Pesquisar nos arquivos

Mostrando postagens com marcador conheça. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador conheça. Mostrar todas as postagens

26 de setembro de 2013

A cena musical de BH em 2013: Young Lights

Para começar uma série especial de entrevistas com artistas da cena musical alternativa/independente de BH, um desvio de percurso. Jairo Horsth, criador do projeto Young Lights, faz a conexão BH / Boston / Sabará e tem apenas uma música lançada no momento em que este texto é publicado. Assim como seu trabalho, muita coisa vem por aí.

Afinal, você é brasileiro ou norte-americano? Como foi parar justamente em Sabará? 
Eu nasci em BH e, lá pelos 3 anos, me mudei pra Boston, Massachusetts. Fiquei lá por um período de 17 anos. Então, pra responder sua pergunta, sou brasileiro de sangue, mas americano de coração. Meus pais voltaram pro Brasil há mais ou menos 5 anos e tiveram a oportunidade de se mudarem pra Sabará há mais ou menos 3. E isso foi na época em que eu estava voltando pro Brasil, por isso que agora eu estou aqui. 

Você já tinha projetos musicais nos EUA? Quais as maiores diferenças que sente entre a recepção das suas músicas aqui e lá? 
Eu tinha uma banda, assim como todo adolescente de 15 anos tinha, nos Estados Unidos. Eu não chamaria isso de nada muito sério; era mais pra me divertir e fazer shows. Eu acho que é meio relativo dizer a diferença entre a recepção lá e aqui, porque acho que depende um pouco do tipo de propaganda que você faz. Eu não expus de fato minhas canções nos Estados Unidos; eram mais pros meus amigos, na verdade. E aqui eu acho que comecei a usar as redes sociais com mais frequência, mais como uma forma de me envolver com as pessoas, e comecei a fazer contatos. E, quando lancei minha música aqui, tive mais exposição. A recepção que eu tive aqui foi sempre muito gentil. Acho que, na verdade, aqui as pessoas ficam muito curiosas por eu cantar em inglês como um americano, e não só como um brasileiro cantando em inglês. Acredito que chame mais atenção pro meu projeto. 



Uma série de pessoas se envolveu com o Young Lights para que o projeto se tornasse possível, certo? Quem são essas pessoas e como você chegou até elas? 
Sim, muita gente bacana e talentosa se envolveu e tenho certeza absoluta de que sem essas pessoas eu não teria conseguido terminar o que tinha começado. Primeiro, eu conheci o Pedro “Cido” Cambraia; acho que o conheci – é uma história engraçada – quando estávamos do lado de fora de uma boite e ele estava fazendo um dueto a capella com uma menina. Eu achei muito bizarro, mas bem legal. Então me aproximei e a gente começou a conversar. Ele me disse que tinha um estúdio e que me gravaria se eu quisesse. Então, ele e o resto da banda dele, Lúmen, me ajudaram muito – o Daniel Coelho me ajudou nas bateras; Pedrinho Muller, no solo de “Alaska”; Raphael Salazar, no baixo; e o Cido, na guitarra, bateria e na produção – o cara é um monstro. Eu também convidei o Vítor Brauer, um dos meus grandes amigos, da banda Lupe de Lupe, que é parte do mesmo coletivo/movimento que o Young Lights, chamado Geração Perdida. Ele tocou guitarra em uma das faixas. Também chamei o J. P. Cardoso, que é um grande amigo do Cido e sempre estava lá no estúdio, então eu joguei o baixo pra ele em uma das canções. Eu realmente agradeço demais a esses caras. 

Como foi o processo de gravação desse primeiro trabalho e quando ele será lançado? É um álbum ou um EP? 
O processo! Hahaha! Eu não quero falar nisso, porque me estressa muito só de pensar. Mas eu vou falar, sim. Levamos mais ou menos 2 anos pra terminar. Teve muitas tentativas e falhas. Eu não sinto que sou uma pessoa que fica satisfeita facilmente, então teve muita gravação, regravação e ainda assim muita coisa foi deletada. Não quero nem pensar em todas as canções, digamos, abortadas. Hahahaha. Muitas coisas aconteceram nesses dois anos e duas pelas quais sou grato são ter terminado esse EP e os relacionamentos – que se tornaram amizades – que fiz ao longo dessa jornada, apesar de todos os momentos estressantes pelos quais todos os músicos passam quando estão gravando. É engraçado como você entra no estúdio com uma ideia definida pra uma música e ela sai completamente diferente no final das contas. É meio que isso que me fez sofrer, me parecia difícil de aceitar. Mas acabamos gravando 6 faixas, que serão parte do An Early Winter EP. Ele vai ser lançado algumas semanas antes do show de lançamento, só Deus sabe quando isso vai ser, porque a gente tem tido problema em achar um lugar. Será que você pode me ajudar com isso? Hahahah. 

Qual o seu envolvimento com o movimento Geração Perdida? Qual a proposta/conceito envolvido? 
Somos parte do mesmo grupo de amigos – a banda Lupe de Lupe, a Quase Coadjuvante e muitas outras pessoas que compartilham de algumas ideias sobre a vida. É meio pessoal demais te responder qual é a nossa proposta. Acho que não é questão de proposta, é questão de mostrar o que a gente sente, de alguma forma, e o que a gente tem em comum. Somos uma geração em andamento que precisa e quer se expressar – e às vezes não sabemos como, inclusive. Mas a gente continua tentando. 

Em termos de cena, como você compara a que vivenciou nos EUA e a que percebe no Brasil, mais especificamente em BH? 
Bom, nos Estados Unidos, acho que a cena musical vai estar sempre viva – é onde as coisas começam, é onde elas acontecem. Então, todo fim de semana – todo dia, se eu quisesse – eu podia ir a um tipo diferente de show, fazer parte de cenas musicais diferenciadas, estar em contato constante com bandas que eu amava escutar e coisas do tipo. Agora, aqui, o cenário é diferente. Não sou muito familiar a ele, devido ao período de tempo que estou aqui. Mas o que vi dele é que é meio inacessível em alguns momentos. 

Antes de mudar para Sabará, qual era sua relação com a música brasileira? O que conhecia da produção independente brasileira e o que mais te chama a atenção agora? 
Eu não conhecia quase nada. Como fui criado na igreja, o único contato que tinha com música brasileira era pra “louvar a deus”. E eu não conhecia nada realmente sobre os coletivos independentes do Brasil. Agora, de perto, eu vejo que é uma coisa bonita: as pessoas estão se unindo e tentando fazer a diferença na cena musical, assim como o lindo Coletivo Fórceps – especialmente João Rafael, de Sabará, que tem me ajudado bastante a promover meu trabalho desde o início.


Seu primeiro single tem um romantismo melancólico carregado de folk e indie. É por essa linha que seguem as outras músicas do Young Lights? Aliás, qual a origem desse nome? 
É uma perspectiva legal, essa sua. As canções realmente seguem o mesmo caminho, mas cada uma é diferente de seu próprio jeito. Quanto ao nome, eu estava vendo um filme um dia e teve uma cena em que um casal de jovens chega numa festa e alguém diz “There they are, the bright young lights” ou alguma coisa do tipo. Aquilo ficou na minha cabeça. 

Como será a formação ao vivo? É mais um projeto solo seu com músicos convidados ou uma banda? 
Neste momento, são só músicos convidados, mas estou à procura de músicos devotados que queiram fazer isso comigo e estar em shows, se divertir com isso. Então, temos a mim no violão e nos vocais, o Cido e o Pedrinho nas guitarras, o Raphael no baixo, meu amigo Felipe Monteiro – da Quase Coadjuvante – na bateria, e o “Preah” – do Dibigode, cujo nome verdadeiro eu não sei de verdade, haha, no trompete e na gaita. Estou muito animado pra tocar com esses caras gente-boa. 

Para fechar, queria que indicasse vídeos, filmes, livros, locais e/ou sites que ajudem a entender um pouco mais a proposta do Young Lights. Podem ser coisas que tenham te influenciado ou que você simplesmente gosta, não necessariamente refletindo na sua produção artística. 
Determinar influência musical é bem simples, na verdade: eu amo muito os vocais angelicais do Bon Iver, os acordes cativantes de Tallest Man On Earth e, como vocês vão ver, várias influências de bandas estrangeiras muito conhecidas, como Coldplay e Radiohead, que eu amo desde criança. Acho que criei o Young Lights só pelo sentimento nostálgico da época em que eu tinha 15 anos e nenhuma preocupação com o mundo. Eu só queria beber, fazer shows com bandas boas, gente boa e só me divertir no geral. Eu realmente levo isso a sério, mas, ao mesmo tempo, eu só quero me expressar assim, por agora. No movimento Geração Perdida tem muitas coisas artísticas pelas quais eu sou inspirado e esses caras realmente me mantêm são. Nós temos bandas – como a Lupe de Lupe e a Quase Coadjuvante, que já citei, e acabaram de lançar álbuns; eu realmente os indico pra quem gosta de música verdadeira. A maioria dos meus amigos é feita de escritores, como o Bernardo Lopes, que é na verdade um dos meus melhores amigos de Sabará e que logo vai lançar o romance dele, “Trens Descarrilados”. Temos Damy, Lucas, Luiz, Negão, Paola, Pedro Ordep, Mailton, Larah, Cícero, Carol, Renan, Gustavo, Ana, Túlio, Marina, Sussu, Vini, Marcelo, Polly, Jonathan, Felipe, Vítor, que são todos talentosos em seu jeito individual. Meus amigos e a música que eles escutam, como por exemplo Kendrick Lamar, Mac Demarco, The Smiths, Beach House, A$AP Rocky, Jair Naves, Polara, são todos grandes influências na minha vida, não necessariamente na minha carreira musical.

____________________________________________________________

Outras publicações do especial sobre a cena musical de Belo Horizonte em 2013.

20 de março de 2012

Leonardo Marques e a esquina indie do clube

Não estávamos preparados. De repente, sem aviso, Leonardo Marques fez sua estreia solo com um dos melhores lançamentos de 2012 até o momento. Dia e noite no mesmo céu tem pouco menos de 30 minutos, mas o suficiente para viciar e emocionar intensamente. Leo cita uma nostalgia melódica que perpassa o álbum. Suas canções remetem a cenários bucólicos, românticos e solitários. Não por acaso, trilhas sonoras são algumas das inspirações. Mas, neste caso, cabe ao ouvinte uma investida solitária pelos caminhos indicados por Leo.

Dia e noite no mesmo céu é o encontro de uma Minas Gerais de tempos passados e Los Angeles. Lô Borges e Elliott Smith tocando juntos no quarto, afastados do mundo, descarregando emoções. Uma surpresa para quem conheceu Leo como guitarrista da Diesel, uma das melhores bandas de rock que já existiram em Belo Horizonte e que teve relativa projeção no Brasil no início dos anos 2000 e no exterior, quando trocou de nome para Udora, e também para quem o conhece como membro do combo criativo Transmissor, que em 2011 lançou o 2º CD da carreira, Nacional.

Isolamento e introspecção estão presentes não apenas nas letras, mas também no processo de criação do álbum. Leo gravou todos os instrumentos, exceto bateria e sopros (este, em apenas uma música). Das nove faixas, duas são em inglês e uma instrumental, reflexos de suas influências e trajetória.

No ano de comemoração de 40 anos do clássico Clube da Esquina, é sintomático que uma nova leva de artistas se destaque com trabalhos que não se limitam em homenagens ou fiquem perdidos em elucubrações. No caso de Leonardo Marques, o trabalho vai além, acentuado pela sua sensibilidade e apuro estético. Nunca o termo "pop barroco" fez tanto sentido pra mim.



Entrevista com Leonardo Marques

O Transmissor parece ser uma banda na qual os integrantes têm bastante liberdade criativa (o que se reforça com a alternância de vocalistas). Por que fazer um álbum solo? Desde quando trabalha nesse CD e quanto tempo durou o processo de gravação?
O Transmissor foi criado por essa necessidade criativa de cada um se expressar, temos liberdade total pra fazer o que quiser na banda. Começei a fazer um disco solo porque queria fechar um ciclo de canções que ainda não tinha gravado e dessa forma começar outro ciclo nos próximos discos do Transmissor. Venho trabalhando nesse disco ao poucos nos últimos 2 anos.


As músicas me passam uma sensação de isolamento, criam imagens que remetem ao interior (minha visão pessoal). O título do CD, as referências a elementos domésticos em algumas faixas, o fato de você tocar quase todos os instrumentos na gravação e colocar Casa Branca como sua cidade no Facebook sugerem uma espécie de afastamento. De que forma essa aparente introspecção apresenta suas intenções com esse CD?
Começei a fazer o disco ainda no meu apartamento em BH, e terminei ele depois que me mudei pra Casa Branca. Talvez mesmo antes de estar mais afastado da cidade já projetava essa ideia de isolamento na minha cabeça e isso pode ter ido parar nas composições.
Foi um processo muito prazeroso gravar o disco, descobrir as possibilidades sonoras que queria, gravar quase tudo sozinho, tinha momentos que me era como estar lendo um bom livro onde você não vê o tempo passar.
Na gravação de bateria, o Transmissor inteiro foi pra Casa Branca e passamos um fim de semana inteiro gravando.

Clube da Esquina, Elliott Smith e Jon Brion são algumas das referências possíveis ao se ouvir "Dia e noite no mesmo céu". Até que ponto isso reflete suas reais influências?
Acho que vc acertou na mosca. 
O último bairro que morei em Los Angeles antes de voltar pro Brasil era Echo Park, o mesmo que o Elliott Smith morava, passava na porta do Solutions Speakers todos os dias, lugar onde ele fez a famosa capa de um de seus discos, o Figure 8. Nessa época fiquei muito encantado com sua música e desde então me identifico muito e com seu jeito de cantar, compor, gravar e se expressar. O Jon Brion tive o privilégio de conhecer e trocar muita ideia, ele era cliente cativo da loja de instrumentos musicais vintage que trabalhei em Hollywood por vários anos. Estive várias vezes em seu lendário show semanal no Largo em L.A onde ele toca todos instrumentos, atende a pedidos, cria versões e bebe Guiness e café a exaustão até criar uma alucinação musical maravilhosa e realmente inspiradora, saía dos shows completamente obstinado a escrever canções, gravar sons e texturas diferentes. A trilha sonora do Eternal Sunshine of a Spotless Mind talvez seja uma das grandes influências estéticas do meu disco, além de ter escutado muito essa trilha sonora, uso muitos elementos parecidos como o Mellotron, optigan, piano de armário, glokenspiel. 
Acho que em momentos alguma coisa no disco remete a nostalgia melódica do Clube da Esquina, gosto muito das canções do Lô Borges, acho ele um modelo de artista pra mim, ele está na ativa até hoje fazendo exatamente o que ele quer musicalmente sem comprometer sua visão artística com nenhum outro aspecto que não seu anceio de compor e gravar suas músicas da sua maneira.

Quando e como o álbum estará disponível para download? Haverá uma versão em CD ou outro formato?
Semana que vem estará disponível pra download no meu site www.leonardomarques.com e os CDs estarão à venda provavelmente na semana seguinte. Quero fazer o vinil também, mas ainda não tenho data definida.

Haverão shows desse trabalho? Qual a formação ao vivo?
Penso em fazer um lançamento em breve. O Pedro Handam e o Henrique Matheus do Transmissor estarão nessa formação, mas o resto do pessoal ainda não está definido.

Esse trabalho também é a estreia do selo La Femme Qui Roule, certo? Quem está envolvido e qual a proposta desse novo selo?
O selo é uma ideia minha e do Yannick Falisse, um artista gráfico e músico belga radicado em BH. A proposta é juntar pessoas com propostas musicas e estéticas interessantes e trabalhar desde a gravação até a elaboração da capa e trabalho gráfico do artista, criar uma identidade forte para o selo.

16 de março de 2012

Marcia Castro lança novo CD. Ouça com exclusividade sua versão de Otto

Este é o release que escrevi para a cantora Marcia Castro, que lança hoje, através do Natura Musical e da Deck Disc, seu segundo CD, De Pés no Chão. Abaixo, você escuta com exclusividade a música "História de fogo", composta por Otto e Alessandra Negrini.


Quatro anos após sua estreia em CD, a cantora baiana Marcia Castro lança o segundo álbum de sua carreira marcada por importantes realizações em um curto espaço de tempo. Desde que lançou o CD Pecadinho, em 2007, uma série de acontecimentos tem repercutido o nome da artista e ampliado a expectativa em torno do novo trabalho: foi indicada ao Prêmio TIM/2008 como “Melhor cantora de pop-rock” (ao lado de Fernanda Takai e Vanessa da Mata); se apresentou no importante Montreux Jazz Festival, na Suíça; acompanhou a argentina Mercedes Sosa em sua última turnê, com shows no Brasil, Alemanha, Itália e Israel; teve a música “Queda” incluída na trilha da novela Ciranda de Pedra, da Rede Globo; e fez gravações e participações em projetos junto a ícones da música brasileira como Tom Zé, Moraes Moreira, Luiz Melodia e Jards Macalé. Tudo isso, para ficar em poucos exemplos. 

Marcia é inquieta e sua movimentação se reflete na quantidade e diversidade de parcerias que realiza, assim como na desenvoltura que apresenta ao trabalhar diferentes gêneros musicais, sempre imprimindo sua identidade de um modo que surpreende crítica e público. 

Graduada na Escola de Música da Universidade Federal da Bahia, iniciou-se na música aos 16 anos. Em São Paulo, para onde se mudou em 2008, parece ter assimilado com maior intensidade o caráter cosmopolita da cidade. Desde então, fez residência artística no Timor Leste, uma turnê na Turquia e criou o projeto “Pipoca Moderna”, no qual promove um intercâmbio artístico com cantoras de diferentes Estados brasileiros (Maryana Aydar e Ana Cañas/SP, Rita Ribeiro/MA, Cláudia Cunha/PA e as conterrâneas Mariella Santiago, Marcela Bellas e Manuela Rodrigues) e até mesmo do exterior (caso da cabo-verdiana Mayra Andrade). 

Em seu novo CD, De pés no chão, ela mistura um repertório ousado e inusitado que vai do clássico “Preta pretinha”, dos Novos Baianos, a raridades garimpadas em suas pesquisas sonoras, como “Catedral do inferno”, de Cartola e Hermínio Bello de Carvalho, antes registrada somente pela cantora Marlene. O CD, produzido em conjunto por Guilherme Kastrup, Rovilson Pascoal e a própria Marcia, ainda apresenta composições de Tom Zé, Gilberto Gil, Gonzaguinha, Rita Lee e dos contemporâneos Otto e Luciano Salvador Bahia, entre outros. 

O maestro baiano Letieres Leite, responsável pela elogiada Orkestra Rumpilezz, assina os arranjos de sopros em quatro faixas e Luiz Brasil compôs os arranjos de cordas em duas faixas. Entre as participações especiais encontram-se nomes de destaque na nova música brasileira, como Hélio Flanders (da banda cuiabana Vanguart), o violonista paulista Kiko Dinucci, a baiana Marcela Bellas e a carioca Thalma de Freitas, um time de respeito que faz parte da jovem e promissora cena musical da qual Marcia Castro faz parte.

14 de março de 2012

Cambriana, a revelação do indie rock goiano

No início de 2011, durante uma conversa com o Fabrício Nobre em uma pousada no interior de Minas, ele falava sobre como a geração dele (músicos, produtores e público) havia ralado (e continua) para construir um cenário diferente, mais receptivo, profissional e produtivo para a música independente. Mesmo longe do ideal, o mercado evoluiu e mais oportunidades surgiram em diferentes pontos da cadeia produtiva musical. Ele dizia (e concordo) que, agora, cabe à nova geração fazer uso dessa estrutura, abrir mais portas, continuar a evolução.

Ao conversar com o Luis Calil, da banda Cambriana e conterrâneo de Fabrício, é como se as palavras de Nobre se materializassem. A Cambriana é uma banda jovem que possui as principais características da produção independente moderna: produzem suas músicas em suas próprias casas, são auto-gestores e têm consciência da importância da divulgação digital, o que se reflete tanto nos contatos com blogs e perfis no Twitter relevantes para seu público-alvo como no fato de licenciarem suas músicas em Creative Commons.



A banda tem quatro shows no currículo, milhares de downloads de seu álbum de estreia (lançado há dois meses) e dezenas de referências na internet - e isso tudo soa muito natural. Mérito de Luís (criador da banda e autor de todas as músicas, algumas delas em parceria com Wanderson Meireles) e seus companheiros de banda, cuja faixa-etária vai de 20 a 27 anos.

House of Tolerance, o CD de estreia, é carregado de uma sensibilidade rara na cena de Goiânia. Indie rock singelo que trabalha bem texturas e climas depressivos e remete a grupos internacionais  contemporâneos como The National e Destroyer, emulando eventualmente o rock pop de bandas como U2 e The Killers em versão anestesiada. Além do álbum, acabam de lançar o single "Slow Moves" e possuem o EP Afraid of Blood, todos acessíveis no perfil da banda no Bandcamp e liberados para download em Creative Commons (o que significa que a livre distribuição das músicas está liberada, contanto que para fins não-comerciais). Abaixo você conhece um pouco mais sobre a Cambriana, sua história e planos para o futuro recente.


Por que "Cambriana"?
O motivo principal foi porque a palavra em si soa bonita, independente do significado. E ela parece bonita quando escrita em algum lugar. Mas o significado é interessante também: o período Cambriana foi quando a vida "explodiu" e se diversificou na Terra. Essa ideia de diversificação sem querer querendo se encaixou com a estética do álbum, que tem uma variação bizarra de estilos.

As letras da banda abordam aspectos da vida que são passíveis de identificação por grande parte do público, mas o fato de serem em inglês pode acabar deixando-as em segundo plano. Qual o motivo de escolherem o idioma? 
Foi basicamente costume. Eu sempre ouvi músicas internacionais mais do que nacionais e essas músicas internacionais costumavam ser em inglês. Quando tento cantar em português, não soa natural, eu me sinto meio idiota. E sobre as letras: me importo com elas, mas acho que o principal são as melodias, ritmos e texturas. Dá pra aproveitar o disco sem saber exatamente o que eu tô dizendo.

O CD de estreia da banda foi gravado em estúdios caseiros, certo? De onde vem o conhecimento para fazer as gravações? Rola de mandar uma foto de onde gravaram?
Nós gravamos vocais e instrumentos acústicos em estúdio, todo o resto foi feito em casa. O Israel, guitarrista da banda, já tinha experiência com estúdio e gravação, então ele orientou a banda em certos pontos. Mas boa parte do produto final foi alcançado na base de "errar e tentar de novo" até achar a solução, o que é relativamente tranquilo se você não está se preocupando com o relógio do estúdio.

Alguns dos membros já haviam tocado juntos anteriormente, não é? Quando e em qual banda isso aconteceu e por que ela terminou?
Eu, Israel e o Rafael já tocamos juntos fazendo covers de bandas que nós gostamos - acabou porque percebemos que ficar tocando só covers não tem a menor graça. O Israel já teve outras bandas, como a Fibra, de Brasília. O nosso tecladista, Wassily, também toca com o Diego de Moraes. Pedro, o baixista, e Heloísa, nossa atual baterista, têm um projeto juntos, o Fantoches Anônimos, que já tem uma certa história.

Goiânia é uma cidade que na cena alternativa está fortemente ligada ao rock'n'roll mais tradicional e pesado, grande parte devido ao trabalho da Monstro Discos. Como é a receptividade do público e mídia local para sons mais indie e introspectivos?
A recepção tem sido muito boa, justamente porque Goiânia não é tão forte nesse tipo de som. Eu acho que o público daqui valoriza variedade e novidade, não procuram só o estilo prevalecente na região. Tá todo mundo apoiando bastante o nosso projeto, inclusive essas bandas mais pesadas.

A Cambriana me parece uma banda própria do momento em que vivemos, esse esquema do it yourself digital viabilizado pelo avanço tecnológico e que se espalha rapidamente através das redes. Como (ao menos alguns de vocês) já tiveram bandas antes, como vocês comparam o atual momento da música independente brasileira com o que presenciavam antes? 
Ninguém sente nostalgia pela época de juntar dinheiro pra gravar uma demo mal feita (ou vender o carro pra gravar algo pra valer), enviar material pra selos e gravadoras e revistas, implorar pra tocar em algum fundo de quintal, e ficar sentado esperando algo acontecer. Tudo melhorou. Ninguém ganha mais cheques astronômicos de gravadoras, mas até isso é positivo, porque não se entra mais no ramo esperando ficar milionário. Vira algo mais honesto.


Atualmente grande parte das bandas independentes coloca suas músicas gratuitamente na internet, mas poucas são adeptas do Creative Commons. Por que utilizaram esse tipo de licença? 
Já que o disco seria distribuído de graça, fez sentido usar uma licença que libera a distribuição das músicas, mas que também cria algumas restrições. Ela garante que as músicas não vão ser usadas para fins comerciais, por exemplo. 

Até o momento os lançamentos de vocês são exclusivamente digitais? Pretendem lançar algo no formato físico? 
Pretendemos lançar o CD do House of Tolerance em breve e vender por um preço camarada pra quem gosta de ter o álbum fisicamente. Olhamos também a possibilidade de fazer vinis, mas não sei se será economicamente viável.



Vocês conseguiram um volume relevante de downloads e uma exposição significativa em blogs e sites rapidamente. Como funciona o esquema de divulgação da banda? 
Abrir contas no Twitter, Facebook, YouTube etc, e colocar o trabalho nelas. Foi basicamente isso. A única "estratégia" que usamos foi lançar alguns singles no mês de Janeiro, antes do lançamento do disco. Nós também entramos em contato com alguns blogs e quem gostou apoiou bastante a gente, tipo o @indiedadepre e o Move That Jukebox. Eu acho que se o trabalho é legal, não tem muito mais o que fazer (além de um clipe, que nós estamos providenciando).

O primeiro show de vocês aconteceu em Fevereiro deste ano? Como foi? Quais os planos para o restante de 2012 e qual a formação ao vivo?  
O primeiro show foi numa casa daqui de Goiânia chamada Metrópolis, abrindo pra banda The Neves, de Brasília. Nós ainda estávamos nervosos e pouco confiantes, mas foi uma estreia divertida e satisfatória, não teve nenhum erro catastrófico. Os planos agora são tocar onde nos convidarem pra tocar. Já nos apresentamos em algumas cidades dessa região e estamos planejando shows em Brasília, SP, Rio etc. Também queremos lançar mais coisas daqui a alguns meses.
 A nossa formação ao vivo é eu (Luis Calil) no vocal, Israel Santiago e Rafael Morihisa nas guitarras, Wassily Brasil no teclado, Pedro Falcão no baixo e Heloísa Helena batendo nos tambores. Esperamos em breve começar a tocar em palcos que caibam todo mundo.

Para quem tem interesse em conhecer mais sobre a cena alternativa de Goiânia, quais bandas indicam e quais os melhores lugares para tocar na cidade?
Não posso recomendar as coisas mais pesadas porque eu realmente não tenho experiência nesse ramo, mas eu curto a galera mais "indie", tipo Riverbreeze, Gloom, Ultravespa etc. E sobre os melhores lugares pra tocar, os membros mais experientes da banda dizem que o som no Martim Cererê e no Bolshoi Pub são muito bons. Vou confiar na opinião deles.

21 de janeiro de 2012

Graveola e o Lixo Polifônico, o hippie universitário, a world music cosmopolita e a não-cobertura de um show

Escolha uma vida. 
Um tipo de parceiro.
Uma profissão.
Uma cidade.
Uma casa. 
Escolha rótulos nos quais se encaixar. 
Escolha compartilhar ou reter.
Ou mantenha-se aberto às possibilidades, indefinido. Flexível no gênero, nômade física e intelectualmente. É preciso ter esse pensamento aberto, de escolhas múltiplas e instáveis, para se entender a Graveola e o Lixo Polifônico, banda que acaba de gravar, há pouco mais de 30 minutos, seu primeiro DVD ao vivo em sua cidade natal, Beverly Hills Belo Horizonte.

Banda ímpar na cidade (e provavelmente no cenário nacional), a Graveola congrega ao seu redor um forte grupo de criação e articulação artística. Como gostam de se apresentar, Graveola é também um coletivo. É o resultado da energia e de certa esperança pueril de que tudo pode ser feito de outra forma, de que existem opções e que é possível ser mais livre. Algo que, sintetizado porcamente, se assemelharia a um "hippie universitário": politicamente consciente, amante das culturas regionais e da natureza, sensível para a diversidade das manifestações artísticas e pseudo-libertário.

Imagens sobrepostas do público do show da Graveola em BH

Na música do Graveola, essse espírito se transforma em um saudosismo experimental que não tem medo ou dó de desvirtuar suas referências e influências, de resignificar e emular e, assim, criar suas obras. A música popular brasileira e o rock nacional, ambos sessentistas/setentistas, são a base, mas limites e preconceitos não são bem-vindos. O tal "caldeirão multiétnico" toma forma e constroi uma world music cosmopolita. No meio disso tudo, momentos em que se encontra um Pato Fu bucólico e orgânico, doido de ácido; hermanos bossa-novísticos apaixonados; netos dos Mutantes que trocaram os psicotrópicos e se drogam pelo excesso de informação - misturada no liquidificador.

A riqueza de timbres e de arranjos, a esperta construção de letras, as apropriações de temas alheios e a técnica dos músicos são alguns dos pontos que justificam o fato da Graveola ser uma banda literalmente adorada por um público crescente e que, hoje, praticamente lotou o Grande Teatro do Palácio das Artes (pouquíssimas poltronas vazias). Público cuja empatia aflora nas baladas; que dança e se perde nas quebras de ritmo, mas mesmo assim continua o movimento; que grita histericamente demonstrando a relação sentimental com a banda e que repete o maior clichê da geração da "felicidade de Facebook" (onde, mais do que nunca, a felicidade e a beleza despontam como definidores do capital social): subir ao palco, pular e abraçar uns aos outros - estética e aprofundamento sentimental de um comercial.

Tudo isso é parte do que deverá ser visto no DVD gravado hoje, parte do projeto da banda realizado através do programa Natura Musical - lembrando que, em 2011, a Graveola também teve seu projeto de circulação patrocinado pelo Conexão Vivo, prova de que, além do público em geral, a banda também tem despontado interesse no setor privado. Além da gravação, a noite foi momento de lançamento do vídeo da música "Farewell love song", que assim que disponibilizado no perfil da banda no Youtube será compartilhado por aqui (atualização: vídeo abaixo).




 Complementos: 


1. O mais recente CD da banda, Eu preciso de um liquidificador, estava disponível para download no Megaupload, site que foi tirado do ar em uma operação internacional supostamente em defesa dos direitos autorais. Fica a sugestão para que as bandas brasileiras deixem de usar serviços desse tipo e publiquem seus trabalhos autorais para download no Overmundo, iniciaiva sensacional focada na cultura livre e na criação colaborativa.
Felizmento, o álbum da Graveola também está no Soundcloud.



2. Juliana Perdigão e Luiz Gabriel Lopes, membros da Graveola, possuem trabalhos solo recentes. O CD de Luiz (Passando Portas) pode ser baixado no Mediafire. O de Juliana (Desconhecido) também estava disponível para download no Megaupload...

3. Em clima de reapropriações, o início do texto faz referência a abertura do filme Trainspotting (cujo meu DVD ainda está com o Reiler - me devolva!)

4 de maio de 2011

Renegado - até quando?


A música é capaz de provocar os mais diversos sentimentos nas pessoas e, do mesmo modo, tem o potencial de transformar vidas. Exemplo disso é observar a carreira e o trabalho de Flávio Renegado, rapper, compositor, instrumentista, poeta, ator e líder comunitário que a partir dos estreitos becos do Alto Vera Cruz (comunidade carente da cidade de Belo Horizonte) aos poucos toma o mundo de assalto com seu trabalho que tira o hip hop do gueto e abraça as mais diversas influências. Sem se prender a limites geográficos, sua música dialoga com batidas africanas, ritmos caribenhos, texturas do hip hop norte-americano e a malandragem do samba.

Enquanto a música transforma a vida de Flávio Renegado e o leva a circular por todo o Brasil e no exterior, também altera aqueles que são tocados por ela, restando a certeza de que gostando ou não, ninguém ficará indiferente às suas obras. Não por acaso, nos últimos anos ele esteve ao lado de alguns dos mais originais artistas da cena musical brasileira, do virtuosístico guitarrista Toninho Horta ao astro da MPB Lenine, assim como aclamados novos nomes da música brasileira como a cantora Aline Calixto e o vanguardista Fernando Catatau, do Cidadão Instigado.

Se a diversidade de parceiros aponta sua inquietação, a extensa produção por outras áreas confirma sua vocação artística. Em 2011, estreia no longa-metragem “Ponto Org”, primeiro trabalho na grande tela da videomaker Patrícia Moran, contracenando ao lado do renomado Paulo César Pereio. Exatamente ao completar seus 28 anos (em 7 de Maio), ele participa do festival Tensamba, na Espanha, e na sequência começa uma nova empreitada, comandando seu próprio programa de rádio na 98FM (uma das maiores rádios de Minas Gerais). Paralelamente, aguarda o lançamento de um projeto que une o funk carioca ao rap, realizado junto ao DJ e produtor Sanny Pitbull e os rappers Emicida e Zé Brown (Faces do Subúrbio), entre outros. Após se apresentar em Cuba e na França, 2011 marca a expansão de sua carreira internacional, com shows na já citada Espanha, Inglaterra e Holanda. Para o segundo semestre, prepara-se para shows na Suécia, Austrália e Nova Zelândia. Prestes a iniciar as gravações de seu segundo CD, Flávio Renegado colhe os frutos de sua estreia (com o álbum Do Oiapoque a Nova York, de 2008), lançada em 3 formatos (CD, SMD e Digipack) e que vendeu mais de 7 mil cópias de forma independente.

Ciente de sua capacidade de criação e movimentação por diferentes manifestações artísticas, Flávio cada vez mais parece ter noção de não pertencer a nenhum gênero específico, nenhuma classe artística definida, nenhuma região. Ao mesmo tempo, absorve todas elas. Um paradigma que explicita no título de seu próximo CD e que deixa no ar as possibilidades que estão por vir ao dizer que “Minha tribo é o mundo”.

--------------

Esse é o novo release que escrevi para o Renegado, que agora assina oficialmente como Flávio Renegado. 2011 promete ser um ano incrível para sua carreira, como dá para perceber através das informações no texto acima (na semana passada gravou, no Itaú Cultural, imagens ao vivo para seu primeiro DVD e em breve chegam programa na rádio, turnê no exterior, etc). O Flávio é um dos artistas independentes que circula pelos mais distintos espaços, de festas particulares do Ronaldinho Gaúcho a baladas em favelas, teatros e boates de playboy.

Escutei a prévia do que será seu segundo CD e dá pra afirmar que será um grande trabalho. Sai um pouco da latinidade de Do Oiapoque a Nova York, seu primeiro CD, e entram batidas sincopadas ao estilo do hip hop norte-americano contemporâneo, sintetizadores com timbres oitentistas e até.... bom, não dá pra contar ainda, até porque parte disso irá se transformar nas mãos e mente de Plínio Profeta, que produzirá o álbum (e tem no currículo CDs de Lenine, Tiê, Rappa, Xis e Lucas Santtana).

Nesta quinta, dia 5 de maio, Flávio e sua banda embarcam rumo à Europa. Aproveitando o mote da viagem internacional foi lançado seu novo site, feito por mim. Bem diferente de seu antigo site (vencedor do Prêmio Hutuz na categoria de "Melhor site de hip hop"de 2008), escolhi uma proposta minimalista e funcional, integrando redes sociais de forma prática em um único espaço. O site dialoga com a nova fase de sua carreira, na qual tenta se desvencilhar de alguns clichês do rap nacional (inclusive esteticamente). 

Espero contribuir positivamente nesta empreitada e fica dado o aviso: fiquem de olho nele no flaviorenegado.com.br

E para fechar, uma das minhas músicas favoritas do primeiro CD dele, "Meu canto", com a Aline Calixto (outra que vez com CD novo em breve) participando nos vocais.
 

18 de dezembro de 2010

Pra não dizer que não falei das flores

Com um vocal feminino capaz de provocar ereções em um pedófilo, a banda mineira Ophelia and the Tree apresenta uma intrigante mistura de Belle and Sebastian e Joy Division.

Por Edwaldo Cabidelli

Formada em meados de 2008 na triangular Uberlândia (MG) por Camila Franco (vocal), Thiago Fontes (guitarra), Gabriel Felix (bateria), Lucas Paiva (baixo), Bernardo Penha (piano), Bim Bernardes (violão/guitarra/trombone) e Rafa Rays (violino) a banda atualmente prepara seu primeiro álbum “cheio” com lançamento previsto para o segundo semestre de 2011. Com sete boas canções autorais disponíveis em sua página no MySpace, além de inúmeras apresentações em diversas cidades do país, o grupo promete ser uma das surpresas do próximo ano.

Confesso que cheguei a ver Ophelia and the Tree ao vivo no início de 2009, no bar A Obra, em Belo Horizonte, e a banda não me causou maiores impressões. Na real, soavam como um bando de moleques abobados que juntou toda a grana da mesada para tocar em um “inferninho” da capital. Porém, os dois anos de estrada trouxeram um notável amadurecimento musical. Afinal, quando os integrantes não morrem de fome, algumas bandas independentes deste país tendem a melhorar com o tempo.

O tom singelo e “fofinho” presente na estética, tanto da banda como de suas canções, observado principalmente nos vocais, cordas e piano remetem, de forma imediata, aos escoceses do Belle and Sebastian, guardadas as devidas proporções. No entanto, o diferencial está na bateria marcada e reta que, em seus melhores momentos, lembra o genial estilo criado por Stephen Morris (baterista do Joy Division, mané!) e copiado por tantos. Além disso, o clima levemente sombrio de algumas letras parece também fazer referência aos “solares” rapazes de Manchester.

Em "Cabaret", principal motivadora deste texto, o incrível arranjo elaborado mostra ainda certa proximidade, talvez inconsciente, com o universo de Serge Gainsbourg, (é... o cara da melô de motel, mas acredite, ele é muito mais do que isso) em seu fantástico álbum Nº4, porém com uma pegada mais folk e menos jazzística. Para Bim Bernardes, guitarrista da banda, a canção “soa como as músicas de Robert Crumb”, mais conhecido por seu genial trabalho como cartunista do que por sua banda R. Crumb and His Cheap Suit Serenaders, igualmente fóda.

O timbre de Camila Franco parece ser bastante influenciado por grandes cantoras como Fiona Apple, Beth Gibbons (Porstishead) e Bessy Smith (la matrona!). Caso a impressão se confirme, será necessário muito arroz e feijão para que a menina chegue lá, mas trata-se, seguramente, de um vocal promissor que parece funcionar melhor em estúdio do que ao vivo. Cinismos gratuitos a parte, o fato é que boas referências são o melhor e mais indicado caminho para formação de qualquer bom músico/cantor e Ophelia and the Tree parece estar no caminho certo.

O futuro está em curso, siga as placas. Ou seja atropelado por elas.

P.S: Escrevi este texto no dia 16/11 e o Suplicy resolveu pagar de Geraldo Vandré no Senado em 17/11. Portando, não tenho nada com isso. Aliás, o Suplicy é a prova viva que a maconha ainda será legalizada no Brasil. No dia que ele chegar no plenário trincando, de mão dada com o Gabeira, e cantar "Rainy Day Women # 12 & 35", do Dylan, será um código secreto para legalização. Fica esperto na TV Senado!

13 de janeiro de 2009

Nasa >> North America South America

Esquerda= Zé Gonzales / Direita= Squeak E. CleanO significado da sigla é diferente, porém a agência espacial dos Estados Unidos e o novo projeto do brasileiro DJ Zé Gonzales com o produtor americano Squeak E. Clean têm em comum a proximidade com as estrelas. No CD The Spirit Of Apollo, estréia do N.A.S.A, estão reunidos astros da música mundial como Kanye West, Tom Waits, M.I.A, Karen O (Yeah Yeah Yeahs), John Frusciante (Red Hot Chilli Peppers), George Clinton, Chuck D (Public Enemy), RZA, Santogold, Nina Person (Cardigans), David Byrne, Chail 2na (Jurassic 5), Seu Jorge, Lovefoxxx (CSS) e Ol´ Dirty Bastard (Wu Tang Clan). Para completar, o CD será lançado pelo selo Anti Records, o mesmo do One Day as a Lion (nova banda de Zack de la Rocha, do Rage Against the Machine, com o ex-baterista do The Mars Volta), Nick Cave and the Bad Seeds, Tom Waits, Spoon, Islands e Grinderman (projeto garageiro de Nick Cave).

Ex-membro do Planet Hemp, o paulista Zé Gonzales mantém uma bem-sucedida carreira nos Estados Unidos, discotecando em festas descoladas em Hollywood, criando trilhas para desfiles e trabalhando com o renomado Mario Caldato (produtor dos Beastie Boys, Beck). Após seis anos no Planet, abandonou a banda e investiu na carreira de produtor e DJ. Em 2003, conheceu o produtor e DJ Squeak E. Clean (pseudônimo de Sam Spiegel, que tem no currículo a produção do excelente álbum Show Your Bones, do Yeah Yeah Yeahs, e é irmão do cineasta Spike Jonze) e juntos montaram o N.A.S.A - North America South America.

N.A.S.A no BrasilO encontro de culturas vai além do nome e das origens do projeto. Musicalmente, N.A.S.A representa o encontro do funk carioca com o hip hop norte-americano, permeado por electro, ragga e bossa (a se julgar pelo material divulgado até o momento). A idéia de que a força da música reúne as pessoas e apaga barreiras étnicas fica clara ao se assistir a prévia do documentário que registra todo o processo de gravação e construção das canções. São vocalistas dos mais diversos países e origens, tem como ponto de referências as batidas multi-étnicas apresentadas por Squeak e Zegon (que recentemente se apresentaram no Brasil pela primeira vez, no festival Nokia Trends).


Trailer do documentário "N.A.S.A"


Com lançamento (físico) marcado para 17 de fevereiro, The Spirit of Apollo coloca o N.A.S.A como uma das grandes promessas de 2009. O primeiro single, "Money", traz as participações de Chuck D (Public Enemy), David Byrne (ex-Talking Heads), Ras Congo, Z-Trip e Seu Jorge e ganhou vídeoclipe com artes de Shepard Fairey, um dos mais renomados "artistas de rua" do mundo, também criador da famosa imagem-símbolo da campanha de Barack Obama em 2008. Mesmo não tendo a pegada de um possível hit, "Money" reflete bem as influências globais condensadas no balanço melódico do DJs.

Capa do CDSão poucas as faixas divulgadas até o momento, sendo que entre elas estão uma versão funk para algo próximo do tema da série "A Feiticeira" e um remix para "Garota de Ipanema". (atualização: essas duas faixas não estarão presentes no álbum, conforme informação do próprio Zé Gonzales nos comentários). Mas a que mais chama atenção, por enquanto, é "Gifted", parceria com ninguém menos que Kanye West, ao lado de Santogold e Lykke Li. Música que seria hit se estivesse nos CDs de qualquer um de seus vocalistas.






Confira o tracklist do álbum e fique de olho nos torrents e blogs de download por aí.

01 "Intro"
02 "The People Tree" (feat. David Byrne, Chali 2na, Gift of Gab,& Z-Trip)
03 "Money" (feat. David Byrne, Chuck D, Ras Congo, Seu Jorge, & Z-Trip)
04 "NASA Music" (feat. Method Man, E-40, & DJ Swamp)
05 "Way Down" (feat. RZA, Barbie Hatch, & John Frusciante)
06 "Hip Hop" (feat. KRS-One, Fatlip, & Slim Kid Tre)
07 "Four Rooms, Earth View"
08 "Strange Enough" (feat. Karen O, Ol' Dirty Bastard, & Fatlip)
09 "Spacious Thoughts" (feat. Tom Waits & Kool Keith)
10 "Gifted" (feat. Kanye West, Santogold, Lykke Li)
11 "A Volta" (feat. Sizzla, Amanda Blank, & Lovefoxxx)
12 "There's a Party" (feat. George Clinton & Chali 2na)
13 "Whachadoin?" (feat. Spank Rock, M.I.A., Santogold & Nick Zinner)
14 "O Pato" (feat. Kool Kojak & DJ Bãboa)
15 "Samba Soul" (feat. Del Tha Funkee Homosapien & DJ Qbert)
16 "The Mayor" (feat. The Cool Kids, Ghostface Killah, DJ AM & Scarface)
17 "N.A.S.A. Anthem"

Vídeo de "Money"

13 de maio de 2008

Indiada Magneto

Daniel Saavedra é figura carimbada na atual cena musical de Belo Horizonte. Músico e produtor, é membro das bandas PROA e Manobra, além de guitarrista da cantora Érika Machado e responsável pela produção de diversos novos artistas mineiros. Entretanto, é com o Indiada Magneto, seu projeto solo, que Saavedra vem chamando cada vez mais atenção no restante do país e conquistando seu espaço.

Misturando eletrônica e rock em canções instrumentais, com uma inegável proximidade das trilhas sonoras e jingles publicitários (os quais Daniel também cria profissionalmente), o Indiada varia do downtempo ao semi-industrial.

Daniel (ao centro, de óculos) junto aos artistas de sua coletânea
Fruto de quase 10 anos de trabalho na produção musical, quatro deles à frente do estúdio que dá nome ao projeto, o Indiada Magneto começou a se apresentar apenas este ano e, mesmo com apenas três shows no currículo (1º: Warm Up do Festival do Sol em Natal / 2º: Lançamento do Festival Stereoteca / 3º: Festa do Meio Desligado), vem recebendo prêmios e se destacando na mídia.

Indiada Magneto - "Call Maria"




Na entrevista abaixo, Daniel fala da coletânea Indiada Magneto Apresenta, que reúne alguns dos músicos produzidos por ele, do Indiada Magneto e sua carreira.

Como você define o Indiada Magneto? É uma banda ou um projeto solo?
Indiada Magneto é o nome do estúdio e também do meu projeto autoral. A banda (um trio) foi formada para as apresentações ao vivo. Esse CD (Indiada Magneto Apresenta) é uma coletânea de músicas de vários artistas produzidas por mim no estúdio.

Você foi o único no país a ter sido selecionado em duas categorias do prêmio Rumos Itaú Cultural. Como isso aconteceu?
Participei da produção musical de dois projetos escolhidos na categoria "Mapeamento", o Coletivo Universal e a cantora Érika Machado, com a qual também me apresentarei. Também fui selecionado com o Indiada Magneto na categoria “Homenagem” com dois remixes, um do Sabotage e um do Itamar Assunção. Me apresentei em Natal dentro do Warm Up do Festival do Sol, tocando minhas músicas e os remixes.

Você iniciou na produção musical em 1998. Dá pra ver muitas mudanças no mercado desde então?
O mercado se fragmenta cada vez mais e os segmentos musicais tem espaços e públicos específicos. Acho que as grandes corporações dão lugar às pequenas produtoras, selos e festivais. Isso é bom para a música autoral que acha um espaço antes não existente no mercadão. E a tecnologia ajuda a democratizar a produção.

No Stereoteca você se apresentou com vários músicos convidados. Este formato foi exclusivo do Stereoteca ou se repetirá em outros shows?
Esse show foi criado para o Stereoteca, mas nada impede que exista uma sequência. Talvez a única dificuldade seja conciliar agendas de todos, mas estamos abertos a todas as possibilidades.

Foto: Vinícius (Fumaça Corp)

30 de outubro de 2007

Terminal Guadalupe - Pop sim, e daí?

A Marcha dos InvisíveisForte candidato a melhor álbum de 2007 na cena independente brasileira, A Marcha dos Invisíveis, lançado em agosto deste ano, consolida o Terminal Guadalupe como um dos principais nomes do pop rock brasileiro. Os curitibanos, que se auto-rotulam como uma banda de “pop de garagem”, fazem um som marcado por melodias pop e guitarras distorcidas, que servem como suporte perfeito para que o vocalista Dary Jr. se arrisque em letras políticas, sociais e existenciais, sem que as canções se tornem árduas.

Criado em 2002 como um projeto individual de Dary Jr, o Terminal Guadalupe se consolidou como banda a partir do 3o álbum, Você vai perder o chão, que rendeu aos curitibanos o prêmio de melhor disco independente de 2005, na categoria Escolha do Público, da revista Laboratório Pop. “A gente estava concorrendo com Violins, Céu, Lobão e Cidadão Instigado”, conta orgulhoso o guitarrista Allan Yokohama.

A partir daí o grupo ganhou mais um guitarrista, apareceu na revista Veja como uma banda “próxima de estourar”, inovou lançando o último álbum em pen drive, emplacou a faixa “Pernambuco Chorou” em 1o lugar numa rádio curitibana e ganhou a estrada e os palcos dos principais festivais independentes do país. Em outras épocas, o Terminal Guadalupe já teria caído nas graças de alguma grande gravadora e seria presença constante nas rádios do país, mas como os tempos são outros, a banda vai aos poucos achando seu espaço dentro do cenário independente e aguardando uma brecha entre os modismos do mainstream para despejar seu “rock brasiliense” sobre o grande público.

Em uma conversa num boteco de Belo Horizonte, após o show no Festival Garimpo, o vocalista Dary Jr e os guitarristas Allan Yokohama e Lucas Borba revelaram a intenção de lançar um álbum duplo de inéditas, fizeram criticas a Los Hermanos e falaram sobre influências, cena de Curitiba, mercado musical e política.

O Terminal Guadalupe é uma banda politizada?
Dary Jr - Na condição de letrista e por ser jornalista, tenho uma influência muito grande da realidade. Eu não consigo dissociar aquilo que vivo daquilo que escrevo. É muito importante que quem faz letra acredite na própria verdade. Acho que a gente consegue passar uma intensidade muito grande nos shows pelo fato de eu acreditar naquilo que estou falando. Jornalismo, cinema e política são as coisas que mais me influenciam. São as minhas áreas de interesse e é natural que apareçam nas canções. É como uma música do Cabaret que se chama “O amor e a guerra”. Nossas músicas são sempre assim, a gente vive entre o amor e a guerra.

Por que você diz que o Terminal Guadalupe é uma banda brasiliense?
Dary Jr. - A gente precisa fazer um exercício de crítica saudável. As bandas dos anos 80 escreviam muito bem, mas não tocavam bem porque não tinham condições técnicas e também porque eram maus músicos. Mas eles conseguiam superar isso com grandes performances, com um apuro muito grande de palco e uma verdade muito intensa na maneira de falar, de se expressar. Isso é algo que a gente não consegue ver com muita facilidade hoje. Dificilmente você encontra um músico hoje que consegue se expressar muito bem, que tenha suas idéias bem articuladas e que construa uma frase com sentido. Eu chamo o Terminal Guadalupe de a banda mais brasiliense de Curitiba por causa do espírito das bandas dos anos 80 de Brasília. Acho que a gente traz esse espírito, esse senso crítico das bandas dos anos 80 com esse aparato tecnológico e técnico dos anos 90.

Qual a relação da banda com o Violins (GO)? (O Terminal Guadalupe toca uma cover de “Grupo de Extermínio de Aberrações”, considerada por Dary Jr. a melhor música do rock nacional desde “Perfeição” da Legião Urbana).
Dary Jr. - Há uma afinidade estética, intelectual e sonora. É uma banda maravilhosa e a gente sente falta de bandas como o Violins no rock nacional. É importante que existam bandas com algo a dizer. Non sense, música meramente para diversão ou música pra trepar é legal de vez em quando, mas é importante que você tenha bandas com algo a dizer, senão tudo fica diluído, tudo vira apenas diversão e você não reflete sobre absolutamente nada.

Quais bandas no Brasil hoje tem algo a dizer?
Dary Jr. - É complicado pra gente dizer porque defendemos muito a cena de Curitiba. A gente acha que é um lugar diferente. A música produzida lá é muito rica, muito diversa. Ao contrário do que muitas pessoas pensam, os mods não são hegemônicos lá. Muita gente acha que Curitiba faz rock gaúcho. Tem muita banda lá que faz esse tipo de som e faz bem, mas é muito maior que isso.

Como é a cena de Curitiba com relação à movimentação, organização....
Allan Yokohama - Não é nada organizado porque Curitiba está começando e tentando se organizar. Acho que as bandas de lá tem bastante qualidade hoje. Só que a cena é muito nova.
Dary Jr. – O nosso problema é organização. Falta uma articulação maior entre as próprias bandas na cena mais pop rock que é onde a gente circula. Se você pegar a cena hardcore, psychobilly e metal, os caras são super organizados. A gente ainda não consegue nem mesmo lotar uma casa de show em Curitiba. Nosso público é sempre médio, cerca de 150, 200 pessoas. Pra lotar é preciso ter umas três ou quatro bandas.
Allan Yokohama – Não dá pra culpar o público por ele não conhecer a cena independente se ele não ouve e não vê a cena. Acho que a mídia é prejudicial ao não dar acesso às pessoas àquilo que sua própria cidade produz.

Como o Terminal Guadalupe se coloca sobre essa questão de ser independente ou ser mainstream?
Dary Jr. – Isso é tranquilo. Não temos vergonha de ser chamados de pop. A gente está fazendo nosso trabalho com calma, sem se deslumbrar com as críticas. A gente não vende a alma pra estourar.
Allan Yokohama – Na verdade existe o pop bom e o pop ruim, assim como o rock bom e o rock ruim, o samba bom e o samba ruim.
Dary Jr. – O Sérgio Martins da revista Veja costuma dizer que o que existe é música boa e música ruim.

O que mudou no caminho entre o primeiro disco e este último?
Dary Jr.– O primeiro era um projeto pessoal meu que tinha a banda Poléxia como grupo de apoio. Já o segundo disco tem a formação que gravou o terceiro e aí é um salto, começa a virar banda de verdade. Embora ainda houvesse um predomínio de canções minhas o Allan começou a entrar como compositor. Nesse último já é a banda madura mesmo. O Allan fazendo as músicas e eu fazendo as letras. O Lucas entrou já nessa nova faze após a gravação do A Marcha dos Invisíveis. É mais um elemento pra trazer todo um background de referências pro próximo trabalho.
Allan Yokohama – E a gente quer e vai fazer um disco diferente do outro. A gente não quer se repetir.

"Pernambuco chorou"


Que som influencia a banda?
Dary Jr.– O Fabiano é um baterista que começou tocando trash metal, mas ele ouve de tudo. O Rubens é um cara mais fechado e ouve mais jazz. O Lucas gosta de rock nacional, das bandas indie e de rock inglês. O Allan começou a tocar guitarra por causa do grunge e eu sou pop mesmo. Fui um cara que sempre ouviu rádio e apesar de ouvir tudo o que gosto mesmo é rock nacional. Eu ouço muito Violins, Pública, Sérgio Sampaio, Lasciva Lula e as velhas coisas como Nirvana, Smiths... Eu ouço Legião direto, ouço Plebe Rude pra caralho e o primeiro disco do Capital Inicial sempre que eu posso.
Allan Yokohama – Mas o melhor cd internacional este ano é o do Quens of the Stone Age.

Por fazer um som mais pop, vocês já alcançaram as rádios?
Dary Jr.– A gente já ficou em primeiro lugar na rádio rock de Curitiba. Desbancamos o Fall Out Boy.
Lucas Borba – Fall Out Boy, Artic Monkeys e Red Hot Chilli Peppers.
Dary Jr.– Lá é top 9 e das nove bandas, oito eram estrangeiras. Lideramos por duas semanas a parada com “Pernambuco Chorou”. Em janeiro os caras da Jovem Pan viram a matéria com a banda na Veja e chamaram a gente pra tocar na rádio. O status da banda mudou a partir daquela reportagem. Passou a vir muito mais gente nos shows.

Como vocês divulgam hoje?
Dary Jr. – Internet. A gente se desdobra pra participar de festivais, até porque rola uma cobertura de blogs, que são feitos por pessoas que estão sempre ligadas. Isso não pode se subestimado porque tem um poder de multiplicação terrível. Até quando o cara fala mal é legal porque a galera vai ouvir pra conferir se é isso mesmo. A internet tem uma força terrível. A gente não estaria aqui se não fosse a internet. Mas graças a Deus não tem ninguém falando mal da gente. Estou até com medo de estarem guardando tudo pro próximo disco (risos).

Hoje a gente assiste a um fenômeno que é o de bandas conseguirem se sustentar no circuito independente enquanto um número muito menor de artistas alcança o mainstream. Isso é uma tendência?
Dary Jr. - O mercado mudou, não dá mais pra ficar pensando “ah eu vou assinar com uma gravadora”. A gente até espera que role e se vier maravilha, vai ser importante pra gente gastar menos. Mas na verdade, tem uma coisa muito clara. Diante dessa nova realidade do mercado que está tomado pela pirataria e pelo MP3, o que as gravadoras estão fazendo? Só estão apostando nos medalhões, no que é certo, então os artistas de massa vão continuar tendo a atenção das gravadoras. Quando elas vão trabalhar segmentos como o rock, elas investem naquilo que é a tendência, aquilo que é a moda. Agora a gente está vendo bandas emo recebendo grande atenção das gravadoras porque elas são a tendência do momento. Elas não expressam a riqueza e a variedade da produção nacional, mas é uma parcela que está com força no mercado e bandas assim tem espaço, em bandas assim as gravadoras apostam. No nosso caso, temos letras que não são muito acessíveis e um som que não pode ser encaixado como mod. A gente não vai na onda Los Hermanos e Strokes, a gente não é hardcore, a gente não é mod, a gente não está numa tribo e assim fica mais difícil pra gravadora vender a banda. Acho que tem muito esse raciocínio “de que tendência de mercado vocês fazem parte?”. A gente não está em tendência de mercado. É preciso ter ousadia. A gente está abrindo espaço a fórceps.
Allan Yokohama – E o legal é que cada banda tenha sua cara própria. Influência tudo bem, mas cópia? Eu gosto de Strokes, mas não gosto de quem copia Strokes.
Dary Jr. - Você já gostou bastante de Los Hermanos.

O que tem o Los Hermanos?

Dary Jr.– O Bloco do Eu Sozinho é do caralho, mas eu não gosto da postura da banda.
Allan Yokohama – E tem esse monte de banda imitando o som e até o jeito de cantar do Amarante...
Dary Jr. – Aquele jeito bêbado (faz uma careta e manda um êêêôôô com a língua embolada). Mas não tiro o mérito do Los Hermanos. Das bandas de mídia ela é do caralho.

A que tipo de postura você se refere?
Dary Jr. - Aquela coisa meio blasé, meio “não tô nem aí”. Tudo fake! Eu conheci os caras, vi show no início da carreira e eles eram simpáticos, fazendo esforço pra agradar todo mundo e aí depois decidiram que precisavam mudar a imagem. “Agora vamos ser refinados”. Nesse processo alguma coisa se perdeu, embora eles não tenham perdido a empatia com o público, mesmo com essa coisa de ser menos expansivo. Alias acho que como jogada, mesmo sem ter sido pensada, funcionou muito bem, acabou criando uma legião de fãs que é uma coisa terrível. São fãs insuportáveis. Acho que eu gosto menos da banda hoje mais por causa dos fãs do que dos caras. Não existe coisa mais chata que um fã radical de Los Hermanos. Eles são insuportáveis, aquela coisa meio neo-hippie.... Mas a banda conseguiu uma coisa interessante, porque depois deles toda banda que apareceu tendo um cuidado com as letras as pessoas já dizem “pô vocês gostam de Los Hermanos”. Um cara veio fazer essa comparação com a gente em Brasília. Pô, não tem nada a ver! Aí eu falei “eu detesto Los Hermanos” (gargalhadas).
Allan Yokohama – Mas sãos eles lá e a gente aqui. Nada Contra. Acho o Amarante um puta cara, respeito pra caralho.

Mini-documentário sobre as gravações do álbum A Marcha dos Invisíveis

E essa camiseta? (Dary Jr. estava usando uma camiseta de Cuba). Você é um esquerdista?
Dary Jr. – Eu sou, mas acho que é extemporâneo discutir sobre questões ideológicas no mundo hoje. Eu nutro muitas simpatias por Cuba, mas faço muitas críticas como, por exemplo, quanto à falta de liberdade de expressão. Eu valorizo muito as conquistas de Cuba que é um país minúsculo e conseguiu avançar tanto em áreas como educação e saúde, que é algo que nós não temos aqui. Na verdade não existe regime perfeito. A coisa da gente tocar de uniforme é uma referência aos motoristas e trocadores lá de Curitiba e também pra lembrar as origens. Todo mundo aqui é filho de trabalhador, só que ninguém quer passar fome e morar em casa igual. Eu acredito muito mais na micro-política e acho que a partir daí a gente vai conseguir alguma transformação, porque as esperanças que a gente tinha na macro-política de chegar lá e fazer tudo, o tempo e a experiência demonstraram que não deu certo. Eu sou uma pessoa que militou bastante politicamente, no movimento estudantil e como jornalista exercendo a atividade com uma posição muito crítica, mas a questão não é ideologia, a questão é caráter. Tem gente decente na direita e na esquerda, como tem muito vagabundo também. Tem gente que não presta em tudo quanto é lugar. O que importa é ser decente.

DISCOGRAFIA
Burocracia romântica – Trilha Sonora Original - 2003
Girassóis clonados - 2004
Você vai perder o chão – 2005
Vou tirar você desse lugar – Tributo a Odair José (1 música) – 2006
A marcha dos invisíveis - 2007

Mugg esta noticia

13 de julho de 2007

U.D.R: fist fucking para os ouvidos

U.D.R >> 15.06.06

A música alternativa brasileira pode ser dividida em duas grandes fases: antes e depois da U.D.R. Calma, calma. Antes de interromper a leitura e continuar sua busca na internet por pornografia gratuita e mentiras reconfortantes, pense em quais bandas podem ser diretamente ligadas à criação de um novo estilo musical.


Eu poderia usar onomatopéias como “tic” e “tac” para simular a passagem de tempo enquanto você pensa e uma verdadeira tempestade elétrica acontece nisso em que você chama de cérebro, mas seria uma grande mentira, já que quase nenhum relógio atual continua fazendo esses sons e o próprio uso desses acessórios vem diminuindo, sendo substituídos pelos celulares que, entre suas atuais 46 funções padrão, também informam as horas, veja só! “Nosfa!”.

Pois bem. Aos nomes que possam ter surgido em resposta à pergunta proposta, como The Stooges e Black Sabbath, adicione mais três letras: U-D-R. Porém, esta dupla mineira foi além. Não criaram apenas um estilo, mas dois: o funk escatológico satânico e o rock n' roll anti-cósmico da morte. Se o primeiro é uma legítima manifestação da ironia levada ao extremo, uma sarcástica resposta ao controle e ao poder da Igreja Católica no Brasil e sua suposta assepsia, influenciando diretamente nomes como Cansei de Ser Sexy (como a própria vocalista Lovefoxxx já declarou) e Bonde do Rolê, o segundo estilo é mais uma grande piada, mas nem por isso menos original.

Ao apropriar-se dos cacoetes e clichês oriundos do funk, rap, metal, rock e até mesmo tendo como influência os estilos de vida dos playboys e patricinhas, a U.D.R faz poderosas críticas sociais, até mesmo sem querer, disfarçadas sob ideais hedonistas e uma falsa alienação. Não é apenas um dedo na ferida exposta, mas uma mão inteira, em uma autêntico fist fucking sem lubrificantes para os ouvidos.


Ter sua própria obra fora de seu controle é comum às grandes bandas e é isso o que encontramos na U.D.R. Por mais que MC Carvão e Professor Aquaplay soem extremamente honestos ao comporem suas rimas com termos do cinema pornô hardcore e de práticas do submundo homossexual, suas letras também refletem as transformações ocorridas na cultura e na sociedade brasileira desde meados da década de 90.


A religião é um dos temas preferidos destes nerds que, munidos de alguns poucos softwares pirateados, utilizam a fúria gerada nos seguidores de Jesus como combustível. Afinal, o que esperar de canções intituladas “Bonde da Mutilação” e “Dança do Pentagrama Invertido” e letras como “É isso menininha / Jesus pode te amar mas só a U.D.R te quer / fogo do capeta / brasa na calcinha / deformo sua buceta e arrombo a sua bundinha”, do refrão da incrível “Gigolô Autodidata”?

Outro elemento que reforça a importância da U.D.R no cenário musical brasileiro é que ela é uma das primeiras da geração de bandas que se tornaram conhecidas através da internet e que utilizam esquemas de produção caseira. Em suas próprias casa, plugando microfones aos Pcs e utilizando programas de produção musical crackeados, gastos com estúdio e instrumentos são eliminados, permitindo que a capacidade criativa não seja reprimida e limitada por questões monetárias.


Circulando entre as cenas metal, indie e eletrônica com naturalidade, canções como “Dança do Pentagrama Invertido” e “Bonde da Orgia de Travecos”, dois dos hits alternativos da dupla, são entoadas tanto por headbangers com suas camisas do Venom como por indies de óculos de armação grossa e piranhas electro de shortinho. Grupos que se unem pela atração ao bizarro, o hedonismo inconsequente, a crueza, a busca pela liberdade e a diversão de não se ter limites ao menos por um momento.


Desde 2003 Aquaplay e Carvão são os pastores do demônio organizando sessões de descarrego em clubes sujos do sudeste brasileiro, lembrando as pessoas que existe vida além das atuações às quais nos entregamos diariamente e, mais importante, reavivando em nossas mentes o quanto a vida pode ser divertida. Basta não levá-la a sério todo o tempo.

Em entrevista por email, Professor Aquaplay (à direita, de branco), comenta o início da banda, momentos singulares de alguns shows e seus planos nefastos.

Quando foi formada a U.D.R e quais eram seus integrantes na época? Qual a formação atual?
A banda foi formada em 2003. Éramos eu, MS Barney e MC Carvão. Montamos a banda depois que eu e um outro amigo tocarmos ao vivo com a extinta dupla "MC Abutre e MC Carniça". Daí o MC Carniça saiu e entraram o Barney e o Carvão. O Barney saiu em outubro de 2005 e agora somos só eu e o Carvão.

Qual a origem e significado do nome "U.D.R"?
Eu ia dizer que significa "Udora" sem as vogais, mas ninguém pescou essa piada ainda. A idéia era usar uma sigla baseada em algo que remetesse a puritanismo e conservadorismo extremos. De início, a intenção era usar "TFP", por causa daquele movimento "Trabalho, Família e Propriedade" ou coisa que o valha. Mas daí o Barney teve a idéia de usar "UDR" por causa da União Democrática Ruralista, um partido extremamente conservador. Gostamos da idéia e topamos. De qualquer maneira, o nome da banda não tem necessariamente o mesmo significado da sigla de onde o tiramos. É só uma sigla.

Qual a tiragem de cada um dos cds da banda? Algumas pessoas afirmam que eles nem sequer existem, devido a dificuldade em se achar algum cd da UDR.
Tiramos 50 cópias do
Seringas Compartilhadas Vol.2, nosso primeiro e único cd até então. A idéia era pegar uns e levar para nosso primeiro show em São Paulo.
Fizemos uma divulgação boa e nego só queria o disco de presente. Desembolsar 7 mangos que é bom, nem pensar. Alguns compraram por encomenda e o disco foi - em doses homeopáticas - pra tudo quanto é canto do Brasil. O resto ficou encalhado um tempão até acabar, daí broxamos para fazer uma segunda prensagem, imaginando que daria no mesmo. Agora é só lamento, o Seringas... acabou pra valer. A moçada vai ter que ficar esperta e esperar até rolar tiragem do próximo disco, que estamos terminando. Deve sair um número mais generoso de cópias, tipo 100. Nem a pau que vamos fazer prensagem super profissional de 2 mil exemplares pra ficar com 1200 encalhados.

Levando-se em consideração a questão anterior, a U.D.R pode ser considerada a típica banda da geração mp3?
Partindo do princípio que só somos conhecidos assim por causa de meia dúzia de MP3 soltos na internet, acho que sim.


No maior país católico do mundo e com a enorme proliferação das igrejas evangélicas na última década, é de se esperar que uma banda que canta sobre satanás, orgias de travestis e pessoas comendo fezes não seja muito bem aceita. Vocês já tiveram problemas com algum grupo religioso ou com a mídia?
Esse lance de aceitação é bem o contrário, somos até bem queridos e os últimos shows fora de BH foram excelentes. Acho que teríamos público bom em outras cidades, pelo que dá pra notar por aí... parece que estão percebendo, aos poucos, que são só piadas. Feias, mas, ainda assim, piadas.

Quanto a "problemas", só tivemos dois. Ambos em BH.
O primeiro foi quando um sujeito desavisado adentrou o recinto justo num show em que "crucificamos" um cara que se voluntariou para tal. O tal desavisado quis "protestar" por causa disso e ficou avacalhando a performance. Me matou de raiva na hora. Parei o show, dei chilique e tudo mais, mas quem teve de sair de fininho foi ele porque só tinha fã da banda no lugar. Noutra, foi abrindo o show do Massacration. Não é como se já não esperássemos por uma reação negativa, afinal eram quase 2 mil pessoas que pagaram 25 reais pra ver o Massacration.

Vocês conseguem ganhar algum dinheiro com a U.D.R ou é apenas por diversão?
Vez ou outra, rolam uns trocados, mixaria mesmo, mal paga ônibus e uma cervejinha. Mas nem importa, enfim... querer viver de banda é coisa de gente que não trabalha.


Ao ouvir as músicas do primeiro álbum, Seringas Compartilhadas..., a impressão que fica é a de que vocês fizeram todas as bases no computador. Isso procede? No segundo álbum o processo foi o mesmo?

Lógico, ora. De que outra forma a gente gravaria a bateria eletrônica? De toda forma, na segunda leva de gravações, temos uns sons com instrumentos reais (vide "Gigolô Autodidata", "Punkristão", "Oh Mefisto", "O Leão de Judá Não Mente Jamais"). O resto é computador.

Como surgiu a oportunidade de tocar em São Paulo pela primeira vez? Quais os lugares em que já tocaram fora de Belo Horizonte?
Um amigo nosso daqui levou um cd para Sampa e mostrou para um pessoal que faz a organização do Kool Metal Fest, um festival semestral que já tem certo prestígio por lá. Eles ouviram despretensiosamente e acharam bem legal.
Quando vieram para BH, assistiram a um show nosso. Acharam que seria interessante e acabamos convidados para a terceira edição - considerada uma das piores. Um ano depois, tocamos na sexta edição - considerada uma das melhores. Nos redimimos.

O fato de serem membros da U.D.R já atrapalhou algum de vocês profissionalmente?
Na verdade, não. Nem tem por que atrapalhar.

Como suas famílias encaram a U.D.R?
Aqui em casa é tudo tranqüilo em relação a isso. Inclusive, minha mãe e minha irmã adoram o "Bonde da Orgia de Travecos" e até têm a música como toque de celular.
Quando botamos religião no assunto, ouvimos uns "Isso é pesado demais, hein?". Mas, num âmbito geral, as duas famílias levam numa boa. Acham até legal o fato da gente realmente tocar fora e ter fãs.

Vocês conhecem o Creative Commons? Registram suas músicas?

Não conheço o Creative Commons.
Quanto ao registro... por enquanto, a gente é protegido pela lei de direito intelectual, que garante nossa autoria incondicional. O fato da banda ter certo reconhecimento é bem crucial também. Registrar é um plano futuro que envolve tirar carteira e lidar com o ECAD e a Ordem dos Músicos. Tudo isso pra poder tirar um lucro mixuruca caso um dia a gente toque em rádio, o que acho bem improvável. Então não é tão necessário.

Conte um pouco sobre o episódio do sujeito "crucificado". Quando foi, local, etc.

Foi no Matriz. Se não estou enganado, foi em julho de 2004. Ou setembro, não sei. Eu estava em um bar com uns amigos e algumas pessoas que eu desconhecia. Tivemos a idéia de fazer um show em homenagem à estréia d'A Paixão de Cristo. Daí tive a idéia de crucificar alguém.
Pedi a um amigo e ele topou, mas a esposa dele vetou. Daí esse amigo meu lançou "alguém quer ser crucificado no show da U.D.R?". Uns três sujeitos se prontificaram. Fizemos uma cruz de papelão e demos uma entrada gratuita pro primeiro que disse "eu!". Foi um dos shows mais "bad vibe". A introdução foi bem sombria, a platéia ficou bem encabulada com nosso novo amiguinho na cruz. O figurino era bastante pastelão, mas bem menos do que o habitual. Fizemos até covers de Rammstein e Atari Teenage Riot.
Eis que um sujeito desavisado adentra o local e chega à frente do palco. Ficou injuriado por termos um sujeito crucificado com "UDR" escrito no peito e começou a cuspir na gente. Num determinado momento, jogou uma garrafa d'água. Depois subiu no palco e jogou água na minha cara. Foi aí que dei o chilique citado anteriormente.
O dono do Matriz sugeriu a ele que ele fosse embora, porque quando todos perceberam que não era uma das nossas estratégias imbecis de show, a galera ficou bem injuriada com ele. O cara saiu de fininho e eu voltei ao palco.

É verdade que já fizeram um show com fantoches, no qual vocês não apareciam?
Sim. Foi um dos melhores shows, inclusive. Foi o infame "Teatro Lusitano de Meias". Cantamos boa parte das músicas com sotaque e gírias portuguesas. As meias eram decoradas. A minha namorada, Mariana, que fez alguns shows cantando o "Bonde do Amor Incondicional", tinha uma meia com cabelo e maquiagem.
Num determinado momento, a platéia se amontoou tanto na frente do palco para tentar ver o show (já que estávamos sentados atrás de uma "bancada" de papelão) que começaram a gritar "levanta! levanta!". Acabamos levantando, jogamos o papelão no meio da platéia e todos ficaram bem empolgados.
Foi realmente um ótimo show.
Acho até que foi o mesmo show que teve o "Desafio do Funk", no qual fizemos um concurso de Break Dancing no qual um concorrente que não participava ganhou. Inclusive, o ganhador foi o mesmo amigo meu que perguntou "quem quer ser crucificado?" pra um monte de desconhecidos na mesa do bar. Ele detonou com as habilidades malucas de dança dele.

- - - Faça o download de todas as músicas da UDR aqui, incluindo versões raras, disponibilizadas pela própria banda - - -

Fotos ao vivo: Marcelo A. Santiago
Foto no bar: Mariana Machado

Arquivos do blog