"Venha em chamas" é a faixa de abertura de Veterano, disco do cearense Nego Gallo. Pode ser interpretada ao mesmo tempo como uma previsão ou uma descrição do momento. Fortaleza começou 2019 pegando fogo, literalmente. Logo no dia 2 de janeiro iniciou-se o que viria a ser chamado de "a maior onda de ataques da história do Ceará". Foram tiros, ônibus queimados e até uma tentativa de se explodir um viaduto. Em meio ao caos era lançado, no dia 10 de janeiro, Veterano.
Se o contexto é pesado, musicalmente se apresenta como um contraponto através da mistura ensolarada do rap moderno com o reggae e seus derivados. É como um trap jamaicano, pesado, cadenciado, quente. "No meu nome", a primeira música propriamente dita ("Venha em chamas" é apenas um interlúdio), é um trap com guitarras texturizadas que lembram os nova-iorquinos do Ratatat mas também faz uso de steelpan, instrumento percussivo típico da música da América Central. É um dos pontos altos do disco e tem a participação de Don L, antigo parceiro de Nego Gallo no Costa a Costa (coletivo que criaram em meados dos anos 2000 e que é autor do clássico do rap brasileiro Dinheiro, Sexo, Drogas e Violência de Costa a Costa). Toda a parte cantada por Don L é uma síntese da temática do disco e se encerra com o trecho "pensei que aquela última rima que embalou o irmão / naquela última tarde / não era minha, era da minha cidade / onde os moleque corre o dobro pra viver a metade / e raro é se manter de pé com a integridade intacta / pânico de nada, é tudo estrada / Veterano, Gallo".
A sequência com "O bagui virou" segue na estética trap e trata da vida no rap. Um dos hits do álbum, foi o primeiro single do disco e já era tocada ao vivo há tempos (com direito a vários moshs). Daí em diante outras influências tomam conta e uma sonoridade mais pop entra em evidência. O reggae se destaca em "Onde há fogo há fumaça", "Downtown" e "Passado presente" e o funk em "DVD". "Downtown" é a música mais pop de Veterano, tanto musicalmente como em termos de quantidade de execuções. Seu refrão romântico ("Subi a favela, flor / Minha donzela tem trança nagô / Dançando é sensacional / Desci a favela, vou / É Deus quem zela a fé à vera / Eu vim das vielas de Downtown") contrasta com a crueza de trechos como "Conheço as esquinas, vi gente morrer / Hey, deixa eu viver" ou "Pago à vista essa vida / Então irmão, deixa eu viver".
Calor, pobreza, maconha e religiosidade permeiam o disco e ajudam a criar uma imagem da Fortaleza desse fim de década retratada por Nego Gallo. Apesar do peso inerente à realidade, é uma sonoridade tropical também marcada pela positividade. Assim como em outros álbuns de rap, a fé e citações religiosas são frequentes, reflexo da presença da igreja nas periferias, onde supre o papel do Estado ausente. Na música de Nego Gallo, a luta de classes caminha junto de Deus, como explicita na letra de "DVD": "Aqui ninguém herdou nada / A luta foi o legado / Rico exaltado humilhou / Humilde eu vim vencer / O inimigo tem a força / Mas só Jesus o poder / A caminhada me fez mais forte / A sorte sempre me acompanhou / Eu sou do corre / É Deus a favor". "Acima de nós só o justo", última música do disco, segue essa linha. Baixo de dub e batida trap como trilha para se descrever a busca por ascensão pelo rap ou pelo crime ("Pivete driblou os cone / Os homi' vê só o vulto / Descendemos de reis e acima de nós, irmão, só o Justo"). O risco corrido pra se manter vivo e a crença de que se a sociedade é contra, é preciso crer que em algum lugar há um ser superior que zela por você e seus pares.
Um dos melhores discos de 2019.
Pesquisar nos arquivos
Mostrando postagens com marcador críticas e resenhas. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador críticas e resenhas. Mostrar todas as postagens
25 de novembro de 2019
24 de novembro de 2019
Psicopolítica - o neoliberalismo e as novas técnicas de poder
Hoje, cada clique que damos e cada termo que pesquisamos ficam salvos. Cada passo na rede é observado e registrado. Nossa vida é completamente reproduzida na rede digital. Os nossos hábitos digitais proporcionam uma representação muito mais exata de nosso caráter, e nossa alma, talvez até mais precisa ou mais completa do que a imagem que fazemos de nós mesmos (HAN, 2018, p.85).
Enquanto a biopolítica tratava do poder sobre o corpo, a psicopolítica refere-se à exploração da psique. Se o primeiro baseava-se no poder disciplinar, no medo, o segundo utiliza a positividade, nos estimula a continuar a produzir. O que Han chama de "capitalismo da emoção" é um regime que busca o lucro acima dos limites racionais e para isso explora a noção de liberdade. "Ser livre significa deixar as emoções correrem livres" (HAN, 2018, p65). Consequentemente, consumir sem pensar, apenas sentir. Quando se deve fazer algo, como uma obrigação, as regras e limites são mais claros. Ao se trocar o dever por poder, essas possibilidades são ilimitadas e resultam em uma situação paradoxal de coerção. Ser livre deveria justamente representar a ausência de coerções, mas não ao ser explorada dentro do sistema socioeconômico neoliberal:
Doenças psíquicas, como depressão ou burnout são expressões de uma profunda crise da liberdade: são sintomas patológicos de que hoje ela se transforma muitas vezes em coerção. O sujeito do desempenho, que se julga livre, é na realidade um servo: é um servo absoluto, na medida em que, sem um senhor, explora voluntariamente a si mesmo (HAN, 2018, p.10, grifo do autor).
As mídias sociais exercem papel importante para a manutenção do sistema criticado por Han. Alimentamos, por vontade própria, redes que monitoram nosso desempenho, resultando em vigilância invisível e onipresente. O constante monitoramento coletivo e a busca permanente por otimização pessoal são autoexplorações destrutivas que resultam em colapsos mentais, de acordo com o autor. A febre do coaching, cursos de desenvolvimento pessoal e treinamentos de inteligência emocional seriam característicos desse processo. O ser humano é transformado em um produto no qual seu "aprimoramento" não tem limites (e cuja eventual ineficácia é de responsabilidade do próprio indivíduo). Com a crescente ausência de jornadas de trabalho definidas, vida profissional e pessoal se misturam, tendo a busca por eficiência e otimização como objetivos. Essa é, conforme Han escreve, uma técnica de dominação e exploração:
A técnica de poder do regime neoliberal assume uma forma sutil. Não se apodera do indivíduo de forma direta. Em vez disso, garante que o indivíduo, por si só, aja sobre si mesmo de forma que reproduza o contexto de dominação dentro de si e o interprete como liberdade. Aqui coincidem a otimização de si e a submissão, a liberdade e a exploração (HAN, 2018, p.44).
A leitura de Han é válida para se tentar entender a sociedade contemporânea, na qual relações de trabalho como as dos nômades digitais e do trabalho remoto ainda são relativamente novidades. Aplicado ao contexto da comunicação e das indústrias criativas, é importante para se pensar sobre o papel dos profissionais atuantes nessa áreas: de que forma suas ações contribuem ou não para o consumo irracional, por exemplo. O que Han escreve diz muito sobre a geração millennial. Nos acreditamos livres, empresários donos dos nossos futuros cheios de possibilidades. Trabalhamos continuamente, mesmo que sem patrão e de qualquer lugar, enquanto nos tornamos carrascos de nós mesmos sem perceber. Para completar, divulgamos nas redes para que todos vejam (e curtam).
HAN, Byung-Chul. Psicopolítica - o neoliberalismo e as novas técnicas de poder / Byung-Chul Han ; [tradução Maurício Liesen] . --1. edi. -- Belo Horizonte : Editora Âyiné, 2018.
22 de novembro de 2019
Assalto à cultura : utopia subversão guerrilha na (anti) arte do século XX
Escrito pelo inglês Stewart Home e publicado originalmente em 1988, Assalto à cultura : utopia subversão guerrilha na (anti) arte do século XX é um estudo sobre grupos artísticos que questionaram o papel da cultura e da arte durante o século 20, especificamente no período entre as décadas de 1940 e 1980. Home conceitua a arte como a cultura da classe dominante, "uma tentativa da aristocracia de defender os valores da sua classe como objetos de irreverência irracional" (HOME, 2004, p.71, grifo do autor). Dessa forma, a concepção moderna de arte seria um meio de representar a visão de mundo aristocrática como sendo superior e que, posteriormente, seria absorvida e transformada pela burguesia. Parte da atuação da vanguarda artística estaria relacionada ao questionamento das relações culturais e políticas que resultam na separação social. A atuação da vanguarda incomodaria por ir contra a arte estabelecida no mercado e bem aceita pela sociedade, que seria, segundo Home, "uma religião secular que fornece uma justificativa 'universal' para a estratificação social, decorando a classe dominante com a cola social de uma cultura comum, enquanto, ao mesmo tempo, exclui a vasta maioria dos homens e mulheres deste ambiente 'mais elevado' " (HOME, 2004, p.184).
A arte como produto é um assunto recorrente. Home considera a ideia de livre mercado uma mentira criada para suavizar a ideologia dos grupos de grande poder social e econômico que influenciam a sociedade de acordo com seus interesses. A arte produzida na modernidade torna-se um bem de consumo e tem na vanguarda um ponto crítico dessas relações comerciais. Ao mesmo tempo, tratam-se de grupos surgidos em sociedades capitalistas e cujas atividades não fogem completamente dessa lógica de mercado. Isso não seria uma contradição, sendo que uma das funções da vanguarda seria a visão crítica da sociedade na qual está inserida, sua análise por uma perspectiva diferente e que questiona sua dinâmica de existência e seus valores. O exemplo de maior visibilidade é o punk. Apesar de apropriado pela cultura dominante, teve um papel importante em questionar noções musicais e comportamentais, além da própria cultura jovem institucionalizada, antes de se tornar parte da mesma.
O livro parte do Surrealismo e do Futurismo para analisar grupos de vanguarda surgidos no pós-guerra, a partir do Cobra, em 1948, passando por nomes como o Movimento Letrista, Internacional Situacionista, Fluxus, Neoísmo e Class War. O Cobra tem sua base na crítica ao individualismo crescente no período. Acreditava que a arte poderia ter um papel revolucionário na sociedade e que para se alcançar maior liberdade era necessário uma arte popular e acessível, possível somente através da criação coletiva e não individual. Assim como na maioria dos grupos surgidos nas décadas seguintes e registrados em Assalto à cultura, seus membros atuavam na pintura, poesia, na publicação de revistas com artigos teóricos e na arquitetura. Posteriormente, outros grupos abrangeriam as artes visuais de forma mais ampla, música, audiovisual, instalações, performances e formas de expressão mais difíceis de serem classificadas, como a distribuição de bicicletas feitas pelo Provos (exemplo de uma ação desenvolvida pelo grupo) ou toda a Mail Art (literalmente, arte de correio, baseada na troca de cartas).
Um trecho essencial para se entender a abordagem que Stewart Home faz da arte está na introdução de Assalto à cultura, quando o autor escreve que a arte seria:
Enquanto as questões de gênero, em pauta atualmente, possuem pouco destaque no livro, o debate sobre individualidade e coletividade permeia a obra de diversos coletivos analisados. A contraposição à imagem do artista como gênio individual chega até a utilização dos nomes múltiplos e abertos, os quais podem ser usados por qualquer pessoa "como forma de subverter o star system e questionar as noções burguesas de identidade" (HOME, 2004, p.119).
Apesar de não deixar claro se tratar de uma escolha proposital, todos os grupos analisados são europeus ou da América do Norte. A ausência de estudo sobre a atuação de vanguardas artísticas em outros continentes durante os 50 anos que o livro abrange deixa em aberto a questão sobre como as vanguardas se desenvolveram nessas regiões e se as dinâmicas de classe teriam exercido influência semelhante na arte criada por populações não brancas e em países subdesenvolvidos.
A pesquisa de Stewart Home é importante para se tentar entender as dinâmicas de criação e consumo de arte. Com uma visão crítica desse processo, a partir daqueles que questionaram o sistema predominante, é possível vislumbrar alternativas e identificar algumas de suas características negativas, como aquelas que reforçam desigualdades. Assalto à Cultura reflete, em maior parte, uma visão política à esquerda, consequência da atuação e do pensamento vigente nos grupos que analisa. Sua essência permanece atual e reforça a característica vanguardista de estar à frente de seu tempo. Esse ponto fica evidente em trechos como aquele no qual Home escreve, ainda na década de 1980, em uma nota de rodapé, que "a velocidade com a qual os meios de comunicação eletrônicos operam pressionam aqueles que os usam a reduzir o tempo que levam para tomar uma decisão, de tal forma que diminuem a qualidade geral do pensamento humano e a racionalização das escolhas individuais" (HOME, 2004, p. 134).
[o livro está disponível para download gratuito, em inglês, no site do autor]
Home, Stewart. Assalto à cultura : utopia subversão guerrilha na (anti) arte do século XX / Stewart Home ; [tradução Cris Siqueira] . -- 2. edi. -- São Paulo : Conrad Editora do Brasil, 2004. Título original: The assault on culture.
A arte como produto é um assunto recorrente. Home considera a ideia de livre mercado uma mentira criada para suavizar a ideologia dos grupos de grande poder social e econômico que influenciam a sociedade de acordo com seus interesses. A arte produzida na modernidade torna-se um bem de consumo e tem na vanguarda um ponto crítico dessas relações comerciais. Ao mesmo tempo, tratam-se de grupos surgidos em sociedades capitalistas e cujas atividades não fogem completamente dessa lógica de mercado. Isso não seria uma contradição, sendo que uma das funções da vanguarda seria a visão crítica da sociedade na qual está inserida, sua análise por uma perspectiva diferente e que questiona sua dinâmica de existência e seus valores. O exemplo de maior visibilidade é o punk. Apesar de apropriado pela cultura dominante, teve um papel importante em questionar noções musicais e comportamentais, além da própria cultura jovem institucionalizada, antes de se tornar parte da mesma.
O livro parte do Surrealismo e do Futurismo para analisar grupos de vanguarda surgidos no pós-guerra, a partir do Cobra, em 1948, passando por nomes como o Movimento Letrista, Internacional Situacionista, Fluxus, Neoísmo e Class War. O Cobra tem sua base na crítica ao individualismo crescente no período. Acreditava que a arte poderia ter um papel revolucionário na sociedade e que para se alcançar maior liberdade era necessário uma arte popular e acessível, possível somente através da criação coletiva e não individual. Assim como na maioria dos grupos surgidos nas décadas seguintes e registrados em Assalto à cultura, seus membros atuavam na pintura, poesia, na publicação de revistas com artigos teóricos e na arquitetura. Posteriormente, outros grupos abrangeriam as artes visuais de forma mais ampla, música, audiovisual, instalações, performances e formas de expressão mais difíceis de serem classificadas, como a distribuição de bicicletas feitas pelo Provos (exemplo de uma ação desenvolvida pelo grupo) ou toda a Mail Art (literalmente, arte de correio, baseada na troca de cartas).
Um trecho essencial para se entender a abordagem que Stewart Home faz da arte está na introdução de Assalto à cultura, quando o autor escreve que a arte seria:
a mais legitimada forma de sentimentalismo masculino. O artista "homem" é tratado como um gênio, por expressar sentimentos que são tradicionalmente "femininos". "Ele" constrói um mundo no qual o homem é transformado em herói por demonstrar sensibilidades "femininas"; e o feminino é reduzido a um papel insípido e subordinado. A "boêmia" é colonizada por homens burgueses - dos quais alguns poucos são gênios, e a maioria deles, excêntricos. As mulheres burguesas cujo comportamento lembra o dos gênios masculinos são consideradas histéricas - enquanto proletários de ambos os sexos que se comportam de tal maneira são simplesmente rotulados de loucos. A arte, tanto na prática como no conteúdo, depende de gênero e de classe. (HOME, 2004, p.14)
Enquanto as questões de gênero, em pauta atualmente, possuem pouco destaque no livro, o debate sobre individualidade e coletividade permeia a obra de diversos coletivos analisados. A contraposição à imagem do artista como gênio individual chega até a utilização dos nomes múltiplos e abertos, os quais podem ser usados por qualquer pessoa "como forma de subverter o star system e questionar as noções burguesas de identidade" (HOME, 2004, p.119).
Apesar de não deixar claro se tratar de uma escolha proposital, todos os grupos analisados são europeus ou da América do Norte. A ausência de estudo sobre a atuação de vanguardas artísticas em outros continentes durante os 50 anos que o livro abrange deixa em aberto a questão sobre como as vanguardas se desenvolveram nessas regiões e se as dinâmicas de classe teriam exercido influência semelhante na arte criada por populações não brancas e em países subdesenvolvidos.
A pesquisa de Stewart Home é importante para se tentar entender as dinâmicas de criação e consumo de arte. Com uma visão crítica desse processo, a partir daqueles que questionaram o sistema predominante, é possível vislumbrar alternativas e identificar algumas de suas características negativas, como aquelas que reforçam desigualdades. Assalto à Cultura reflete, em maior parte, uma visão política à esquerda, consequência da atuação e do pensamento vigente nos grupos que analisa. Sua essência permanece atual e reforça a característica vanguardista de estar à frente de seu tempo. Esse ponto fica evidente em trechos como aquele no qual Home escreve, ainda na década de 1980, em uma nota de rodapé, que "a velocidade com a qual os meios de comunicação eletrônicos operam pressionam aqueles que os usam a reduzir o tempo que levam para tomar uma decisão, de tal forma que diminuem a qualidade geral do pensamento humano e a racionalização das escolhas individuais" (HOME, 2004, p. 134).
[o livro está disponível para download gratuito, em inglês, no site do autor]
Home, Stewart. Assalto à cultura : utopia subversão guerrilha na (anti) arte do século XX / Stewart Home ; [tradução Cris Siqueira] . -- 2. edi. -- São Paulo : Conrad Editora do Brasil, 2004. Título original: The assault on culture.
3 de junho de 2018
Empreendedorismo para subversivos, a estreia literária do Facundo Guerra
O título é ruim (fato comentado pelo próprio autor), mas isso não impede que
Empreendedorismo para subversivos - um guia para abrir seu negócio no pós-capitalismo
seja leitura indicada para quem pretende abrir seu próprio negócio e, principalmente, para quem trabalha com entretenimento. Chamado inúmeras vezes de "rei da noite de São Paulo", Facundo Guerra, autor do livro, é figura onipresente quando se trata da vida noturna paulistana. Foi um dos criadores do clube Vegas, essencial para atrair um público mais amplo para o chamado "Baixo Augusta" e transformar a região a partir de uma maior oferta cultural na primeira década dos anos 2000. Hoje, Vegas é também o nome do grupo que Facundo integra e que é dono do Cine Joia, PanAm Club, Mirante 9 de Julho e Z Carniceria, entre outros empreendimentos, como o bar Arcos, no subsolo do Theatro Municipal de São Paulo, que será inaugurado este ano.
A trajetória de Facundo é interessante: nasceu na Argentina, estudou engenharia de alimentos, fez especialização em jornalismo internacional, mestrado e doutorado em Ciência Política. Trabalhou na Tetra Pak, American Express, Aol (em plena bolha da internet) e foi sócio de grife. É justamente enquanto reflete sobre sua trajetória e os aprendizados desses percursos que se encontram os melhores pontos do livro. Quando foge se distancia da auto-ajuda empresarial e se aproxima da filosofia ganha relevância, em trechos como "uma grande parte da criatividade artística, compromisso político e fervor religioso dos humanos é alimentada pelo medo da finitude, da morte; e empreender pode ser uma plataforma para em algum nível se escapar também da morte. Criar sua marca no mundo, deixar um legado".
Facundo critica o mercado e a sociedade da qual faz parte (e tem noção de que alimenta a ambos). É engraçado ele parafrasear o trecho do "choose life" de Trainspotting na contracapa do livro, uma vez que a figura estereotipada do "jovem empreendedor millenial" se encaixa exatamente no alvo da crítica do texto original. Talvez a maior parte de seus leitores não capte a ironia em questão.
Muito além de um guia propriamente dito, é um livro sobre interações, análises de contexto, comunicação e propósitos. Sobre como raiva e decepção podem nos guiar e como armadilhas do mundo dos negócios podem desestimular a criação e a inovação. Pode não mudar a sua vida, mas com certeza pode ajudar a bater menos cabeça na hora de desenvolver algum novo projeto. Não custa nada aprender com quem já errou (e também acertou muito).
Abaixo, alguns trechos selecionados. E não se desestimule se te lembrar do estilo da literatura de auto-ajuda empresarial, no contexto original essa sensação é menor. 😊
Por que as marcas têm tanto poder e influência sobre nós nos dias de hoje? Para que servem, afinal? Marcas são entidades intersubjetivas que existem em um plano no qual compactuamos que um determinado produto tem determinadas características. Diferentemente da objetividade e da subjetividade, a intersubjetividade parte de um pacto, de uma negociação entre muitos, e os departamentos de marketing constroem os atributos das suas marcas usando as ferramentas de comunicação que estão ao alcance de seus bilhões. Com isso, constroem características artificiais para suas marcas que nós, consumidores, queremos usar para complementar nossa identidade ou a maneira como queremos ser percebidos pelos nossos pares. Quanto mais medrosos, inseguros, quanto menor nossa autoestima, tanto mais compraremos, para que possamos completar nosso "eu" frágil através de marcas que atribuirão valores artificiais ao nosso ser. Marcas são apps existenciais, algo que usamos para tapar as lacunas de nosso sistema operacional cheio de buracos.
.......
Investigue profundamente se a pergunta que você colocou a si mesmo já tem resposta ou alguém trabalhando nela. Se esse for o caso, em em grande parte das vezes é, conecte-se a esse algo existente e contribua para torná-lo melhor. Será mais impactante do que simplesmente fazer algo ligeiramente diferente e dividir forças. Entre os empreendedores, idealmente, não deveria existir a ideia de concorrência. Crie parcerias, relações, cruze símbolos e territórios, trace complementaridades: empreendedores deveriam ser aliados na criação de um mundo novo.
Ok, esse finzinho foi brega. ¯\_(ツ)_/¯
11 de setembro de 2017
Dias de Luta: o rock e o Brasil dos anos 80
No geral, poucas coisas geravam tão pouco interesse em mim como o rock brasileiro dos anos 80. Apesar de ter sido minha porta de entrada como consumidor de música (Vamo Batê Lata, dos Paralamas do Sucesso, e Domingo, dos Titãs, foram os primeiros produtos musicais que comprei, em K7, por volta de 96), desde a minha adolescência o rock nacional popular passou a representar aquilo ao qual ir contra. Era o sinônimo do padronizado, brega, óbvio. Aquilo que crescemos vendo na TV e queremos rejeitar. Chegar até Dias de Luta: o rock e o Brasil dos anos 80, escrito pelo Ricardo Alexandre, foi marcado por certo esforço para conhecer mais sobre um período marcado pelo meu desprezo pessoal e por uma curiosidade para tentar entender melhor como chegamos ao mercado musical brasileiro atual.
Para alguém como eu, nascido na segunda metade dos anos 80, um dos pontos altos do livro é contextualizar o cenário em que bandas como Paralamas do Sucesso, Titãs, RPM, Legião Urbana e Kid Abelha surgiram. Um período em que a música brasileira aos poucos vai se aproximando das tendências internacionais, o que na época resultou em fortes influências new wave e pós-punk. Um momento estranho (visto de longe) em que o que viria a se tornar o pop rock nacional era o estilo musical mais popular do país, onipresente em rádios e programas de tv (o que dos anos 90 em diante seria ocupado pelo axé, pagode, sertanejo e funk), e que tinha artistas iniciantes vendendo 10 mil cópias de seus singles e sendo considerado fracassos (comparados ao grande número de artistas que tinham vendas exorbitantes, acima dos 100 mil discos).
Um livro sobre influência da indústria cultural, ingenuidade, o início da decadência do Rio de Janeiro, a construção dos alicerces do mercado de rock no Brasil e da evolução da cultura pop no país. O momento em que jovens passam a ter maior peso como consumidores e a se verem representados nos palcos, com músicos também jovens, falando sobre temas do cotidiano que viviam e não medalhões da MPB de décadas passadas que pareciam inacessíveis e se esforçavam em parecer superiores.
Para alguém como eu, nascido na segunda metade dos anos 80, um dos pontos altos do livro é contextualizar o cenário em que bandas como Paralamas do Sucesso, Titãs, RPM, Legião Urbana e Kid Abelha surgiram. Um período em que a música brasileira aos poucos vai se aproximando das tendências internacionais, o que na época resultou em fortes influências new wave e pós-punk. Um momento estranho (visto de longe) em que o que viria a se tornar o pop rock nacional era o estilo musical mais popular do país, onipresente em rádios e programas de tv (o que dos anos 90 em diante seria ocupado pelo axé, pagode, sertanejo e funk), e que tinha artistas iniciantes vendendo 10 mil cópias de seus singles e sendo considerado fracassos (comparados ao grande número de artistas que tinham vendas exorbitantes, acima dos 100 mil discos).
Um livro sobre influência da indústria cultural, ingenuidade, o início da decadência do Rio de Janeiro, a construção dos alicerces do mercado de rock no Brasil e da evolução da cultura pop no país. O momento em que jovens passam a ter maior peso como consumidores e a se verem representados nos palcos, com músicos também jovens, falando sobre temas do cotidiano que viviam e não medalhões da MPB de décadas passadas que pareciam inacessíveis e se esforçavam em parecer superiores.
31 de agosto de 2017
FELA. Esta vida puta
Sem muito alarde, em 2017 completaram-se 20 anos da morte de Fela Kuti, um dos músicos africanos de maior reconhecimento mundial e criador do termo afrobeat (além de ser seu maior expoente). Após um show da Juçara Marçal com o Cadu Tenório em BH, na Sian - Semana Idea de Artes Negras, me deparei com este FELA. Esta vida puta (Fela, Fela: This bitch of a life) à venda. Lançado originalmente em 1982 e publicado no Brasil pela editora Nandyala em 2011, o livro é resultado de horas de entrevistas do escritor e cientista político cubano Carlos Moore (que vive no Brasil há quase 20 anos) com Fela e pessoas ligadas a ele.
O foco do livro é a vida pessoal de Fela e sua atuação política, com abordagem superficial de sua música - o que de forma alguma torna os relatos, narrados na primeira pessoa, menos interessantes. Incrível como Fela ainda não tenha sido objeto de uma cinebiografia de grande porte (apesar de o livro ter inspirado um musical da Broadway produzido por Jay Z, Will e Jada Pinkett Smith e um documentário). Ele misturou o highlife ganês ao jazz para criar um dos estilos de música mais disseminados no mundo; vivia em uma comuna com dezenas de pessoas que constituíam o que chamavam de República de Kalakuta (que foi invadida pelos militares várias vezes, com relatos terríveis de violência física e sexual por parte dos soldados); chegou a ocupar um prédio inteiro de sua gravadora, com os integrantes de sua organização, quando ela o devia dinheiro; quis ser presidente da Nigéria; foi preso diversas vezes (no geral, por porte de maconha), somando cerca de três anos na cadeia; tinha uma boate chamada Shrine (santuário), onde realizava não só shows mas também cultos; ganhou milhões de dólares e morreu pobre...
A imagem construída no livro é a de uma figura contraditória, às vezes execrável e, outras, exemplo de conduta social e política em busca de uma sociedade mais igualitária. Seus embates com os muitos governos militares que tomaram o poder na Nigéria entre as décadas de 1960 e 1990 (foram sete Golpes de Estado no período) e a luta pela valorização da cultura negra e o pan-africanismo são destacados, mas seus erros e falhas de caráter são parte essencial dos relatos. Casado com 27 mulheres (todas de famílias poligâmicas africanas, exceto uma), praticamente todas relataram casos em que Fela as bateu. Ele acreditava que as mulheres eram inferiores aos homens e dizia que a homosexualidade era "contra a natureza". Sua explicação para a homosexualidade chega a ser engraçada de tão absurda: "Acho que é causado pela comida que eles comem, a alimentação deles. Muita comida industrializada e pouca comida natural. Poluição, religião e alimentação. Essas, eu acredito, são as causas da homosexualidade".
Apesar de ter dois irmãos médicos, Fela era ignorante em relação a certas questões (hoje, básicas) a ponto de não acreditar na Aids e ser contra o uso de preservativos, chegando a fazer uma música sobre isso (ele dizia que preservativos eram mais uma invenção do homem branco ocidental para diminuir a população africana).
Antes de se tornar cada vez mais místico e se perder em teorias de conspirações envolvendo espíritos, Fela representou a anticelebridade politizada que realmente vivia de acordo com as causas que defendia. Como Moore apresenta na introdução, Fela Kuti era um artista político idealista que não se rendeu à indústria cultural:
Em abril de 1997, o governo do General Sani Abacha, que havia tomado o poder três anos antes em mais um Golpe de Estado, ordenou nova invasão da casa de Fela e sua prisão por porte de maconha, condenando-o a 10 anos de prisão (o real motivo da prisão teria sido as críticas feitas por Fela ao governo, que ele acusava de ser corrupto e injusto). Solto sob fiança em julho do mesmo ano, Fela morreria um mês depois de voltar pra casa. No ano seguinte, o general Abacha morreria após um ataque cardíaco e foi descoberto que mantinha mais de 4 bilhões de dólares no exterior.
O foco do livro é a vida pessoal de Fela e sua atuação política, com abordagem superficial de sua música - o que de forma alguma torna os relatos, narrados na primeira pessoa, menos interessantes. Incrível como Fela ainda não tenha sido objeto de uma cinebiografia de grande porte (apesar de o livro ter inspirado um musical da Broadway produzido por Jay Z, Will e Jada Pinkett Smith e um documentário). Ele misturou o highlife ganês ao jazz para criar um dos estilos de música mais disseminados no mundo; vivia em uma comuna com dezenas de pessoas que constituíam o que chamavam de República de Kalakuta (que foi invadida pelos militares várias vezes, com relatos terríveis de violência física e sexual por parte dos soldados); chegou a ocupar um prédio inteiro de sua gravadora, com os integrantes de sua organização, quando ela o devia dinheiro; quis ser presidente da Nigéria; foi preso diversas vezes (no geral, por porte de maconha), somando cerca de três anos na cadeia; tinha uma boate chamada Shrine (santuário), onde realizava não só shows mas também cultos; ganhou milhões de dólares e morreu pobre...
A imagem construída no livro é a de uma figura contraditória, às vezes execrável e, outras, exemplo de conduta social e política em busca de uma sociedade mais igualitária. Seus embates com os muitos governos militares que tomaram o poder na Nigéria entre as décadas de 1960 e 1990 (foram sete Golpes de Estado no período) e a luta pela valorização da cultura negra e o pan-africanismo são destacados, mas seus erros e falhas de caráter são parte essencial dos relatos. Casado com 27 mulheres (todas de famílias poligâmicas africanas, exceto uma), praticamente todas relataram casos em que Fela as bateu. Ele acreditava que as mulheres eram inferiores aos homens e dizia que a homosexualidade era "contra a natureza". Sua explicação para a homosexualidade chega a ser engraçada de tão absurda: "Acho que é causado pela comida que eles comem, a alimentação deles. Muita comida industrializada e pouca comida natural. Poluição, religião e alimentação. Essas, eu acredito, são as causas da homosexualidade".
Apesar de ter dois irmãos médicos, Fela era ignorante em relação a certas questões (hoje, básicas) a ponto de não acreditar na Aids e ser contra o uso de preservativos, chegando a fazer uma música sobre isso (ele dizia que preservativos eram mais uma invenção do homem branco ocidental para diminuir a população africana).
Antes de se tornar cada vez mais místico e se perder em teorias de conspirações envolvendo espíritos, Fela representou a anticelebridade politizada que realmente vivia de acordo com as causas que defendia. Como Moore apresenta na introdução, Fela Kuti era um artista político idealista que não se rendeu à indústria cultural:
"Na economia de mercado global dos dias de hoje, em que o excesso de bens materiais e o status social são hiper valorizados, seu inconformismo autêntico contrastava, radicalmente, com a imagem do artista pop contemporâneo. Na verdade, ele poderia facilmente ter feito fortuna, vivendo e criando no exterior e desfrutando da adulação de um crescente exército de fãs no mundo inteiro. No entanto, ele recusou o exílio. 'Ninguém me obrigará a sair deste país', ele avisou. 'Se ele não é digno de se viver, então é nosso dever torná-lo digno'".
Em abril de 1997, o governo do General Sani Abacha, que havia tomado o poder três anos antes em mais um Golpe de Estado, ordenou nova invasão da casa de Fela e sua prisão por porte de maconha, condenando-o a 10 anos de prisão (o real motivo da prisão teria sido as críticas feitas por Fela ao governo, que ele acusava de ser corrupto e injusto). Solto sob fiança em julho do mesmo ano, Fela morreria um mês depois de voltar pra casa. No ano seguinte, o general Abacha morreria após um ataque cardíaco e foi descoberto que mantinha mais de 4 bilhões de dólares no exterior.
⏤⏣⏤
Trecho:
"Se eu quero deixar uma marca no mundo? Não. De jeito nenhum. Sabe o que eu quero? Eu quero que o mundo mude. Eu não quero ser lembrado. Eu só quero fazer minha parte e ir embora. Se lembrar faz parte do lance do mundo, isso é problema deles. Eu vou fazer minha parte. Eu tenho que fazer minha parte. E todo mundo tem que fazer a sua. Não pelo que você vai ser lembrado, mas pelo que você acredita como ser humano É pra isso que todo mundo devia vir ao mundo. Se você quer fazer as coisas porque quer ser lembrado, você só tá fazendo por motivos pessoais. Faça as coisas simplesmente porque você acredita nelas. Um ser humano devia ser assim.
(Fiquei tentado a colocar um trecho sobre a época em que ele acreditava que espíritos estavam incorporando em suas esposas e que uma delas fosse espiã da CIA, mas, no fim, preferi dar espaço pra um momento mais otimista)
(Fiquei tentado a colocar um trecho sobre a época em que ele acreditava que espíritos estavam incorporando em suas esposas e que uma delas fosse espiã da CIA, mas, no fim, preferi dar espaço pra um momento mais otimista)
4 de maio de 2016
Unknown Pleasures, uma banda por dentro
Para além das histórias de superação, perseverança e sobre "seguir os sonhos", todas comuns às biografias de personalidades, Unknown Pleasures é marcado por uma desmitificação de Ian Curtis e pelas diferentes limitações que definiram a história do Joy Division. Escrito por Peter Hook, baixista e um dos fundadores da banda, e lançado originalmente em 2012, o livro foi lançado no Brasil em 2015 com o título Joy Division: Unknown Pleasures - a biografia definitiva da cult band mais influente de todos os tempos. É a história do Joy Division, mas também a primeira parte de uma biografia do próprio Hook que, apesar de alguns saltos temporais, cobre de sua infância ao fim da banda e o lançamento do álbum póstumo Still, em outubro de 1981, um ano e cinco meses após o suicídio do vocalista Ian Curtis.
A energia em estado bruto de um show do Sex Pistols em 1976 foi o estopim para o surgimento da banda. Não era necessário técnica ou muitos equipamentos. Aquilo era o básico, não apenas em termos musicais, mas também de uma forma física. No contexto de surgimento do punk, as limitações técnicas e tecnológicas aproximavam os jovens do movimento, outrora distanciados do virtuosismo do rock clássico e progressivo. "Eu poderia fazer isso", Hook escreve sobre seus pensamentos ao ver os Pistols.
Bernard Sumner, amigo de escola de Hook, havia ganhado de seus pais uma guitarra no Natal anterior, o que o tornaria o guitarrista da banda recém-criada. Hook foi para o baixo e outra limitação definiria parte de estética musical do Joy Division: seu amplificador era ruim e estalava quando ele tocava notas mais graves. Sem dinheiro para um equipamento melhor, foi obrigado a tocar e compor usando mais notas altas, mais agudas. Seus notórios riffs, que às vezes se assemelham mais aos sons de uma guitarra, começaram a surgir por esse motivo.
Esses são apenas alguns exemplos dos relatos de Hook que fluem como se estivéssemos em uma conversa guiada por alguém com uma memória excelente (aparentemente ele mantinha um diário na época, a julgar pelo detalhamento nas descrições de fatos ocorridos 30 anos antes). Ele recria um contexto social e musical bastante diferente do que estamos acostumados (uma época em que gravar, prensar e distribuir discos era muito caro e que, para tocar, as bandas underground precisavam levar todo o equipamento do show, de amplificadores ao PA - as caixas de som direcionadas ao público) e mostra como o acaso também influiu de forma crucial nos caminhos da banda:
- Hook passou parte da infância na Jamaica e só voltou com a família para a Inglaterra porque sua mãe suspeitava que o marido a estava traindo por lá;
- inicialmente chamada Warsaw, a banda mudou de nome para Joy Division porque não estava conseguindo marcar shows porque os contratantes a confundiam com uma banda punk chamada Warsaw Pakt (que teve vida curta);
- Stephen Morris viu dois anúncios de grupos procurando bateristas. Um era do The Fall, o outro, do Warsaw/Joy Division. Ligou para o Warsaw porque era uma ligação local, o outro número de telefone era interurbano.
As super organizadas linhas do tempo e o faixa-a-faixa de cada disco são deleites adicionais para quem é fã. Hook comenta os processos de composição e gravação do Joy Division, expressa seu pesar pela certa insensibilidade dos integrantes da banda em relação a Ian (não sabiam muito de sua vida pessoal e pelo que o afligia emocionalmente, levando-o a suicidar-se aos 23 anos, dias antes de partirem para a primeira turnê pelos Estados Unidos) e reforça o idealismo da banda e do selo Factory em não tratar a música simplesmente como um produto (o que, inevitavelmente, acabava por limitar o potencial de difusão deles). Não queriam entrar no sistema das grandes distribuidoras e por isso seus singles não chegavam em muitas rádios; não faziam produtos de merchandising da banda porque o negócio deles era música, não camisetas. Acabaram sendo multados por isso: anos mais tarde, após o estouro da banda, pós-suicídio de Ian Curtis, o governo inglês percebeu que eles não estavam declarando os ganhos com a venda de camisas e os multou em £20.000. "Fomos a única banda multada por não fazer as próprias camisetas", ri.
Acima, documentário Joy Division, lançado em 2007.
A energia em estado bruto de um show do Sex Pistols em 1976 foi o estopim para o surgimento da banda. Não era necessário técnica ou muitos equipamentos. Aquilo era o básico, não apenas em termos musicais, mas também de uma forma física. No contexto de surgimento do punk, as limitações técnicas e tecnológicas aproximavam os jovens do movimento, outrora distanciados do virtuosismo do rock clássico e progressivo. "Eu poderia fazer isso", Hook escreve sobre seus pensamentos ao ver os Pistols.
"Lembro-me de me sentir como se tivesse passado toda a minha vida em um quarto na penumbra - confortável e aquecido e seguro e silencioso -, e então de repente alguém deu um chute na porta e ela se escancarou para deixar entrar uma luz brilhante e intensa, aquele ruído ainda mais intenso, mostrando-me outro mundo, outra vida, uma saída".Musicalmente, foi um show horrível, mas importante para mostrar o potencial do que pessoas "normais" poderiam fazer. Entre as cerca de 50 pessoas que assistiram ao show estavam Morrissey (você sabe de qual banda) e Mark E. Smith, que em seguida formaria o The Fall.
Bernard Sumner, amigo de escola de Hook, havia ganhado de seus pais uma guitarra no Natal anterior, o que o tornaria o guitarrista da banda recém-criada. Hook foi para o baixo e outra limitação definiria parte de estética musical do Joy Division: seu amplificador era ruim e estalava quando ele tocava notas mais graves. Sem dinheiro para um equipamento melhor, foi obrigado a tocar e compor usando mais notas altas, mais agudas. Seus notórios riffs, que às vezes se assemelham mais aos sons de uma guitarra, começaram a surgir por esse motivo.
Esses são apenas alguns exemplos dos relatos de Hook que fluem como se estivéssemos em uma conversa guiada por alguém com uma memória excelente (aparentemente ele mantinha um diário na época, a julgar pelo detalhamento nas descrições de fatos ocorridos 30 anos antes). Ele recria um contexto social e musical bastante diferente do que estamos acostumados (uma época em que gravar, prensar e distribuir discos era muito caro e que, para tocar, as bandas underground precisavam levar todo o equipamento do show, de amplificadores ao PA - as caixas de som direcionadas ao público) e mostra como o acaso também influiu de forma crucial nos caminhos da banda:
- Hook passou parte da infância na Jamaica e só voltou com a família para a Inglaterra porque sua mãe suspeitava que o marido a estava traindo por lá;
- inicialmente chamada Warsaw, a banda mudou de nome para Joy Division porque não estava conseguindo marcar shows porque os contratantes a confundiam com uma banda punk chamada Warsaw Pakt (que teve vida curta);
- Stephen Morris viu dois anúncios de grupos procurando bateristas. Um era do The Fall, o outro, do Warsaw/Joy Division. Ligou para o Warsaw porque era uma ligação local, o outro número de telefone era interurbano.
As super organizadas linhas do tempo e o faixa-a-faixa de cada disco são deleites adicionais para quem é fã. Hook comenta os processos de composição e gravação do Joy Division, expressa seu pesar pela certa insensibilidade dos integrantes da banda em relação a Ian (não sabiam muito de sua vida pessoal e pelo que o afligia emocionalmente, levando-o a suicidar-se aos 23 anos, dias antes de partirem para a primeira turnê pelos Estados Unidos) e reforça o idealismo da banda e do selo Factory em não tratar a música simplesmente como um produto (o que, inevitavelmente, acabava por limitar o potencial de difusão deles). Não queriam entrar no sistema das grandes distribuidoras e por isso seus singles não chegavam em muitas rádios; não faziam produtos de merchandising da banda porque o negócio deles era música, não camisetas. Acabaram sendo multados por isso: anos mais tarde, após o estouro da banda, pós-suicídio de Ian Curtis, o governo inglês percebeu que eles não estavam declarando os ganhos com a venda de camisas e os multou em £20.000. "Fomos a única banda multada por não fazer as próprias camisetas", ri.
Acima, documentário Joy Division, lançado em 2007.
18 de abril de 2016
Zé Manoel _ "Canção e silêncio"
Expoente de uma vertente mais erudita da MPB contemporânea, o cantor e pianista pernambucano Zé Manoel é autor de um dos discos mais belos que escutei nos últimos tempos. A sensibilidade desse Canção e silêncio, lançado em 2015, é envolta em um minimalismo que reforça a essência das canções e expõe o lirismo das letras. "A maior ambição da canção é ser silêncio", crava em "A maior ambição", ditando o tom minimalista (e nem por isso menos complexo) do álbum.
Jazz, MPB e samba se misturam a ritmos regionais e a referências sonoras de nomes como Chico Buarque, Dorival Caymmi e Caetano Veloso. "Canção e silêncio", a faixa-título, é de fazer chorar qualquer um que tenha vivido uma grande desilusão amorosa ("procurei nos livros / nas fotografias o seu sorriso / só achei tristeza / vejo a cada instante você indo embora / eu não sei pra onde / deve ser onde a alegria e o seu amor se escondem"). Um disco que foge do óbvio e que abraça a melancolia de forma singela e a transforma em prazer.
Produzido pelo Miranda e Kassin (que assina "produção de bases adicionais" e também toca baixo em diversas faixas), o disco ainda conta com as participações de artistas como Pupilo (Nação Zumbi) e do maestro Letieres Leite, entre outros. Comece por "Canção e silêncio", "Quem não tem canoa vai n'água" e "Nas asas do manganga".
Jazz, MPB e samba se misturam a ritmos regionais e a referências sonoras de nomes como Chico Buarque, Dorival Caymmi e Caetano Veloso. "Canção e silêncio", a faixa-título, é de fazer chorar qualquer um que tenha vivido uma grande desilusão amorosa ("procurei nos livros / nas fotografias o seu sorriso / só achei tristeza / vejo a cada instante você indo embora / eu não sei pra onde / deve ser onde a alegria e o seu amor se escondem"). Um disco que foge do óbvio e que abraça a melancolia de forma singela e a transforma em prazer.
Produzido pelo Miranda e Kassin (que assina "produção de bases adicionais" e também toca baixo em diversas faixas), o disco ainda conta com as participações de artistas como Pupilo (Nação Zumbi) e do maestro Letieres Leite, entre outros. Comece por "Canção e silêncio", "Quem não tem canoa vai n'água" e "Nas asas do manganga".
24 de março de 2015
Atualizações do @indicamusica
Já falei do @indicamusica por aqui e aproveito para dar uma atualizada com alguns dos últimos discos enviados por lá. Siga a gente no Instagram!

Keep Razors Sharp (2014)
@KeepRazorsSharp é uma das melhores surpresas a surgir de #Portugal nos últimos tempos. O homônimo disco de estreia da banda foi lançado em #2014 e a coloca próxima de bandas como #TheeOhSees, revisitando o #shoegaze com influências de #rockpsicodélico e #grunge. Quem gosta de #SonicYouth e dos trabalhos solo do #ThurstonMoore pode ouvir sem medo.
(Por Flora Pinheiro)
Ava Rocha _ Ava Patrya Yndia Yracema (2015)
Em tempos de avanços tecnológicos e a facilidade de se disponibilizar o próprio disco na web é impossível conseguir ouvir tudo que é lançado. Assim, pode acontecer de alguns trabalhos interessantes se perderem na imensidão de links. Foi o que aconteceu com @avarocha. Eu já até tinha ouvido falar da moça há alguns anos, mas como todo dia sai álbum novo, nunca havia parado pra ouvi-la. Eis que nesta semana pulou na minha tela o link para o segundo disco da carioca, lançado agora em março. Já na primeira música fiquei encantada com o timbre grave da moça (de longe me lembrou a mineira @julianaperdigao mas as duas têm propostas diferentes). Em outras músicas chega a ser doce (como na canção “Transeunte Coração” que me lembrou @barbaraeu. Cada faixa é uma viagem sonora completa: mexe com suas emoções e te leva pra outro patamar. A minha preferida foi “Mar ao fundo”: no começo é leve e com poder de calmaria. Da metade em diante, aquele pacote com guitarras distorcidas . O disco homônimo “ Ava Patrya Yndia Yracema” (nome completo da cantora) desenhado, experimental, belo e transcendental. Em um ano que está no terceiro mês e que já tivemos vários novos trabalhos, o novo de Ava está em primeiro lugar no meu ranking pessoal. (E se o sobrenome “Rocha” te fez lembrar Glauber, sim ela é filha do homem).
E um gringo:
Goat _ Commune (2014)
A ausência deste #Commune na maioria das listas de melhores do ano de #2014 reforça a irrelevância das mesmas e a necessidade de se buscar novos artistas por outros meios. Segundo álbum de estúdio da banda sueca #Goat, Commune é #rock psicodélico com percussão africana e influências de música indiana, a trilha sonora pra rituais de #hippies modernos que amam #fuzz e tambor. É o #TheDoors tentando tocar#afrobeat junto do #APlacetoBuryStrangers. #RaviShankar colando com o #TheGoTeam. Poucas vezes nos deparamos com um disco tão bom e diferente quanto esse. Todas as músicas são boas, mas "Goatslaves", "Hide from the sun", "Goatchild" e "The light within" sintetizam bem a sonoridade da banda. Quem se interessar também deve ouvir o primeiro disco deles, #WorldMusic, que tem o hit "Run to your mama".

Keep Razors Sharp (2014)
@KeepRazorsSharp é uma das melhores surpresas a surgir de #Portugal nos últimos tempos. O homônimo disco de estreia da banda foi lançado em #2014 e a coloca próxima de bandas como #TheeOhSees, revisitando o #shoegaze com influências de #rockpsicodélico e #grunge. Quem gosta de #SonicYouth e dos trabalhos solo do #ThurstonMoore pode ouvir sem medo.
(Por Flora Pinheiro)Ava Rocha _ Ava Patrya Yndia Yracema (2015)
Em tempos de avanços tecnológicos e a facilidade de se disponibilizar o próprio disco na web é impossível conseguir ouvir tudo que é lançado. Assim, pode acontecer de alguns trabalhos interessantes se perderem na imensidão de links. Foi o que aconteceu com @avarocha. Eu já até tinha ouvido falar da moça há alguns anos, mas como todo dia sai álbum novo, nunca havia parado pra ouvi-la. Eis que nesta semana pulou na minha tela o link para o segundo disco da carioca, lançado agora em março. Já na primeira música fiquei encantada com o timbre grave da moça (de longe me lembrou a mineira @julianaperdigao mas as duas têm propostas diferentes). Em outras músicas chega a ser doce (como na canção “Transeunte Coração” que me lembrou @barbaraeu. Cada faixa é uma viagem sonora completa: mexe com suas emoções e te leva pra outro patamar. A minha preferida foi “Mar ao fundo”: no começo é leve e com poder de calmaria. Da metade em diante, aquele pacote com guitarras distorcidas . O disco homônimo “ Ava Patrya Yndia Yracema” (nome completo da cantora) desenhado, experimental, belo e transcendental. Em um ano que está no terceiro mês e que já tivemos vários novos trabalhos, o novo de Ava está em primeiro lugar no meu ranking pessoal. (E se o sobrenome “Rocha” te fez lembrar Glauber, sim ela é filha do homem).
E um gringo:
Goat _ Commune (2014)
19 de março de 2015
Alta ajuda
Alta Ajuda, de Francisco Bosco, é um livro de filósofo punheteiro. Em geral, Bosco parte de suas próprias experiências e fala de si mesmo supostamente para tentar entender o outro. Egocentrismo e certo pedantismo à parte, a coletânea de textos publicados por Bosco em jornais e revistas (reescritos para a publicação do livro) possui boas reflexões e análises. Quando deixa de falar de si mesmo e passa a observar as experiências ao seu redor com maior desapego, interpreta a vida cotidiana com sensibilidade e seu grande repertório teórico enriquece a escrita.
Música popular, arte moderna, futebol, ocupações em favelas e relacionamentos são alguns dos temas abordados. Usa o caso Belchior, por exemplo, para tratar da sociedade de controle - reforçada pela(s) mídia(s) - em que vivemos. "Estamos trancados na realidade, ao ar livre, gradeados por milhares de olhos que nunca fecham", escreve. Ou, ao analisar o ato da escrita (os motivos de quem escreve e de quem lê) e sua relação com a publicidade, crava: "A publicidade, assim, diz respeito ao que o sujeito é. A arte (como o pensamento), está interessada no que o sujeito pode ser."
A alegria e a tristeza são os dois afetos fundamentais. A alegria é o que aumenta a nossa potência de agir, como se fosse a imagem invertida da alegria. Pertencente à família da alegria, a esperança, por exemplo, "é uma alegria inconstante, nascida da imagem de uma coisa futura, de cujo acontecimento nós duvidamos", mas que desejamos. Ao contrário, filiado à tristeza, "o medo é uma tristeza inconstante, nascida da imagem de uma coisa também duvidosa", mas que tememos. Essas ideias estão na terceira parte da Ética, de Espinoza, "o príncipe dos filósofos", segundo Deleuze. Nela, numa arquitetura rigorosa, os afetos são dispostos como diante de um espelho. Podemos acrescentar a esses pares invertidos a admiração e a inveja. Esses fatos designam dois modos de olhar: um deles produz alegria; o outro, tristeza. É um dever existencial de cada sujeito fazer com que o olhar admirativo prevaleça sobre o olhar invejoso.
A palavra ‘invejar’ vem do latim ‘invidere’. É composta pelo prefixo ‘in-‘, mais o verbo ‘videre’, de onde vem o nosso ‘ver’. O prefixo latino ‘in-‘ pode ser tanto uma função privativa (como em ‘incrível’), quanto designar um ‘movimento para dentro’, para o interior de algo. Creio ser este segundo caso seu significado em ‘inveja’ que, portanto, quer dizer um olhar que vai para dentro de alguma coisa. Invejar alguém é desejar ocupar o lugar do outro, é desejar ser o outro, é desejar anular o outro, deixar de vê-lo e ver a si mesmo em seu lugar. A expressão popular tem precisão cirúrgica: é o olho gordo, o olho com fome, o olho que engole o outro.
Já ‘admirar’ se refere ao modo contrário de olhar. ‘Admirari’, em latim, reúne o prefixo ‘ad-‘, mais o verbo ‘mirari’. O prefixo ‘ad-‘ significa ‘em direção a’, ‘aproximação’. Admirar, portanto, é o olhar que se aproxima de algo, que vai em sua direção. A diferença entre o movimento para dentro (inveja) e o movimento de aproximação (admiração) é decisiva. O olhar que admira não deseja tomar o lugar do outro. Sua condição primeira e sine qua non é reconhecer a existência do outro. Ele se aproxima do outro, do ser admirado, mantendo a distância para que este exista.
A inveja é um olhar que deseja eclipsar o ser invejado. Pressupõe a admiração, pelo menos em um estado latente: o invejoso deseja aniquilar aquele cujo brilho ele reconhece. Não se inveja qualquer pessoa, nem tampouco todas as pessoas invejarão as mesmas pessoas. A inveja obedece a critérios que a psicanálise chamaria de imaginários. Por imaginário não se deve entender alguma coisa da ordem da imaginação, no sentido do que não existe realmente. O imaginário é o registro do nosso psiquismo onde se situa a imagem de nós que nós gostaríamos de ser, ou que gostaríamos que os outros vissem. A minha autoimagem tem tais e tais características, que eu me esforço para realizar em mim. É o que nos leva à inveja.
Estaremos expostos à inveja quando estivermos diante de alguém que realiza em si, a nosso ver, as características da nossa autoimagem. Um ator dificilmente invejará um campeão mundial de natação – mas sim o ator que está no camarim ao lado, e que é protagonista da peça em que ele é coadjuvante. Há, assim, uma lógica da inveja. Mas o que importa é sua ética.
A inveja detém o estatuto do ridículo. Pois é uma cena psíquica solitária, de que na maioria das vezes o outro, invejado, nem sequer fica sabendo. É uma luta sem adversário, vã. Ou ainda, uma luta em que o adversário é o próprio eu, que necessariamente sairá perdendo. Nunca se conseguirá ser o outro invejado anulando-o, real ou imaginariamente.
Além de triste, a inveja é também burra. Vedando-se ao brilho do outro, ela se fecha à possibilidade de alimentar-se desse brilho. É aqui que entra a superioridade – moral, existencial e intelectual – da admiração. O olhar que admira se aproxima do outro a fim de reconhecer-lhe as qualidades, identificá-las e procurar emulá-las. Emular é uma bela palavra. Ela designa a ação por meio da qual procuramos estar à altura do que reconhecemos como bom. A admiração exige uma capacidade perceptiva desenvolvida para identificar as qualidades do outro e procurar realizá-las em si mesmo. Voltando a Espinoza, é por isso que a admiração é uma das filhas da alegria (enquanto a inveja o é da tristeza): porque ela aumenta nossa capacidade de agir.
Música popular, arte moderna, futebol, ocupações em favelas e relacionamentos são alguns dos temas abordados. Usa o caso Belchior, por exemplo, para tratar da sociedade de controle - reforçada pela(s) mídia(s) - em que vivemos. "Estamos trancados na realidade, ao ar livre, gradeados por milhares de olhos que nunca fecham", escreve. Ou, ao analisar o ato da escrita (os motivos de quem escreve e de quem lê) e sua relação com a publicidade, crava: "A publicidade, assim, diz respeito ao que o sujeito é. A arte (como o pensamento), está interessada no que o sujeito pode ser."
"Não há sol a sós" (reproduzido abaixo), sintetiza o que é apresentado em Alta Ajuda e é um de seus melhores momentos.
A alegria e a tristeza são os dois afetos fundamentais. A alegria é o que aumenta a nossa potência de agir, como se fosse a imagem invertida da alegria. Pertencente à família da alegria, a esperança, por exemplo, "é uma alegria inconstante, nascida da imagem de uma coisa futura, de cujo acontecimento nós duvidamos", mas que desejamos. Ao contrário, filiado à tristeza, "o medo é uma tristeza inconstante, nascida da imagem de uma coisa também duvidosa", mas que tememos. Essas ideias estão na terceira parte da Ética, de Espinoza, "o príncipe dos filósofos", segundo Deleuze. Nela, numa arquitetura rigorosa, os afetos são dispostos como diante de um espelho. Podemos acrescentar a esses pares invertidos a admiração e a inveja. Esses fatos designam dois modos de olhar: um deles produz alegria; o outro, tristeza. É um dever existencial de cada sujeito fazer com que o olhar admirativo prevaleça sobre o olhar invejoso.
A palavra ‘invejar’ vem do latim ‘invidere’. É composta pelo prefixo ‘in-‘, mais o verbo ‘videre’, de onde vem o nosso ‘ver’. O prefixo latino ‘in-‘ pode ser tanto uma função privativa (como em ‘incrível’), quanto designar um ‘movimento para dentro’, para o interior de algo. Creio ser este segundo caso seu significado em ‘inveja’ que, portanto, quer dizer um olhar que vai para dentro de alguma coisa. Invejar alguém é desejar ocupar o lugar do outro, é desejar ser o outro, é desejar anular o outro, deixar de vê-lo e ver a si mesmo em seu lugar. A expressão popular tem precisão cirúrgica: é o olho gordo, o olho com fome, o olho que engole o outro.
Já ‘admirar’ se refere ao modo contrário de olhar. ‘Admirari’, em latim, reúne o prefixo ‘ad-‘, mais o verbo ‘mirari’. O prefixo ‘ad-‘ significa ‘em direção a’, ‘aproximação’. Admirar, portanto, é o olhar que se aproxima de algo, que vai em sua direção. A diferença entre o movimento para dentro (inveja) e o movimento de aproximação (admiração) é decisiva. O olhar que admira não deseja tomar o lugar do outro. Sua condição primeira e sine qua non é reconhecer a existência do outro. Ele se aproxima do outro, do ser admirado, mantendo a distância para que este exista.
A inveja é um olhar que deseja eclipsar o ser invejado. Pressupõe a admiração, pelo menos em um estado latente: o invejoso deseja aniquilar aquele cujo brilho ele reconhece. Não se inveja qualquer pessoa, nem tampouco todas as pessoas invejarão as mesmas pessoas. A inveja obedece a critérios que a psicanálise chamaria de imaginários. Por imaginário não se deve entender alguma coisa da ordem da imaginação, no sentido do que não existe realmente. O imaginário é o registro do nosso psiquismo onde se situa a imagem de nós que nós gostaríamos de ser, ou que gostaríamos que os outros vissem. A minha autoimagem tem tais e tais características, que eu me esforço para realizar em mim. É o que nos leva à inveja.
Estaremos expostos à inveja quando estivermos diante de alguém que realiza em si, a nosso ver, as características da nossa autoimagem. Um ator dificilmente invejará um campeão mundial de natação – mas sim o ator que está no camarim ao lado, e que é protagonista da peça em que ele é coadjuvante. Há, assim, uma lógica da inveja. Mas o que importa é sua ética.
A inveja detém o estatuto do ridículo. Pois é uma cena psíquica solitária, de que na maioria das vezes o outro, invejado, nem sequer fica sabendo. É uma luta sem adversário, vã. Ou ainda, uma luta em que o adversário é o próprio eu, que necessariamente sairá perdendo. Nunca se conseguirá ser o outro invejado anulando-o, real ou imaginariamente.
Além de triste, a inveja é também burra. Vedando-se ao brilho do outro, ela se fecha à possibilidade de alimentar-se desse brilho. É aqui que entra a superioridade – moral, existencial e intelectual – da admiração. O olhar que admira se aproxima do outro a fim de reconhecer-lhe as qualidades, identificá-las e procurar emulá-las. Emular é uma bela palavra. Ela designa a ação por meio da qual procuramos estar à altura do que reconhecemos como bom. A admiração exige uma capacidade perceptiva desenvolvida para identificar as qualidades do outro e procurar realizá-las em si mesmo. Voltando a Espinoza, é por isso que a admiração é uma das filhas da alegria (enquanto a inveja o é da tristeza): porque ela aumenta nossa capacidade de agir.
Termino esse minimanifesto existencial citando um verso que contém todos os aspectos da admiração como dever: sua dimensão política (de reconhecimento do outro), intelectual (de capacidade perceptiva) e existencial (deixar-se banhar pela luz do outro e alimentar-se dela). É um verso do grande poeta Arnaldo Antunes: "Não há sol a sós". Não há sol. Há sóis.
E pra não parecer que a abertura deste texto foi implicância minha, aqui está a tirinha do Allan Sieber na qual ele tira um sarro do mesmo assunto.
17 de março de 2015
Dead Kennedys: Fresh Fruit for Rotting Vegetables [os primeiros anos]
Um dos mais famosos e influentes grupos punk da história, o Dead Kennedys também ficou marcado por sua postura politizada e musicalidade mais elaborada do que outras bandas do estilo. O cenário que deu origem ao clássico primeiro disco da banda (e seus bastidores) são descritos no livro Dead Kennedys: Fresh Fruit for Rotting Vegetables [os primeiros anos], de Alex Ogg, publicado em 2014 e lançado no Brasil no mesmo ano pela Edições Ideal (em duas versões, com capa dura - vermelha - e simples - com uma reprodução da capa do álbum). Uma publicação que levou quase 10 anos para ser finalizada devido às brigas entre os ex-integrantes, polarizadas entre o vocalista Jello Biafra e o guitarrista East Bay Ray, que disputam a autoria da maioria das músicas (Ogg acredita na versão de Biafra, mas abre espaço para todos os integrantes apresentarem suas versões da história).
Um dos pontos centrais no surgimento do DK é que o punk britânico era mainstream demais, com o Sex Pistols, The Clash e outros grupos fazendo parte do cast de grandes gravadoras, recebendo ampla cobertura da mídia e ditando tendências estéticas. Em São Francisco, onde o DK surgiu, a cena ainda era incipiente, porém mais crua. Um fator essencial para a sonoridade diferenciada do DK foi o fato de seus integrantes virem de diferentes backgrounds, com influências de jazz, soul music e garage rock, entre outros. As guitarras da banda são marcadas por delays e reverbs, mais próximas de surf music do que Sex Pistols; a bateria foge do ritmo direto do punk, assim como as linhas de baixo (vide as clássicas introduções de "Holiday in Cambodia" e "California Übber Alles").
O sarcasmo e a ironia, marcas registradas da banda, permanecem atuais até os dias de hoje e chegaram a gerar vários problemas devido a "problemas de interpretação" por parte do público. Para citar poucos casos, vale lembrar que algumas pessoas acreditavam que "California Übber Alles" fosse uma ode ao neo-nazismo e outras interpretavam literalmente as letras de músicas como "Kill the poor" e "I kill children", resultando em respostas diretas como a faixa "Nazi punks fuck off" - para deixar clara a postura da banda.
A política estava tão ligada à essência da banda que Biafra chegou a se candidatar à prefeitura de São Francisco em 1979, anos 21 anos. Ficou em 4º lugar entre os 10 candidatos, com propostas como obrigar os executivos a se vestirem de palhaços no centro da cidade e contratar ex-funcionários da prefeitura para pedir esmola para os cofres públicos. Acabou servindo como uma ótima estratégia de marketing e ajudou a chamar atenção para a banda, que já se destacava, entre outros motivos, pelos shows enérgicos e pela performance teatral do vocalista.
Além de compreender o caminho percorrido pela banda desde seu surgimento até as gravações dos primeiros singles e o lançamento de Fresh Fruit, o livro é interessante por apresentar um panorama da cena punk/hardcore que viria a se desenvolver na costa oeste americana. Conta-se, por exemplo, que Ian MacKaye - Minor Threat/Fugazi - foi a um show do DK em São Francisco e achou interessante o fato de que nos shows da banda pessoas de todas as idades podiam entrar, prática pouco recorrente na época. Os menores de idade eram identificados com um X pintado na mão com tinta permanente. Símbolo que, mais tarde, seria utilizado na cultura straight edge (a história é confirmada pelo próprio MacKaye).
A arte gráfica da publicação é outro ponto alto. São dezenas de páginas com cartazes e outras artes criadas por Winston Smith, criador da logo do Dead Kennedys e da maioria das capas da banda. Suas colagens influenciariam pra sempre a estética punk, assim como a música do Dead Kennedys.
So you been to school
For a year or two
And you know you've seen it all
In daddy's car
Thinkin' you'll go far
Back east your type don't crawl
Play ethnicky jazz
To parade your snazz
On your five grand stereo
Braggin' that you know
How the niggers feel cold
And the slums got so much soul
It's time to taste what you most fear
Right guard will not help you here
Brace yourself, my dear
It's a holiday in Cambodia
It's tough, kid, but its life
It's a holiday in Cambodia
Don't forget to pack a wife
You're a star-belly sneech
You suck like a leach
You want everyone to act like you
Kiss ass while you bitch
So you can get rich
But your boss gets richer off you
Well you'll work harder
With a gun in your back
For a bowl of rice a day
Slave for soldiers
'Till you starve
Then your head is skewered on a stake
Now you can go where people are one
Now you can go where they get things done
What you need, my son.
Is a holiday in Cambodia
Where people dress in black
A holiday in Cambodia
Where you'll kiss ass or crack
Pol pot, pol pot, pol pot, pol pot
And it's a holiday in Cambodia
Where you'll do what you're told
A holiday in Cambodia
Where the slums got so much soul
14 de outubro de 2014
Gabriel Muzak _ Quero Ver Dançar Agora
Nome conhecido no underground nacional, Gabriel Muzak lançou em 2013 seu segundo disco, 11 anos após sua estreia solo com Bossa Nômade. Quero Ver Dançar Agora, o disco em questão, é ainda mais diversificado que o anterior. Se em 2002 as músicas se aproximavam da sonoridade do Seletores de Frequência e do Funk Fuckers (ambas ao lado de B Negão), em Quero Ver Dançar Agora ele abre espaço para o "carimbó das arábias" (conforme descrição do próprio Muzak) de "Belém não para", para o flerte com o flamenco em "Andaluzia" e alcança ótimos resultados ao explorar o samba em "Uma mulher" e "Ligação", pontos altos do disco. O rock, mesmo que discreto, é o eixo que dá unidade ao álbum em meio a tantas influências.
Os anos trabalhando em estúdios foram benéficos para que o próprio Muzak produzisse um disco conciso. Algumas participações especiais também dão peso: Júnior Tolstoi toca em "Andaluzia", Domenico Lancellotti e Alberto Continentino aparecem em "Belém não para", Kassin participou de parte das gravações e a ilustração da capa foi feita por André Dahmer, cuja ironia dialoga com a faixa-título e o nonsense da faixa de abertura.
(Ganhei esse CD da produtora do Moreno Veloso há algumas semanas e, em meio à correria, achei válido deixar algumas impressões sobre ele por aqui)
Os anos trabalhando em estúdios foram benéficos para que o próprio Muzak produzisse um disco conciso. Algumas participações especiais também dão peso: Júnior Tolstoi toca em "Andaluzia", Domenico Lancellotti e Alberto Continentino aparecem em "Belém não para", Kassin participou de parte das gravações e a ilustração da capa foi feita por André Dahmer, cuja ironia dialoga com a faixa-título e o nonsense da faixa de abertura.
(Ganhei esse CD da produtora do Moreno Veloso há algumas semanas e, em meio à correria, achei válido deixar algumas impressões sobre ele por aqui)
12 de outubro de 2014
Zemaria _ Great Escape
Conheci o Zemaria (ou Zémaria, como às vezes é grafado) em 2004, em uma matéria de TV na qual apareceram junto da Mombojó. Passaram-se 10 anos até que eu visse a banda ao vivo e, não por acaso, isso aconteceu na Europa, onde a banda tem construído sua carreira enquanto permanece relativamente desconhecida no Brasil.Com o lançamento do álbum The Great Escape, em 2013, o grupo capixaba teve exposição mundial ao ter a faixa "Past 2" incluída na trilha do game Fifa 2013 (a música possui mais de 230 mil visualizações no YouTube e mais de 150 mil plays no Spotify). A repercussão não foi por acaso. The Great Escape apresenta um eletropop de alto nível, com pegada disco e um potencial para a pista como raramente se vê em artistas brasileiros.
Produzido pela própria banda em parceria com o francês Pegase, integrante do Minitel Rose, o disco dialoga com o Daft Punk da fase Random Access Memories (coincidência ou não, ambos os discos foram masterizados no mesmo estúdio) e, em alguns momentos, lembra as músicas mais dançantes do Cansei de Ser Sexy e Passion Pit.
A sequência "Broken telephone", "Like gold", "Sky dive" e "Instant lover" é ideal para apertar play e dançar sem preocupação.
Para quem gosta de Daft Punk, Is Tropical, Copacabana Club, Empire of the Sun, Van She e afins.
29 de setembro de 2014
Música do Brasil, de Hermano Vianna e Ernesto Baldan
Música do Brasil caiu em minhas mãos por acaso, enquanto conversava com um amigo antropólogo que achou que eu deveria conhecê-lo. Parte de um projeto que também incluiu uma série de TV, CDs e site, o livro possui textos de Hermano Vianna e fotos de Ernesto Baldan realizadas ao longo das viagens que fizeram pelo Brasil buscando retratar a música folclórica brasileira e, principalmente, as pessoas envolvidas com essas manifestações culturais.
Publicado em 2000, o livro é resultado dos cerca de 80 mil quilômetros percorridos pela equipe do projeto e dos dois anos de pesquisa sobre o tema. Os textos de Hermano mostram como a religião e o sincretismo marcam a cultura popular brasileira e aborda, em sua maioria, tradições culturais de grupos das classes menos favorecidas. Ele descreve as manifestações folclóricas como "brincadeiras", no sentido que a as atividades realizadas são festas em um sentido mais amplo, na maior parte das vezes unindo a apresentação musical a algum ritual ou culto.
A falta de numeração nas páginas dialoga com a forma como o material é apresentado: não segue ordem geográfica, estética ou cronológica. Estão, lado a lado, elementos mais conhecidos da cultura brasileira (como o carnaval, o tecnobrega e o samba) e manifestações exóticas ou pouco divulgadas, como o Zambiapunga de Taperoá, na Bahia, os Dançarinos da Sociedade de Danças Antigas e Semi-desaparecidas Araruna (nome sensacional) de Natal, no Rio Grande do Norte, e o catumbi de Itapocu, em Santa Catarina (uma variação de congado).
Um dos pontos mais interessantes é observar como os diferentes grupos retratados transformam suas limitações (de recursos financeiros e de matéria-prima) em recortes estéticos. Eles se adaptam às suas respectivas realidades e não deixam de manifestar suas crenças e sentimentos. Como escreve o próprio Hermano, a alegria apresentada junto a essas manifestações populares seria uma forma de resistir à miséria para não deixar que aquilo que é miserável tome conta de todo o seu mundo, de sua vida". Um bom exemplo é a banda Dragões do Forró, de Nova Olinda, no Ceará. Com uma mistura inconsciente de John Cage e gambiarra, a banda é criação de um garoto que constroi seus próprios instrumentos com sucata, sendo que muitos deles sequer emitem sons. O que importa ali é seu valor simbólico, a performance que sintetiza a vontade de se expressar e se divertir, independente das condições disponíveis.
Publicado em 2000, o livro é resultado dos cerca de 80 mil quilômetros percorridos pela equipe do projeto e dos dois anos de pesquisa sobre o tema. Os textos de Hermano mostram como a religião e o sincretismo marcam a cultura popular brasileira e aborda, em sua maioria, tradições culturais de grupos das classes menos favorecidas. Ele descreve as manifestações folclóricas como "brincadeiras", no sentido que a as atividades realizadas são festas em um sentido mais amplo, na maior parte das vezes unindo a apresentação musical a algum ritual ou culto.
A falta de numeração nas páginas dialoga com a forma como o material é apresentado: não segue ordem geográfica, estética ou cronológica. Estão, lado a lado, elementos mais conhecidos da cultura brasileira (como o carnaval, o tecnobrega e o samba) e manifestações exóticas ou pouco divulgadas, como o Zambiapunga de Taperoá, na Bahia, os Dançarinos da Sociedade de Danças Antigas e Semi-desaparecidas Araruna (nome sensacional) de Natal, no Rio Grande do Norte, e o catumbi de Itapocu, em Santa Catarina (uma variação de congado).
Um dos pontos mais interessantes é observar como os diferentes grupos retratados transformam suas limitações (de recursos financeiros e de matéria-prima) em recortes estéticos. Eles se adaptam às suas respectivas realidades e não deixam de manifestar suas crenças e sentimentos. Como escreve o próprio Hermano, a alegria apresentada junto a essas manifestações populares seria uma forma de resistir à miséria para não deixar que aquilo que é miserável tome conta de todo o seu mundo, de sua vida". Um bom exemplo é a banda Dragões do Forró, de Nova Olinda, no Ceará. Com uma mistura inconsciente de John Cage e gambiarra, a banda é criação de um garoto que constroi seus próprios instrumentos com sucata, sendo que muitos deles sequer emitem sons. O que importa ali é seu valor simbólico, a performance que sintetiza a vontade de se expressar e se divertir, independente das condições disponíveis.
10 de setembro de 2014
Conexão Brasil / Portugal: Norton
Em mais uma publicação resultante da parceria entre o Meio Desligado e o blog português Bandcom, publico aqui a crítico do disco da banda indie portuguesa Norton, que em 2014 lançou seu terceiro CD, homônimo. O texto foi escrito pelo João Ribeiro, do Bandcom. A proposta da parceria é apresentar ao público brasileiro novos artistas alternativos de Portugal e, por outro lado, levar a nova música independente brasileira aos leitores portugueses através dos textos do Meio Desligado que são republicados pelo blog português.
Os Norton voltaram aos discos, e tal como os dois álbuns anteriores, este foi editado no Japão, curiosamente, mesmo que a banda ainda não tenha tocado ao vivo por lá. O sucessor de “Layers of Love United” (2011) é de epíteto homónimo e marca o regresso da banda de Castelo Branco às canções, exactamente 10 anos depois do álbum de estreia, “Pictures From Our Thoughts”.
A morfologia de "Norton" centra-se no indie pop-rock que por agora vai fazendo furor e ganhando cada vez mais terreno junto de vias mais comerciais e mediáticas da indústria musical, aqui com claras influências de nomes sonantes como Bloc Party, Yo La Tengo ou Franz Ferdinand. Coeso, quente, tão rock como pop, festivo e energético, este é um álbum que se constrói ao ritmo das erupções solares, ideal para nos acompanhar nestes dias que marcam o início do verão. Nele, as guitarras pulsantes, os sintetizadores planantes e secção rítmica vigorosa deslizam numa melodia fervilhante que não queremos que acabe.
Pedro Afonso, Rodolfo Matos, Leonel Soares e Manuel Simões apresentam oito temas que são um reflexo de uma vida inteira de canções - por exemplo, “Hours and Day” tem lá dentro uma década de Norton, uma procura incessante pela perfeição.
O pontapé de saída é o ritmado e incisivo primeiro single “Magnets”, uma canção que assim que a ouvimos fica a ecoar nos nossos ouvidos durante longos períodos de tempo. O pop-rockcontinua e a dançante “Premiere”, num ritmo hipnótico, é apesar de tudo um convite a saltar e a soltar todo o stress acumulado após um longo dia de trabalho que se conjuga entre uma “Directions” numa imersão sinfónica proporcionada pelo sintetizador, naquele que é talvez o momento mais ambiental do disco, e uma novamente febril “Brava” que irrompe num numa espécie de pós-punk angular e meio esquizofrénico.
Sem que com isso perca toda a exclusividade e identidade, "Norton" apresenta, assim, belíssimos recortes de uma sonoridade enquadrada agora numa estética mais uptempo e consegue ser leal a si próprio e recuperar/preservar toda uma década de canções e de entendimentos de lugares emocionais. Intenso mas simultaneamente harmonioso: é assim que o podemos classificar.
7.1
Os Norton voltaram aos discos, e tal como os dois álbuns anteriores, este foi editado no Japão, curiosamente, mesmo que a banda ainda não tenha tocado ao vivo por lá. O sucessor de “Layers of Love United” (2011) é de epíteto homónimo e marca o regresso da banda de Castelo Branco às canções, exactamente 10 anos depois do álbum de estreia, “Pictures From Our Thoughts”.
A morfologia de "Norton" centra-se no indie pop-rock que por agora vai fazendo furor e ganhando cada vez mais terreno junto de vias mais comerciais e mediáticas da indústria musical, aqui com claras influências de nomes sonantes como Bloc Party, Yo La Tengo ou Franz Ferdinand. Coeso, quente, tão rock como pop, festivo e energético, este é um álbum que se constrói ao ritmo das erupções solares, ideal para nos acompanhar nestes dias que marcam o início do verão. Nele, as guitarras pulsantes, os sintetizadores planantes e secção rítmica vigorosa deslizam numa melodia fervilhante que não queremos que acabe.
Pedro Afonso, Rodolfo Matos, Leonel Soares e Manuel Simões apresentam oito temas que são um reflexo de uma vida inteira de canções - por exemplo, “Hours and Day” tem lá dentro uma década de Norton, uma procura incessante pela perfeição.
O pontapé de saída é o ritmado e incisivo primeiro single “Magnets”, uma canção que assim que a ouvimos fica a ecoar nos nossos ouvidos durante longos períodos de tempo. O pop-rockcontinua e a dançante “Premiere”, num ritmo hipnótico, é apesar de tudo um convite a saltar e a soltar todo o stress acumulado após um longo dia de trabalho que se conjuga entre uma “Directions” numa imersão sinfónica proporcionada pelo sintetizador, naquele que é talvez o momento mais ambiental do disco, e uma novamente febril “Brava” que irrompe num numa espécie de pós-punk angular e meio esquizofrénico.
Sem que com isso perca toda a exclusividade e identidade, "Norton" apresenta, assim, belíssimos recortes de uma sonoridade enquadrada agora numa estética mais uptempo e consegue ser leal a si próprio e recuperar/preservar toda uma década de canções e de entendimentos de lugares emocionais. Intenso mas simultaneamente harmonioso: é assim que o podemos classificar.
7.1
23 de junho de 2014
Cultura da participação - Criatividade e generosidade no mundo conectado
Lançado em 2011 no Brasil pela editora Zahar, Cultura da participação - Criatividade e generosidade no mundo conectado apresenta no título uma diferença em relação à sua publicação original (em 2010) que muda levemente o foco da abordagem do estadunidense Clay Shirky, autor do livro. No original, Cognitive surplus (creativity and generosity in a connected age), a ideia de Shirky fica mais clara: trata-se de uma obra sobre como o excedente cognitivo pode gerar experiências coletivas que unem criatividade e generosidade.
Especialista em internet e comunicação digital, Shirky analisa as formas de organização social através da tecnologia digital e seus desdobramentos culturais. Seus exemplos vão de aplicativos para denúncias de violências étnicas no Quênia à influência política de grupos pop sobre adolescentes chinesas (as manifestações acontecidas em junho de 2013 por todo o Brasil poderiam ser, facilmente, objeto de análise semelhante). Otimista, ele acredita vivermos um momento de potenciais transformações através da ação coletiva mediada pela internet. "As oportunidades diante de nós, individual ou coletivamente, são gigantescas; o que fazemos com elas será determinado em grande parte pela forma como somos capazes de imaginar e recompensar a criatividade pública, a participação e o compartilhamento", escreve.
Alguns dos pontos cruciais referem-se à diminuição de custos resultante da digitalização e o posterior aumento da experimentação e o potencial de criação (além de compartilhamento e desenvolvimento) ao não se guiar por interesses comerciais mas sim por motivações intrínsecas que compartilhamos com diferentes indivíduos. Abaixo, uma seleção de trechos do livro que ajudam a entender o que Shirky propõe. Quem se interessar, também pode ler o primeiro capítulo, "Gim, televisão e excedente cognitivo", no site da Zahar.
"É mais fácil lidar com a escassez do que com a abundância, porque, quando algo se torna raro, nós simplesmente acreditamos que é mais valioso do que era antes, uma mudança conceitualmente fácil. A abundância é diferente: seu advento significa que podemos começar a tratar coisas que antes eram valiosas como se fossem baratas o bastante para desperdiçar, o que significa baratas o bastante para fazer experiências com ela. Como a abundância é capaz de eliminar os valores de custo-benefício aos quais estamos acostumados, ela pode desorientar as pessoas que cresceram com escassez. Quando um recurso é escasso, as pessoas que o gerenciam normalmente o consideram valioso em si mesmo, sem parar para avaliar quanto do seu valor está condicionado à sua escassez."
"O material de baixa qualidade que surge com a liberdade crescente acompanha a experimentação que cria o que acabaremos apreciando. Isso foi verdade na tipografia do século XV, e é verdade na mídia social de hoje. Em comparação com a escassez de uma era anterior, a abundância acarreta uma rápida queda da qualidade média, mas com o tempo a experimentação traz resultados, a diversidade expande os limites do possível, e o melhor trabalho se torna melhor do que o que havia antes. Depois da tipografia, publicar passou a ter maior importância porque a expansão dos textos literários, culturais e científicos beneficiou a sociedade, mesmo que tenha sido acompanhada por um monte de lixo."
"... a maneira como colocamos nossos talentos coletivos para funcionar é uma questão social, e não apenas individual. Como precisamos nos coordenar mutuamente para extrair algo de nosso tempo e talentos compartilhados, usar o excedente cognitivo não é apenas acumular preferências individuais. A cultura dos diversos grupos de usuários tem grande importância para o que eles esperam uns dos outros e para o modo como trabalham juntos. A cultura, por sua vez, é o que determina quanto do valor que extraímos do excedente cognitivo é apenas coletivo (apreciado pelos participantes, mas não muito útil para a sociedade como um todo) e quanto dele é cívico."
"O excedente cognitivo, recém-criado a partir de ilhas de tempo e talento anteriormente desconectadas, é apenas matérias-prima. Para extrair dele algum valor, precisamos fazer com que tenha significado ou realize algo. Nós, coletivamente, não somos apenas a fonte do excedente; somos também quem determina seu uso, por nossa participação e pelas coisas que esperamos uns dos outros quando nos envolvemos em nossa conectividade."
"A antiga visão de rede como um espaço separado, um ciberespaço desvinculado do mundo real, foi um acaso na história. Na época em que a população online era pequena, a maioria das pessoas que você conhecia na vida diária não fazia parte dela. Agora que computadores e telefones cada vez mais computadorizados foram amplamente adotados, toda a noção de ciberespaço está começando a desaparecer. Nossas ferramentas de mídia social não são uma alternativa para a vida real, são parte dela. E, sobretudo, tornam-se cada vez mais os instrumentos coordenadores de eventos no mundo físico."
"O que importa agora não são as novas capacidades que temos, mas como transformamos essas capacidades, tanto técnicas quanto sociais, em oportunidades. A pergunta que agora enfrentamos, todos nós que temos acesso aos novos modos de compartilhamento, é o que vamos fazer com essas oportunidades. A pergunta será respondida muito mais decisivamente pelas oportunidades que fornecermos uns para os outros e pela cultura dos grupos que formamos do que por qualquer tecnologia em particular."
E aqui está o registro da palestra que Shirky deu sobre excedente cognitivo e seu livro no seminário "A Sociedade em rede e a economia criativa", realizado em São Paulo, em 2011. O áudio está ruim porque a tradução em tempo real está sobreposta à voz de Shirky, mas dá para entender (com certa dificuldade).
21 de março de 2014
Rough Trade, o livro
O selo inglês Rough Trade já teria seu lugar reservado na história da música mundial simplesmente pelo fato de ter sido o responsável por lançar os primeiros trabalhos de bandas como The Smiths, The Strokes, The Libertines e Arcade Fire. No entanto, sua história vai além e permeia o desenvolvimento da música alternativa e do indie rock, conforme é descrito no livro homônimo escrito pelo jornalista Rob Young e publicado em 2006, mas ainda sem tradução em português.
Criada em 1976, a Rough Trade inicialmente era somente uma loja, evolução dos hábitos de colecionador de discos de seu fundador, Geoff Travis. Em 78, a partir da demanda de bandas próximas, transformou-se também em um selo guiado através de uma gestão coletiva (e quase utópica). Com o instinto do it yourself do punk mas com os ouvidos abertos para a música alternativa e experimental, Travis define o início do selo como sendo algumas pessoas interessadas em descobrir novas músicas e conversar sobre isso, cercados de caixas (com os discos e fitas a serem entregues). O passo seguinte seria funcionar como distribuidora, atuando como ponto central para a circulação dos trabalhos de bandas alternativas por toda o Reino Unido.
Após uma série de lançamentos ecléticos que reforçavam constantemente o caráter de garimpeiro underground do Rough Trade (através de artistas como Cabaret Voltaire, Stiff Little Fingers, Swell Maps e The Fall), o selo passou a dialogar diretamente com o mercado mainstream em 1983, ao descobrir o The Smiths e lançar os primeiros singles da banda. A relação com os Smiths foi conturbada e durou poucos anos, mas marcou um período extremamente fértil para o Rough Trade, que nos anos seguintes lançaria discos de Jonathan Richman & The Modern Lovers, Beat Happening, Galaxie 500, Mazzy Star e uma infinidade de bandas obscuras.
A ascensão nos anos 80 se transformaria em uma forte decadência no início dos anos 90, cuja explicação, resumida, remete aos clássicos erros de controle financeiro e (pasmem) na escolha de adotar um software de gerenciamento de estoque e fluxo de caixa que nenhum outro concorrente utilizava e que acabou por se tornar um enorme pesadelo na empresa. Depois de várias mudanças e uma atuação menos relevante ao longo dos anos 90, tudo mudaria em 2000, quando Travis e sua sócia, Jeannette Lee, receberam via correio uma fita com três músicas demo do The Strokes e, na semana seguinte, viajaram para Nova York ver a banda ao vivo - e contratá-los. O que viria a seguir seria a consagração do Rough Trade como um dos principais selos indie do mundo para uma nova geração, dessa vez tendo o indie/pós-punk do The Libertines no lugar do punk eletrônico dos franceses Métal Urbain, primeira banda lançada pelo selo.
Mais do que contar curiosidades de bastidores, o ponto principal do livro é contextualizar o momento histórico em que se deu a criação do Rough Trade e apresentar o funcionamento de parte relevante da indústria musical, uma vez que a Rough Trade, ao longo dos anos, se desdobrou em loja, distribuidora, selo, editora e empresa de agenciamento de artistas. Sua escolha em manter-se focada no conceito (e não, essencialmente, nas demandas mercadológicas) foi crucial para constituir a empresa como ícone mundial do indie rock e, no final das conta, gerar lucro após quase uma década inteira de quase falência e incorporações por outras empresas para manter-se viva (até mesmo a marca "Rough Trade chegou a ser vendida durante os períodos mais tenebrosos).
Durante as transformações da empresa a loja permaneceu ativa, apesar de algumas mudanças de endereço. Além da grande variedade de materiais, recebe pocket shows que permitem uma interação maior entre artista e público. Por lá passaram Talking Heads, Ramones, Queens of the Stone Age e muitas outras. Curiosamente, no dia em que fui a uma das lojas quem tocava era o projeto A Curva da Cintura, dos brasileiros Arnaldo Antunes e Edgard Scandurra.
Para quem se interessar pela história de outros selos, a editora Black Dog, responsável pelo livro sobre a Rough Trade, possui uma série de publicações chamada Labels Unlimited.
Criada em 1976, a Rough Trade inicialmente era somente uma loja, evolução dos hábitos de colecionador de discos de seu fundador, Geoff Travis. Em 78, a partir da demanda de bandas próximas, transformou-se também em um selo guiado através de uma gestão coletiva (e quase utópica). Com o instinto do it yourself do punk mas com os ouvidos abertos para a música alternativa e experimental, Travis define o início do selo como sendo algumas pessoas interessadas em descobrir novas músicas e conversar sobre isso, cercados de caixas (com os discos e fitas a serem entregues). O passo seguinte seria funcionar como distribuidora, atuando como ponto central para a circulação dos trabalhos de bandas alternativas por toda o Reino Unido.
Após uma série de lançamentos ecléticos que reforçavam constantemente o caráter de garimpeiro underground do Rough Trade (através de artistas como Cabaret Voltaire, Stiff Little Fingers, Swell Maps e The Fall), o selo passou a dialogar diretamente com o mercado mainstream em 1983, ao descobrir o The Smiths e lançar os primeiros singles da banda. A relação com os Smiths foi conturbada e durou poucos anos, mas marcou um período extremamente fértil para o Rough Trade, que nos anos seguintes lançaria discos de Jonathan Richman & The Modern Lovers, Beat Happening, Galaxie 500, Mazzy Star e uma infinidade de bandas obscuras.
A ascensão nos anos 80 se transformaria em uma forte decadência no início dos anos 90, cuja explicação, resumida, remete aos clássicos erros de controle financeiro e (pasmem) na escolha de adotar um software de gerenciamento de estoque e fluxo de caixa que nenhum outro concorrente utilizava e que acabou por se tornar um enorme pesadelo na empresa. Depois de várias mudanças e uma atuação menos relevante ao longo dos anos 90, tudo mudaria em 2000, quando Travis e sua sócia, Jeannette Lee, receberam via correio uma fita com três músicas demo do The Strokes e, na semana seguinte, viajaram para Nova York ver a banda ao vivo - e contratá-los. O que viria a seguir seria a consagração do Rough Trade como um dos principais selos indie do mundo para uma nova geração, dessa vez tendo o indie/pós-punk do The Libertines no lugar do punk eletrônico dos franceses Métal Urbain, primeira banda lançada pelo selo.
Mais do que contar curiosidades de bastidores, o ponto principal do livro é contextualizar o momento histórico em que se deu a criação do Rough Trade e apresentar o funcionamento de parte relevante da indústria musical, uma vez que a Rough Trade, ao longo dos anos, se desdobrou em loja, distribuidora, selo, editora e empresa de agenciamento de artistas. Sua escolha em manter-se focada no conceito (e não, essencialmente, nas demandas mercadológicas) foi crucial para constituir a empresa como ícone mundial do indie rock e, no final das conta, gerar lucro após quase uma década inteira de quase falência e incorporações por outras empresas para manter-se viva (até mesmo a marca "Rough Trade chegou a ser vendida durante os períodos mais tenebrosos).
Durante as transformações da empresa a loja permaneceu ativa, apesar de algumas mudanças de endereço. Além da grande variedade de materiais, recebe pocket shows que permitem uma interação maior entre artista e público. Por lá passaram Talking Heads, Ramones, Queens of the Stone Age e muitas outras. Curiosamente, no dia em que fui a uma das lojas quem tocava era o projeto A Curva da Cintura, dos brasileiros Arnaldo Antunes e Edgard Scandurra.
Para quem se interessar pela história de outros selos, a editora Black Dog, responsável pelo livro sobre a Rough Trade, possui uma série de publicações chamada Labels Unlimited.
20 de outubro de 2012
Sexy Fi - Nunca te vi de boa (2012)
"Moloque doido", "mais um comédia vai rodar" e um refrão com "boto fé". Assim começa o primeiro álbum da brasiliense Sexy Fi, Nunca te vi de boa. Frases e termos presentes no cotidiano mas que dificilmente imaginaríamos em canções de indie rock. O estranhamento, apesar da familiaridade com os elementos principais que compõem o trabalho da banda, é recorrente também na sonoridade da Sexy Fi. Rock experimental diluído entre referências e influências musicais como bossa nova, indie e pós-rock, remetendo, às vezes em uma mesma música, a grupos aparentemente distantes como Tortoise, Dirty Projectors e Tool (em "Feeling Asa Sul, Looking Asa Norte" e "Brasília Graffiti").
Apesar de ser um grupo novo, a base do Sexy Fi é a Nancy, banda que teve relativa divulgação no meio alternativo na década passada e chegou a ser destaque no Meio Desligado também. Após uma interrupção nas atividades, a banda voltou com nova identidade - resultado de mudança de integrantes e sonoridade.
Na época da Nancy, a vocalista Camila Zamith morava na Inglaterra e a maior parte do processo de composição acontecia pela internet. Agora, vivendo em São Paulo enquanto o restante da banda permanece em Brasília, ao menos a circulação do Sexy Fi deve ser potencializada. O fato de ter morado no exterior deve ter contribuído para que as letras em português (alternando com o inglês em alguns momentos) destoem do que geralmente se ouve, com palavras e termos inusitados ao longo das músicas.
A surpreendente estreia da banda foi gravada e mixada por John McEntire, do Tortoise, e contou com a ajuda de Munha, do Satanique Samba Trio, na concepção artística. Quase um álbum conceitual sobre a vida em Brasília, Nunca te vi de boa tem a maioria dos nomes das músicas relacionadas à cidade ("Roriz 2010", "Plano: pilotis", "Feeling Asa Sul, Looking Asa Norte" e "Brasília Graffiti"). Quem dera se Brasília fosse uma cidade tão bonita e singela como na versão do Sexy Fi...
9 de outubro de 2012
Quarto Negro - Desconocidos (2011)
Desconocidos é um dos meus CDs favoritos de 2011. Quando penso em um novo rock brasileiro, acessível, bem trabalhado, com letras em português que dizem alguma coisa, são bandas como o Quarto Negro que me vêm à mente.
Não tive pressa em escrever sobre o álbum. Com o passar do tempo, me apeguei ainda mais a Desconocidos. São raros os CDs que ouço logo ao serem lançados e nesse caso não foi diferente. Quando bateu a curiosidade, ouvi aos poucos. E a cada audição percebia que uma música diferente me pegava, que sabia cantar trechos de músicas que acreditava não conhecer direito. Assim, com sutileza rara, Desconocidos se abre ao ouvinte que se mostra aberto à delicadeza e aos detalhes do Quarto Negro.
Um trabalho cujo romantismo sobrepõe-se à melancolia e a solidão carregadas desde o nome da banda às melodias e se mostram nas letras, "na agonia de ficar sempre assim". Um CD que lida com sentimentos pesados de forma leve, porém não superficial, cujos detalhes de produção convidam a ficar juntos mais uma vez, tão sedutores quanto a modelo ruiva do vídeo de "Vesânia II (delírio mútuo)".
Seria pop, se o adjetivo não fosse carregado de lembranças pejorativas. Chamaria de indie melancólico, se o termo não soasse tão bobo, ou simplesmente intenso, se não soasse prepotente. Na dúvida, apenas me deixo levar e aperto play mais uma vez.













