquinas para o uso de software livre e lançou um programa de imersão em SL dentro do projeto da UniFdE. Também está ligada à manutenção de quase todos os sites institucionais do Fora do Eixo (Portal, Congresso, Coluna Presley, Grito Rock, entre outros). Durante 2011, participou de eventos como o Campus Party, fazendo a cobertura do evento e ministrando oficinas. Esteve também no Fórum Internacional de Software Livre, participando das discussões e puxando uma mesa sobre o Fora do Eixo e o Software Livre e no I Fórum da Internet no Brasil, momento em que contribuiu com as discussões sobre a internet no Brasil.
O Nós Ambiente (núcleo sócio-ambiental) produziu 3.200.000,00 FdE Cards, 4,24% do total. Nesta frente foram desenvolvidos projetos como o Cardápio do Banco Fora do Eixo para Festivais, o Combo do Congressista Sustentável, projetos de compostagem urbana e separação de resíduos e instalação de sisternas nas sedes dos coletivos. Foram realizados Observatórios temáticos e oficinas.
A Casa Fora do Eixo São Paulo é uma das sedes da rede que compreende moradia, escritório, espaço de vivências e casa de show. Ela é formada por 19 gestores de diferentes pontos do Brasil que migraram para a maior metrópole do país. Uma das prioridades da Casa é atender aos coletivos da rede, facilitando a realização dos programas desenvolvidos em diversos setores ligados à cultura, como por exemplo artes visuais, audiovisual, música, literatura, artes cênicas, e toda a cadeia produtiva que as envolve.
Assim, uma das atividades mais importantes da Casa é dar suporte de hospedagem e alimentação às pessoas que passam por São Paulo, a fim de proporcionar intercâmbios de conhecimento, vivências e imersões. A Hospedagem Solidária gera resultados interessantes no campo financeiro e no campo da integração entre artistas, agentes culturais e demais atores dessa cadeia produtiva. Elimina-se custos com hotéis e cria-se uma relação mais calorosa, humana, cotidiana, estimulando a vivência coletiva e uma relação mais orgânica entre as pessoas que frequentam a Casa.
Dentro do total movimentado pela rede, Casa FdE SP é responsável por R$ 751.191,46 e 1.280.000 FdE Cards. Entre artistas e/ou grupos visitantes, passaram 5.000 pessoas, sendo que 2.000 ficaram hospedados. Entre as apresentações estão 450 artistas que expuseram seus trabalhos para 12.000 pessoas. Há também o Compacto.Arte, que trabalhas as artes visuais e criou uma galeria livre com vários grafites e intervenções por todo o espaço, realizadas por 100 participantes.
A proposta para 2012 é o surgimento de mais casas nesse modelo pelo país, iniciando 2012 com 7 casas já em janeiro, uma vez que a experiência da Casa FdE SP diagnosticou como o sucesso do projeto formado por zonas autônomas ao mesmo tempo permanentes e temporárias, com mostras artísticas, debates, #IdeiasPerigosas e #ConversasInfinitas. As Casas são todo o tempo frequentadas também por “foras do Fora do Eixo” em circulação, criando ótimos ambientes para trocas, debates e construção de parcerias, além dos espaços de formação e troca de conhecimento livre. Elas são altamente sustentáveis, pois ao mesmo tempo que reduzem gastos em espécie (hotel, restaurante e afins), aumentam o número, intensidade e valor das trocas de serviços, dentro de um sistema econômico autônomo, sensível e complementar. A construção coletiva proporcionada nesses ambientes é um a iniciativa que concretiza o início da des-territorialidade e preserva os sotaques, ao mesmo tempo que os amplifica a todos os cantos do (até o momento) continente. #CidadãodoMundo!

20 de dezembro de 2011

Megaupload: o Napster de 2011, só que ao contrário

Dez anos atrás, o Metallica travava sua malfadada briga contra o Napster e o livre compartilhamento de arquivos digitais. Agora, alguns dos mais famosos músicos do mundo (como Kanye West, Snoop Dogg e will.i.am, do Black Eyed Peas) estão juntos em uma campanha à favor do serviço de hospedagens de arquivos Megaupload, acusado por grandes gravadoras de pirataria.

A história é longa e envolve processos judiciais, mas dois pontos são cruciais neste acontecimento: 

1. A Universal conseguiu fazer com que o vídeo (abaixo) fosse tirado do Youtube alegando infração de direitos autorais, mas o Megaupload agora está processando a Universal por ter tirado o vídeo do ar, uma vez que os artistas que participam do vídeo autorizaram o uso de suas imagens. Acredita-se que, na verdade, a Universal estaria contra o Megaupload por causa do Megabox, serviço de audição e venda de músicas (atualmente em versão beta) que supostamente pagaria 90% do valor das transações aos artistas, enquanto outras lojas online (como o iTunes), pagam menos de 9% aos artistas.


2. O Megaupload está na mira do Congresso americano por causa da controversa SOPA - Stop Online Piracy Act, uma lei que permitiria ao Governo bloquear o acesso a determinados sites, repetindo ações de censura na web vistas em países como China e Irã. A lei está em tramitação e praticamente todos os serviços da chamada web 2.0, que recebem conteúdo produzido pelos usuários, serão afetados caso ela seja aprovada. Tumblr e Mashable foram alguns dos grandes sites que já se manifestaram contra a SOPA e organizaram ações contra a aprovação da lei.



A cultura digital tem se tornado cada vez mais importante e influenciado os negócios de uma das maiores indústrias do mundo: a do entretenimento. O lobby desse grupo junto ao Congresso americano, visando manter seu lucro, além de ser uma espécie de tentativa equivocada de reserva de mercado pode abrir precedentes para restrições que cerceiam a liberdade. Cada vez mais, temas aparentemente exclusivos do meio cultural se relacionam com diferentes aspectos de nossas vidas, interferindo nas relações mercadológicas e cotidianas. Na atualidade, ações iniciadas no mercado musical podem influenciar a democracia e resultar em grandes transformações. Não são apenas as pessoas que estão conectadas...

10 de setembro de 2011

Bizz, Facebook, jornalismo musical, público x privado e democracia

José Flávio Júnior Muita vergonha dos coleguinhas que estão ajudando a criar esse monstro chamado Criolo. A cena pop brasileira não recebia alguém tão pedante e poseur desde sei lá quando. Toda resposta é uma "lição de vida". Essa implicância com a brincadeira do Clemente foi de foder o cú da cobra. O cara lançou um disco nota 7,5 e já está sendo tratado como gênio da raça, acima do bem e do mal. Sendo que ele passou 20 anos como um rapper medíocre, sem que ninguém desse a menor pelota pra ele. Sendo que algumas músicas do Nó na Orelha são velhas pra cacete. Sendo que de Criolo ele tem só o nome - mas estrila se alguém pergunta o motivo dele usar essa alcunha. O Ganjaman deu um golpe de mestre: arrumou um Sabotage branco mas com nome de preto e com apelo junto ao mulherio e colocou a melhor assessora do circuito Augusta para trabalhar a marca na Folha e nos veículos da descolândia. Os jornalistas e publicitários brancos sempre estiveram no papo. Eu quero ver é depois da capa da Serafina. Vingar fora do mundinho é bem mais complicado. 

Alex Antunes novo paulista de cu é rola. eu fui lá falar pro capilé outro dia: como é que o fora do eixo perde a iniciativa estética desse jeito? eu passo cinco anos repetindo "região norte" que nem um maluco pelo brasil inteiro, e nada. deu tempo pra pseudoelite paulista se rearticular e começar a se sentir à vontade pra cagar hypes de novo. e de repente esse povo fofo daqui começa a virar objeto de desejo em festival independente... é foda ou é bem-feito? "jeneci" é a cabeça do meu caralho :)))))))))))))))

Minha ideia inicial era apenas indicar aqui o texto publicado pelo músico e produtor Daniel Ganjaman sobre sua visão do jornalismo musical brasileiro a partir do grupo da extinta revista Bizz no Facebook, mas são necessárias algumas palavras a mais. Acho extremamente válida a discussão sobre o posicionamento da crítica e concordo em grande parte com o que Ganjaman escreve, mas de forma alguma tiro os méritos dos jornalistas José Flávio Júnior (da revista Bravo!) e Alex Antunes - dos quais Ganja publicou comentários, sendo que dois deles abrem este texto - mesmo discordando dos mesmos em muitos casos, não apenas no que se refere ao que escrevem na comunidade da Bizz como em seus textos profissionais.

Declarações extremas têm em si o poder de gerar polêmica e, com isso, fomentar discussões e reflexões, mas não de definir afirmações incontestáveis. Acredito que Ganja reforce demais questões pessoais em seu texto, o que acaba por enfraquecer um pouco seu argumento. Independente de concordar ou não, o caso me chama atenção para questões de privacidade e democratização.

Primeiro, por se tratar de algo que se baseia em informações publicadas em um grupo privado do Facebook. Somente membros podem ler e escrever lá. Para participar você pode solicitar a inclusão ou ser adicionado por alguém. O detalhe é que ao ser adicionado por alguém você não tem a opção de negar o convite, você automaticamente passa a receber as postagens do grupo (exatamente o que aconteceu comigo). Membros do grupo questionaram a publicação de suas publicações fora do ambiente "privado" do Facebook, justificando que se trata de um ambiente descontraído e semelhante a uma mesa de bar, um bate-papo descompromissado. Até mesmo um email trocado entre José Flávio Júnior e a assessora de imprensa do rapper Criolo (do qual Ganjaman é produtor e suscitou toda a discussão) foi publicado, tornando a situação mais delicada.

Praticamente toda forma de comunicação pode ser registrada e reproduzida de alguma forma, mas a internet potencializa isso. Em um grupo de discussão privado você cria barreiras, mas não há como evitar a circulação do conteúdo. O caso do email é semelhante, com a diferença de que existem opções legais que podem ser acionadas para o caso de divulgação de informações particulares enviadas via email e tornadas públicas.

Cada ação na internet é registrada e gera rastros, consentidos ou não, e isso é algo que devemos ter em mente (independente da forma que usamos a rede, seja como jornalistas, criadores de conteúdo profissionais ou outra função). O próprio Ganjaman é "vítima" dessa dinâmica. Apesar de seu artigo/desabafo estar publicado com o título "Grupo no facebook e uma grande piada pronta!", é possível saber que o título original continha a frase "Jornalistas mortos não mentem", uma vez que a URL do texto é http://danielganjaman.blogspot.com/2011/09/jornalistas-mortos-nao-mentem-fred-zero.html e que, no Blogger, plataforma de publicação usada por Ganja, o título inicial de uma publicação define sua URL. Assim como é possível apagar, editar e quebrar lógicas de leitura lineares e temporais, cada uma dessas ações deixa suas marcas.

E ao pensar em rastros, edição, privacidade e distribuição de conteúdo, neste caso entra também no jogo a democratização da fala: ou melhor, a possibilidade de se fazer ouvido/lido independente de deter tal autorização. Ao ser questionado sobre a descontextualização dos comentários de membros da comunidade da Bizz publicados em seu blog, Ganja de certa forma se exime da culpa ao considerar a descontextualização uma prática recorrente no jornalismo. Verdade, é uma prática recorrente no mal jornalismo e que não deveria servir de exemplo, ainda mais quando se questiona a qualidade do próprio jornalismo. Mas em um de seus comentários ele indica um dos grandes pontos do debate: "Não quero brigar com ninguém. Só estou colocando o lado de quem é sempre questionado e nunca teve direito de questionar. Agora tem".

Entende a força disso? Não é uma inversão de papeis, é democratização da fala. São jornalistas, antes detentores da palavra disseminada às massas, se "defendendo" junto a um ex-leitor, agora participante ativo do debate e com grande potencial de distribuição de suas opiniões. Poder expressar suas opiniões não é novidade tão grande e não estou estabelecendo uma relação de paridade entre grandes veículos de comunicação já estabelecidos e quaisquer blogs. O ponto, aqui, é que a famosa democratização na produção e distribuição de conteúdo não vai derrubar a mídia de massa, mas com certeza abala seu conformismo. 

Independente de qual lado da história apoiar ou se solidarizar, o fato é que se trata de (mais) um exemplo do potencial da internet para a construção de debates (muitas vezes criados de forma involuntária) e que beneficiam, neste acaso, tanto a cena musical como o jornalismo cultural brasileiro.

O texto de Ganjaman e os mais de 20 comentários publicados sobre o mesmo estão no blog do artista, o Seleta Coletiva. Todos os comentários publicados no grupo da Bizz sobre o assunto até o momento estão abaixo. Relutei em copiá-los, mas acho importante para que os não-membros tenham acesso às opiniões de quem está diretamente relacionado ao assunto e foi criticado no texto publicado. Se alguém cujos comentários foram publicados quiser que eu os retire é só avisar.

5 de setembro de 2011

Mistureba: Festival de Arte Digital, Psychobilly Fest, Muros e botão mágico

Botão mágico deixa tudo certo na sua vida.

- Festival de Arte Digital


- Psychobilly Fest
Dias: 7 e 8 de Setembro
Horário: 21h
Onde: Hangar (Dr. Muricy, 1091 – Centro – Tel: 3077-8189)
Ingressos: Um dia: R$ 20,00 | Dois dias (passaporte): R$ 30,00

Shows
Dia 7/09
Cwbillys
The Mullet Monster Mafia (São Paulo)
Sick Sick Sinners
Hillbilly Rawhide

Dia 8/09
Feras do Caos
The Brown Vampire Cats (Londrina)
As Diabatz
Ovos Presley

- Muros: Territórios compartilhados
O Seminário Muros: Territórios Compartilhados reunirá pesquisadores de SP, RJ, BA e MG para discutir a intervenção artística em espaços públicos.O evento será realizado em Belo Horizonte, de 13 a 15 de setembro.


22 de agosto de 2011

Família Takara

Sinônimo de música alternativa de qualidade em São Paulo (com pequenos deslizes), os irmãos Takara são um caso raro na cena musical brasileira. Daniel Ganjaman, Fernando Sanches e Maurício Takara são responsáveis por dezenas de importantes trabalhos realizados nos últimos 15 anos, envolvendo de Racionais MC's e Sabotage a Mallu Magalhães, Marcelo Camelo e Otto. 

Ganjaman é atualmente um dos produtores musicais mais requisitados do país e além de suas recorrentes apresentações com Otto, comanda o Instituto e produziu o elogiado álbum Nó na orelha, do Criolo. Maurício Takara é integrante do Hurtmold (também banda de apoio de Marcelo Camelo), tem o projeto solo M Takara, co-produziu o 2º CD de Mallu Magalhães e foi baterista de vários artistas. Fernando Sanches é engenheiro de som e baixista, tocou no CPM 22 (sic) e está mais ligado à cena hardcore.

Aproveitando a deixa do dia dos pais a revista Trip fez uma breve entrevista com o trio de músicos, também responsável pelo estúdio El Rocha, em SP.

16 de julho de 2011

Crowdfunding e a agência da multidão


Por Michel Nicolau

Crowdfunding é um conceito novo para uma velha prática: reunir pessoas em torno de uma idéia para viabilizá-la economicamente. Bastante presente no exterior, em especial nos Estados Unidos, mais de uma dezena de plataformas que operam com esta ferramenta já surge no Brasil, sendo exemplos CatarseQueremosBenfeitoriaMobsocial eEmbolacha. E alguns sucessos já foram alcançados. Através da plataforma Queremos, seis shows internacionais já ocorreram no Rio de Janeiro, arrecadando R$400 mil; outros três shows, dois em São Paulo e um no Rio de Janeiro, foram viabilizados pela plataforma Mobsocial, que levantou R$70 mil para tanto; a Casa Fora do Eixo em São Paulo, ao arrecadar R$8.375,00 na plataforma Catarse, pôde promover melhorias em suas estruturas; a banda Móveis Coloniais de Acaju levantou R$30.007,65 na plataforma Embolacha para realizar a 12a Edição do Festival Móveis Convida; entre outros exemplos.

Embora este fenômeno apenas se inicie no Brasil, ele já gera uma lista de discussão na internetreportagens televisas, extensas matérias na mídia impressa e ótimos estudos de casos, como a matéria que Rafael Queres fez para o projeto Open Business II. Enfim, muito além do que de fato já representa em termos de realização de projetos no Brasil, o crowdfunding entrou na pauta. 




Mas justamente por ser uma ferramenta que serve para projetos bastante diversos e que se realiza em plataformas que adotam modos de operação distintos, e não exatamente um modo de negócio em si, o crowdfunding é de difícil apreensão além da narrativa de casos específicos. Mas haveria afinal elementos unificadores do crowdfunding, além da evasiva idéia de financiamento colaborativo, que permitiria desenvolver uma narrativa sistêmica sobre ele? Quero propor que sim, e são dois os elementos. Em primeiro lugar, seu espaço de operação. Muito embora os projetos propostos nestas plataformas possam não ter qualquer relação com a internet, as plataformas operam apenas online, o que significa que as propostas de projetos são acessíveis na rede, assim como os aportes financeiros de um apoiador são também neste meio. Mas não é só isso: também o modo de mobilização para os financiamentos são preferencialmente – o que é dizer, não exclusivamente – online, em torno das redes sociais, utilizadas para mobilizar pessoas desconhecidas no universo offline, mas, muitas vezes, para agregar a um propósito pessoas que já fazem parte de um universo de relações fora da rede.


Outro elemento que se pode identificar como unificador das plataformas de crowdfunding, ao menos no Brasil, é um discurso moral e político que se sobrepõe a um discurso meramente econômico. O crowdfunding, assim proposto pelos operadores das plataformas e muitos dos seus usuários, representaria um bem (valor moral) e um processo de realização de democracia e liberdade (valores políticos). A base deste discurso está justamente no ator central da plataforma que está identificado em seu próprio nome: a multidão. Ao colocar a multidão na vanguarda do processo de proposição de projetos e de decisão sobre seu financiamento, o crowdfunding teria aquilo que proponho como um ethos revolucionário, embasado nos valores citados. Mas haveria, de fato, um ethos revolucionário? E mais, estaria realmente a multidão na vanguarda do processo? Por fim, a que se refere, realmente, a multidão do crowdfunding?


É possível investigar estas questões a partir de uma perspectiva sociológica. Para tanto, é necessário que se reconheça, em primeiro lugar, a característica do espaço de operação do crowdfunding (a internet) e, em seguida, os agentes que de fato estão nele envolvidos, identificando suas influências nos diversos processos decisórios (de definição do funcionamento das plataformas, de projetos propostos e mesmo de financiamento). O resultado desta análise nos permitirá concluir a real situação da multidão como agente – condição necessária para a realização dos valores moral e políticos propostos – em relação a uma estrutura definida pelo espaço de operação e aos outros agentes envolvidos no crowdfunding. Ainda, será possível pensar na semântica da multidão que, neste espaço virtual, é necessariamente ressignificada e, ironicamente, relacionada à idéia de comunidade (virtual ou não). 


A análise que proponho, infelizmente, não cabe no espaço deste post. Mas ela está aqui no Banco de Cultura para quem se interessa pelo assunto. Espero que minha contribuição gere ao menos o desejo em outros pesquisadores a levar a questão do crowdfunding a novas investigações.

1 de julho de 2011

Wikileaks não tem preço

Uma pausa na música independente para uma mensagem importante.

7 de abril de 2011

Visão dos Vissungos


“Ele ta dando ajuste, mas ainda não acabou não”

A frase acima foi proferida por Pedro de Alexina, 81 anos, morador do povoado de Quartel do Indaiá no documentário “Terra Deu, Terra Come”, dirigido por Rodrigo Siqueira. Ele se refere ao morto, que ainda está quente, que não fez a passagem. Seu Pedro é um dos únicos descendentes de escravos que ainda se lembra dos Vissungos, os cantos herdados dos escravos africanos trazidos para trabalhar na mineração de ouro e diamante entre os séculos XVII e XVIII. Os Vissungos são cantos rituais misturando dialetos africanos de origem banto, como o umbundo e o quimbundo e o português arcaico. Alguns eram entoados em ocasiões fúnebres e outros em situações de trabalho. 

Além de Pedro só existe mais um cantador de vissungos vivo, seu Ivo Silvério, com 77 anos, morador de Milho Verde, distrito de Serro. 

O filme, com cerca de 1h30 de duração aborda o universo simbólico em torno do personagem, misturando técnicas documentais e ficção de uma forma muito habilidosa. Percebi um curioso acordo tácito entre os críticos que é não revelar o grande desfecho, o segredo velado do corpo presente. Para descobrir do que se trata é necessário assistir à película. 

Vencedor do “É Tudo Verdade” e da “Mostra Panorâmica de Gramado”, o filme entrou em cartaz no Cine Humberto Mauro, que é tradicionalmente uma sala voltada para o público cinéfilo e depois ficou algumas semanas numa sala de cinema comercial com uma programação de filmes de arte – o Cineclube Savassi. Foi lá que assisti, acompanhado de outros seis expectadores. 

Comecei a freqüentar a região do Alto Jequitinhonha há cerca de 15 anos atrás, quando era uma aventura sair de Belo Horizonte e chegar de carona a Milho Verde e São Gonçalo do Rio das Pedras passando pela Serra do Cipó. Nesse período eu fui quase todos os anos e desde o início me intrigava o sotaque de alguns moradores, carregados de expressões de origem africana desconhecidas no resto do estado. 

Fui buscando mais informação, conhecendo os moradores. Me falaram do povoado do Baú onde eu encontraria falantes de quimbundo. Atravessei o Jequitinhonha próximo da nascente a cavalo e cheguei no remanescente de quilombo. Não levei gravador, fiz fotos e anotações, como a que ilustra esse texto. 

Mais tarde encontrei um livro que é uma das principais referências nos estudos de dialetologia africana no estado, chamado “O Negro e o Garimpo em Minas Gerais” onde estão registrados música e letra de 65 Vissungos recolhidos pelo pesquisador Aires da Mata Machado Filho em 1928 no povoado de Quartel do Indaiá e São João da Chapada, distrito de Diamantina, no norte de Minas Gerais. 

Essas anotações serviram de base para a gravação do disco “O Canto dos Escravos”, de 1982 que reuniu Geraldo Filme, Tia Doca e Clementina de Jesus, num registro de 14 daqueles cantos. O link para baixar o disco está aqui: http://umquetenha.org/uqt/?s=O+Canto+dos+Escravos

No disco os intérpretes são acompanhados dos percussionistas Djalma Corrêa, Papete e Don Bira. Apesar da excelência musical a impressão que tenho é que as levadas são variações do jongo, uma manifestação característica do Rio de Janeiro, presente também em São Paulo e no sul de Minas mas inexistente no restante do Estado. O jongo está na origem do samba e é óbvio que os músicos, todos ligados ao ritmo carioca, – apesar de Djalma Corrêa ter nascido em Ouro Preto com formação musical em Salvador e Papete ser maranhense – levaram os vissungos para um outro universo. Estes, por serem cantados em situações específicas de trabalho e cortejo fúnebre, provavelmente não tinham acompanhamento instrumental, quando muito o som de ferramentas de trabalho comuns na atividade de mineração. Aires da Mata faz referência no livro ao som de carumbés (espécie de bateia de madeira usada para separar o cascalho) e almocafres (pequena enxada usada na mineração). O único tambor a que Aires se refere é o angono-puíta (espécie de cuíca grande, ou tambor-onça) e as caixas de couro usados especificamente nos levantamentos de mastros, ocasião onde também se cantavam os vissungos. Me parece que a hipótese mais plausível de um acompanhamento instrumental mais convencional teria necessariamente alguma aproximação com o congado e suas variantes, manifestação característica do interior de Minas, de origem banto e com presença marcante naquela região. Poderíamos dizer que Minas Gerais é, simbolicamente, uma espécie de reino Congo no Brasil, resquício do antigo reino de Benguela na África. 

Mas quando é possível identificar nos vissungos cantados por Pedro e Ivo a referência de alguns dos registros feitos na década de vinte por Aires da Mata a diferença é grande, o que é comum no desenvolvimento das tradições orais. Palavras novas vão sendo incorporadas, outras são esquecidas no uso corrente e seu significado se perde. 

O fato é que falava-se um dialeto crioulo de origem banto, ou banguela, na região do Serro e Diamantina e os vissungos são o vestígio mais evidente disso. Por isso a importância do registro diacrônico, de forma a estabelecer relações e entender o processo de desenvolvimento ou extinção de uma língua. Só muito recentemente vem sendo descobertas e estudadas as línguas de origem banto faladas no Brasil. Durante muitas décadas acreditou-se que havia somente línguas do tronco nagô-iorubá, predominantes na Bahia. São muito recentes as descobertas de línguas dialetais africanas de origem banto faladas por comunidades isoladas como a de Tabatinga (MG) e Cafundó (SP), além do crioulo falado em São João da Chapada e da língua mina-jeje falada pelos negros de Ouro Preto no setecentos. 

Para quem quiser se aprofundar no assunto, a língua e os costumes dos remanescentes de quilombo do Cafundó foram estudados e publicados pelo pesquisador Carlos Vogt no livro “Cafundó, a África no Brasil – língua e sociedade”. O dialeto da comunidade de Tabatinga, em Bom Despacho, foi estudado pela professora Sônia Queiroz e publicado no livro “Pé preto no barro branco: a língua dos negros de Tabatinga”. A língua mina-jeje foi estudada pela lingüista Yeda Pessoa de Castro a partir do dicionário do português Costa Peixoto livro “A língua mina-jeje no Brasil: um falar africano em Ouro Preto do século XVIII”. 

Com relação aos vissungos da região do Serro e Diamantina, além da gravação de 1982, a cantora paulista Monica Salmaso também registrou um dos vissungos recolhidos por Aires da Mata no seu disco Trampolim, de 1998. Há notícias de gravações mais recentes realizadas por Erildo Nascimento em Diamantina e Lúcia Nascimento no Serro, mas não encontrei maiores referências a esse material além de algumas citações em artigos acadêmicos. 

Além dessas não conheço outras gravações mas sempre achei que este seria um projeto interessante: gravar em disco todos os 65 vissungos a partir das anotações do livro de Aires da Mata Machado. Seria um documento histórico para as futuras gerações conhecerem um elo perdido da tradição de matriz africana no Brasil, principalmente agora que o ensino de música vai voltar ao currículo obrigatório.

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