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23 de junho de 2014

Cultura da participação - Criatividade e generosidade no mundo conectado

Lançado em 2011 no Brasil pela editora Zahar, Cultura da participação - Criatividade e generosidade no mundo conectado apresenta no título uma diferença em relação à sua publicação original (em 2010) que muda levemente o foco da abordagem do estadunidense Clay Shirky, autor do livro. No original, Cognitive surplus (creativity and generosity in a connected age), a ideia de Shirky fica mais clara: trata-se de uma obra sobre como o excedente cognitivo pode gerar experiências coletivas que unem criatividade e generosidade.

Especialista em internet e comunicação digital, Shirky analisa as formas de organização social através da tecnologia digital e seus desdobramentos culturais. Seus exemplos vão de aplicativos para denúncias de violências étnicas no Quênia à influência política de grupos pop sobre adolescentes chinesas (as manifestações acontecidas em junho de 2013 por todo o Brasil poderiam ser, facilmente, objeto de análise semelhante). Otimista, ele acredita vivermos um momento de potenciais transformações através da ação coletiva mediada pela internet. "As oportunidades diante de nós, individual ou coletivamente, são gigantescas; o que fazemos com elas será determinado em grande parte pela forma como somos capazes de imaginar e recompensar a criatividade pública, a participação e o compartilhamento", escreve.

Alguns dos pontos cruciais referem-se à diminuição de custos resultante da digitalização e o posterior aumento da experimentação e o potencial de criação (além de compartilhamento e desenvolvimento) ao não se guiar por interesses comerciais mas sim por motivações intrínsecas que compartilhamos com diferentes indivíduos. Abaixo, uma seleção de trechos do livro que ajudam a entender o que Shirky propõe. Quem se interessar, também pode ler o primeiro capítulo, "Gim, televisão e excedente cognitivo", no site da Zahar.

"É mais fácil lidar com a escassez do que com a abundância, porque, quando algo se torna raro, nós simplesmente acreditamos que é mais valioso do que era antes, uma mudança conceitualmente fácil. A abundância é diferente: seu advento significa que podemos começar a tratar coisas que antes eram valiosas como se fossem baratas o bastante para desperdiçar, o que significa baratas o bastante para fazer experiências com ela. Como a abundância é capaz de eliminar os valores de custo-benefício aos quais estamos acostumados, ela pode desorientar as pessoas que cresceram com escassez. Quando um recurso é escasso, as pessoas que o gerenciam normalmente o consideram valioso em si mesmo, sem parar para avaliar quanto do seu valor está condicionado à sua escassez."

"O material de baixa qualidade que surge com a liberdade crescente acompanha a experimentação que cria o que acabaremos apreciando. Isso foi verdade na tipografia do século XV, e é verdade na mídia social de hoje. Em comparação com a escassez de uma era anterior, a abundância acarreta uma rápida queda da qualidade média, mas com o tempo a experimentação traz resultados, a diversidade expande os limites do possível, e o melhor trabalho se torna melhor do que o que havia antes. Depois da tipografia, publicar passou a ter maior importância porque a expansão dos textos literários, culturais e científicos beneficiou a sociedade, mesmo que tenha sido acompanhada por um monte de lixo."

"... a maneira como colocamos nossos talentos coletivos para funcionar é uma questão social, e não apenas individual. Como precisamos nos coordenar mutuamente para extrair algo de nosso tempo e talentos compartilhados, usar o excedente cognitivo não é apenas acumular preferências individuais. A cultura dos diversos grupos de usuários tem grande importância para o que eles esperam uns dos outros e para o modo como trabalham juntos. A cultura, por sua vez, é o que determina quanto do valor que extraímos do excedente cognitivo é apenas coletivo (apreciado pelos participantes, mas não muito útil para a sociedade como um todo) e quanto dele é cívico."

"O excedente cognitivo, recém-criado a partir de ilhas de tempo e talento anteriormente desconectadas, é apenas matérias-prima. Para extrair dele algum valor, precisamos fazer com que tenha significado ou realize algo. Nós, coletivamente, não somos apenas a fonte do excedente; somos também quem determina seu uso, por nossa participação e pelas coisas que esperamos uns dos outros quando nos envolvemos em nossa conectividade." 

"A antiga visão de rede como um espaço separado, um ciberespaço desvinculado do mundo real, foi um acaso na história. Na época em que a população online era pequena, a maioria das pessoas que você conhecia na vida diária não fazia parte dela. Agora que computadores e telefones cada vez mais computadorizados foram amplamente adotados, toda a noção de ciberespaço está começando a desaparecer. Nossas ferramentas de mídia social não são uma alternativa para a vida real, são parte dela. E, sobretudo, tornam-se cada vez mais os instrumentos coordenadores de eventos no mundo físico."

"O que importa agora não são as novas capacidades que temos, mas como transformamos essas capacidades, tanto técnicas quanto sociais, em oportunidades. A pergunta que agora enfrentamos, todos nós que temos acesso aos novos modos de compartilhamento, é o que vamos fazer com essas oportunidades. A pergunta será respondida muito mais decisivamente pelas oportunidades que fornecermos uns para os outros e pela cultura dos grupos que formamos do que por qualquer tecnologia em particular."

E aqui está o registro da palestra que Shirky deu sobre excedente cognitivo e seu livro no seminário "A Sociedade em rede e a economia criativa", realizado em São Paulo, em 2011. O áudio está ruim porque a tradução em tempo real está sobreposta à voz de Shirky, mas dá para entender (com certa dificuldade).

13 de maio de 2012

Cobertura do festival Bananada 2012

White Denim no Festival Bananada
Procurando um lugar onde pudéssemos comprar cerveja às três da madrugada no centro de Goiânia, encontramos, próximo a um puteiro no qual alguns policiais acabavam de entrar, um boteco aberto. Na porta, junto a mendigos e crackeiros, sujeitos cabeludos com camisas de bandas de heavy metal. Dentro do bar, alguma banda de hard rock tocava alto. Em Goiânia, até os bares risca-faca são rock'n'roll.

Goiânia é uma cidade cheia de hipsters e roqueiros. Ao menos essa é a impressão ao ficar três dias por lá, acompanhando parte da programação do festival Bananada. Celeiro de bandas importantes na cena de rock alternativo nacional, como MQN e Black Drawing Chalks, a cidade parece ter uma vida noturna movimentada na qual a modernidade hipster se encontra com a tradição do rock. O visual das pessoas diz muito à respeito. Basta observar o público ou mesmo membros de bandas locais com som mais "ortodoxo", como o Black Drawing Chalks: complementando o tradicional visual rocker (muitas tatuagens, camisa preta de banda, jeans rasgado), o baterista da banda usa óculos coloridos e tênis verde-fluorescente. Os tênis, aliás, são um espetáculo à parte na cidade. Em cada boate, pub ou show, pin-ups e metaleiros estão calçados com tênis coloridos que parecem parte do figurino de algum filme ou clipe oitentista.

Isso se reflete na programação do Bananada. Ele não se rende às simples tendências musicais do momento, mas abrange diversas vertentes do rock, das mais pesadas às experimentais e psicodélicas. Feito no esquema "Quanto vale o show?", no qual cada pessoa paga o valor que quiser para entrar (contato que seja com uma nota), os dois dias principais do festival ficaram lotados e com um público atento aos shows. Realizado no bonito Centro Cultural da Universidade Federal de Goiás, o Bananada é o exemplo de festival de médio porte bem feito: som excepcional, entrada com preço acessível (nesse caso, ao extremo), boas bandas na programação e sem excesso de atrações por dia.

Estive na cidade ao lado do Luciano Viana e da Carou Araújo, ambos artistas/produtores/agitadores-culturais com os quais tenho projetos em desenvolvimento. Combinamos uma cobertura coletiva do festival na qual não influenciássemos uns aos outros. Isso significou assistir a todos os shows sem comentarmos entre nós sobre nenhum aspecto musical de cada apresentação (o que se mostrou extremamente difícil, mas acabou sendo positivo para nos forçar a conversar com outras pessoas, rs).

Os dois não economizaram nas palavras, portanto, decidi abrir mão dos meus próprios comentários sobre os shows e fazer apenas esta (nem tão breve) introdução. As fotos que ilustram a publicação são do Luciano (as fotos boas e sem efeitos) e minhas (as fotos cheias de efeitos, feitas no celular).

Ok, não vou resistir e apenas listar meus cinco shows favoritos, em ordem, no Bananada 2012:
Black Drawing Chalks
White Denim
Macaco Bong
Forgotten Boys
Cambriana / Red Boots / Aeromoças e Tenistas Russas (empate técnico)

Ah, só alguns comentários (não resisti de novo):
1. Quanta mulher bonita em Goiânia!
2. Os caras do White Denim são super simpáticos e acharam o show de Goiânia o melhor que fizeram no Brasil. Eles foram alguns dos que estavam na festinha pós-festival que fizemos no nosso quarto no hotel e que também tinha membros do Macaco Bong, Aeromoças e Tenistas Russas, Talma & Gadelha, Calistoga, Forgotten Boys e o pessoal da revista Vice.



Carou Araújo

Sábado 5/5/2012 
Depois de vivenciarmos (eu e Luciano) Conexão Aeroporto às 4 da manhã; avião trash; hotel errado; cochilo de leve; ensaio de uma banda que não conhecíamos; o último dia de Movida; os shows de encerramento do evento com as bandas Gloom e Hellbenders; e uma noite de sexta-feira com muita guitarra distorcida, algumas cervejas numa das casas mais legais de Goiânia Rock City (o Diablo Pub), fomos dormir, nós, correspondentes, em nosso lindo quarto de hotel de 3 camas.

Marcelo Santiago (o dono deste blog que invadimos momentaneamente e ocupante da terceira cama) havia chegado em um vôo da madrugada e dormia profundamente na cama ao lado. Nada sabia dessas experiências malucas ou do que se passara comigo e Luciano para chegarmos até ali. Ri sozinha pensando nas peripércias do dia anterior.

Acordei os dois no limiar entre o atraso e a pontualidade. Partimos para o almoço e logo em seguida para o Centro Cultural da UFG para o primeiro dia de shows no palco principal do festival Bananada. Esperamos o início dos shows com uma certa ansiedade do que viria pela frente em dois dias com 14 bandas diferentes para assistir.

Iniciados os trabalhos - primeira cerveja, primeiro show.

16h23
Sobe a primeira banda ao palco: Coletivo Musical, uns garotinhos de vinte e poucos anos de Goiânia, bem talentosos. Letras bem feitas, apesar dos arranjos ainda necessitarem de um pouco de lapidação. Mas vale pelo risco da experimentação, meio samba, meio baião, meio rockinho, com umas programações eletrônicas. Destaque especial para a vocalista, Bruna Mendez. Consciente da voz que tem, desenvolveu formas interessantes de explorá-la. Fim do primeiro show, nos reunimos e não podíamos comentar pelo combinado de cada um escrever sua própria visão do festival, sem influências dos coleguinhas. Ok, falemos então da Carolina Dieckmann (nota do editor: delícia!).

17h22
Segunda cerveza, segunda banda.
Cambriana. Várias pessoas ao meu redor ansiosas e curiosas pelo show. Pois bem: indiezinho meloso, com aquelas influências clássicas que todo mundo vive citando - The National e companhia limitada. Show bom, muitos instrumentos, multiinstrumentistas, programações eletrônicas etc. Tudo o que a molecada anda experimentando no Brasil por esses dias, mas que já foi usados até a exaustão pelas tais  referências há alguns anos. Nada de novo, mas bem feito.

18h11
Já na terceira cerveja e alegre por finalmente assistir o show dos queridos Talma & Gadelha, de Natal (RN). No dia anterior, eu e Luciano fomos convidados a assistir um ensaio deles com a substituta da guitarrista (Cris Botarelli) que está em uma viagem pelo mundo afora. E veja bem quem seria a escolhida: Niela Moura, a presença feminina que ocupa as guitarras e voz no meio daqueles marmanjos da Gloom. Esbanjando uma simpatia que só o pessoal de Natal tem, Luiz Gadelha convidou todo mundo pra dançar e até indicou as músicas mais românticas pra garantir o clima de paquera dentre o público que se mostrava bem jovem e interessado no show.

19h08
Um churrasquinho de filé miau pra recarregar as energias e pronto, bora pro quarto show da noite: Riverbreeze, também de Goiânia. Uma banda que se parece um pouco mais com o peso tradicional das bandas da cidade, apesar de ter influências claras das bandas indie gringas que surgiram de 2000 pra frente. Animadinho. As garotas gostaram, mas também não me pareceu nada de mais.

20h10
Uma comoção coletiva se iniciou na frente do palco. Ia começar o show do Macaco Bong, o trio instrumental que faz o chão tremer por onde passa. Mas dessa vez com um diferencial, primeiro show na cidade com o novo baixista, Gabriel Murilo. O som continua visceral e pesado, as linhas de guitarra  hipnóticas levam o público ao delírio logo nos primeiros acordes. Taí um show preciso, denso, alucinante. Perdi minha quinta ficha de cerveja no meio da confusão toda, mas nem deu tempo de me chatear, já ia começar o próximo show.

21h37
O show mais esperado da noite pra mim: Diego de Moraes, goiano inquieto que deixa suas críticas poéticas por onde passa. Meio Raul Seixas, meio Arnaldo Baptista, meio Sérgio Sampaio, completamente Diego. Faz de tudo pra tentar fazer com que todos entendam o que diz e escutem o que tem a dizer, hora suave, hora aos berros, pula, cai no chão, deita e rola! Catarse!
Em seu show, fez uma participação de improviso o grande mestre Jards Macalé com a música "Soluços" (composta por Jards quando tinha 15 anos), ensaiada com a banda duas horas antes do show e executada com a emoção que só duas almas inquietas são capazes de ter. Emocionante.

22h44
Sobe ao palco com seu violão e um sorriso meio tímido, Jards Macalé. Depois das guitarras, contrabaixos, baterias e distorções das bandas anteriores, o público se aquietou em uma contemplação da beleza, delicadeza e sabedoria que só um verdadeiro mestre sabe proporcionar. Cantou grandes sucessos como "Mal secreto", "Anjo exterminado" e "Farinha do desprezo". Nos mandou para casa de almas lavadas e espírito tranqüilo.

Claro que não fomos exatamente pra casa, mas essa é outra história, pra mesas de bar.

Domingo 6/5/2012
Mais uma vez não acordamos muito cedo, mas foi tempo o suficiente pra tomar banho com calma e ir comer antes de pegar a van pra UFG. Já no restaurante, encontramos os amigos Aeromoças e Tenistas Russas junto com os Macaco Bong numa mesa de almoço que dava gosto de ver. Neste momento deu pra perceber que o dia prometia absurdos! Pois bem, comecemos.

16h33
Primeiro show do dia, ainda na água!

Sobe ao palco a banda instrumental Dom Casamata, power trio, com pouco efeito visual, porém com algumas peculiaridades sonoras interessantes. Suas músicas vão do groove mais suingado à psicodelia guitarrística marcada pelos vários pedais espaciais. Destaque para o trompetista misterioso e tatuado que fez participação na melhor música do show!

Trompetista (que também é um skatista elogiado na cidade) convidado do Dom Casamata
17h13
Hora de pegar a primeira cerveja do dia e rebater o que quer que tivesse me batendo.
Começa o show dos Red Boots, duplinha danada de Mossoró (RN) que saiu direto do projeto incubadora do DoSol (que também lançou o Talma&Gadellha ano passado) para o Bananada, com um single na mão e muita loucura na cabeça. Guitarra, guitarra e mais guitarra, e claro, MUITO drive! Pesado, sujo, barulhento. E só. Hora da segunda cerveja pra refrescar o dia quente.

18h07
Os grandes amigos e parceiros Aeromoças e Tenistas Russas começam o show, soltam o sample e…. cadê o baterista? De repente eis que surge subindo as escadinhas do palco Dudu, ainda ajeitando suas munhequeiras, o único da banda realmente tenista! Rs. Logo na segunda música, Juliano (contrabaixo) convida o público pra chegar mais perto pra dançar. Foi batata! Logo a multidão já estava completamente hipnotizada pelo som. Destaque sempre para o sax, com linhas deliciosas, e, claro, lembrando sempre de creditar os samples de Jovem Palerosi que disparados com destreza por Gustavo Hoolis dão um tom especial pra músicas. Show quente!

19h01
Começa o show do Violins, o verdadeiro indiezinho brasileiro. Show morninho, sem muita novidade. Agrada as meninas e os meninos. Há quem goste bastante, mas não faz muita coisa comigo. Porém há de se reconhecer que as letras são boas. Terceira cerveja pra preparar para o próximo show.

Forgotten Boys

20h07
Sobem ao palco os Forgotten Boys. Depois de uns três anos sem ver show da banda, com uma formação completamente diferente da que estava em minha memória, escuto embasbacada um Forgotten Boys bem mais pop, com teclados e sem ninguém dando muito pala em cima do palco por conta das drogas. Será que o rock'n'roll morreu? Piadas à parte, o show foi bem impressionante. Aliás, tirou a sensação ruim que eu tinha do último show que me lembrava da banda. Os caras estão bem fincados e cheios de vontade de tocar e realmente fazer um show de verdade. Bem quente! Não à toa, moshs e mais moshs se formaram tornando quase impossível (para quem não queria participar deles) ver o show de perto. Mas escutava-se muito bem.

Pausa para o banheiro, um engasga lobo rápido e uma cerveja porque já estavam subindo ao palco os Black Drawing Chalks (nessa hora, meus queridos, eu até esqueci que tinha que olhar no relógio). Os caras mostraram a que vieram fazendo um show matador em casa, deixando claro o orgulho de ser goiano e circular pelo Brasil carregando essa bandeira. O público foi ao delírio mais absoluto que poderia, compreensivamente. Me devolveram o rock'n'roll que eu achei que tinha perdido, com muita energia, cabelos balançando pra lá e pra cá, suor e alegria. Já anunciando o lançamento do próximo trabalho da banda, tocaram músicas novas e o público foi à loucura. Show PELANDO!

E quando eu pensava que não haveria de acontecer mais nada surpreendente naquela noite sobem ao palco os texanos do White Denim, nome nada sonoro ou atraente (ao meu ver), ao contrário do som que era arrebatador. Uma mistura dos idos 70's de Led Zeppelin, com a modernidade dos indiezinhos Arctic Monkeys. James Petralli, o vocalista e guitarrista de uma habilidade vocal única, brincando fazia o pátio da UFG tremer deixando todo mundo de queixo caído com a apresentação. O segundo guitarrista, Austin Jenkins, tocava como se não houvesse amanhã, com um sorriso gigante o tempo inteiro na cara, como se estivesse fazendo a melhor coisa do mundo - e de fato estava. O baixista de aparência hipster, Steven Terebecki, enganou todo mundo com sua carinha de menino tímido: suas linhas de baixo tinham uma presença insana naquela miscelânea maluca texana. Alucinante. No final dava pra perguntar se alguém anotou a placa do trator que atropelou todo mundo naquele pátio da Universidade Federal de Goiás.

E o resto? É história de bastidor. Acontece em Goiânia, fica em Goiânia. Rá!

Luciano Viana

Cheguei na sexta-feira na querida Goiânia para acompanhar mais uma edição do Bananada, festival comandado pela Construtora Música e Cultura. Sempre bom voltar aquela cidade, pois como disse o próprio amigo Marcelo Santiago, "Goiânia é uma cidade em que até os butecos risca-faca tocam rock", o que não deixa de ser uma verdade dessa que é realmente uma das cidades mais rock do país. E no meu primeiro dia de festival, isso já foi mostrado logo de cara, com uma apresentação incendiária do Hellbenders (GO) na UFG, local que pela primeira vez recebeu o festival. Deu pra entender porque eles já dividem pau a pau as estampas de camisas na cidade com o Black Drawing Chalks. Deu vontade de ter chegado antes e pegar a apresentação deles numa das casas de show que compunham a programação do festival pra ver esse show em um lugar mais fervido. Mas fui contemplado pela programação pós-UFG, na Diablo, uma casa de estrutura bem legal, com os shows do Dry e Overfuzz, que continuaram mantendo o decibelímetro nas alturas com muito drive. No meio desses tapas no ouvido, ainda na UFG, teve espaço pro show do Gloom (GO), que tirou um pouco dos drives dos ouvidos mas manteve o nível lá no alto. O Gloom é uma banda que vem dando passos largos rumo a sua maturidade musical, o que ficou evidente durante um show onde os ritmos e arranjos são cada vez mais plurais, mas com uma assinatura estética bem pessoal da banda. É som certeiro pra qualquer festa.

No sábado, já com a programação totalmente voltado pra UFG, o festival teve início com o Coletivo Musical (GO), que segundo pesquisa com alguns amigos locais, trata-se de uma novidade da cena. E não é rock garageiro. A vocalista Bruna comandou com bastante competência e uma bela voz um desfile de sons que passaram por samba, indie rock e pop, direcionados pelas melodias vocais de bastante bom gosto. Deu inclusive pra ver já alguns na plateia cantando algumas músicas timidamente. A pluralidade estética do festival já deu as caras logo no início.

Na sequência, os competentes e simpáticos Talma & Gadelha (RN), acompanhados pela guitarrista/vocalista Niela (Gloom), mostraram seu trabalho que vem irradiando boas repercussões Brasil afora. Música pop certeira, algumas com letras de assimilação imediata e uma boa presença de guitarras. As três primeiras músicas do show ficaram ressonando na minha cabeça por boa parte da noite. 


O público já era bom e a tarde ainda não tinha caído. O Cambriana (GO), uma das bandas que mais queria ver, sobe ao palco. Depois das boas críticas geradas pelas redes sociais sobre o álbum de estreia da banda, um disco de inspirações "deathcabianas", faltava ver uma apresentação ao vivo para meter um carimbo de "aprovado 100%". A banda já tem um público que vibra a cada introdução das músicas preferidas, e olha que tem pouco tempo que a banda despejou na internet seu álbum de estreia. 
O show foi total linkado com o que a banda apresenta em seu registro sonoro oficial, e uma versão de "All Apologies" do Nirvana, que bateu na trave. Se tivesse pouco menos drive nas guitarras, cairia melhor na identidade da banda. Carimbei então um "aprovado", porém, com um asterisco de "com ressalvas", pois acho que a banda ainda pode e deve ganhar mais desenvoltura com o palco, com o público e com o feeling de suas próprias músicas. Mas acho que é somente questão de tempo e estrada para a banda encaixar todas essas peças nos seus lugares e ganhar cada vez mais espaço. Merecidamente, pois fazem um belo trabalho.

O também de casa do Riverbreeze (GO), foi a próxima atração, e botaram pra funcionar os primeiros elementos de pegada mais rock da noite, na vibe indie-rock-Arctic-Monkeys-das-antigas, com alguns bons arranjos de guitarras. Eis aí o teaser pro que viria na sequência.

Público durante show do Macaco Bong
Macaco Bong (MT), estreando nova formação e novas músicas em Goiânia, fez a lotada UFG ir a baixo. O público em total sintonia com a banda, parecia já conhecer as novas músicas de longa data, se entregando totalmente em cada riff, cada acorde, aplaudindo entre algumas passagens espontaneamente e com olhos vidrados no palco. E essa energia parece ter sido transmitida totalmente aos 3 caras lá em cima, e o Macaco Bong fez um dos melhores shows que vi dos caras nesses últimos tempos, e olha que tenho visto muitos. O clássico "Amendoim" e o final apoteótico com a novata "Dedo de Zombie" foram momentos dignos de serem registrados. Espero que alguém o tenha feito. Acho que todo cartaz de show dos caras deveria vir agora como Macaco Bong (MT) (MG) (GO), pois Goiânia é definitivamente uma das casas da banda.

Infelizmente perdi parte do show do Diego de Moraes (GO) para poder comer algo e continuar parando em pé, mas consegui ver alguns momentos com sua tradicional presença de palco maluca, totalmente condizente com o seu trabalho, e o emocionante encontro com Jards Macalé, que teve direito a escorregão do Diego e da banda esquecendo a letra e tendo que recomeçar a música, mas que não tirou o sentimento de emoção da participação. Mas foi por pouco.

E encerrando a noite, o impagável Jards Macalé (RJ), fazendo um show de voz e violão, de clima totalmente descontraído, montando seu set list instantaneamente através de sugestões de uma plateia que mesclou gerações. E para conseguir fechar um festival numa cidade do rock como Goiânia, num formato banquinho e violão, com o público pedindo bis e interagindo total com o show, é realmente para figuras como Jards Macalé.

O último dia de festival já dá uma cara mais "Goiânia Rock City". Trabalhos iniciados pelo instrumental rock do Dom Casamata (GO), que às vezes também é funk, às vezes é blues, às vezes tem coloridos do jazz.

A primeira boa surpresa do dia veio com a dupla do Red Boots (RN), diretamente de Mossoró. Baterista e guitarrista/vocalista a serviço de stoner rock, de riffs lotados de distorção, versos em inglês embriagados de cerveja, com uma presença de palco visceral. Em algumas músicas ainda se sente falta de um preenchimento maior, o que em outras se tem de sobra, mas é uma banda que tem muito o que mostrar por aí. Identificação imediata do público goiano.

Aeromoças e Tenistas Russas
Outra banda instrumental vem na sequência (a terceira do festival), que é o Aeromoças e Tenistas Russas, que vem em uma ótima fase, e circulando com a tour do seu "Kadmirra" por boa parte do Brasil, o que claramente está os munindo com uma coesão musical das boas em cima do palco. É impressionante o quanto a banda evoluiu nesse último ano, passando de mais uma das promessas do bom momento da música instrumental brasileira, para já ser uma realidade e referência para outras que estão vindo por aí. E essa ótima fase foi recebida de braços abertos pelo público, que vibrava em algumas das notas soltadas pelo saxofone de Thiago Hard ou esboçava movimentos tímidos pré-dança em alguns grooves conduzidos na cozinha da banda.

Violins (GO) foi a próxima atração, e com o vocalista/guitarrista Beto Cupertino empunhando novamente uma Les Paul, a banda volta a ter mais peso. Abriram o show também com uma das músicas mais pesadas da banda, "Do Tempo", com boa parte do peso ganho no bom trabalho da sonorização do festival, que botou o PA com uma pressão das boas e um dos melhores sons do line desse dia. O restante do show foi conduzido basicamente no repertório do último disco "Direito de Ser Nada", com algumas pinceladas aqui e ali de outras lembranças da ampla discografia da banda, todas as fases tendo a voz de Beto acompanhada por um bom coro da plateia. Fiquei na expectativa de talvez ouvir alguma composição inédita da banda, pra ver pra qual caminho sonoro a banda está rumando atualmente, mas ficou pra próxima. Aguardemos.

Forgotten Boys (SP), que há pouco tempo atrás teria o show aberto pelo Black Drawing Chalks, teve que suar pra abrir o show dos goianos em casa e manter o bom nível roqueiro da noite, mas conseguiram manter o público pra cima, trabalhando principalmente em cima dos clichês que lhes são pertinentes. Uma banda que não tem muitos segredos, mas que faz bem o básico que se propõe.

Nada básico foi o rolo compressor do Black Drawing Chalks (GO), que veio na sequência, jogando em casa, exorcizando os demônios do público sedento pelos bons riffs sujos que a banda sabe fazer com extrema competência. Foi o segundo show que vi dos caras em Goiânia, e é massa perceber o quanto os caras vem crescendo e firmando cada vez mais o pé como uma das melhores bandas do rock do país, o que orgulha com certeza todo aquele público que acompanhou insanamente o show do começo ao fim. No meio do percurso do show, algumas músicas do novo disco que sai provavelmente no mês que vem, e mostra a banda trabalhando outros elementos em sua sonoridade, principalmente na rítmica. 


Pra fechar o Bananada 2012, os gringos do line up: White Denim (EUA). Não conhecia quase nada da banda até ver seu nome na escalação do festival e decidi não pesquisar muito e deixar para ter a surpresa na hora do show. E que surpresa. Quatro indivíduos no palco fazendo um som altamente competente, cravado, tecnicamente perfeito e com um feeling de te fazer arrepiar até o cabelo da sobrancelha. Uma mistura louca de math rock, indie, psicodélico, noise, que transitava pra mim entre referências como Faraquet, Medications e Battles. Estava acontecendo ali um dos melhores espetáculos musicais que já presenciei. Olhava ao lado e via o mesmo queixo caído entre vários presentes no público, enquanto alguns se conformavam em somente bater a cabeça e outros cutucavam o ouvido com o dedo, já que realmente o PA estava um pouco além do limite, estourando a cabeça. Já me imaginava com o ouvido zumbindo dois dias seguidos depois daquele show, mas preferi não me importar com isso no momento pra não perder nenhum detalhe do show. Um show memorável e pelo que andei colhendo de depoimentos logo após o encerramento, parece que não foi só pra mim.

O fim de festival ainda contou com as tradicionais ida no "Vai toma no Kuka" com o tradicional pastel A4 e cerveja gelada, e o quarto 30 do hotel Rio Vermelho recebendo mais cerveja, músicos amigos, músicos não-amigos e a gringaiada gente boa até o amanhecer.

Goiânia, até breve. Assim espero.

13 de fevereiro de 2012

Festival Digitalia, por Frederico Augusto

O Meio Desligado também possui espaço aberto para a colaboração, como a que você lê abaixo. O Frederico Augusto é estudante de comunicação em Belo Horizonte e esteve em Salvador/BA, para participar do Festival Digitalia, que aconteceu entre os dias 1 e 4 de Fevereiro.

Amanhece em Salvador, em meio ao motim da polícia baiana, e com o calor típico do nordeste brasileiro começa o nosso trajeto rumo ao Digitalia, congresso/festival de música e cultura digital que propõe discutir as iniciativas relacionadas à música, novas tecnologias da informação e comunicação. Ao sair pelas ruas de Salvador e ouvir ao fundo as sonoridades típicas da cidade, olho para o lado e vejo a escola do Olodum; mais a frente, o Museu da Música e, na esquina, uma loja de discos.

Ao passar na escola do Olodum se percebe um som intenso, alegre e provocante. Crianças surgem à porta com anseio de experimentar e descobrir sons onde somente ali local seria possível, saindo assim da margem da sociedade e podendo ser reconhecidos como artistas. Daí surge a primeira lição do Digitalia: a busca de um grande palco, aberto a experimentações, sonoridades que possam ser compartilhadas a todos. Este grande palco é o ambiente digital, não sendo apenas a web, mas também aplicativos e demais formas de nos conectar e criar vínculos através de redes sociais e outras plataformas de comunicação. A troca de experiências proporcionadas a partir de cada som, bit e compactação.

A poucos metros vejo o Museu da Música. Ao entrar, um detalhe curioso. Nas escadarias que levam até o local há uma linha do tempo da música, onde encontramos os mais diversos artistas que de alguma forma contribuíram para a história da nossa música. Observando esta linha do tempo aprendo a segunda lição do Digitalia: em um ambiente digital estamos em uma linha atemporal, em que todos os artistas estão conectados a links, nós, combinações binárias e preferências. Tudo está disponível e catalogado bastando apenas clicks; com softwares montamos a nossa própria linha do tempo, criando novas formas de apreensão da cultura. Através de tecnologias livres temos a possibilidade de compartilhar linhas e criar estações de música e cultura, criando uma produção colaborativa em um espaço de experimentação.

Um dos trabalhos apresentados no Digitalia

Depois de viajar nas linhas do tempo me deparo a uma loja de música, por fora muito simples, porém ao adentrá-la vejo o poço cultural no qual entrei. O seu acervo é composto de LP’s raros, diversos CD’s, tanto de artistas já consagrados quanto artistas independentes. E em meio a isso e a livros de auto-ajuda e economia, entre outros, me deparo com um PC. E nele estava aberto o iTunes, onde tocava Baden Powell e sua discografia estava disponível. Terceira lição do Digitalia: o acervo musical está disponível a todos, basta apenas uma pesquisa. A música online está no ar, como os sons de Salvador, em vários formatos e aplicativos. Temos a possibilidade de distribuir, trocar, experimentar acervos e montar nossas lojas musicais. Em poucos passos se percorre o trajeto da música, do vinil ao MP3, tudo disponível em um mesmo ambiente. A economia da música está ligada à cultura digital. Uma nova filosofia se cria em meio a turbulência da economia mundial. Uma economia pautada na troca e na descentralização. Onde a produção é compartilhada e distribuída por todos e para todos.

A experiência do Digitalia nos apresenta o grande campo da cultura digital e onde a música se insere. Seja nos negócios, na tecnologia, na comunicação, na arte ou na educação, o ambiente digital afeta nossas vidas de alguma forma, reduzindo espaços e criando links que aproximam as experiências e o cotidiano de cada individuo. O festival apresentou diversos artigos com temas relacionados aos temas propostos, performaces ao vivo de DJs, VJ’s e de Criolo (o artista mais comentado do ano que se passou, além de palestras e debates com diversos nomes da cultura e da música, como Gilberto Gil.


Ao voltar para casa, repensando os modos que nos afetam o cotidiano, vejo, para minha surpresa, o jovem rapaz da loja de música, que nas horas vagas é DJ. Mais um encontro que é possível em ambientes digitais, com troca de papeis e experiências. Basta se conectar.

30 de janeiro de 2012

Colaborativismo é motor da inteligência coletiva

(Artigo que publiquei na Revista Eletronika)


Com apoio de ferramentas gratuitas e uma gestão compartilhada e transparente, células culturais se alastram pelo país e fortalecem produção independente


Base da chamada web 2.0, a criação colaborativa encontrou na internet ferramentas propícias para sua expansão. Sem se deter a limitações temporais, geográficas ou de matéria-prima, o meio digital permite diferentes formas de interação e de produção intelectual de forma coletiva. Iniciativas como Wikipedia, blogs coletivos, softwares (e até mesmo hardwares) de código livre são resultados de ações executadas a partir da interação entre diversas pessoas na internet.

As possibilidades de produção de conteúdo de forma colaborativa através da internet dividem-se pelas mais diversas áreas, das pesquisas científicas ao entretenimento, porém comungam um mesmo elemento, crucial para a existência de qualquer ação colaborativa no ambiente digital: a utilização de ferramentas de produção e compartilhamento de conteúdo na web.

Essas ferramentas dividem-se em grupos de acordo com suas funções primordiais (como publicação de blogs, armazenamento de arquivos, trocas de mensagens instantâneas, transmissão de vídeos, publicação de fotos e vídeos etc), tendo em comum o fato de permitirem a interação de grupos geograficamente dispersos de forma não-linear e atemporal (uma vez que não é necessário que todos os interagentes estejam conectados simultaneamente para que a produção ocorra).


Projetos colaborativos são cada vez mais comuns nas artes e rompem com as tradicionais divisões entre autor e público. Em alguns casos, mantêm um estado constante de co-autoria como parte do processo de existência da própria obra.

Através de uma visão mais ampla do setor cultural, focada não apenas na criação artística mas em outras etapas da cadeia produtiva, a produção colaborativa na internet tem permitido maior fluxo de conhecimento e potencialização de atividades na produção cultural.

Ferramentas gratuitas e de uso cotidiano, como Google Docs, Wordpress e Youtube, transformam-se em instrumentos de construção coletiva de conhecimentos aplicados à produção cultural e integram grandes processos abertos à participação.

Diferentemente dos nichos tecnológicos das comunidades de usuários de softwares livres, a familiaridade do público com as ferramentas de acesso livre mobiliza as pessoas e fomenta a continuidade da ação cultural.

Na opinião de Décio Coutinho, diretor da AGEPEL (correspondente à Secretaria de Cultura do Estado de Goiás) e ex-coordenador nacional de cultura do Sebrae, elas são responsáveis por "facilitar e estimular a participação social, sendo potencializadoras de fruição, acesso e, por consequência, de processos de construção de inteligência coletiva".

Inteligência coletiva que, por exemplo, é a base de projetos como a Produtora Cultural Colaborativa e o Circuito Fora do Eixo. Formada em 2009, a Produtora Cultural Colaborativa mistura cultura, tecnologia e sustentabilidade em uma espécie de escola de livre troca de conhecimento envolvendo artistas, ativistas, comunicadores e demais interessados em tecnologia, arte e comunicação.


Já o Fora do Eixo talvez seja o melhor e mais consistente exemplo do uso de novas tecnologias para a produção cultural no Brasil. Constituído por mais de 80 coletivos em todo o Brasil, define-se como "uma rede colaborativa e descentralizada de trabalho, constituída por coletivos de cultura espalhados pelo Brasil, pautados nos princípios da economia solidária, do associativismo e do cooperativismo, da formação e intercâmbio entre redes sociais, da democratização quanto ao desenvolvimento, uso e compartilhamento de tecnologias livres aplicadas às expressões culturais e da sustentabilidade pautada no uso de tecnologias sociais". 

Algo que, resumidamente, pode ser descrito como um enorme grupo de pessoas trocando informações através de plataformas gratuitas na internet visando a transformação social através da cultura.

Um dos grandes diferenciais da experiência de produção do Fora do Eixo é o compartilhamento de todo o conhecimento e informações geradas durante o processo de produção (que acontece coletivamente e, majoritariamente, através da internet), permitindo que novos projetos se apropriem desses materiais em busca do desenvolvimento de ações mais elaboradas e com resultados potencializados.

Transparência nas ações e facilidade de acesso são pontos cruciais no desenvolvimento das atividades da rede, possíveis de serem realizadas nas mais distintas condições e dimensões graças à utilização de ferramentas que permitem a produção colaborativa de informações na internet de forma gratuita.

Enquanto no exterior parte das iniciativas colaborativas de produção cultural mais contundentes se basearam no esquema de finaciamento coletivo, tendo a participação externa executada na figura do investidor, experiências brasileiras como a do Fora do Eixo e da Produtora Cultural Colaborativa apostam em outros métodos. 

Como afirma Pablo Capilé, um dos gestores do Fora do Eixo, "não tem grana da iniciativa privada, não tem um mercado e o poder público não nos visualiza. A gente tem que empreender”.

O modelo de trabalho do Fora do Eixo inclui a sistematização online de todo o processo de produção de suas ações --que incluem milhares de shows anualmente, dezenas de festivais por todo o país e iniciativas de comunicação que se utilizam de diversas mídias, a maior parte através de ferramentas gratuitas e softwares livres.

O processo de planejamento é realizado coletivamente através de serviços online de bate-papo (como Gtalk, Skype e MSN, além do software livre Freenode) e posteriormente registrado em atas (publicadas via Wordpress, Blogger ou Google Docs) que podem ser acessadas por qualquer pessoa.

Até mesmo as planilhas dos projetos, com as informações financeiras de cada ação dos coletivos, são compartilhadas e disponibilizadas publicamente.

Nessa linha de atuação, o conhecimento construído de forma coletiva deve estar acessível a outras pessoas. A proposta se adequa às linhas de ação de ativistas digitais e do movimento de software livre, unindo vertentes técnicas e filosóficas a favor da produção cultural.

A partir do foco na colaboração entre indivíduos, demonstra-se o potencial de construção de conhecimento através da internet e de ferramentas gratuitas que possibilitem a interação, tornando a rede diversificada e com maiores possibilidades de construção de conhecimento de forma colaborativa, de acesso livre.

Algumas ferramentas da produção cultural 2.0
Google Apps Plataforma de aplicativos do Google, une ferramentas de trocas de mensagens como Gmail e Google Agenda e opções pensadas para viabilizar a criação colaborativa, como o Google Docs, Google Sites e Grupos do Google. Possui versão gratuita, educacional e para negócios. 
Viber Aplicativo para fazer chamadas e enviar mensagens de texto gratuitas através do celular. Não é preciso fazer login: o aplicativo usa o próprio número de telefone do usuário e identifica, a partir dos contatos salvos no telefone, as pessoas que também utilizam o Viber. É gratuito e possui versões para os sistemas operacionais Android e iOS.  
Wunderlist Para organizar e gerir tarefas a serem realizadas individual ou coletivamente, o Wunderlist é uma ótima opção. Disponivel para as plataformas iOS e Android, também poder ser instalado em desktops (Windows, Linux, Ubuntu e Mac). 
Hootsuite Ideal para a atualização de múltiplos perfis em redes sociais como Twitter, Facebook e Foursquare. Tem entre seus principais pontos positivos a possibilidade de agendar atualizações. 
Wetransfer A troca de arquivos é crucial para a criação colaborativa e existem dezenas de serviços para essa tarefa, mas provavelmente nenhum deles é tão bonito e prático quanto o Wetransfer, ideal para envio de arquivos grandes (de até 2GB) e que não precisam (ou não devem) ficar disponíveis por muito tempo - todos os arquivos são apagados dos servidores do Wetransfer duas semanas após seu envio. Não é necessário cadastro para sua utilização. 
Dropbox Ao contrário do imediatismo proposto pelo Wetransfer, o Dropbox é indicado para o compartilhamento de arquivos cujo uso será recorrente durante longos períodos. Compatível com Windows, Mac, Linux e plataformas móveis, o Dropbox salva automaticamente as alterações realizadas nos arquivos enviados às pastas do usuário, permitindo que todos que tenham acesso ao material utilizem os arquivos em suas versões mais recentes. Sua versão gratuita permite o envio de até 2GB de arquivos.

Referências na net

25 de dezembro de 2011

Por um FDE mais rancoroso e humano

O texto sobre o Fora do Eixo / Abrafin / Pernambuco que publiquei na semana passada rendeu uma série de comentários extremamente interessantes sobre o tema, mas um deles me chamou mais atenção que os demais. Seu diferencial é se tratar de uma opinião com a qual me identifico muito e que, apesar de aparentemente ser o oposto do que propus, complementa o que escrevi. 

De autoria do ser onipresente da internet, o famoso "anônimo", o texto propõe que o Fora do Eixo assuma mais os seus erros, que dê mais transparência inclusive aos sentimentos das pessoas que formam a rede FDE. Ou seja, que se humanize.

Parabéns ao autor. Abaixo, o texto publicado na caixa de comentários, na íntegra. A "carta de desculpas" a que ele se refere está no site da Casa Fora do Eixo, o vídeo com a polêmica fala do Capilé está no YouTube e a reclamação do "preguiçoso e birrento" China está no blog do artista.

Muito legal mesmo esse texto. De tudo que já saiu dessa história, incluindo aí a carta de desculpas escrito pelo parnasiano Olavo Bilac do FDE, esse texto com certeza foi o mais esclarecedor. 
Tentando colaborar mais pra discussão, tenho algumas considerações: 
- O FDE é foda. Se tem uma coisa que eles não fazem é mamar nas tetas do governo, editais, e etc. A galera trampa igual uns malucos, não estão ficando ricos, e trabalham em algo que realmente acreditam, com tesão. Só por causa disso, antes de qualquer um falar mal do movimento, procure saber mais sobre o assunto, conhecer, conversar com as pessoas; 
- apesar disso, o FDE tá virando um "chato". Explico. No facebook e no twitter, tá pior do que aquelas correntes de "ajude esse meninininho com essa doença". Todo mundo é feliz, tá tudo ok, tudo up. Você já viu alguém do FDE escrever no Facebook: "caralho, to estressado, to triste". Jamais. Parece que rola uma forçação de barra violenta, o que torna qualquer comentário de qualquer pessoa do FDE meio "falsa". Não que seja falsa de verdade, mas é tudo muito bom, tudo perfeito, todos os comentários são lindos. É claro, tem que haver uma auto-afirmação, mas quando é tudo assim, perde a graça e o valor. 
- Pablo Capilé mandou muito mal nas declarações. Fiquei até surpreso, pois o cara é uma das pessoas mais visionárias que eu já tive notícia. Aquela fala no vídeo sobre pernambuco, por mais fora de contexto que esteja, é horrível. Deletar o vídeo do canal do ustream foi coisa de Veja, Estadão. E a resposta no site da Casa FDE SP foi pior ainda. Longo, cansativo, não conectado com a linguagem da internet. O texto desse site é mil vezes melhor e nem pede desculpas. 
- Aquele texto do China falando mal do FDE pela enésima vez, também é horrível, pois replica as mesmas críticas de 5 anos atrás. O China, no fim das contas, é um preguiçoso birrento. O problema é que a fala do Capilé também foi preguiçosa e birrenta. Fez a mesma crítica a Pernambuco de 5 anos atrás, e pior, COM rancor. Aí fica difícil falar do pós-rancor.  
- falando em pós-rancor, esse história também já tá virando outra "chatisse". A gente viu, que o maior representante do FDE - sim, o Pablo é o grande representante FDE, e não "um dos gestores", me poupe Olavo - tem rancor, isso é claro. E não tem nada de errado com isso. As vezes, é bom ter rancor, faz crescer, e superar o rancor, é melhor ainda. 
- Essa história toda serviu pra mostrar o quanto o FDE tá grande, e o Pablo, já é uma pessoa pública. Vídeos paródia no Youtube, notícias e mais notícias, memes, comentários fervorosos. Falem mal, mas falem de mim... ops, do FDE. Praqueles que tão achando que isso é o fim do FDE, só peço pra vocês se informarem melhor, pois quem acha isso nem sabe direito o que é o FDE. 2 mil pessoas num congresso, não é pra qualquer um.
Enfim, por um FDE mais rancoroso e humano.

23 de março de 2011

Ferramentas de produção colaborativa na internet aplicadas à produção cultural

Um estudo de caso a partir da experiência do festival Grito Rock 

Aproveitando que hoje o festival Grito Rock chega a Nova York, achei propício finalmente publicar por aqui o artigo que escrevi (às pressas) para a conclusão da minha pós-graduação em Produção em mídias digitais, no qual analiso o processo de produção do evento. Esta foi uma das pesquisas que apresentei no final do ano passado no Fórum da Cultura Digital e que até então não estava disponível na internet.

Para saber mais sobre o Grito Rock 2011 sugiro a leitura deste texto e uma boa navegada pelo site oficial do festival. Abaixo, o pdf com o artigo completo está acessível para leitura e download e, na sequência, publico as duas primeiras partes do artigo.

Introdução

Entre janeiro e fevereiro de 2010, o festival musical Grito Rock foi realizado simultaneamente em 82 cidades (78 no Brasil, 4 em outros países da América do Sul: Argentina, Bolívia e Uruguai), envolvendo mais de 500 atrações musicais, cerca de 800 pessoas em sua produção e alcançando público estimado de 25.000 pessoas. A maioria dos shows teve seu áudio transmitido em tempo real através da internet e, posteriormente, foram lançados bootlegs (na maior parte dos casos), e coletivamente através da internet, unindo pessoas de diferentes regiões e que na maior parte dos casos sequer se conheciam pessoalmente.

Desenvolvido pela rede intitulada Fora do Eixo, o Grito Rock é exemplo da execução de um trabalho colaborativo em ambientes digitais através do uso de ferramentas de produção e distribuição de conteúdo com intuito de elaborar ações relacionadas a produção cultural (sendo que por “produção cultural” entenderemos todas as ações e etapas necessárias para a elaboração e execução de projetos e ações culturais). Seu processo de produção ocorre através da troca de informações entre os integrantes da rede Fora do Eixo na internet, baseando-se no uso de ferramentas gratuitas que possibilitem a criação e compartilhamento de conteúdo de forma não-linear e colaborativa.

Para se buscar entender e estudar possibilidades de ação no uso dessas ferramentas para diferentes projetos com fins culturais, através da atuação em rede, é necessário mais do que uma análise das funcionalidades ou características das ferramentas utilizadas. É preciso compreender o contexto em que são utilizadas, de que maneira isso ocorre, quais são os agentes envolvidos no processo e de que maneira estão conectados entre si. Para isso, o primeiro passo é entender o que chamamos de rede e em que se constitui a produção colaborativa em rede.

Redes sociais na internet

A figura de rede é utilizada como metáfora para ilustrar as relações sociais na sociedade moderna, podendo representar uma nova forma de organização social (Castells, 1999) e a dinâmica de funcionamento das novas técnicas de comunicação (França, 2000). Conforme escreve França, a metáfora da rede “permite interpretar a funcionamento da sociedade e traduzir a dinâmica dos processos comunicativos”, servindo para analisar a interconexão de elementos e processos comunicacionais que constituem a troca de informações e construção de sentido entre indivíduos.

Uma rede social pode ser definida como a junção de atores (pessoas ou grupos, agentes da ação, os nós da rede) e suas conexões (interações) (Wasserman e Faust, 1994; Degenne e Forse, 1999), ressaltando o caráter de reciprocidade entre os elementos que a constituem. Aplicadas ao meio digital, as redes sociais na internet constituem estruturas sociais através da utilização de ferramentas de comunicação mediada por computador, gerando fluxos de informação e trocas sociais, sendo definidas pelas conexões entre os indivíduos e a forma através da qual ocorre as trocas de informações entre eles (Recuero, 2009).

Em uma rede social na internet, um nó pode ser definido como um indivíduo em si ou por sua representação através de um produto resultante de sua atuação na internet, como um blog ou um perfil no Twitter (Recuero, 2009). Em alguns casos, no entanto, vários atores podem agir na construção de um mesmo nó, em ações como um blog coletivo.

21 de janeiro de 2011

WikiRebels, documentário sobre o Wikileaks

Lançado no fim de 2010, o documentário WikiRebels aborda a história recente do WikiLeaks, um dos maiores fenômenos políticos/comunicacionais mundiais, e de seu criador, Julian Assange, um dos mais influentes e "perigosos" homens vivos atualmente, segundo a mídia e governos preocupados com as informações divulgadas pelo site.

O caso do WikiLeaks está diretamente ligado ao que vivemos diariamente na área musical (não só nela, mas no setor cultural de forma ampla) com a facilidade de reprodução e distribuição de conteúdos digitais possibilitada pelas tecnologias modernas (conexões mais potentes, maiores capacidades de armazenamento digital a baixos custos, ferramentas de compartilhamento de arquivos, etc). Um dos fatores mais interessantes no WikiLeaks é observar como a tecnologia para fins ideológicos e políticos, destacando a importãncia da livre circulação de informação e do poder das ações colaborativas em rede.

O documentário foi produzido pela SVT, TV pública da Suécia, país com uma das leis mais abrangentes em relação aos direitos autorais e à livre circulação de informação.

Para conhecer mais sobre o WikiLeaks e sua importância duas sugestões são os especiais do jornal Folha de S. Paulo e da revista Veja sobre o tema (sério, não é piada, serve como introdução ao tema e não deixa de ser, de certa forma, contraditório, já que é justamente devido a veículos tendenciosos como os dois que o WikiLeaks passa a ser ainda mais importante). Outra dica é conferir o blog CartaCapital-WikiLeaks, parceria entre a revista CartaCapital e o WikiLeaks.


20 de outubro de 2010

Macaco Bong colaborativo

Fenomenal banda instrumental, a cuiabana Macaco Bong terá em breve seu primeiro DVD ao vivo lançado, cujas filmagens foram realizadas de forma colaborativa em show feito pelo trio no famoso Grande Teatro do Palácio das Artes, em Belo Horizonte.

Enquanto a edição é finalizada, segue abaixo um aperitivo do que vem por aí.



18 de outubro de 2010

Um recado deixado nos comentários: Documentário sobre música independente

Atenção MÚSICOS INDEPENDENTES, PRODUTORES e PÚBLICO EM GERAL:
Estamos produzindo um documentário de longa metragem sobre a música independente no Rio de Janeiro e no Brasil durante a primeira década do século XXI (2000-2010). Até mesmo por causa do tema do documentário, mas também pelo nosso baixo orçamento (o filme também é independente), resolvemos colher depoimentos pela internet, assim podendo ter contato com pessoas que estão a grandes distâncias e enriquecendo nosso produto final. Sendo assim, quem quiser participar do filme, seja uma banda, seja um apreciador da música independente, parentes e amigos de músicos independentes, qualquer um que quiser aparecer no filme e tiver boas músicas e/ou boas histórias pra contar será bem vindo. Para isso, eu só peço que mandem um e-mail para filosofiadeviola@gmail.com, manifestando o desejo de participar do filme. Até aí, só precisamos saber o nome das pessoas/bandas interessadas. Entramos em contato pra conversarmos mais.
Um abraço!
O Vazio

19 de junho de 2009

Uma banda no Parc

Danilo Schneider, da banda L.A.B, de Novo Hamburgo (RS), esteve no festival Coca-Cola Parc - Porto Alegre Rock City no início do mês e conta em breves palavras um pouco do que aconteceu por lá. É importante saber das experiências que as próprias bandas têm com eventos desse tipo.

Aproveite para ouvir a L.A.B, rock com sintetizadores e boas influências (Depeche Mode, LCD Soundsystem, New Order).

"Eu (Danilo) e Fernando (guita, L.A.B.) estivemos na sexta à tardinha em Porto Alegre participando de uma das palestras da série "Indústria Criativa", do festival Coca Cola Parc, com o produtor Carlos Eduardo Miranda, o músico Frank Jorge e o vice-presidente da Abrafin, Pablo Capilé.

Produtiva a palestra. Depoimentos e experiências compartilhadas muito interessantes de todas as partes. Poderia ter sido tão mais produtiva com maior duração da palestra. Muito curta. Os palestrantes só tiveram tempo de introduzir o assunto e a mediação interveio. Uma pena. Acabou sendo superficial. Poderia ter sido mais aprofundada. Enfim, participamos apenas desta.

Voltamos no sábado de noite à Porto para alguns shows. Escolhemos ver o Matt & Kim e Copacabana Club. Na real, ficamos sabendo depois que o No Age (considerado por muitos o melhor show do festival) tocara um pouco antes em outro lugar, teria dado tempo de ver e depois ir para o nosso show escolhido. Pra quem não sabe, na noite de sábado ocorreram shows em vários pontos da cidade. Quase tudo ao mesmo tempo!

De qualquer maneira, valeu muito ver o show da dupla novaiorquina, um show muito bem feito e animado. Uma aula mostrando o que é possível uma dupla fazer no palco, apenas com uma mina na bateria e um cara no synth e vocal.

Em seguida, entrou em cena o Copacabana Club, que nós também não tínhamos visto ainda. Excelente show. Alta qualidade, tanto da banda quanto a qualidade do som mesmo.

Então partimos para o Cabaret do Beco, onde ainda conseguimos pegar parte da discotecagem do Lucio Ribeiro (que encerrou com um Friendly Fires massa!), seguido do DJ set do trio Teenagers, que se apresentaria no domingo (mas apenas para o público de 12 a 18 anos permitidos no evento de sábado e domingo, uma lástima). Ainda vimos o Edu K, figuraça extremamante competente. Sonzera a discotecagem do cara. E fomos embora para Novo Hamburgo. Já era de manhã.

Como eu disse antes, nos dias seguintes ainda houveram vários shows, mas somente para menores. Então, ensaiamos no sábado até a madruga!"

31 de maio de 2009

A cena independente aposenta a TV


Para novas situações, novas ferramentas. É assim que os envolvidos na cena cultural alternativa e/ou independente (chame como quiser) têm atuado em todas as etapas da produção cultural, seja devido à falta de recursos financeiros ou à escolhas conceituais e práticas.

A realidade atual demonstra que a base de toda a movimentação é a internet e, consequentemente, é na rede virtual que surgem ações distintas dos modelos vigentes até então.

No caso da produção audiovisual, nem mesmo o famoso "uma câmera na mão e uma ideia na cabeça" faz mais tanto sentido. Mesmo sem ter câmeras filmadoras à disposição, muitas pessoas estão produzindo com seus celulares e suas câmeras fotográficas. Meu vídeo-instalação V-idiossincrasia e as coberturas jornalísticas realizadas pelo Fórceps são claros exemplos.

Os equipamentos para filmagem estão mais baratos, em alguns minutos é possível fazer o download (legal ou não) de programas de edição e tutoriais estão disponíveis na internet, permitindo que com algum interesse se possa produzir vídeos mesmo sem possuir grandes conhecimentos técnicos na área.

É um esquema de produção e veiculação totalmente conectado à lógica de produção independente, no qual os custos são baixos, o acesso é democrático e a transmissão é descentralizada (mesmo que a maioria dos vídeos estaja hospedada no YouTube, a possibilidade de utilizar os códigos de incorporação permite a circulação dos mesmos pela internet).

Nesse sistema a TV tradicional faz pouco sentido. O que está sendo feito não são produções para o público em massa e na maioria dos casos não tem fins comerciais. Ao invés de lutar por espaço em uma mídia antiga, marcada por restrições técnicas e comerciais, os agentes da cena cultural alternativa estabelecem um um novo discurso baseado na plataforma digital, criando não só um novo modelo de produção, mas também uma nova estética (uma mistura de escolha conceitual e das restrições técnicas).

Nos próximos meses, a partir das mudanças que estão sendo elaboradas para o Circuito Fora do Eixo, ocorrerá um considerável avanço na organização e divulgação do conteúdo produzido. As chamadas "webtvs" dos coletivos integrantes do Circuito Fora do Eixo serão integradas (seguindo uma linha editorial pré-definida) em um programa, cobrindo as ações nacionais de forma coletiva. O piloto dessa ação segue abaixo:



__________________________

Alguns exemplos:

Documentário sobre o Coletivo Mundo
Que os coletivos de produção independente estão estabelecendo um novo modelo na cena cultural brasileira todo mundo sabe, mas até o momento são poucos os registros audiovisuais desse processo. Neste curta-documentário feito por alunos da Universidade Federal da Paraíba, o Coletivo Mundo, de João Pessoa, é apresentado e, apesar da baixa qualidade da imagem e (principalmente) do áudio, vale pelo registro de uma realidade que se repete por várias cidades do Brasil.



Cobertura do Observa e Toca pelo Lumo Coletivo
"Silvério Pessoa e Jack Rabujo dão sua visão de Musico Empreendedor, Vadu direto de Cabo Verde e Filipe Mukenga de Angola, foram a surpresa da noite, seguidos pelo enérgico show de Mestre Galo Preto e a fusão frevo-ska do Ska Maria Pastora"



Queijo Elétrico
Proa, Ricardo Koctus e Marcha da Maconha na primeira edição da TV Queijo Elétrico.

23 de dezembro de 2008

Jornalismo colaborativo: cobertura do festival BH Music Station a partir dos comentários de leitores (agora também autores!)

paula disse...

"show da ana cañas marcado para 00:30. cheguei na estação 00:25 e até o metrô chegar e ir até vilarinho, já era 1:10. eu só peguei meia hora de show da ana cañas. detalhe: quando eu cheguei, a estação vazia ainda. muito mal organizado. valeu pelo pocket show no metrô, no fim do show da ana. fiquei putíssima."
Público do festival BH Music Station
Aluizio Luizinho Zim Pimpão Paratodos
disse...

"Concordo com o que todos falaram sobre o preço dos ingressos - peneira fina demais!
Fui conferir a Nação Zumbi no primeiro dia do festival. Ao contrário do que muitos pensaram, o público compareceu em massa e o show da Nação foi indiscutível!
Quanto à organização vacilaram feio: o show da Nação estava marcado para as 00:30. Saí da Estação Central às 12:40 e ainda havia uma fila enorme atrás de mim, onde boa parte sairia no próximo trem. Ao chegar na Estação Vilarinho o show tinha acabado de começar, perdi apenas uma música e com isso já deu para se ter uma idéia com a galera que estava atrás de mim quando embarquei né? Perderam pelo menos 30min do show. Pediria meu dindin de volta sem pestanejar.
Na minha opinião outra merda foi colocar o Arnaldo Antunes/Edgard Scandurra e Nação Zumbi no mesmo dia. Essa reclamação foi geral e muitos estavam em dúvida até o último momento.
Mas valeu!Tiveram tambéms os acertos e o show foi do caralho!"

Mauro disse...

"Amigos e pessoas queridas

Especialíssima, a programação festiva Music Station, esta ótima e seria um projeto para desbancar muitos festivais do país, pena que com os preços absurdos a galera belorizontina não comparecerá massa, e muitas pessoas não conseguirão consagra um evento de tal importancia, deixo aqui o meus parabéns para a produção do evento com relação as bandas, estrutura e programação, mas tambem deixo meu manifesto pois deveriam lembrar de que cobraça de preços abusivos como os que estão sendo cobrados esta fora das condições dos belorizontinos."
Público durante show de Edgard Scandurra com Arnaldo Antunes
E o meu comentário:
"Show excelente do Fino Coletivo no dia 6 de dezembro. Público razoável, espaço bacana (estação Santa Inês) e começaram a apresentação com a excelente "Hortelã"! Bom pocket show de jazz dentro do vagão do trem e show ruim e picareta do Bossacucanova, ainda por cima sem a banda completa."

Fotos: Flickr do Rod Neiva

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