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21 de agosto de 2012

Quanto vale a mú$ica?

Escrevi o texto que abre o nova edição da revista Overmundo, cuja temática era open business. A revista está disponível para download grátis em pdf e para iPad. Abaixo, minha matéria completa.


Festival de música independente em Goiânia adota modelo em que o público decide quanto pagar pelas apresentações das bandas – e faz sucesso!

Sexta-feira, 10 de Outubro de 2007. Inglaterra, Marrocos, Rússia, Brasil, Bolívia. Pessoas nestes e em quaisquer outros países com acesso à internet faziam o download de In Rainbows, sétimo álbum da banda britânica Radiohead. Mais do que um trabalho que, meses depois, estaria na maioria das listas de melhores álbuns daquele ano, tratava-se de um divisor de águas no mercado musical. Pela primeira vez, uma das maiores bandas do mundo lançava um CD de forma independente e cujo preço de venda era definido pelo próprio público (com a possibilidade, inclusive, de optar por não pagar nada para se obter a obra).

Domingo, 6 de Maio de 2012. Goiânia, Brasil. Centenas de pessoas reunidas no Centro Cultural da Universidade Federal de Goiânia para o último dia da 14ª edição do Festival Bananada, iniciado na semana anterior. Assim como no caso do Radiohead, o valor da entrada era definido pelo público. O diferencial é que, no caso do festival goiano, não contribuir com nenhum valor não era uma opção (e moedas não eram aceitas).

A evolução do modelo colaborativo na definição de preços para o acesso a bens culturais tem se dado de forma relevante nos últimos anos. No Festival Bananada, por exemplo, ela é resultado de um longo processo de mapeamento da cena, do trabalho pela formação de público e pela busca de formas funcionais de gestão de carreiras artísticas. Assim como o sistema de crowdfunding tem possibilitado a realização de ações colaborativas através do financiamento coletivo, o “pagamento 2.0” é outro elemento cada vez mais presente na lógica do mercado cultural contemporâneo. A nova geração de consumidores cresceu em meio às mídias digitais, com acesso fácil, rápido e, na maior parte dos casos, gratuito ao conteúdo que desejam. Entender as transformações nos hábitos de consumo do público e manter sustentável a cadeia produtiva é um dos desafios de produtores culturais em todo o mundo.

Fabrício Nobre é um desses produtores. Vocalista da banda de rock MQN, ex-presidente da Asso- ciação Brasileira de Festivais Independentes (Abrafin) e atual diretor da produtora A Construtora Música e Cultura, Fabrício é um dos responsáveis pelo projeto “Qto vale o show?”. A ideia é extremamente simples: a pessoa vai ao show, se diverte e, na hora de ir embora, dá uma nota para o que viu. Nota, no caso, literalmente. O julgamento da qualidade da apresentação presenciada é convertido em uma cédula de R$ 2, R$ 5, R$ 10, R$20 ou até mesmo R$50 e R$100. Ao sair, a pessoa também conta qual o show a levou ao evento, qual a sua apresentação favorita naquela noite. Do valor arrecadado, 80% é dividido entre as bandas que se apresentaram e o restante é destinado à gestão do projeto.


O procedimento de votação foi criado para descobrir quais bandas o público local tinha mais interesse em assistir e quais bandas precisavam investir mais na formação de público. Edimar Filho, produtor n’A Construtora, conta que, assim, descobriram que algumas bandas que afirmavam ter determinado número de pagantes garantidos em seus shows tinham, na verdade, público bem menor. “Entre 2,5 mil pagantes no Bananada, bandas que juravam ter muito público foram citadas por 50 pessoas. Descobrimos também, que, se a banda fizer o mínimo de esforço durante a semana nas redes sociais, isso resulta em um resultado melhor no bolso delas”, diz Edimar.

E o quando o assunto é cachê, a discussão é calorosa. Grande parte dos festivais de música independente no Brasil possui recursos escassos e os dedicam para custear despesas de estrutura. Muitas vezes, as bandas não recebem cachês e custeiam o próprio transporte investindo na repercussão que a apresentação no festival pode resultar. Até o surgimento do “Qto vale o show?”, as bandas que se apresentavam no Bananada tinham todas as despesas cobertas pela produção, exceto transporte e cachê. Agora, recebem de acordo com resultado efetivo de seus shows.

“A internet possibilitou pela primeira vez na história que o público taxasse o preço dos produtos culturais. Se a pessoa discorda do valor do ingresso ou do CD, não vai ao show, não compra o disco”, afirma Edimar. Além de trabalhar como produtor cultural, ele é guitar-rista da Black Drawing Chalks, banda que fez turnê por todas as regiões do Brasil e se apresentou em grandes festivais como SWU e Lollapalooza. Com a experiência obtida trabalhando em diferentes momentos da cadeia produtiva da música, Edimar é taxativo: “Se a banda não leva público em um show em que o ingresso pode ser R$ 2, a culpa é dela. É sinal de que a banda precisa rever seu modelo de trabalho, repertório e relacionamento com o público”.

O Bananada antes e depois da utilização do formato “Qto vale o show?”, segundo Edmar Filho, d’A Construtora Música e Cultura: 
ANTES 
# O Bananada tinha menos visibilidade.
# Cada banda tocava para cerca de 800 pessoas.
# 4 mil pessoas tinham acesso ao festival.
# As bandas não ganhavam um cachê. 
DEPOIS 
# O Bananada tem mais visibilidade, com público duas vezes maior do que em 2010.
# A banda que antes tocaria para 800 pessoas está tocando para 1.600.
# Em 2012, foram quase 10 mil pessoas ao longo da programação do festival.
# Todas as bandas receberam cachê em 2012, e em alguns dias receberam R$ 650, cada. Nenhum festival do país, nem com patrocínio de grandes empresas, paga isso para bandas novas, que tocam às 16h da tarde. Além disso, as bandas venderam mais materiais de merchandising do que nos outros anos. O cara pagou R$ 5 para ver o show e sobrou grana para comprar a camiseta da banda no fim. Uma das bandas que tocaram no festival conseguiu R$ 1,1 mil vendendo CDs e camisetas.
# O festival está mais democrático e atinge um público muito mais jovem, o que significa renovação e formação de plateias. A edição de 2012 teve o maior público, a melhor remuneração para as bandas e gerou o maior número de empregos diretos e indiretos da história do festival, que completou 14 anos este ano.

A experiência do “Qto vale o show?” no Bananada e em outros eventos em Goiânia tem sido tão positiva que passou a ser utilizada nos shows do projeto “Cedo e Sentado”, realizado no Studio SP (em São Paulo) e no Granfinos (em Belo Horizonte), a partir de Junho. Nesses casos, o valor arrecadado será revertido integralmente para os artistas.

16 de julho de 2011

Crowdfunding e a agência da multidão


Por Michel Nicolau

Crowdfunding é um conceito novo para uma velha prática: reunir pessoas em torno de uma idéia para viabilizá-la economicamente. Bastante presente no exterior, em especial nos Estados Unidos, mais de uma dezena de plataformas que operam com esta ferramenta já surge no Brasil, sendo exemplos CatarseQueremosBenfeitoriaMobsocial eEmbolacha. E alguns sucessos já foram alcançados. Através da plataforma Queremos, seis shows internacionais já ocorreram no Rio de Janeiro, arrecadando R$400 mil; outros três shows, dois em São Paulo e um no Rio de Janeiro, foram viabilizados pela plataforma Mobsocial, que levantou R$70 mil para tanto; a Casa Fora do Eixo em São Paulo, ao arrecadar R$8.375,00 na plataforma Catarse, pôde promover melhorias em suas estruturas; a banda Móveis Coloniais de Acaju levantou R$30.007,65 na plataforma Embolacha para realizar a 12a Edição do Festival Móveis Convida; entre outros exemplos.

Embora este fenômeno apenas se inicie no Brasil, ele já gera uma lista de discussão na internetreportagens televisas, extensas matérias na mídia impressa e ótimos estudos de casos, como a matéria que Rafael Queres fez para o projeto Open Business II. Enfim, muito além do que de fato já representa em termos de realização de projetos no Brasil, o crowdfunding entrou na pauta. 




Mas justamente por ser uma ferramenta que serve para projetos bastante diversos e que se realiza em plataformas que adotam modos de operação distintos, e não exatamente um modo de negócio em si, o crowdfunding é de difícil apreensão além da narrativa de casos específicos. Mas haveria afinal elementos unificadores do crowdfunding, além da evasiva idéia de financiamento colaborativo, que permitiria desenvolver uma narrativa sistêmica sobre ele? Quero propor que sim, e são dois os elementos. Em primeiro lugar, seu espaço de operação. Muito embora os projetos propostos nestas plataformas possam não ter qualquer relação com a internet, as plataformas operam apenas online, o que significa que as propostas de projetos são acessíveis na rede, assim como os aportes financeiros de um apoiador são também neste meio. Mas não é só isso: também o modo de mobilização para os financiamentos são preferencialmente – o que é dizer, não exclusivamente – online, em torno das redes sociais, utilizadas para mobilizar pessoas desconhecidas no universo offline, mas, muitas vezes, para agregar a um propósito pessoas que já fazem parte de um universo de relações fora da rede.


Outro elemento que se pode identificar como unificador das plataformas de crowdfunding, ao menos no Brasil, é um discurso moral e político que se sobrepõe a um discurso meramente econômico. O crowdfunding, assim proposto pelos operadores das plataformas e muitos dos seus usuários, representaria um bem (valor moral) e um processo de realização de democracia e liberdade (valores políticos). A base deste discurso está justamente no ator central da plataforma que está identificado em seu próprio nome: a multidão. Ao colocar a multidão na vanguarda do processo de proposição de projetos e de decisão sobre seu financiamento, o crowdfunding teria aquilo que proponho como um ethos revolucionário, embasado nos valores citados. Mas haveria, de fato, um ethos revolucionário? E mais, estaria realmente a multidão na vanguarda do processo? Por fim, a que se refere, realmente, a multidão do crowdfunding?


É possível investigar estas questões a partir de uma perspectiva sociológica. Para tanto, é necessário que se reconheça, em primeiro lugar, a característica do espaço de operação do crowdfunding (a internet) e, em seguida, os agentes que de fato estão nele envolvidos, identificando suas influências nos diversos processos decisórios (de definição do funcionamento das plataformas, de projetos propostos e mesmo de financiamento). O resultado desta análise nos permitirá concluir a real situação da multidão como agente – condição necessária para a realização dos valores moral e políticos propostos – em relação a uma estrutura definida pelo espaço de operação e aos outros agentes envolvidos no crowdfunding. Ainda, será possível pensar na semântica da multidão que, neste espaço virtual, é necessariamente ressignificada e, ironicamente, relacionada à idéia de comunidade (virtual ou não). 


A análise que proponho, infelizmente, não cabe no espaço deste post. Mas ela está aqui no Banco de Cultura para quem se interessa pelo assunto. Espero que minha contribuição gere ao menos o desejo em outros pesquisadores a levar a questão do crowdfunding a novas investigações.

7 de abril de 2011

Visão dos Vissungos


“Ele ta dando ajuste, mas ainda não acabou não”

A frase acima foi proferida por Pedro de Alexina, 81 anos, morador do povoado de Quartel do Indaiá no documentário “Terra Deu, Terra Come”, dirigido por Rodrigo Siqueira. Ele se refere ao morto, que ainda está quente, que não fez a passagem. Seu Pedro é um dos únicos descendentes de escravos que ainda se lembra dos Vissungos, os cantos herdados dos escravos africanos trazidos para trabalhar na mineração de ouro e diamante entre os séculos XVII e XVIII. Os Vissungos são cantos rituais misturando dialetos africanos de origem banto, como o umbundo e o quimbundo e o português arcaico. Alguns eram entoados em ocasiões fúnebres e outros em situações de trabalho. 

Além de Pedro só existe mais um cantador de vissungos vivo, seu Ivo Silvério, com 77 anos, morador de Milho Verde, distrito de Serro. 

O filme, com cerca de 1h30 de duração aborda o universo simbólico em torno do personagem, misturando técnicas documentais e ficção de uma forma muito habilidosa. Percebi um curioso acordo tácito entre os críticos que é não revelar o grande desfecho, o segredo velado do corpo presente. Para descobrir do que se trata é necessário assistir à película. 

Vencedor do “É Tudo Verdade” e da “Mostra Panorâmica de Gramado”, o filme entrou em cartaz no Cine Humberto Mauro, que é tradicionalmente uma sala voltada para o público cinéfilo e depois ficou algumas semanas numa sala de cinema comercial com uma programação de filmes de arte – o Cineclube Savassi. Foi lá que assisti, acompanhado de outros seis expectadores. 

Comecei a freqüentar a região do Alto Jequitinhonha há cerca de 15 anos atrás, quando era uma aventura sair de Belo Horizonte e chegar de carona a Milho Verde e São Gonçalo do Rio das Pedras passando pela Serra do Cipó. Nesse período eu fui quase todos os anos e desde o início me intrigava o sotaque de alguns moradores, carregados de expressões de origem africana desconhecidas no resto do estado. 

Fui buscando mais informação, conhecendo os moradores. Me falaram do povoado do Baú onde eu encontraria falantes de quimbundo. Atravessei o Jequitinhonha próximo da nascente a cavalo e cheguei no remanescente de quilombo. Não levei gravador, fiz fotos e anotações, como a que ilustra esse texto. 

Mais tarde encontrei um livro que é uma das principais referências nos estudos de dialetologia africana no estado, chamado “O Negro e o Garimpo em Minas Gerais” onde estão registrados música e letra de 65 Vissungos recolhidos pelo pesquisador Aires da Mata Machado Filho em 1928 no povoado de Quartel do Indaiá e São João da Chapada, distrito de Diamantina, no norte de Minas Gerais. 

Essas anotações serviram de base para a gravação do disco “O Canto dos Escravos”, de 1982 que reuniu Geraldo Filme, Tia Doca e Clementina de Jesus, num registro de 14 daqueles cantos. O link para baixar o disco está aqui: http://umquetenha.org/uqt/?s=O+Canto+dos+Escravos

No disco os intérpretes são acompanhados dos percussionistas Djalma Corrêa, Papete e Don Bira. Apesar da excelência musical a impressão que tenho é que as levadas são variações do jongo, uma manifestação característica do Rio de Janeiro, presente também em São Paulo e no sul de Minas mas inexistente no restante do Estado. O jongo está na origem do samba e é óbvio que os músicos, todos ligados ao ritmo carioca, – apesar de Djalma Corrêa ter nascido em Ouro Preto com formação musical em Salvador e Papete ser maranhense – levaram os vissungos para um outro universo. Estes, por serem cantados em situações específicas de trabalho e cortejo fúnebre, provavelmente não tinham acompanhamento instrumental, quando muito o som de ferramentas de trabalho comuns na atividade de mineração. Aires da Mata faz referência no livro ao som de carumbés (espécie de bateia de madeira usada para separar o cascalho) e almocafres (pequena enxada usada na mineração). O único tambor a que Aires se refere é o angono-puíta (espécie de cuíca grande, ou tambor-onça) e as caixas de couro usados especificamente nos levantamentos de mastros, ocasião onde também se cantavam os vissungos. Me parece que a hipótese mais plausível de um acompanhamento instrumental mais convencional teria necessariamente alguma aproximação com o congado e suas variantes, manifestação característica do interior de Minas, de origem banto e com presença marcante naquela região. Poderíamos dizer que Minas Gerais é, simbolicamente, uma espécie de reino Congo no Brasil, resquício do antigo reino de Benguela na África. 

Mas quando é possível identificar nos vissungos cantados por Pedro e Ivo a referência de alguns dos registros feitos na década de vinte por Aires da Mata a diferença é grande, o que é comum no desenvolvimento das tradições orais. Palavras novas vão sendo incorporadas, outras são esquecidas no uso corrente e seu significado se perde. 

O fato é que falava-se um dialeto crioulo de origem banto, ou banguela, na região do Serro e Diamantina e os vissungos são o vestígio mais evidente disso. Por isso a importância do registro diacrônico, de forma a estabelecer relações e entender o processo de desenvolvimento ou extinção de uma língua. Só muito recentemente vem sendo descobertas e estudadas as línguas de origem banto faladas no Brasil. Durante muitas décadas acreditou-se que havia somente línguas do tronco nagô-iorubá, predominantes na Bahia. São muito recentes as descobertas de línguas dialetais africanas de origem banto faladas por comunidades isoladas como a de Tabatinga (MG) e Cafundó (SP), além do crioulo falado em São João da Chapada e da língua mina-jeje falada pelos negros de Ouro Preto no setecentos. 

Para quem quiser se aprofundar no assunto, a língua e os costumes dos remanescentes de quilombo do Cafundó foram estudados e publicados pelo pesquisador Carlos Vogt no livro “Cafundó, a África no Brasil – língua e sociedade”. O dialeto da comunidade de Tabatinga, em Bom Despacho, foi estudado pela professora Sônia Queiroz e publicado no livro “Pé preto no barro branco: a língua dos negros de Tabatinga”. A língua mina-jeje foi estudada pela lingüista Yeda Pessoa de Castro a partir do dicionário do português Costa Peixoto livro “A língua mina-jeje no Brasil: um falar africano em Ouro Preto do século XVIII”. 

Com relação aos vissungos da região do Serro e Diamantina, além da gravação de 1982, a cantora paulista Monica Salmaso também registrou um dos vissungos recolhidos por Aires da Mata no seu disco Trampolim, de 1998. Há notícias de gravações mais recentes realizadas por Erildo Nascimento em Diamantina e Lúcia Nascimento no Serro, mas não encontrei maiores referências a esse material além de algumas citações em artigos acadêmicos. 

Além dessas não conheço outras gravações mas sempre achei que este seria um projeto interessante: gravar em disco todos os 65 vissungos a partir das anotações do livro de Aires da Mata Machado. Seria um documento histórico para as futuras gerações conhecerem um elo perdido da tradição de matriz africana no Brasil, principalmente agora que o ensino de música vai voltar ao currículo obrigatório.

17 de setembro de 2010

A indústria fonográfica e a base da pirâmide

Por Leo Salazar, de Recife (PE)
A queda nas vendas de discos, alardeada pela imprensa, embalada pelo choro das gravadoras majors, não reduziu o consumo dos brasileiros pelo CD e pelo DVD. Pelo contrário, nunca se comprou tanto CD e DVD como agora. O varejo comemora o aumento, ano após ano, nas vendas de aparelhos de DVD e CD. O fato é que o brasileiro trocou o disco original pelo disco pirata, mais barato e mais acessível.

Uma pesquisa encomendada pelo Fecomercio/RJ ao Ipsos, em 2009, mostrou que o brasileiro acha justo pagar, em média, R$ 9,00 por um CD e R$ 13,00 por um DVD. Os valores estão mais próximos dos preços praticados pelos piratas do que pelas gravadoras.

As pessoas respondem que o baixo preço e a facilidade de encontrar o disco são os dois principais motivos apontados por elas quando questionadas pela razão de comprar disco pirata. Também dizem que prefeririam comprar o disco original, se acessível fosse (preço e facilidade).


Então por que, no curto prazo, as gravadoras não reduzem a margem de lucro e mantém o faturamento aumentando o volume de vendas?

E mais: por que as gravadoras não usam as carrocinhas de discos como eficiente canal de distribuição dos produtos e de promoção dos artistas?

Por que as gravadoras não oferecem opção de trabalho e renda, como revendedores de seus produtos, para pessoas desempregadas das classes C e D Brasil afora, assim como a Avon e a Natura usam cerca de 800 mil mulheres brasileiras de classe C e D como revendedoras de seus produtos originais?

A carrocinha de CD, por si só, não configura violação ao art. 184 do Código Penal, que define o crime de pirataria e estipula as sanções penais cabíveis. A carrocinha de disco nada mais é do que uma forma de vender disco de porta em porta. Assim como carrocinha de picolé ou de cachorro quente.

Dessa forma dois problemas seriam resolvidos de uma só vez: aumentaria a geração de riqueza na base da pirâmide social (trabalho e renda) e diminuiria as práticas ilícitas no país (pirataria).

Por que não?

O primeiro passo, a meu ver, é rever a estrutura de custos das gravadoras (leia-se jabá). Afinal, qual o grande custo de uma major atualmemte se não há ativo imobilizado, quase tudo é terceirizado e alguns artistas entregam a master finalizada?

Os executivos das majors não encontraram, e nem encontrarão, soluções para problemas empresarias dos países em desenvolvimento com modelos de negócios de países desenvolvidos. Pelo contrário, é mais provável que os novos modelos de negócios criados nos países em desenvolvimento ajudem a solucionar os problemas dos mercados nos países desenvolvidos.

Aos executivos da indústria fonográfica brasileira recomendo a leitura do livro A Riqueza na Base da Pirâmide – Erradicando a pobreza com o lucro, de C. K. Prahalad. Mostra casos de multinacionais que oferecem produtos e criam riqueza na base da pirâmide social em países como Índia e Brasil.

Obs.: os links e gráfico não estão no texto original e foram incluídos por mim, Marcelo Santiago.

30 de julho de 2010

Música pop e crítica em Santa Catarina

Texto do Jean Mafra publicado no Overmundo sobre o jornalismo musical feito pela imprensa de Santa Catarina.
"e eis que, de um aparente silêncio que se abateu sobre a cidade nos últimos meses, surgem novos trabalhos de alguns dos principais artistas do pop feito em santa catarina. o aerocirco lançou seu invisivelmente na net há algumas semanas, os lenzi brothes colocaram na rua fora de estoque (o quinto disco do trio), a sociedade soul fez show de lançamento de seu aguardado début (ainda não disponível para audição) nesta última sexta-feira (09 de julho), e jeremias sem cão (uma das bandas roqueiras mais originais do estado), muniques (novo projeto de metada da extinta maltines com os remanescentes da atomik), cassim e bárbaria e superpose tem trabalhos prontos para sair neste segundo semestre. vem muita coisa boa por aí, mas muita coisa ruim também. vem muito mais do mesmo e é assim que se constrói um cenário musical mais rico, mais profissional: fazendo as coisas. mas falta algo - e faz muito tempo. não temos crítica musical em santa catarina - aliás, o pop brasileiro sofre por causa deste problema já há alguns anos (por mais blogs e veículos independentes que o façam ,quase sempre o que se escreve sobre música é irrelevante - ou se aborda apenas impressões pessoais ou se compara o que é feito aqui com o aquilo que se copia da gringolândia)... mas, ok, vou me ater a terra em que vivo.

em março, em uma das conversas que aconteceram durante o lançamento do edital 2010 do rumos itaú cultural em florianópolis, a professora e documentarista cláudia mesquita questinou os jornalistas marcos espíndola (diário catarinense), abonico smith (mondo bacana) e fabiane tomaselli (rádio udesc fm) sobre o papel da crítica na construção de um cenário mais consistente para a música feita em santa catarina. a tentativa de resposta, fragmentada, não seguiu adiante. curiosamente, há cerca de 7 anos, se não me engano, quando a produtora/escritora ieda magri era responsável pelo café literário que o sesc estreito promovia, reunimos (eu trabalhava na produção do evento) os então editores dos cadernos de cultura dos jornais a notícia e diário catarinense, néri pedroso e dorva resende, para uma conversa com artistas da cidade sobre o papel da crítica (ou da falta que ela fazia aqui)... já naquela noite, pintores, cineastas, escritores, poetas, músicos, etc, trocaram impressões com alguns jornalistas e a constatação geral foi de que era preciso mudar. mas de lá para cá, infelizmente, quase nada mudou.


antonio rossa, ao entrevistar marcos espíndola em abril último, leia aqui, no transitoriamente, lhe perguntou sobre a falta de crítica e ouviu uma resposta incomoda: "não sei se nossos artistas estão preparados para a crítica". ora, penso, se não estão, então estamos muitíssimo mal (para mim, se não há crítica não há cenário consitente). o artista que não está preparado para crítica que não mostre seus trabalhos para ninguém! neste sentido, entendo que o papel de espíndola não seja de crítico, afinal, ele se tornou o principal divulgador das artes locais. seu papel, neste sentido, é importantíssimo, mas este é apenas um dos aspectos que fazem um circuito vivo, plural e rico como almejamos (nós, que fazemos música neste estado). às vezes, aqui, me debruço sobre algum disco local, mas não me sinto tão a vontade para fazê-lo, por ser um dos protagonistas da cena da cidade. antonio rossa, vez ou outra também o faz, e bem. mas é muito pouco ainda. são pouquíssimos os exemplos de críticas aqui. o diário catarinense publica semanalmente resenhas de discos em suas páginas, mas os álbuns e eps locais quase sempre passam a margem do olhar de seus jornalistas (mas essa responsabilidade, penso, não deve ser apenas de um veículo). no mais, é de se lamentar que a coisa continue como está, pois quem perde é a música (e os artistas e o público) de santa catarina. quem sabe agora, com vários novos trabalhos saindo, algumas das cabeças pensantes do estado não queiram discutir um pouco sobre discos produzidos ao seu redor?!?"

E um comentário do Hermano Vianna, sobre o mesmo texto:
"... quanto ao problema da falta de crítica local: há até a mais básica falta de divulgação do que acontece localmente - lembro de ficar impressionado, quando eu fazia curadoria do Tim Festival, de receber o clipping e ver notícias sobre a confirmação da vinda de uma banda estrangeira obscura ganhar destaque repetido em centenas de jornais do Brasil afora e bandas locais nunca serem sequer mencionadas pelos mesmo jornalistas, que preferem dar apenas uma preguiçosa "retwittada" no que vem da "metrópole" - mesmo sabendo que aquilo, a curto prazo, era bom para o festival, eu achava a atitude lamentável... foi para combater esse tipo de situação que criamos o Overmundo - mas acho que o Overmundo ainda é pouco usado, mesmo por aqueles que precisam furar a barreira boba de um jornalismo local que ignora o que acontece localmente".

18 de janeiro de 2009

O que está acontecendo no Overmundo

A newsletter do Overmundo de janeiro seleciona parte do extenso material publicado no site e funciona como guia para quem tem pouco tempo para navegar no portal ou ainda não o conhece.

"Verão
Cada região do Brasil vive a estação à sua maneira. No Acre, Fabiana Mesquita conta como é preciso se adaptar ao fuso no horário de verão: com três horas de diferença, quando é noite no sul do país o sol ainda está alto por lá. E por falar em região Norte, não perca oportunidade de se refrescar em outro estado, o Amazonas: tem o flal, o rala-rala e os sorvetes de sabores que só se encontram na região; todas as dicas são de Yusseff Abrahim. Descendo para o Nordeste, o verão continua. Em Itacaré (BA), Thiago Camelo avisa que subir de canoa o Rio das Contas é imperdível. Se a ideia é ficar embaixo d´água, o Overmundo tem um extenso repertório de mergulhos pelo Brasil. Cristiano Melo, um apaixonado pela atividade, dá a maioria das dicas. Em cima das ondas, entenda o surfe na Paraíba com Edmundo Nascimento, conheça o "surf-pub" de Niterói (RJ) com Saulo Frauches e descubra os melhores picos em Alagoas com Marcelo Cabral.

Vida de pescador
Carregar na pele as marcas do trabalho não é "modo de dizer" para estes senhores do mar. O sol e o sal rendem histórias de uma vida inteira nas águas. Em Salvador (BA), Lízia Sena passeou por várias colônias de pescadores e entendeu como é feita a divisão dos peixes. Outra aula é no Mercado de Peixes de Fortaleza (CE), que ganhou uma visita-relato bem pessoal da Andressa Back. Já na Ilha de São Francisco do Sul (SC), Marcelo Labes descobriu a história da navegação do país por meio do Museu Nacional do Mar - Embarcações Brasileiras. É o maior museu do gênero na América Latina.

Giro praias
Sombra e água fresca? Nada disso. Está na hora de pegar um bronze. E, Brasil afora, praia é o que não falta. Que tal, por exemplo, curtir uma prainha em Porto Alegre? Não, você não leu errado. É a Praia do Lami, em Poa, uma "muvuca da boa". Subindo um pouquinho, você encontra a Praia do Campeche, em Floripa, cujo nome é uma homenagem ao autor de O Pequeno Príncipe. Se quiser tirar a roupa e se sentir livre, leve e solto, pode ir na recôndita Olho de Boi, em Búzios (RJ). Na Bahia, você pode escolher entre as águas mansas da Ponta de Areia, em Itaparica, ou o encontro do rio com o mar em Caraíva, Porto Seguro. Eleita uma das dez mais do país, quem conhece a Barra de São Miguel, em Maceió, sabe que a praia não deve nada ao paraíso. E que dizer das falésias de Jequiá da Praia, no litoral sul das Alagoas? Ou da revolta aquática dos tralhotos em Soure, Ilha de Marajó (PA)?

E mais:

  • Brasileiro gosta tanto de praia que não dispensa nem praia de rio. Em São Gabriel da Cachoeira (AM), a praia da cidade não tem nome: é Praia da Cidade mesmo. Mas o passeio só vale entre setembro e janeiro, que é quando o Rio Negro não está em cheia.

+ streaming & download

5 de dezembro de 2008

RecombinaSom: concurso de remix

Em outubro deste ano a Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) realizou a segunda edição do Contato - Festival Multimídia em Rádio, TV, Cinema e Arte Eletrônica, reunindo shows, oficinas e debates. Transpondo as ações do festival para a internet, a UFSCar, em parceria com o Overmundo e sua sub-divisão dedicada ao remix, o Overmixter, promove o RecombinaSom, um concurso que estimula a reutilização de obras disponibilizadas sob licenças Creative Commons para a criação de novos trabalhos originais. A proposta dá continuidade aos temas discutidos no Contato, como as transformações provocadas pelo avanço tecnológico no processo de criação.

Um banco de áudio especial foi criado para o concurso, com samples de algumas das atrações musicais do festival, que devem ser utilizadas nas músicas a serem inscritas. Entre o material em áudio disponível está, por exemplo, a excelente "Bananas for you all", do Macaco Bong, separada por canais.

Serão selecionadas 10 músicas, premiadas com três meses de veiculação na rádio UFSCar e participação na coletânea Transmissões Independentes, prensada em SMD com no mínimo duas mil cópias (das quais 20 serão enviadas ao autor de cada faixa selecionada).

As inscrições podem ser feitas até 30 de janeiro de 2009, no Overmixter, bastando se cadastrar no site. Os interessados em remixes e utilização de samples também podem aproveitar o material disponível no CC Mixter e no Freesound.

11 de agosto de 2008

Overmundo Colabora (e anima!)

Conheci o Overmundo quando o site foi oficialmente lançado, em março de 2006. Fui um dos primeiros usuários do site em Minas Gerais e desde então acompanhei as várias alterações e o desenvolvimento do “grande portal colaborativo da cultura brasileira”.

Conheci o Sérgio Rosa, representante oficial do Overmundo em Minas, algum tempo depois, durante o Stereomundo, ciclo de palestras desenvolvido pelo site e o projeto Stereoteca, em 2006. No ano seguinte, conheci a Camila Cortielha, uma das mais ativas participantes do Overmundo, através do próprio site. Agora, em agosto de 2008, nós três somos os responsáveis pela criação do Overmundo Colabora, um projeto de festa que também tem como intuito aproximar novos artistas e público em geral ao site.

A idéia é convidar as pessoas a participarem do Overmundo e, simultaneamente, apresentar parte do conteúdo que consideramos mais interessante a um novo público. Para isso, além da ampla divulgação da festa através da internet e de material impresso, quase 100 CDs com uma coletânea especial com artistas cujas músicas estão no Overmundo serão distribuídos gratuitamente durante a festa. Essa coletânea também está disponível para download gratuito no próprio Overmundo.

A primeira edição do Overmundo Colabora leva à Obra, na sexta-feira, 15 de agosto, a banda Pequena Morte, nome até então pouco rodado na cena musical belo-horizontina, com seu ska rock festeiro, e quatro DJs bastante ativos no Overmundo: P.U.T.A, Camaco, Mi Simpatia e Poeira. Nada mais do que os codinomes meu, do Sérgio, da Camila e do Daniel Poeira, também conhecido como Danelectro (do Esquadrão Atari).

Saindo da rotina d´A Obra, que normalmente apresenta shows apenas às quartas e quintas, o show da Pequena Morte acontecerá a partir das 22 horas, para, em seguida, a casa dar continuidade à sua programação usual das sextas com os DJs da festa.

Altamente indicável para quem quer se divertir ao som de muito rock, ska, músicas animadas, alguma eletrônica (boa) e música alternativa, por R$ 12. Sem contar que, modéstia parte, a arte que fiz para o flyer virtual e o cartão postal da festa ficou uma belezura que merece ser guardada. =D

Chame os amigos, aproveite o feriado e se acabe! E não se esqueça de conferir o Overmundo, oras!

29 de março de 2008

2 anos de Overmundo - Valorização da cultura brasileira através da internet

Sem muito alarde, o portal Overmundo completou dois anos de existência neste mês de março. Uma das melhores e mais inovadoras iniciativas da internet brasileira, inclusive alcançando repercussão internacional, o site é um imenso portal colaborativo que agrega as mais diversas manifestações culturais brasileiras.

Nestes dois anos, cerca de 25.400 colaboradores se cadastraram no portal e publicaram mais de 3.500 matérias na principal seção do portal, o Overblog. São textos sobre os mais diversos aspectos da cultura brasileira, desde reflexões um pouco mais intimistas sobre a situação sócio-cultural do país à cobertura de eventos que não possuem espaço na grande mídia.

Além do espaço para as matérias, o Overmundo também possui dicas culturais em seu guia e na agenda, além de manter um banco de cultura cada vez mais organizado, no qual os colaboradores publicam músicas, vídeos, contos, poesias, fotografias (como as que ilustram este texto) e demais formas artísticas que podem ser transformadas para o formato digital. Até mesmo CDs e filmes inteiros estão disponíveis para download no site.

Alguns dos fatores que mais chamam atenção no Overmundo são seu pioneirismo na inserção do Creative Commons na internet brasileira, sua constante evolução e transparência nas ações que determinam o futuro do site. Todo seu conteúdo está licenciado através do Creative Commons, forma alternativa de direito autoral, e seu código também está aberto para ser utilizado por desenvolvedores de todo o mundo. Já as transformações realizadas no site são discutidas na seção Observatório e no Mapa de Desenvolvimento, no qual estão listadas "informações sobre o processo técnico de construção e produção de novas ferramentas para a comunidade do Overmundo". Através dessa seção é possível saber, por exemplo, que está em fase de desenvolvimento um tutorial em flash para apresentação do Overmundo aos usuários iniciantes.

Outro destaque são o Overfeeds, sistema que indexa blogs de cultura, e o Overmixter, um banco de samples e aúdio liberado para ser usado em remixes e demais produções musicais não-comerciais.

E para quem não tem tempo ou ânimo para visitar o site constantemente, uma dica: todas as seções do site possuem RSS. Então, basta assinar o feed da área que deseja (por exemplo, publicações na agenda relativas a eventos no Piauí) e acompanhar cada atualização através de seu leitor de RSS utilizado.

Acompanho o Overmundo desde seu início e foram muitas as vezes em que me surpreendi com colaborações publicadas. Lembro do início, quando poucos votos eram necessários para a publicação de uma colaboração e os comentários eram escassos. Hoje, o grande números de usuários fez com que mais votos fossem exigidos para a publicação no site e existem várias colaborações com 30, 50, até mais de 100 comentários, resultando em debates construtivos em torno da cultura nacional.

Existem oscilações no volume e qualidade do conteúdo publicado, é claro, mas é extremamente prazeroso fazer parte deste sistema em constante transformação e desenvolvimento. Seria bobagem tentar selecionar o material mais marcante que encontrei no site nesses dois últimos anos, portanto, segue abaixo apenas uma lista de colaborações que considero interessantes e que dão uma idéia da abrangência e qualidade do Overmundo.

Sugestões de leitura:
Como meu blog foi condenado por um 'comentário'
A nova decadência da cultura pernambucana
Bar e funerária
Livro em decomposição
O Creative Commons e os Direitos Autorais
O bom e velho jornalismo está morrendo

Ps.: nada se compara a visitar o site, navegar livremente pelas seções e buscar as mais inusitadas palavras-chave na pesquisa. Surpreenda-se.

Foto da placa: Egeu Laus / Foto da bicicleta: Letícia Lins / Foto do estádio: Ivo Coutinho de Moura

2 de fevereiro de 2007

crie, remixe, compartilhe

"Remixe a cultura". Este é um dos lemas do Creative Commons. Ao transpor este mesmo pensamento para a área musical, nada mais óbvio do que pensar em "samples" e "remix".

É exatamente interligado a esse pensamento que surgiu o ccMixter, uma iniciativa do Creative Commons, que funciona como uma grande comunidade de remixers, pessoas interessadas em remix e manipulação de áudio, que disponibilizam samples, vocais e canções completas para que outras pessoas com os mesmos interesses possam usá-los na composição de novas faixas. E tudo isso é livre para que qualquer pessoa possa utilizar, sem ter de se preocupar com copyright, autorizações ou infringir a lei.

Simplificando, o Creative Commons (CC) permite a cada pessoa registrar sua obra de modo pessoal. Ou seja, você decide o que pode, ou não, ser feito com sua obra. Se você deseja que nada possa ser feito com sua obra sem sua autorização, continue com o copyright, ele significa justamente isso (lembra-se do "todos os direitos reservados"?).

Então, por padrão, uma licença CC significa que outras pessoas podem usar sua obra, mas é você que determina quais os usos podem ser feitos da mesma. Como bem explica o site brasileiro do projeto,
"O Creative Commons Brasil disponibiliza opções flexíveis de licenças que garantem proteção e liberdade para artistas e autores. Partindo da idéia de 'todos os direitos reservados' do direito autoral tradicional nós a recriamos para transformá-la em 'alguns direitos reservados' ".

Tendo essa noção básica do que é Creative Commons fica mais fácil entender o que é ccMixter e, conseqüentemente, sua extensão brasileira, o Overmixter.

Ambos os 'mixters' tem como função "permitir que pessoas que manipulam música compartilhem seus arquivos e criem coletivamente", como está descrito no release do projeto. Desta forma, a partir da colaboração de cada pessoa, "quanto mais músicas, samples ou remixes forem disponibilizados, mais idéias vão surgindo", formando uma comunidade auto-sustentável.

No caso do Overmixter, há a vantagem da relação com uma comunidade já formada: a dos usuários do Overmundo, site colaborativo brasileiro que tem como objetivo registrar a cultura brasileira em suas mais diversas e amplas formas.

Totalmente conectado ao conceito de web 2.0, o site também permite que todos os seus participantes votem e façam críticas das colaborações presentes.

Além do Overmundo, o Overmixter conta com o apoio da Fundação Getúlio Vargas, Petrobrás e Ford Foundation.


Fechando, vale lembrar, como bem foi escrito no blog do Centro de Tecnologia e Sociedade da Escola de Direito da Fundação Getulio Vargas, "do idioma à culinária, no Brasil tudo é remix". Portanto, não há lugar mais propício a iniciativas como o Overmixter do que o nosso país.

Para quem
O Overmixter (e o gringo ccMixter) é bom não apenas para aqueles que apreciam a música ou para djs, mas também para bandas ou produtores de conteúdo autoral. Disponibilizando suas faixas (na forma de loops, a cappellas, etc) no site, você torna o seu trabalho mais conhecido e incentiva a produção cultural. Tanto que artistas conhecidos como Nervoso, Mombojó, Gilberto Gil e BNegão também já disponibilizaram algumas de suas canções.

Como funciona
"Você pega um sample que esteja disponível em um dos bancos de samples indicados no site, mistura com outros samples (e/ou vocais), e cria um remix. Então, você envia o seu remix para o Overmixter indicando quais samples (e/ou vocais) utilizou, e outras pessoas vão poder usá-lo em seus próprios remixes. Quando alguém cria um remix a partir de uma música sua, seu nome aparece junto à ficha técnica da música e todo mundo pode conhecer o seu trabalho" (da página "sobre o overmixter").

Concursos
Periodicamente o Overmixter pretende realizar concursos que incentivem a colaboração no site. O primeiro deles é o Overmix BraSA, em parceria com o ccMixter África do Sul.
A proposta é aumentar a integração cultural entre brasileiros e sul-africanos, a partir da criação de novas faixas utilizando-se de samples oriundos de ambos os países. Saiba tudo sobre o concurso aqui.
O vencedor sul-africano já foi definido e se chama Whispa. Você pode ouvir a faixa dele aqui. Para os brasileiros, as inscrições estão abertas até 16 de fevereiro.


Então, o que você está esperando para grudar essa seu bumbum (cada vez maior) na cadeira em frente ao pc? Crie, remixe, compartilhe... esse é o lema.

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