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11 de maio de 2015

Entrevista para a Puc Campinas sobre o mercado musical independente

O Willian Souza é um aluno do curso de jornalismo da Puc Campinas que tem muito bom gosto e é leitor do Meio Desligado, rs. Ele está produzindo uma reportagem multimídia sobre consumo de música na atualidade e pediu que eu contribuísse respondendo algumas questões, que, como de costume, publico abaixo.

  • Como você avalia o atual cenário musical independente brasileiro?
Pergunta difícil. O cenário musical independente é muito amplo, vai dos produtores de música eletrônica ao instrumental experimental. Cada gênero musical apresenta uma realidade de mercado diferente. Muita gente do funk consegue ser bem remunerada com seus trabalhos autorais e tem a música como fonte de renda primária. O mesmo não pode ser dito da cena indie, na qual a música é, na maioria dos casos, uma fonte complementar de renda. Mas, no geral, considero um mercado que estava em expansão na década passada e se estagnou, economicamente falando, recentemente. Parte disso pode ser reflexo da situação econômica do país. Houve um boom na época da Abrafin, Fora do Eixo, TramaVirtual e depois o dinheiro foi diminuindo, ficou mais difícil dos festivais alternativos captarem recursos e com isso diminuiu a circulação dos artistas.


  • Por que acredita que os artistas começaram a disponibilizar suas músicas gratuitamente pela internet?
Porque a produção é enorme e em meio a uma oferta tão grande é preciso facilitar o acesso do público ao que o artista está produzindo.


  • Sente que isso está acontecendo cada vez mais? É uma tendência?
Sim. Muita gente, como eu, praticamente nem faz mais downloads. É tudo via streaming. Isso facilita a circulação da produção mas também aumenta a volatilidade na relação com a música. O lado positivo disso é que se tem acesso a uma variedade maior de produções, mas, por outro lado, a fugacidade às vezes impede que se aprofunde na relação com uma obra. Em uma entrevista de 2013, o produtor Dr. Luke fala sobre isso, como as músicas pop atualmente praticamente não têm introdução. É preciso captar a atenção do ouvinte logo, o vocal entra rápido e logo já vem o refrão, tudo comprimido pra soar grandioso no fone de ouvido, que é o principal instrumento pra audição atualmente.


  • Acredita que é esse o caminho?
Acho que sim, ao menos para o futuro próximo. Isso não inviabiliza a venda do produto físico, ele só precisa apresentar algum diferencial que justifique a compra. A música online gratuita é a porta de entrada para o trabalho de um artista. Mas quando se diz "música online gratuita" ela pode se referir a diferentes formatos: pode ser em um serviço de streaming, um videoclipe, a trilha sonora de um game ou em um aplicativo por exemplo. Ainda tem muita coisa a se explorar.


  • Como avalia a recepção de novos artistas pelas grandes gravadoras? Isso acontece?
No que diz respeito à absorção do que está sendo produzido na cena independente, só conheço as experiências da Deck e da Slap, e acho que ambas tem feito bons trabalhos dentro de suas respectivas propostas. O disco do Cícero é um dos melhores lançamentos do ano, a Pitty está aí quase com 40 anos já e segue com uma carreira coerente. A Deck também lançou recentemente trabalhos do Wado, Matanza, Gang do Eletro… é uma gravadora pequena mas conectada com a cena. A Slap não é uma gravadora, é um selo da Som Livre, mas é um indicativo de que até uma gravadora que possui todas as facilidades que a Som Livre tem sentiu necessidade de se aproximar da chamada cena independente. Daí a presença de Dom La Nena, Silva, Mombojó e Móveis Coloniais entre os artistas contratados por eles.


  • Sobre a divulgação, o que pensa da internet para esse propósito?
É essencial. Ponto.


  • Acredita que o Brasil se difere dos outros países no que tange ao cenário musical independente?
Acho que cada país tem seus singularidades que variam de acordo com sua cultura e situação econômica. Nos Estados Unidos e na Inglaterra, por exemplo, os mercados são bem diferentes, mais evoluídos e maiores, mas digo isso como observador e leitor, não tenho uma experiência aprofundada nesses países. Posso dizer que em Portugal, por exemplo, a situação não é tão diferente da que temos aqui. Muitos portugueses acham que vivemos uma situação melhor do que a deles, inclusive, com um apoio muito maior do governo, inclusive. E no que diz respeito ao consumo de música independente, é a mesma coisa: os países seguem para um mesmo caminho, mas cada um com suas singularidades. Passei um tempo no Japão e fiquei surpreso ao descobrir que o Spotify não funciona por lá até hoje, acredita? Os japoneses ainda compram muitos CDs e por preços altíssimos, numa média de U$ 25. A Tower Records é uma loja de discos que possui um prédio de cinco andares em Tóquio, imagine isso. Não dá pra dizer que determinada mídia morreu assim tão facilmente, esses contextos locais precisam ser levados em consideração e essa diferença que cada mercado apresenta torna tudo mais interessante (e/ou difícil, dependendo do ponto de vista).


  • O que pensa do futuro da música independente?
Penso que esse termo "música independente" é horrível, rs. Passa a impressão de algo que funcionaria de forma isolada, auto-suficiente, o que é o oposto da realidade. O que eu acho de toda essa música feita fora de grandes gravadoras é que ela é, há muito tempo, a maior parte da música feita no mundo (e provavelmente sempre tenha sido). Só que apenas nas últimas décadas esses artistas têm alcançado mais repercussão, seja localmente (principalmente) ou em escala maior.

E, pra fechar, só queria dizer que isso tudo é só a minha opinião, baseada na minha experiência como jornalista, produtor e consumidor.

28 de outubro de 2013

Entrevista sobre jornalismo musical

Tive uma conversa bem legal com a Adriana Oshiro, que está fazendo um trabalho de conclusão de curso chamado "Manual de jornalismo musical". Algumas respostas acabaram um pouco longas, mas gostei de participar do projeto. No fim, senti falta de falar sobre a proposta da TV Meio desligado e mais sobre o uso de redes sociais, mas fica pra outra ocasião. Abaixo, a entrevista na íntegra.


O Meio Desligado começou em 2006, certo? Como surgiu a ideia de fazer um blog apenas sobre música independente brasileira?

Dezembro de 2006. Vou copiar aqui uma resposta que dei em 2010: "Resumindo muito: queria fazer algo relevante na internet em vez de ter mais um blog sobre cultura pop e bobagens para entreter as pessoas. Percebi que havia uma movimentação crescente na cena musical independente e não existia nenhum blog dedicado totalmente a essa cena. Além disso, quando outros blogs e jornalistas citavam bandas indie nacionais, na maioria dos casos exaltavam bandas que eu considerava (e ainda considero) ridículas ou falavam das bandas dos amigos, coisas do tipo. Eu pensei: "é por causa desses idiotas que o público em geral acha que não existem bandas independentes boas". Por isso criei o Meio Desligado, para fazer uma análise mais crítica dessa cena, sem ter rabo preso com ninguém, sem medo de experimentar." 
Lendo assim parece um pouco prepotente, mas é aquela prepotência irônica através da qual você quer reforçar uma ideia, entende? 


O convite para ser curador de festivais e participar da produção de projetos culturais veio por conta do Meio Desligado?

Sim. Eu já tinha feito estágio na Secretaria de Cultura de MG, trabalhado em um site de música e escrevendo sobre cinema, mas minha entrada na produção cultural, efetivamente, foi através de um convite que surgiu por causa do Meio Desligado. 


Além de tocar o blog, você presta uma série de serviços para bandas e tudo mais. Inclusive, até escreve textos sobre isso no blog. Quais são suas atividades e projetos, atualmente? 

No fim de 2011 montei uma empresa (revrbr.com) para prestar esses serviços junto a dois sócios, profissionalizar a coisa. Mas eles acabaram se mudando e a empresa foi parando. Continuei trabalhando com diferentes artistas e produtoras culturais enquanto planejava o que seria a quente, que é a agência de bandas/produtora cultural que montei com um sócio no ano passado. Somos uma das poucas agências de bandas no mercado independente brasileiro e com pouco tempo já conseguimos alguns resultados relevantes. Também fazemos nossos próprios shows, produzimos eventos para clientes externos, fazemos assessoria de imprensa especializada, elaboramos e gerimos projetos de leis de incentivo (a Elza Soares encomendou um projeto de lei com a gente, por exemplo). E paralelamente a isso continuo a parceria com a Casulo Cultura, que foi a primeira produtora cultural em que trabalhei. Através dela me envolvo em projetos mais mainstream, como grandes festivais como o Rock in Rio e o Natura Musical. 


As bandas que você produz podem entrar no Meio Desligado? Como você separa essa questão para justamente fazer uma análise crítica e não se tornar o cara que fala bem das bandas dos amigos, que vc citou na 1ª pergunta?

Questão super pertinente. Eu vejo certo ativismo aí, uma necessidade de atuar mais diretamente nessa cena e nesse mercado, de poder interferir mais diretamente. Antigamente eu me via principalmente como jornalista e depois como produtor cultural. Atualmente, me considero mais um produtor/gestor cultural que também é jornalista. Acho que tento usar a visão do jornalismo pra tentar contribuir com a produção cultural por dentro. E sinto falta de mais gente fazendo isso, gente que atua na área e que exerça uma função crítica sobre ela, como os envolvidos com a Cahiers du Cinéma faziam, sabe? Quando o jornalista cultural passa a atuar como produtor ele não só observa e analisa, com poder de influência, para se transformar em uma potencial ferramenta de transformação dentro daquele ambiente no qual está envolvido. Quando o Lúcio Ribeiro se transforma em produtor acredito que isso seja extremamente benéfico para a cena. Todos sabemos que é ele quem está promovendo o show de tal banda, tal festival. A partir disso, podemos interpretar o que ele escreve sobre esses artistas da forma como quisermos, o importante é contextualizar. O que não acho válido é deixar de tomar uma atitude dentro desse mercado por receio. É bem diferente de tentar se beneficiar exercendo as duas funções. 
Não escondo de ninguém as bandas com as quais trabalho e quando escrever sobre elas vou deixar isso claro. O que tem acontecido até hoje é que primeiro escrevi sobre as bandas e depois começamos a trabalhar juntos, justamente por eles terem se identificado com o que escrevi sobre eles, sobre o que conversamos. Só trabalho com artistas com os quais me identifico e gosto, então é natural que possa escrever sobre eles - seria algo que o faria se não trabalhasse com eles também.
Se você citar os principais artistas da cena independente de MG talvez eu já tenha trabalhado com a maioria deles, em diferentes momentos (assessoria, festivais, produção, consultoria e afins), porque trabalho com muitas produtoras, muitos eventos. Nem por isso escrevi sobre todos esses artistas. Não é a minha relação comercial que irá pautar o Meio Desligado. 


O blog já tem bastante tempo, principalmente, se você pensar em como tudo se altera rapidamente na internet. O Meio Desligado passou por muitas mudanças significativas? As visitas cresceram durante esses anos? Quantos visitantes únicos o blog possui em média? 

Passou por várias mudanças, acho esse um ponto positivo. Considero a mudança super válida, é preciso experimentar, não se acomodar. No geral, não dou a mínima pra acessos. Fiquei muito tempo sem nem olhar o Analytics pra saber como estava, mas de vez em quando entro porque os anunciantes sempre querem saber disso e pedem dados atualizados. Ontem (22/10/2013), por exemplo, ele teve 1.156 acessos. Já teve mais que isso, mas não é algo que me incomode. 


O layout do blog parece ser bem adequado para dar destaque aos vídeos, imagens e players. Há algum tipo de formato na postagem? Como você edita o conteúdo e pensa no formato para tornar o post mais atrativo?

O layout atual é o que mais se diferencia em toda a trajetória do blog. O Meio Desligado não tem anúncio fixo, não tem banner animado, barra lateral, nada disso. O foco é no conteúdo. E para isso quis explorar um formato que eu ainda não tivesse usado, que ocupasse mais a tela e deixasse tudo bem na cara de quem acessa o blog. Engraçado é que fazia muitos meses que não lia o Tiago Dória, uma das minhas maiores influências no início do blog, e reparei que ele fez algo semelhante no seu próprio blog também. 


Muitos jornalistas que trabalham ou trabalharam no meio cultural reclamam da dificuldade de fazer um veículo dessa área no Brasil. Na internet, você encontra inúmeros blogs sobre isso, mas poucos rentáveis. No caso de um blog que fale especificamente sobre bandas independentes brasileiras, então, penso que essa dificuldade seja ainda maior. Mesmo assim, o Meio Desligado tem espaço para anúncios e ações pagas. Você consegue ganhar dinheiro com o blog? É possível se manter apenas com ele?

Eu me manteria com o blog se morasse na casa dos meus pais, não pagasse ingresso para ir a nenhum show ou festa e parasse de beber. Ou seja, o Meio Desligado é, diretamente, um complemento. Indiretamente, ele intermedia outras possibilidades de trabalho que, essas sim, são rentáveis. 


Nos últimos meses, a frequência de posts caiu bastante. Isso tem alguma relação com o uso de redes sociais ou a popularização das plataformas de música, como Spotify e Last.fm, que recomendam artistas e permitem que o público dependa menos do jornalista para conhecer uma banda nova? Você acredita que as pessoas têm interesse em conhecer e ler sobre bandas novas e brasileiras?

Diminuiu porque tenho tido menos tempo para me dedicar ao blog e porque tenho tido um pavor crescente de excesso de informação. Quando entro no Trabalho Sujo, por exemplo, quase tenho um treco com aquele tanto de informação (e maior parte dela é essa coisa piadista da internet). Já que tenho pouco tempo para o blog, penso duas vezes antes de publicar qualquer coisa. Mas estou longe de achar que estou fazendo uma coisa muito boa. Esse é o meu objetivo, mas por enquanto ao menos estou sendo honesto com a minha realidade e em busca de melhorar. 
Sobre o interesse do público, há sim, apesar de ser um segmento bem específico. É muito mais fácil e gera mais frutos falar de coisas mais populares e gringas, mas não é o que me interessa. 
E sobre plataformas de streaming, amo o Deezer. Minha vida mudou depois que passei a usar essa nova versão. Comecei a usá-lo quando foi lançado, anos atrás, pra conhecer algumas bandas francesas e tal. Agora a história é outra, mudou minha vida. Faz meses que enrolo pra fazer um texto sobre isso. 


Marcelo, mas o que te incomoda é o excesso de informação ou a falta de filtragem dele? Será que o jornalista/blogueiro não seria o responsável por selecionar informações relevantes diante desse excesso? O que você acha disso?

A filtram dele é o ponto crucial aqui. A produção ser grande é positiva. É ótimo ter mais gente podendo se expressar através de diferentes pontos de vista, diferentes experiências de vida envolvidas na produção. Nesse cenário, existe uma necessidade crescente de "curadoria", que seria essa filtragem a partir de critérios definidos por quem exerce essa "curadoria" de conteúdo. Se existem cada vez mais coisas incríveis sendo criadas no mundo todo, também estão sendo surgindo muitas que são medíocres e desinteressantes. Apesar de eu achar que cabe a cada indivíduo avaliar como determinada informação irá afetá-lo, é claro que muitas pessoas vão preferir acessar apenas o que já foi analisado por alguém antes e que foi considerado relevante. Mas não acho que seja uma função específica do jornalista, é uma função de quem se identifica e tem interesse com determinado tema. 
Alguns perfis no Twitter fazem bem isso, com seleções constantes de links. O Itaú Cultural ou o Sérgio Motta uma vez fizeram até uma premiação específica para curadoria de links. O Tumblr funciona muito dentro dessa lógica, com os usuários republicando (ou seja, fazendo uma filtragem) daquilo que mais os interessa. A grande comunidade de pornografia do Tumblr funciona basicamente assim, existem alguns blogs mais genéricos todo tipo de pornografia e a partir desses vários blogs temáticos vão filtrando e republicando somente o que se encaixa com seus perfis e suas análises de qualidade. É um tema que cheguei a começar a pesquisar para o meu artigo de pós-graduação mas depois o troquei por outro assunto.


Sobre o Music Alliance Pact. Quando e como surgiu o convite para participar desse projeto?

Eu atualizava um pouco uma versão em inglês do Meio Desligado e pesquisando sobre música brasileira o criador da MAP, um escocês, encontrou o blog. Na época tinha um brasileiro fazendo doutorado na Escócia tendo o Meio Desligado como objeto e imagino que isso tenha ajudado também. 


Você recebe muito material de divulgação de bandas? Como escolhe o que pode ou não entrar no Meio Desligado?

Recebo muita coisa no email do blog (não foi à toa que te pedi para enviar as perguntas em outro email, rs). É cansativo. E como tenho outras atividades que me demandam muito tempo, acabo fazendo uma leitura bem superficial do que chega. São praticamente três coisas que analiso nos emails, para me poupar tempo: 
1: O nome da banda. Se acho o nome da banda idiota, dificilmente vou ouvir. Se não conseguem sequer dar um nome interessante para a banda, o que esperar das músicas e das letras? Às vezes acabo deixando de conhecer algumas coisas boas, mas é raro. Demorei a ouvir o Macaco Bong, no início da banda, por exemplo, porque não gostava do nome. 
2. Anexos. Se enviam email com anexos pesados eu só não apago se for algo que realmente me prenda a atenção (alguma banda que já conheço e gosto, algum festival ou ação que ache interessante). 
3. Se o email foi enviado só pra mim ou estou em uma lista. Se a pessoa te manda um email direcionado, teve o trabalho de parar para te escrever algo, o mínimo que ela merece é um pouco de atenção. Já faz um tempo que não consigo dar um retorno pra esses emails, mas os que chegam diretamente pra mim quase sempre são lidos. 
Apesar disso tudo, é raro alguma pauta chegar até mim por email. Não faço agenda no blog e praticamente não dou notícias, a maioria dos emails é relacionado a isso - algum lançamento. É sobre isso que as outras pessoas estão escrevendo, então prefiro encontrar minhas pautas por conta própria, tentar criar conteúdo que considere relevante, em vez de mais do mesmo.


Você acompanha outros blogs de música? Quais? (Vale nacionais e internacionais)

Leio poucos blogs fixos. Tipo uma vez por semana (ou ainda mais espaçado) acesso o Hominis Canidae, Trabalho Sujo, Urbe (esses dois últimos d'O Esquema), o Lúcio Ribeiro, Miojo Indie. Nesses eu paro para ler o que está escrito. Mas diariamente acesso blogs aleatórios e não leio nada, só dou play nas músicas para saber sobre o que estão falando e na maior parte do tempo me decepciono. O melhor lugar pra conhecer música, pra mim, é no Deezer e nos blogs da Music Alliance Pact. Cada vez que entro em um dos blogs da MAP isso acarreta em no mínimo umas 10 bandas novas pra ouvir, porque pesquiso sobre elas, ouço artistas da região delas, coisas do tipo. Ah, e de vez em quando leio a Pitchfork também, mas é mais pra rir do tanto de porcaria que eles supervalorizam. 


Qual a sua opinião sobre o jornalismo musical diante das novas mídias? E sobre a blogosfera de música? Quais aspectos positivos e negativos você considera?

Acho que as pessoas que estão nesse meio não pensam muito em explorar o formato. Alguns sequer parecem pensar no conteúdo, mas vejo que alguns escrevem super bem, têm textos mais elaborados, mas se você estivesse lendo em outro suporte, a diferença seria mínima. 
E tem uma coisa que me incomoda muito, que é a forma como utilizam as redes sociais. O sujeito faz uma notícia informando que a banda X foi confirmada em tal festival. Em vez de o imbecil tweetar que "a banda X vai tocar no festival tal" ele escreve "saiba quem é a nova banda confirmada no festival tal". Pra que isso? É uma bobagem fazer esse tipo de coisa pra ganhar uns acessos adicionais. O Twitter pode funcionar por si só. Se você consegue passar a informação em poucos caracteres, faça isso e deixe o link para quem quiser informações adicionais, não use as redes sociais apenas como caminho. 


Quais dicas você daria para alguém que tem um blog e quer ganhar relevância na web?

Não desista. 


Se você pudesse definir o Meio Desligado em algumas músicas ou uma banda, quais seriam?

Não dá. O máximo que consigo é relacioná-lo a algum festival, como o Eletronika e o Escambo (festival que produzi em Sabará através do coletivo Fórceps e que já teve bandas como Black Drawing Chalks, Macaco Bong, Transmissor, Dibigode, Marcelo Jeneci, Emicida, Constantina, Cabruêra, Flávio Renegado e outros). O Eletronika tem esse conceito da música experimental junto com a música mais de entretenimento, da tecnologia e da cultura digital, temas diretamente ligados ao blog. 

Você nasceu e mora em Minas Gerais? Quantos anos você tem?
Nasci em Sabará, uma cidade histórica ao lado de BH, mas vivi meus primeiros 10 anos em outra cidade, a uns 100km da capital. Depois disso, voltei pra Sabará e moro em BH há algum tempo. Tenho 26 anos.

26 de setembro de 2013

A cena musical de BH em 2013: Young Lights

Para começar uma série especial de entrevistas com artistas da cena musical alternativa/independente de BH, um desvio de percurso. Jairo Horsth, criador do projeto Young Lights, faz a conexão BH / Boston / Sabará e tem apenas uma música lançada no momento em que este texto é publicado. Assim como seu trabalho, muita coisa vem por aí.

Afinal, você é brasileiro ou norte-americano? Como foi parar justamente em Sabará? 
Eu nasci em BH e, lá pelos 3 anos, me mudei pra Boston, Massachusetts. Fiquei lá por um período de 17 anos. Então, pra responder sua pergunta, sou brasileiro de sangue, mas americano de coração. Meus pais voltaram pro Brasil há mais ou menos 5 anos e tiveram a oportunidade de se mudarem pra Sabará há mais ou menos 3. E isso foi na época em que eu estava voltando pro Brasil, por isso que agora eu estou aqui. 

Você já tinha projetos musicais nos EUA? Quais as maiores diferenças que sente entre a recepção das suas músicas aqui e lá? 
Eu tinha uma banda, assim como todo adolescente de 15 anos tinha, nos Estados Unidos. Eu não chamaria isso de nada muito sério; era mais pra me divertir e fazer shows. Eu acho que é meio relativo dizer a diferença entre a recepção lá e aqui, porque acho que depende um pouco do tipo de propaganda que você faz. Eu não expus de fato minhas canções nos Estados Unidos; eram mais pros meus amigos, na verdade. E aqui eu acho que comecei a usar as redes sociais com mais frequência, mais como uma forma de me envolver com as pessoas, e comecei a fazer contatos. E, quando lancei minha música aqui, tive mais exposição. A recepção que eu tive aqui foi sempre muito gentil. Acho que, na verdade, aqui as pessoas ficam muito curiosas por eu cantar em inglês como um americano, e não só como um brasileiro cantando em inglês. Acredito que chame mais atenção pro meu projeto. 



Uma série de pessoas se envolveu com o Young Lights para que o projeto se tornasse possível, certo? Quem são essas pessoas e como você chegou até elas? 
Sim, muita gente bacana e talentosa se envolveu e tenho certeza absoluta de que sem essas pessoas eu não teria conseguido terminar o que tinha começado. Primeiro, eu conheci o Pedro “Cido” Cambraia; acho que o conheci – é uma história engraçada – quando estávamos do lado de fora de uma boite e ele estava fazendo um dueto a capella com uma menina. Eu achei muito bizarro, mas bem legal. Então me aproximei e a gente começou a conversar. Ele me disse que tinha um estúdio e que me gravaria se eu quisesse. Então, ele e o resto da banda dele, Lúmen, me ajudaram muito – o Daniel Coelho me ajudou nas bateras; Pedrinho Muller, no solo de “Alaska”; Raphael Salazar, no baixo; e o Cido, na guitarra, bateria e na produção – o cara é um monstro. Eu também convidei o Vítor Brauer, um dos meus grandes amigos, da banda Lupe de Lupe, que é parte do mesmo coletivo/movimento que o Young Lights, chamado Geração Perdida. Ele tocou guitarra em uma das faixas. Também chamei o J. P. Cardoso, que é um grande amigo do Cido e sempre estava lá no estúdio, então eu joguei o baixo pra ele em uma das canções. Eu realmente agradeço demais a esses caras. 

Como foi o processo de gravação desse primeiro trabalho e quando ele será lançado? É um álbum ou um EP? 
O processo! Hahaha! Eu não quero falar nisso, porque me estressa muito só de pensar. Mas eu vou falar, sim. Levamos mais ou menos 2 anos pra terminar. Teve muitas tentativas e falhas. Eu não sinto que sou uma pessoa que fica satisfeita facilmente, então teve muita gravação, regravação e ainda assim muita coisa foi deletada. Não quero nem pensar em todas as canções, digamos, abortadas. Hahahaha. Muitas coisas aconteceram nesses dois anos e duas pelas quais sou grato são ter terminado esse EP e os relacionamentos – que se tornaram amizades – que fiz ao longo dessa jornada, apesar de todos os momentos estressantes pelos quais todos os músicos passam quando estão gravando. É engraçado como você entra no estúdio com uma ideia definida pra uma música e ela sai completamente diferente no final das contas. É meio que isso que me fez sofrer, me parecia difícil de aceitar. Mas acabamos gravando 6 faixas, que serão parte do An Early Winter EP. Ele vai ser lançado algumas semanas antes do show de lançamento, só Deus sabe quando isso vai ser, porque a gente tem tido problema em achar um lugar. Será que você pode me ajudar com isso? Hahahah. 

Qual o seu envolvimento com o movimento Geração Perdida? Qual a proposta/conceito envolvido? 
Somos parte do mesmo grupo de amigos – a banda Lupe de Lupe, a Quase Coadjuvante e muitas outras pessoas que compartilham de algumas ideias sobre a vida. É meio pessoal demais te responder qual é a nossa proposta. Acho que não é questão de proposta, é questão de mostrar o que a gente sente, de alguma forma, e o que a gente tem em comum. Somos uma geração em andamento que precisa e quer se expressar – e às vezes não sabemos como, inclusive. Mas a gente continua tentando. 

Em termos de cena, como você compara a que vivenciou nos EUA e a que percebe no Brasil, mais especificamente em BH? 
Bom, nos Estados Unidos, acho que a cena musical vai estar sempre viva – é onde as coisas começam, é onde elas acontecem. Então, todo fim de semana – todo dia, se eu quisesse – eu podia ir a um tipo diferente de show, fazer parte de cenas musicais diferenciadas, estar em contato constante com bandas que eu amava escutar e coisas do tipo. Agora, aqui, o cenário é diferente. Não sou muito familiar a ele, devido ao período de tempo que estou aqui. Mas o que vi dele é que é meio inacessível em alguns momentos. 

Antes de mudar para Sabará, qual era sua relação com a música brasileira? O que conhecia da produção independente brasileira e o que mais te chama a atenção agora? 
Eu não conhecia quase nada. Como fui criado na igreja, o único contato que tinha com música brasileira era pra “louvar a deus”. E eu não conhecia nada realmente sobre os coletivos independentes do Brasil. Agora, de perto, eu vejo que é uma coisa bonita: as pessoas estão se unindo e tentando fazer a diferença na cena musical, assim como o lindo Coletivo Fórceps – especialmente João Rafael, de Sabará, que tem me ajudado bastante a promover meu trabalho desde o início.


Seu primeiro single tem um romantismo melancólico carregado de folk e indie. É por essa linha que seguem as outras músicas do Young Lights? Aliás, qual a origem desse nome? 
É uma perspectiva legal, essa sua. As canções realmente seguem o mesmo caminho, mas cada uma é diferente de seu próprio jeito. Quanto ao nome, eu estava vendo um filme um dia e teve uma cena em que um casal de jovens chega numa festa e alguém diz “There they are, the bright young lights” ou alguma coisa do tipo. Aquilo ficou na minha cabeça. 

Como será a formação ao vivo? É mais um projeto solo seu com músicos convidados ou uma banda? 
Neste momento, são só músicos convidados, mas estou à procura de músicos devotados que queiram fazer isso comigo e estar em shows, se divertir com isso. Então, temos a mim no violão e nos vocais, o Cido e o Pedrinho nas guitarras, o Raphael no baixo, meu amigo Felipe Monteiro – da Quase Coadjuvante – na bateria, e o “Preah” – do Dibigode, cujo nome verdadeiro eu não sei de verdade, haha, no trompete e na gaita. Estou muito animado pra tocar com esses caras gente-boa. 

Para fechar, queria que indicasse vídeos, filmes, livros, locais e/ou sites que ajudem a entender um pouco mais a proposta do Young Lights. Podem ser coisas que tenham te influenciado ou que você simplesmente gosta, não necessariamente refletindo na sua produção artística. 
Determinar influência musical é bem simples, na verdade: eu amo muito os vocais angelicais do Bon Iver, os acordes cativantes de Tallest Man On Earth e, como vocês vão ver, várias influências de bandas estrangeiras muito conhecidas, como Coldplay e Radiohead, que eu amo desde criança. Acho que criei o Young Lights só pelo sentimento nostálgico da época em que eu tinha 15 anos e nenhuma preocupação com o mundo. Eu só queria beber, fazer shows com bandas boas, gente boa e só me divertir no geral. Eu realmente levo isso a sério, mas, ao mesmo tempo, eu só quero me expressar assim, por agora. No movimento Geração Perdida tem muitas coisas artísticas pelas quais eu sou inspirado e esses caras realmente me mantêm são. Nós temos bandas – como a Lupe de Lupe e a Quase Coadjuvante, que já citei, e acabaram de lançar álbuns; eu realmente os indico pra quem gosta de música verdadeira. A maioria dos meus amigos é feita de escritores, como o Bernardo Lopes, que é na verdade um dos meus melhores amigos de Sabará e que logo vai lançar o romance dele, “Trens Descarrilados”. Temos Damy, Lucas, Luiz, Negão, Paola, Pedro Ordep, Mailton, Larah, Cícero, Carol, Renan, Gustavo, Ana, Túlio, Marina, Sussu, Vini, Marcelo, Polly, Jonathan, Felipe, Vítor, que são todos talentosos em seu jeito individual. Meus amigos e a música que eles escutam, como por exemplo Kendrick Lamar, Mac Demarco, The Smiths, Beach House, A$AP Rocky, Jair Naves, Polara, são todos grandes influências na minha vida, não necessariamente na minha carreira musical.

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Outras publicações do especial sobre a cena musical de Belo Horizonte em 2013.

31 de julho de 2013

Jornalismo cultural, internet e Meio Desligado

Demorei para responder a entrevista da Aline Ruiz, estudante de jornalismo que está fazendo seu trabalho de conclusão de curso sobre o tema "As redes sociais e a internet como canal de divulgação de produtos culturais: o espaço da música independente", mas aí estão as respostas que enviei para tentar ajudar no projeto dela.

Observação: os vídeos não são da entrevista, mas os temas estão relacionados.

Jornalismo cultural e internet

Atualmente, como você descreve o jornalismo cultural na mídia tradicional e nos blogs?

Para falar a verdade, eu quase não "leio" blogs sobre música e cultura. No geral, visito alguns blogs e dou play nos vídeos ou nas músicas e vou ler outra coisa. A maioria dos blogs mais atualizados que acompanho têm o texto ruim (nem tanto na questão gramatical, mas principalmente de sentido), escrevem superficialidades que não me interessam. Prefiro focar no que me interessa - no caso, aquela determinada música que estão apresentando aos leitores - e fazer outra coisa simultaneamente. Então, é um pouco difícil eu opinar sobre o jornalismo cultural na web atualmente.

Na mídia tradicional, sinto que é praticamente a mesma coisa desde quando comecei a me interessar por jornalismo cultural, com a diferença da música independente ter maior abertura agora e uma quantidade muito maior de conteúdo online publicado pelos veículos "tradicionais" (e ainda entra aquela questão da velocidade das informações). 

Você acha que a internet afetou um pouco o jornalismo cultural da mídia tradicional?
Sim. Tanto em relação ao que será escrito/gravado como em questões mais estéticas, como diagramação e edição, sem contar que a facilidade de acesso à informação afeta também o jornalista no momento de apuração e redação, uma vez que suas referências podem ser bem maiores agora e demandam menos esforço do que sem internet.

Como você caracteriza essa transição do jornalismo cultural das mídias tradicionais para a internet, no caso, para os blogs?
Hibridismo. Ou multidisciplinaridade. 

Na sua opinião, a internet ‘melhorou’ o jornalismo cultural atual? Por que?
Acredito que a internet potencializa o jornalismo cultural, no sentido de que dá maiores possibilidades em relação ao que pode ser feito. Se o resultado será melhor ou pior, depende mais de quem efetua a ação do que do meio utilizado.

Na sua opinião, a música independente continua ‘invisível’ para a mídia tradicional? Visibilidade é algo que elas (bandas) só encontram na internet mesmo?
Não. Eu não só escrevo sobre bandas independentes como trabalho com elas de diferentes formas e as vejo na Folha de S. Paulo, no O Globo, no Estadão, na Rolling Stone, enfim, nos principais veículos do Brasil. Na internet existe mais material sobre essas bandas, mas há uma inserção crescente desses artistas nos grandes veículos.


Meio Desligado

Por que Meio Desligado?
A ideia era que "se você está meio desligado, esse blog é um lugar para se ligar no que está acontecendo". Não é bem um slogan (porque seria um slogan muito ruim), mas resume a ideia. O endereço original do blog era nemparece.blogspot.com, era uma piada com o título, tipo "nem parece meio desligado".

Como é realizado o seu trabalho no Meio Desligado? Escolhas de pautas, bandas para falar a respeito, etc?
Atualmente varia muito. Às vezes é algo que percebo durante algum trabalho (como nos casos de posts sobre fotos de bandas e empreendedor individual), pode ser desdobramento de alguma coisa que li ou ouvi por aí, alguma conversa na rua, algo que senti durante algum show... o que menos gera conteúdo pra mim é release (apesar de serem cruciais quando já tenho uma ideia sobre a qual escrever).

O Meio Desligado tem impacto sobre as bandas que divulga? Tem exemplo de alguma banda? Se sim, qual?
Vejo as banda usando citações de textos do blog no release, recebendo convites pra shows ou até mesmo pra uso comercial de suas músicas a partir de publicações aqui.

Qual é o diferencial do Meio Desligado?
Eu não me pauto pelo que os outros blogs estão publicando e raramente por algum release recebido. Tento escrever sobre o que os outros não estão falando ou ao menos dar outra perspectiva ao assunto. Nem sempre consigo, mas é bom relembrar quais são os objetivos. =D

Qual a opinião das bandas a respeito do blog e do seu trabalho?
Acho que a maioria queria que eu escrevesse mais sobre bandas, mas imagino que gostem ou ao menos respeitem um pouco. Afinal, recebo no mínimo 20 releases por dia, isso deve significar que estar no Meio Desligado represente algo positivo para o artista.

E o seu público? Qual o papel deles no blog e qual a importância dessa participação?
Já pensei em parar algumas vezes, mas sei que teria a necessidade de escrever e continuar mesmo que ninguém lesse. 
Os leitores já foram mais ativos no Meio Desligado. Costumavam contribuir mais na construção coletiva em torno de um post. Atualmente, a interação costuma se resumir a compartilhamentos nas redes sociais, algum elogio ao artista comentado. Acredito que é um pouco de mudança de hábito dos leitores e resultado do conteúdo que crio, mas não tenho interesse algum em criar enquente ou tentar ser polêmico apenas pra mostrar que as pessoas estão lendo o blog. Saber que as pessoas estão acessando o que você cria é um dos maiores estímulos para continuar. 

26 de março de 2013

Entrevista sobre a cena independente e mídias digitais

Alguns estudantes do curso de Especialização em Mídias Digitais do SENAC/SP estão fazendo uma pesquisa sobre "novas formas de produção e divulgação de música através das mídias digitais" e entraram em contato para conversarmos sobre o assunto. Respondi algumas perguntas para eles, conforme você pode ler abaixo.

Como você situa a produção musical independente nos dias de hoje?
Ela é a maior parte do que se produz mundialmente. Antigamente as grandes empresas de música estavam focadas em vender muito mas de poucos artistas (a lógica inversa da cauda longa, criando poucos grandes astros mas que rendem muito), mas até mesmo elas estão cada vez mais ligadas no que acontece no meio independente agora, pois é a cena mais efervescente, com mais novidades (e, por isso também, com potencial de lucratividade).

O que está dando certo?
As bandas estão alcançando um público maior e com menos custo pra que isso aconteça.

O que não funcionou?
A sustentabilidade na cena independente ainda é muito difícil e o mercado precisa se desenvolver. É preciso formar mais público e profissionais que atuam nesse mercado, assim como se aproximar mais da iniciativa privada para captar recursos para a cena independente.

No seu blog você compilou um manual para a divulgação de bandas independentes, utilizando as plataformas digitais e as mídias sociais. O quão importante hoje é o ambiente digital no sucesso de uma banda/músico?
É através dessas plataformas que a maioria dos artistas chega ao público. Se dependessem exclusivamente de gravadoras e veículos tradicionais de mídia, a difusão de suas obras seria extremamente limitada. A divulgação online é essencial. Mesmo que o próprio artista não disponibilize seu material online, à medida que ele atingir um público interessado sua transposição pro ambiente virtual é quase que natural atualmente.

No contraponto com a estrutura de produção tradicional das gravadoras, o que as iniciativas digitais trazem de diferencial? E o que não funciona?
No ambiente digital são todos produzindo para todos, em vez de alguns detentores dos meios de produção e distribuição definirem o material a ser difundido. Aumenta a produção e, consequentemente, a competitividade e a dificuldade em se destacar em meio ao grande volume disponível.

As plataformas digitais podem ser importantes em outros aspectos? Quais?
O meio digital influencia toda a cadeia produtiva da música. Do empresário que se organiza e fecha shows através da internet às ferramentas de produção e pós-produção acessíveis via web, passando aí pelo cara que aprende a tocar algum novo instrumento pela web (ou cujo próprio "instrumento" tocado é virtual) ao público que compra os produtos da banda e o ingresso do show virtualmente. As possibilidades são inúmeras.

Você apontaria tendências nesse cenário?
O fim do download. As conexões estão cada vez mais rápidas e o volume de músicas disponíveis para audição online não para de crescer. Os números de celulares conectados 24 horas à internet também cresce sem parar. Nesse contexto, se a música está disponível online à qualquer momento, em qualquer lugar, não faz sentido o armazenamento de arquivos da forma como estávamos (ou estamos) acostumados.

Você acha que é possível viver de música hoje? Como?
Claro! É dificil, mas claro que é possível. O que eu percebo trabalhando nesse mercado é que a maioria dos músicos, para sobreviver somente da música, é obrigada a tocar com mais de um artista. Eles geralmente possuem seus trabalhos autorais mas para ter uma renda melhor precisavam trabalhar como músicos de apoio de outros grupos e em gravações de estúdio.

Com tantas ferramentas de produção, onde se situa a figura tradicional do produtor musical? Acredita que esta função tende a desaparecer?
O produtor vai muito além de saber utilizar as ferramentas, é um cara que geralmente tem um grande conhecimento musical, muitas referências e ideias a aplicar ao som da banda. Varia de acordo com a proposta de cada banda, mas não vejo risco para essa função. Uma coisa é se ter alguém que saiba operar tudo, um bom engenheiro de áudio, outra coisa é ter um produtor que entenda a proposta da banda e capte o que ela tem de melhor, que explore seu potencial.

21 de agosto de 2012

Quanto vale a mú$ica?

Escrevi o texto que abre o nova edição da revista Overmundo, cuja temática era open business. A revista está disponível para download grátis em pdf e para iPad. Abaixo, minha matéria completa.


Festival de música independente em Goiânia adota modelo em que o público decide quanto pagar pelas apresentações das bandas – e faz sucesso!

Sexta-feira, 10 de Outubro de 2007. Inglaterra, Marrocos, Rússia, Brasil, Bolívia. Pessoas nestes e em quaisquer outros países com acesso à internet faziam o download de In Rainbows, sétimo álbum da banda britânica Radiohead. Mais do que um trabalho que, meses depois, estaria na maioria das listas de melhores álbuns daquele ano, tratava-se de um divisor de águas no mercado musical. Pela primeira vez, uma das maiores bandas do mundo lançava um CD de forma independente e cujo preço de venda era definido pelo próprio público (com a possibilidade, inclusive, de optar por não pagar nada para se obter a obra).

Domingo, 6 de Maio de 2012. Goiânia, Brasil. Centenas de pessoas reunidas no Centro Cultural da Universidade Federal de Goiânia para o último dia da 14ª edição do Festival Bananada, iniciado na semana anterior. Assim como no caso do Radiohead, o valor da entrada era definido pelo público. O diferencial é que, no caso do festival goiano, não contribuir com nenhum valor não era uma opção (e moedas não eram aceitas).

A evolução do modelo colaborativo na definição de preços para o acesso a bens culturais tem se dado de forma relevante nos últimos anos. No Festival Bananada, por exemplo, ela é resultado de um longo processo de mapeamento da cena, do trabalho pela formação de público e pela busca de formas funcionais de gestão de carreiras artísticas. Assim como o sistema de crowdfunding tem possibilitado a realização de ações colaborativas através do financiamento coletivo, o “pagamento 2.0” é outro elemento cada vez mais presente na lógica do mercado cultural contemporâneo. A nova geração de consumidores cresceu em meio às mídias digitais, com acesso fácil, rápido e, na maior parte dos casos, gratuito ao conteúdo que desejam. Entender as transformações nos hábitos de consumo do público e manter sustentável a cadeia produtiva é um dos desafios de produtores culturais em todo o mundo.

Fabrício Nobre é um desses produtores. Vocalista da banda de rock MQN, ex-presidente da Asso- ciação Brasileira de Festivais Independentes (Abrafin) e atual diretor da produtora A Construtora Música e Cultura, Fabrício é um dos responsáveis pelo projeto “Qto vale o show?”. A ideia é extremamente simples: a pessoa vai ao show, se diverte e, na hora de ir embora, dá uma nota para o que viu. Nota, no caso, literalmente. O julgamento da qualidade da apresentação presenciada é convertido em uma cédula de R$ 2, R$ 5, R$ 10, R$20 ou até mesmo R$50 e R$100. Ao sair, a pessoa também conta qual o show a levou ao evento, qual a sua apresentação favorita naquela noite. Do valor arrecadado, 80% é dividido entre as bandas que se apresentaram e o restante é destinado à gestão do projeto.


O procedimento de votação foi criado para descobrir quais bandas o público local tinha mais interesse em assistir e quais bandas precisavam investir mais na formação de público. Edimar Filho, produtor n’A Construtora, conta que, assim, descobriram que algumas bandas que afirmavam ter determinado número de pagantes garantidos em seus shows tinham, na verdade, público bem menor. “Entre 2,5 mil pagantes no Bananada, bandas que juravam ter muito público foram citadas por 50 pessoas. Descobrimos também, que, se a banda fizer o mínimo de esforço durante a semana nas redes sociais, isso resulta em um resultado melhor no bolso delas”, diz Edimar.

E o quando o assunto é cachê, a discussão é calorosa. Grande parte dos festivais de música independente no Brasil possui recursos escassos e os dedicam para custear despesas de estrutura. Muitas vezes, as bandas não recebem cachês e custeiam o próprio transporte investindo na repercussão que a apresentação no festival pode resultar. Até o surgimento do “Qto vale o show?”, as bandas que se apresentavam no Bananada tinham todas as despesas cobertas pela produção, exceto transporte e cachê. Agora, recebem de acordo com resultado efetivo de seus shows.

“A internet possibilitou pela primeira vez na história que o público taxasse o preço dos produtos culturais. Se a pessoa discorda do valor do ingresso ou do CD, não vai ao show, não compra o disco”, afirma Edimar. Além de trabalhar como produtor cultural, ele é guitar-rista da Black Drawing Chalks, banda que fez turnê por todas as regiões do Brasil e se apresentou em grandes festivais como SWU e Lollapalooza. Com a experiência obtida trabalhando em diferentes momentos da cadeia produtiva da música, Edimar é taxativo: “Se a banda não leva público em um show em que o ingresso pode ser R$ 2, a culpa é dela. É sinal de que a banda precisa rever seu modelo de trabalho, repertório e relacionamento com o público”.

O Bananada antes e depois da utilização do formato “Qto vale o show?”, segundo Edmar Filho, d’A Construtora Música e Cultura: 
ANTES 
# O Bananada tinha menos visibilidade.
# Cada banda tocava para cerca de 800 pessoas.
# 4 mil pessoas tinham acesso ao festival.
# As bandas não ganhavam um cachê. 
DEPOIS 
# O Bananada tem mais visibilidade, com público duas vezes maior do que em 2010.
# A banda que antes tocaria para 800 pessoas está tocando para 1.600.
# Em 2012, foram quase 10 mil pessoas ao longo da programação do festival.
# Todas as bandas receberam cachê em 2012, e em alguns dias receberam R$ 650, cada. Nenhum festival do país, nem com patrocínio de grandes empresas, paga isso para bandas novas, que tocam às 16h da tarde. Além disso, as bandas venderam mais materiais de merchandising do que nos outros anos. O cara pagou R$ 5 para ver o show e sobrou grana para comprar a camiseta da banda no fim. Uma das bandas que tocaram no festival conseguiu R$ 1,1 mil vendendo CDs e camisetas.
# O festival está mais democrático e atinge um público muito mais jovem, o que significa renovação e formação de plateias. A edição de 2012 teve o maior público, a melhor remuneração para as bandas e gerou o maior número de empregos diretos e indiretos da história do festival, que completou 14 anos este ano.

A experiência do “Qto vale o show?” no Bananada e em outros eventos em Goiânia tem sido tão positiva que passou a ser utilizada nos shows do projeto “Cedo e Sentado”, realizado no Studio SP (em São Paulo) e no Granfinos (em Belo Horizonte), a partir de Junho. Nesses casos, o valor arrecadado será revertido integralmente para os artistas.

19 de junho de 2012

Revista MI - Música independente em Pernambuco

Existe um tipo de literatura que chamo de “literatura de banheiro”. É aquela que é uma merda, hahaha não demanda muita atenção e cuja leitura pode ser fragmentada em várias partes sem prejuízo algum do resultado final. É o tipo de material que se lê para passar o tempo e que geralmente não tem muito a acrescentar ao leitor. A primeira edição da revista MI – Música independente em Pernambuco é  o contrário de tudo isso.

São longas entrevistas com artistas contemporâneos pernambucanos, acompanhadas de um CD com músicas dos entrevistados, compondo um importante registro histórico da cena musical alternativa do Estado. Lá estão o elogiado Siba e nomes desconhecidos no cenário nacional, como Caçapa, Marditu Soundz, Pajé Limpeza e Ex-Exus.

Para os realizadores da publicação, a revista "valoriza o apelo atemporal e menos emergente do veículo impresso, se preocupando em trabalhar os temas com mais profundidade apostando em uma leitura mais prolongada, rica em referências e que diminui a descartabilidade da informação tão em voga atualmente com os conteúdos para web".

Visualmente, utiliza a estética dos fanzines. Uma mistura de colagens, manuscritos e fotocópias apresentada de forma moderna e que representa esteticamente certo ativismo necessário para se produzir uma revista de forma independente (ainda mais quando dedicada exclusivamente à música alternativa de uma região).

Iniciativa dos recifenses Diego Albuquerque (do blog Hominis Canidae), Raul Luna e Rodrigo Édipo em parceria com a Nuvem Produções e a SBP Editora, a MI - Música Independente em Pernambuco pretende ter publicação bimestral com circulação nacional, sempre com 10 artistas pernambucanos em cada nova edição. A revista pode ser comprada pela internet, por R$ 20, e seu segundo número acaba de ser lançado.

Além das entrevistas, várias coletâneas virtuais estão sendo publicadas pela equipe do projeto no Soundcloud. A primeira delas você escuta abaixo.

9 de junho de 2012

Entrevista sobre EPs para o jornal O Tempo

O Magazine, caderno cultural do jornal mineiro O Tempo, publicou hoje uma matéria de capa intitulada "EPs ganham novo status", escrita pela Luiza de Sá, na qual fui um dos entrevistados. A matéria completa pode ser lida na versão digital do jornal e, seguindo a tradição, segue abaixo a íntegra do que conversei com a jornalista.

Você caracteriza um EP como uma espécie de novo cartão de visita para bandas independentes? Um EP pode ser comparado ao que já foram os singles para a divulgação de uma banda, por exemplo?
Pra mim, o EP não é algo tão prematuro como um primeiro single, mas também é um cartão de visita da banda. Vejo mais como um segundo passo ao single, uma forma de consolidar o trabalho inicial da banda e "empacotar" isso de forma a apresentar um recorte estético da proposta da banda, principalmente em seu início.

Você acha que bandas que optam por lançar um EP ao invés de um disco fazem isso por necessidade financeira - por ser mais barato - ou por escolha mesmo?
Mesmo que a banda tenha um grande repertório já composto, pode ser uma escolha de mercado investir em um EP. No início da carreira muitas bandas costumam não ter uma sonoridade muito bem definida e as limitações de tempo de um EP ajudam a criar uma unidade nesse momento.

Como a cadeia produtiva da música se alimenta dessa onda de lançamentos de EPs, principalmente tendo a internet como plataforma de divulgação?
Um álbum pode demorar demais a ser produzido, o EP tem a vantagem de ser mais ágil, tem mais a ver com o momento que vivemos. Um EP em mãos facilita na hora da banda entrar em contato com a imprensa e tentar fechar shows. Ele serve tanto para quem ainda não se sente pronto para um álbum como também pra quem está em um período de entressafra. Baixar o single de uma banda não te diz muito sobre a proposta dela, já um EP deixa mais claro os objetivos da banda e é direto, não tem muita firula. Geralmente são aquelas quatro ou cinco melhores músicas que a banda tem e que tentam conversar entre si. Sem contar que o EP é um formato bom para se arriscar mais. Se você erra em um EP, o peso não é tão grande quanto fazer um álbum ruim. O EP permite essa liberdade, é um formato de transição pra banda e acredito que o público percebe e assimila isso.

No Meio Desligado você tem uma parceria internacional com lançamentos indie, né? Dessas bandas novas tem alguma que lançou EP recentemente que merece destaque?
Ih, não lembro. Baixo coisa demais, nem lembro quais EPs tavam no meio...

Há alguma banda com um EP aguardado, com muita expectativa? Em quem você aposta?
O Fusile vai lançar seu segundo EP em breve, é uma banda na qual aposto muito. Os shows são excelentes e o primeiro EP da banda, The Coconut Revolution Vol. 1, é um ótimo trabalho. Vão lançar mais dois EPs que, ao todo, formam um álbum lançado ao longo de um período mais extenso.

Se pudesse fazer uma lista com os Top 5 EPs lançados recentemente, qual seria essa sua lista?
Tem um cara no interior de Minas chamado Bruno Fleming que faz um trabalho sensacional. Ele está lançando uma ópera rock em vários EPs, um projeto chamado Bigode de Leite. É uma das coisas mais legais que descobri ultimamente. Tem aqui: http://lambelodorecords.blogspot.com.br
Outros EPs que destacaria são o Not tourist, do Câmera, banda de BH que até o momento lançou apenas dois EPs; e o novo do Constantina, Pacífico, no qual pela primeira vez contam com vocalistas convidados. Os dois estão pra download gratuito na internet, só procurar pelos nomes.

20 de março de 2012

Leonardo Marques e a esquina indie do clube

Não estávamos preparados. De repente, sem aviso, Leonardo Marques fez sua estreia solo com um dos melhores lançamentos de 2012 até o momento. Dia e noite no mesmo céu tem pouco menos de 30 minutos, mas o suficiente para viciar e emocionar intensamente. Leo cita uma nostalgia melódica que perpassa o álbum. Suas canções remetem a cenários bucólicos, românticos e solitários. Não por acaso, trilhas sonoras são algumas das inspirações. Mas, neste caso, cabe ao ouvinte uma investida solitária pelos caminhos indicados por Leo.

Dia e noite no mesmo céu é o encontro de uma Minas Gerais de tempos passados e Los Angeles. Lô Borges e Elliott Smith tocando juntos no quarto, afastados do mundo, descarregando emoções. Uma surpresa para quem conheceu Leo como guitarrista da Diesel, uma das melhores bandas de rock que já existiram em Belo Horizonte e que teve relativa projeção no Brasil no início dos anos 2000 e no exterior, quando trocou de nome para Udora, e também para quem o conhece como membro do combo criativo Transmissor, que em 2011 lançou o 2º CD da carreira, Nacional.

Isolamento e introspecção estão presentes não apenas nas letras, mas também no processo de criação do álbum. Leo gravou todos os instrumentos, exceto bateria e sopros (este, em apenas uma música). Das nove faixas, duas são em inglês e uma instrumental, reflexos de suas influências e trajetória.

No ano de comemoração de 40 anos do clássico Clube da Esquina, é sintomático que uma nova leva de artistas se destaque com trabalhos que não se limitam em homenagens ou fiquem perdidos em elucubrações. No caso de Leonardo Marques, o trabalho vai além, acentuado pela sua sensibilidade e apuro estético. Nunca o termo "pop barroco" fez tanto sentido pra mim.



Entrevista com Leonardo Marques

O Transmissor parece ser uma banda na qual os integrantes têm bastante liberdade criativa (o que se reforça com a alternância de vocalistas). Por que fazer um álbum solo? Desde quando trabalha nesse CD e quanto tempo durou o processo de gravação?
O Transmissor foi criado por essa necessidade criativa de cada um se expressar, temos liberdade total pra fazer o que quiser na banda. Começei a fazer um disco solo porque queria fechar um ciclo de canções que ainda não tinha gravado e dessa forma começar outro ciclo nos próximos discos do Transmissor. Venho trabalhando nesse disco ao poucos nos últimos 2 anos.


As músicas me passam uma sensação de isolamento, criam imagens que remetem ao interior (minha visão pessoal). O título do CD, as referências a elementos domésticos em algumas faixas, o fato de você tocar quase todos os instrumentos na gravação e colocar Casa Branca como sua cidade no Facebook sugerem uma espécie de afastamento. De que forma essa aparente introspecção apresenta suas intenções com esse CD?
Começei a fazer o disco ainda no meu apartamento em BH, e terminei ele depois que me mudei pra Casa Branca. Talvez mesmo antes de estar mais afastado da cidade já projetava essa ideia de isolamento na minha cabeça e isso pode ter ido parar nas composições.
Foi um processo muito prazeroso gravar o disco, descobrir as possibilidades sonoras que queria, gravar quase tudo sozinho, tinha momentos que me era como estar lendo um bom livro onde você não vê o tempo passar.
Na gravação de bateria, o Transmissor inteiro foi pra Casa Branca e passamos um fim de semana inteiro gravando.

Clube da Esquina, Elliott Smith e Jon Brion são algumas das referências possíveis ao se ouvir "Dia e noite no mesmo céu". Até que ponto isso reflete suas reais influências?
Acho que vc acertou na mosca. 
O último bairro que morei em Los Angeles antes de voltar pro Brasil era Echo Park, o mesmo que o Elliott Smith morava, passava na porta do Solutions Speakers todos os dias, lugar onde ele fez a famosa capa de um de seus discos, o Figure 8. Nessa época fiquei muito encantado com sua música e desde então me identifico muito e com seu jeito de cantar, compor, gravar e se expressar. O Jon Brion tive o privilégio de conhecer e trocar muita ideia, ele era cliente cativo da loja de instrumentos musicais vintage que trabalhei em Hollywood por vários anos. Estive várias vezes em seu lendário show semanal no Largo em L.A onde ele toca todos instrumentos, atende a pedidos, cria versões e bebe Guiness e café a exaustão até criar uma alucinação musical maravilhosa e realmente inspiradora, saía dos shows completamente obstinado a escrever canções, gravar sons e texturas diferentes. A trilha sonora do Eternal Sunshine of a Spotless Mind talvez seja uma das grandes influências estéticas do meu disco, além de ter escutado muito essa trilha sonora, uso muitos elementos parecidos como o Mellotron, optigan, piano de armário, glokenspiel. 
Acho que em momentos alguma coisa no disco remete a nostalgia melódica do Clube da Esquina, gosto muito das canções do Lô Borges, acho ele um modelo de artista pra mim, ele está na ativa até hoje fazendo exatamente o que ele quer musicalmente sem comprometer sua visão artística com nenhum outro aspecto que não seu anceio de compor e gravar suas músicas da sua maneira.

Quando e como o álbum estará disponível para download? Haverá uma versão em CD ou outro formato?
Semana que vem estará disponível pra download no meu site www.leonardomarques.com e os CDs estarão à venda provavelmente na semana seguinte. Quero fazer o vinil também, mas ainda não tenho data definida.

Haverão shows desse trabalho? Qual a formação ao vivo?
Penso em fazer um lançamento em breve. O Pedro Handam e o Henrique Matheus do Transmissor estarão nessa formação, mas o resto do pessoal ainda não está definido.

Esse trabalho também é a estreia do selo La Femme Qui Roule, certo? Quem está envolvido e qual a proposta desse novo selo?
O selo é uma ideia minha e do Yannick Falisse, um artista gráfico e músico belga radicado em BH. A proposta é juntar pessoas com propostas musicas e estéticas interessantes e trabalhar desde a gravação até a elaboração da capa e trabalho gráfico do artista, criar uma identidade forte para o selo.

14 de março de 2012

Cambriana, a revelação do indie rock goiano

No início de 2011, durante uma conversa com o Fabrício Nobre em uma pousada no interior de Minas, ele falava sobre como a geração dele (músicos, produtores e público) havia ralado (e continua) para construir um cenário diferente, mais receptivo, profissional e produtivo para a música independente. Mesmo longe do ideal, o mercado evoluiu e mais oportunidades surgiram em diferentes pontos da cadeia produtiva musical. Ele dizia (e concordo) que, agora, cabe à nova geração fazer uso dessa estrutura, abrir mais portas, continuar a evolução.

Ao conversar com o Luis Calil, da banda Cambriana e conterrâneo de Fabrício, é como se as palavras de Nobre se materializassem. A Cambriana é uma banda jovem que possui as principais características da produção independente moderna: produzem suas músicas em suas próprias casas, são auto-gestores e têm consciência da importância da divulgação digital, o que se reflete tanto nos contatos com blogs e perfis no Twitter relevantes para seu público-alvo como no fato de licenciarem suas músicas em Creative Commons.



A banda tem quatro shows no currículo, milhares de downloads de seu álbum de estreia (lançado há dois meses) e dezenas de referências na internet - e isso tudo soa muito natural. Mérito de Luís (criador da banda e autor de todas as músicas, algumas delas em parceria com Wanderson Meireles) e seus companheiros de banda, cuja faixa-etária vai de 20 a 27 anos.

House of Tolerance, o CD de estreia, é carregado de uma sensibilidade rara na cena de Goiânia. Indie rock singelo que trabalha bem texturas e climas depressivos e remete a grupos internacionais  contemporâneos como The National e Destroyer, emulando eventualmente o rock pop de bandas como U2 e The Killers em versão anestesiada. Além do álbum, acabam de lançar o single "Slow Moves" e possuem o EP Afraid of Blood, todos acessíveis no perfil da banda no Bandcamp e liberados para download em Creative Commons (o que significa que a livre distribuição das músicas está liberada, contanto que para fins não-comerciais). Abaixo você conhece um pouco mais sobre a Cambriana, sua história e planos para o futuro recente.


Por que "Cambriana"?
O motivo principal foi porque a palavra em si soa bonita, independente do significado. E ela parece bonita quando escrita em algum lugar. Mas o significado é interessante também: o período Cambriana foi quando a vida "explodiu" e se diversificou na Terra. Essa ideia de diversificação sem querer querendo se encaixou com a estética do álbum, que tem uma variação bizarra de estilos.

As letras da banda abordam aspectos da vida que são passíveis de identificação por grande parte do público, mas o fato de serem em inglês pode acabar deixando-as em segundo plano. Qual o motivo de escolherem o idioma? 
Foi basicamente costume. Eu sempre ouvi músicas internacionais mais do que nacionais e essas músicas internacionais costumavam ser em inglês. Quando tento cantar em português, não soa natural, eu me sinto meio idiota. E sobre as letras: me importo com elas, mas acho que o principal são as melodias, ritmos e texturas. Dá pra aproveitar o disco sem saber exatamente o que eu tô dizendo.

O CD de estreia da banda foi gravado em estúdios caseiros, certo? De onde vem o conhecimento para fazer as gravações? Rola de mandar uma foto de onde gravaram?
Nós gravamos vocais e instrumentos acústicos em estúdio, todo o resto foi feito em casa. O Israel, guitarrista da banda, já tinha experiência com estúdio e gravação, então ele orientou a banda em certos pontos. Mas boa parte do produto final foi alcançado na base de "errar e tentar de novo" até achar a solução, o que é relativamente tranquilo se você não está se preocupando com o relógio do estúdio.

Alguns dos membros já haviam tocado juntos anteriormente, não é? Quando e em qual banda isso aconteceu e por que ela terminou?
Eu, Israel e o Rafael já tocamos juntos fazendo covers de bandas que nós gostamos - acabou porque percebemos que ficar tocando só covers não tem a menor graça. O Israel já teve outras bandas, como a Fibra, de Brasília. O nosso tecladista, Wassily, também toca com o Diego de Moraes. Pedro, o baixista, e Heloísa, nossa atual baterista, têm um projeto juntos, o Fantoches Anônimos, que já tem uma certa história.

Goiânia é uma cidade que na cena alternativa está fortemente ligada ao rock'n'roll mais tradicional e pesado, grande parte devido ao trabalho da Monstro Discos. Como é a receptividade do público e mídia local para sons mais indie e introspectivos?
A recepção tem sido muito boa, justamente porque Goiânia não é tão forte nesse tipo de som. Eu acho que o público daqui valoriza variedade e novidade, não procuram só o estilo prevalecente na região. Tá todo mundo apoiando bastante o nosso projeto, inclusive essas bandas mais pesadas.

A Cambriana me parece uma banda própria do momento em que vivemos, esse esquema do it yourself digital viabilizado pelo avanço tecnológico e que se espalha rapidamente através das redes. Como (ao menos alguns de vocês) já tiveram bandas antes, como vocês comparam o atual momento da música independente brasileira com o que presenciavam antes? 
Ninguém sente nostalgia pela época de juntar dinheiro pra gravar uma demo mal feita (ou vender o carro pra gravar algo pra valer), enviar material pra selos e gravadoras e revistas, implorar pra tocar em algum fundo de quintal, e ficar sentado esperando algo acontecer. Tudo melhorou. Ninguém ganha mais cheques astronômicos de gravadoras, mas até isso é positivo, porque não se entra mais no ramo esperando ficar milionário. Vira algo mais honesto.


Atualmente grande parte das bandas independentes coloca suas músicas gratuitamente na internet, mas poucas são adeptas do Creative Commons. Por que utilizaram esse tipo de licença? 
Já que o disco seria distribuído de graça, fez sentido usar uma licença que libera a distribuição das músicas, mas que também cria algumas restrições. Ela garante que as músicas não vão ser usadas para fins comerciais, por exemplo. 

Até o momento os lançamentos de vocês são exclusivamente digitais? Pretendem lançar algo no formato físico? 
Pretendemos lançar o CD do House of Tolerance em breve e vender por um preço camarada pra quem gosta de ter o álbum fisicamente. Olhamos também a possibilidade de fazer vinis, mas não sei se será economicamente viável.



Vocês conseguiram um volume relevante de downloads e uma exposição significativa em blogs e sites rapidamente. Como funciona o esquema de divulgação da banda? 
Abrir contas no Twitter, Facebook, YouTube etc, e colocar o trabalho nelas. Foi basicamente isso. A única "estratégia" que usamos foi lançar alguns singles no mês de Janeiro, antes do lançamento do disco. Nós também entramos em contato com alguns blogs e quem gostou apoiou bastante a gente, tipo o @indiedadepre e o Move That Jukebox. Eu acho que se o trabalho é legal, não tem muito mais o que fazer (além de um clipe, que nós estamos providenciando).

O primeiro show de vocês aconteceu em Fevereiro deste ano? Como foi? Quais os planos para o restante de 2012 e qual a formação ao vivo?  
O primeiro show foi numa casa daqui de Goiânia chamada Metrópolis, abrindo pra banda The Neves, de Brasília. Nós ainda estávamos nervosos e pouco confiantes, mas foi uma estreia divertida e satisfatória, não teve nenhum erro catastrófico. Os planos agora são tocar onde nos convidarem pra tocar. Já nos apresentamos em algumas cidades dessa região e estamos planejando shows em Brasília, SP, Rio etc. Também queremos lançar mais coisas daqui a alguns meses.
 A nossa formação ao vivo é eu (Luis Calil) no vocal, Israel Santiago e Rafael Morihisa nas guitarras, Wassily Brasil no teclado, Pedro Falcão no baixo e Heloísa Helena batendo nos tambores. Esperamos em breve começar a tocar em palcos que caibam todo mundo.

Para quem tem interesse em conhecer mais sobre a cena alternativa de Goiânia, quais bandas indicam e quais os melhores lugares para tocar na cidade?
Não posso recomendar as coisas mais pesadas porque eu realmente não tenho experiência nesse ramo, mas eu curto a galera mais "indie", tipo Riverbreeze, Gloom, Ultravespa etc. E sobre os melhores lugares pra tocar, os membros mais experientes da banda dizem que o som no Martim Cererê e no Bolshoi Pub são muito bons. Vou confiar na opinião deles.

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