Se alguma vez você já se envolveu com a vida cultural noturna de BH é provável que já tenha ouvido falar d'A Obra. Localizada no subsolo de um prédio comercial da Savassi (um dos bairros mais movimentados da cidade, na região centro-sul), a Obra é o principal reduto do rock alternativo na cidade, na ativa desde 1997. Por lá passaram bandas como a japonesa Guitar Wolf, Marcelo D2 e Pitty em início de carreira e centenas de artistas alternativos, de Wander Wildner, MQN e Wry, a Gram, Black Drawing Chalks, Supercordas e novos nomes como Francisco El Hombre, My Magical Glowing Lens e Rafael Castro, sem contar o espaço sempre aberto pra novas bandas de BH. Não foram poucas as vezes em que saí direto da Obra pra faculdade.
Pra marcar os 20 anos da casa, A Obra e a Quente se juntaram pra criar o Tremor, um festival que se estende por oito meses e culmina justamente no dia 22 de junho de 2017, data do aniversário. Uma vez por mês, sempre às quintas, importantes bandas da cena alternativa tocarão ao lado de grupos de destaque na noite belorizontina. A ideia é misturar diferentes gerações de bandas e apresentar novos artistas ao público ao mesmo tempo em que promove shows de nomes já consagrados no underground.
A primeira edição do projeto é no dia 3 de novembro com a banda paulistana Ludovic, nome fundamental do rock alternativo brasileiro dos anos 2000 e que voltou à ativa em 2015 após longo hiato, e os mineiros da Aldan. No dia 22 de dezembro será a vez da lendária Autoramas, também prestes a completar 20 anos de existência, tocar novamente n'A Obra, dessa vez com a mineira Pequena Morte.
Os shows de janeiro de 2017 já estão fechados e serão divulgados no fim de dezembro. Quem tiver indicações de artistas que gostaria de ver na Obra pode enviar diretamente para os produtores nas páginas da Quente e da Obra no Facebook.
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3 de novembro de 2016
9 de outubro de 2012
Quarto Negro - Desconocidos (2011)
Desconocidos é um dos meus CDs favoritos de 2011. Quando penso em um novo rock brasileiro, acessível, bem trabalhado, com letras em português que dizem alguma coisa, são bandas como o Quarto Negro que me vêm à mente.
Não tive pressa em escrever sobre o álbum. Com o passar do tempo, me apeguei ainda mais a Desconocidos. São raros os CDs que ouço logo ao serem lançados e nesse caso não foi diferente. Quando bateu a curiosidade, ouvi aos poucos. E a cada audição percebia que uma música diferente me pegava, que sabia cantar trechos de músicas que acreditava não conhecer direito. Assim, com sutileza rara, Desconocidos se abre ao ouvinte que se mostra aberto à delicadeza e aos detalhes do Quarto Negro.
Um trabalho cujo romantismo sobrepõe-se à melancolia e a solidão carregadas desde o nome da banda às melodias e se mostram nas letras, "na agonia de ficar sempre assim". Um CD que lida com sentimentos pesados de forma leve, porém não superficial, cujos detalhes de produção convidam a ficar juntos mais uma vez, tão sedutores quanto a modelo ruiva do vídeo de "Vesânia II (delírio mútuo)".
Seria pop, se o adjetivo não fosse carregado de lembranças pejorativas. Chamaria de indie melancólico, se o termo não soasse tão bobo, ou simplesmente intenso, se não soasse prepotente. Na dúvida, apenas me deixo levar e aperto play mais uma vez.
2 de agosto de 2012
Blogagem retardada (parte 2)
O título é diferente, mas esta é a continuação da limpeza dos arquivos do blog. Logo abaixo, o rascunho mais antigo do Meio Desligado, escrito há cinco anos, e outros textos incompletos.
Ludovic: agressividade e emoção (2007)
Produção cultural no Brasil: a experiência
Ludovic: agressividade e emoção (2007)
Ele estende os braços e se apóia sobre a grade enquanto seu suor escorre, colaborando para piorar um pouco mais os já nada agradáveis odores do local. Seus pulmões parecem estar prestes a explodir diante do esforço para expressar palavras doloridas com extrema força, quando, enfim, consegue tocar a cabeça do homem à sua frente e, em um gesto abrupto, retira um pouco do suor de sua testa com a mão. Poderia ser parte de uma estranha celebração religiosa, mas trata-se de um show do Ludovic.
As reações provocadas pela banda nas pessoas são cada vez mais extremas, para o bem ou para o mal, e mesmo que "adoração" esteja longe de constar nos planos dos integrantes, seus shows provocam manifestações dignas do termo. A cena descrita acima, na qual um sujeito luta para conseguir tocar a cabeça suada do guitarrista Ezekiel Underwood durante uma apresentação da banda na Matriz, em BH, é apenas um dos diversos exemplos possíveis.
Ser aclamada pela crítica e pelo público que freqüenta o circuito alternativo é privilégio para poucas bandas. Circular entre as cenas hardcore e indie rock, com igual prestígio, é ainda mais raro, mas é exatamente o que o Ludovic conseguiu. O vocalista Jair Naves atribui a aproximação junto ao cenário hardcore à própria estrutura da cena. "É a mais organizada e a única na qual algumas bandas conseguem viver da música", diz. Segundo ele, o Ludovic tenta ultrapassar os limites de gêneros e cenas.
São duas da madrugada e você está em um buraco sujo e fedorento, apenas com algumas moedas no bolso, insuficiente para pagar até a infame consumação mínima de R$ 2,00 e relembrando do ótimo mo momento no qual você pediu demissão. Mentira.
Experiências e conexões (2009)
Em 2009, resolvi fazer a cobertura do Conexão Vivo BH participando do evento com o a maior parte do público fazia: bebendo, conversando com os amigos, paquerando. Depois, escreveria sobre a experiência. Dá pra perceber que não deu muito certo.
Rotina de blogueiro suburbano (Março de 2009)
Desde que meu affair com uma suposta boneca russa chegou ao fim, fui expulso de meu abrigo na zona sul belorizontina e tive retornar ao meu lar suburbano. Nada mais de voltar da Obra para o apartamento em 10 minutos ou de ir para a faculdade de carona em um Audi. Hora de acordar às 5:20, sair de casa às 6:10, pegar ônibus e depois o metrô e, invariavelmente, chegar atrasado à aula.
Felizmente essa época terminou (apesar de ter rendido excelentes momentos).
Se tenho uma rotina atualmente, ela é mínima e recusa a estabilidade....
Na sequência, acredito que escreveria sobre cidades-dormitório, ler no metrô, juntar carteiras de sala de aula para dormir como se fosse uma cama improvisada, ter alucinações por ficar acordado tempo demais, fazer duas faculdades e estágio ao mesmo tempo... essas coisas divertidas pós-adolescência.
Produção cultural no Brasil: a experiência
Coquetel Molotov 2011: parte 2
Diferentemente de Salvador, onde consegui assistir a todos os shows da edição local do Coquetel Molotov, no Recife perdi alguns, vi pedaços de vários e assisti alguns poucos por inteiro. Mesmo assim, nessa experiência dividida entre o trabalho nos bastidores de produção e o acesso aos shows como parte do público, pude acompanhar a festa alternativa que durante dois dias movimentou o Centro de Convenções da Universidade Federal de Pernambuco.
HEALTH - "USA boys"
Guillemots com o baterista do HEALTH (última música do show em Salvador)
Mundo Livre S/A - "Free world"
HEALTH - "Die slow"
HEALTH - "We are water"
HEALTH - "Crimewave"
Abril Pro Rock 2008: noite indie (12.04)
Desde a abertura dos portões, a segunda noite do Abril Pro Rock já aparentava ser ainda melhor que o início do festival: enquanto o público entrava, Lobão e banda ainda passavam o som para o show que fecharia o evento. De certa forma, Lobão fez o primeiro e o último show da segunda noite do APR.
Terminado o mini-show improvisado de Lobão, a programação oficial começou no palco 3 com a Madalena Moog (PB), banda selecionada para se apresentar através do Link Musical. Para ser sincero, tudo que lembro da banda é que a tecladista/backing vocal é uma gatinha (também é produtora do festival Mundo) e que achei o show "ok", segundo minhas anotações no bloquinho de papel distribuído pela Petrobras em seu estande no festival (onde divulgavam o filme de Speed Racer, patrocinado pela empresa).
O pior show de todo o evento foi o do Erro de Transmissão (PE), espécie de grupo sub-Pitty formado por adolescentes e cujas poucas qualidades se resumem aos aspectos físicos das suas integrantes femininas. Funcionaria em um festival de bandas de escola, mas nunca em um festival do porte do APR.
Para compensar, na seqüência aconteceu um dos mais animados shows de todo o festival: Sweet Fanny Adams, banda de Recife que lançou seu primeiro EP, Fanny, You're No Fun, este mês. Emulando pós-punk e new wave barulhenta, a banda inevitavelmente se aproxima bastante de nomes da onda "novo rock", como The Strokes, The Subways e Editors, sendo que em diversos momentos do show o nome The Jesus and Mary Chain também me vinha à mente. Com músicas dançantes, baixo vibrante, boas melodias e letras em inglês, o Sweet Fanny Adams abriu o palco 2 com louvor e obteve resposta à altura por parte do público.
O momento new rock/new rave do APR teve continuidade no palco 3, com o semi-hype Barbiekill, chamado por algumas pessoas de "Cansei de Ser Sexy do nordeste.
20 de abril de 2010
Jair Naves e Churrasco! na festa Meio Desligado, nesta quarta
Quem conheceu o Ludovic sabe que Jair Naves é um dos intérpretes e letristas mais intensos da música alternativa brasileira na atualidade. Agora, Jair explora novos caminhos, à mostra em seu primeiro trabalho solo, o EP Araguari.
O público de Belo Horizonte terá a chance de conferir essa nova faceta de Jair hoje, no palco do Conexão Vivo, às 19h (logo antes do show do Cidadão Instigado), e, principalmente, amanhã, na festa Meio Desligado na Obra. A festa começa às 23h e ter eu e o Amplis (melhor DJ de BH em votação do Mixsórdia) cuidando do som mecânico, além de fazermos o show de abertura com nosso projeto esquizofrênico Churrasco!.
A entrada custa R$ 8 e estão todos mais do que convidados.
3 de fevereiro de 2009
Ludovic acabou e esqueceram de me avisar
Em uma grande ironia, o início de janeiro marcou o término de uma da mais intensas bandas que este país já teve: Ludovic. Lembro de dois shows históricos da banda em BH (e outros vários casos relatados e registrados em blogs, fotologs e vídeos pelo YouTube), um deles com o vocalista Jair discutindo com o público no 53 HC e outro no Matriz, durante uma tarde, no qual a banda provocou uma das respostas de público mais incríveis que já presenciei.Não é um som facilmente assimilável e que muitas pessoas somente passavam a gostar após vivenciarem (sim, vivenciar) a "experiência Ludovic" num show. Quem perdeu terá que se contentar em ouvir canções como "Vane, Vane, Vane", "CVV" e "Boas sementes, bons frutos" (que a partir de agora terá um gosto ainda mais especial quando eu tocá-la por aí), boas introduções à obra do Ludovic. E, é claro, o álbum de estréia da banda, Servil (de 2004), continua essencial em termos de rock alternativo brasileiro.
"Boas sementes, bons frutos"
No dia 6 de janeiro, primeira terça-feira de 2009, Jair Naves, agora o ex-vocalista do Ludovic, publicou a mensagem sobre o fim da banda:
"Pois é, o Ludovic. Oito anos, dois discos lançados e uma série de pequenas vitórias que ainda parecem improváveis demais para terem acontecido de verdade. Resumidamente, foi mais ou menos essa a nossa trajetória. Entretanto, depois de uma longa pausa e de muito questionamento a respeito do nosso futuro, chegou a hora de esclarecer que não há planos para novas apresentações, gravações ou qualquer outra atividade envolvendo essa banda.
Em nome de todos os músicos que passaram pelo grupo, agradeço de coração pelo comovente apoio que tivemos ao longo desses anos. Não só daqueles que trabalharam direta ou indiretamente conosco, mas especialmente das pessoas que enxergaram a si mesmas nas nossas músicas e que nos acompanharam de forma leal e dedicada. Sem nenhuma intenção de esbarrar no sentimentalismo, não posso deixar de dizer que toda a exaustiva luta pela qual passamos só valeu a pena por causa de vocês.
Muito obrigado, muito obrigado mesmo."
Foto do Ludovic por Patríci Caggegi.
9 de agosto de 2007
Ludovic - Idioma Morto
Em 2004, Servil, álbum de estréia do Ludovic, fez o grupo estar presente em diversas listas de melhores do ano e, somado aos seus explosivas shows, fez com que seu nome aos poucos se consolidasse como um dos mais importantes do cenário alternativo nacional. Três anos depois, Idioma Morto, segundo álbum da banda, veio reforçar e confirmar impressões anteriores em relação à qualidade do Ludovic.
O vocal grave de Jair Naves está ainda mais inusitado, levando ao ouvinte frases fortes e pesadas, embaladas mais uma vez pelo instrumental sujo e bem-elaborado do quinteto paulista. As influências do pós-punk inglês e do rock alternativo americano afloram e se misturam ao longo do cd em constante harmonia com a agressividade sonora e literária da banda. Em tempos da moda emo, o Ludovic acaba por corporificar a antítese ao movimento/estilo, sem pudor ou intenção de facilitar as coisas, mas ainda assim carregado de emoção.
Abrindo com o trecho instrumental de "Atrofiando / Recém-Convertido / Ex-futuro diplomata", logo de cara o soco está dado e o Ludovic mostra à que veio e de que é feito. Na seqüência, o single "Eu fiz pouco caso de um gênio" e a melódica "Nas suas palavras" completam a ótima abertura do álbum, cujo ritmo cai apenas na vinheta "Poço de hombridade". "Um grande nó" e "Qorpo-Santo de saias" respondem por dois dos momentos mais matadores do álbum, enquanto "Janeiro continua sendo o pior dos meses" é o mais próxima que a banda chega de algo mais facilmente assimilável, além, é claro, das duas "baladas": "Unha e carne" e "Sob o tapete vermelho".
And You Will Know Us By The Trail of Dead e Sonic Youth são duas das bandas que vêm à mente durante a audição. A primeira, pela bateria tribal e a enxurrada de guitarras ruidosas (marca registrada de seu álbum Madonna, de 1999), a segunda, principalmente pelas linhas de guitarra em algumas músicas. Os primórdios do Joy Division e Hüsker Dü também marcam presença, sem que isso resulte em simplesmente mais um desinteressante pastiche sonoro.
Não apenas o instrumental é sujo e pesado, apesar de belas melodias enterradas sob as guitarras saturadas, mas também as letras escondem uma beleza por vezes mórbida em toda a tristeza e desilusão retratadas. As dores da vida, nossos erros e dúvidas, continuam dando a temática das letras, em alguns momentos até deixando a musicalidade das frases em segundo plano. A influência literária resulta em trechos como "Quando eu disse: 'não há de ser nada além de uma pilha de fotos velhas e amareladas / dois arqui-inimigos pateticamente de mãos dadas / parece que foi ontem, e eu até tenho saudade'", de "Nas suas palavras", terceira faixa e uma das melhores do álbum.
Compor em português é um desafio e, para os desavisados, a própria audição e assimilação das canções de Idioma Morto pode se mostrar uma tarefa trabalhosa. Não se trata de um álbum fácil. No início, o vocal pode até incomodar, algumas palavras podem parecer fora do lugar, mas é necessário entrar na atmosfera da banda (e preferencialmente também vê-la ao vivo) para usufruir deste que é um dos grandes álbuns de 2006.
O vocal grave de Jair Naves está ainda mais inusitado, levando ao ouvinte frases fortes e pesadas, embaladas mais uma vez pelo instrumental sujo e bem-elaborado do quinteto paulista. As influências do pós-punk inglês e do rock alternativo americano afloram e se misturam ao longo do cd em constante harmonia com a agressividade sonora e literária da banda. Em tempos da moda emo, o Ludovic acaba por corporificar a antítese ao movimento/estilo, sem pudor ou intenção de facilitar as coisas, mas ainda assim carregado de emoção.Abrindo com o trecho instrumental de "Atrofiando / Recém-Convertido / Ex-futuro diplomata", logo de cara o soco está dado e o Ludovic mostra à que veio e de que é feito. Na seqüência, o single "Eu fiz pouco caso de um gênio" e a melódica "Nas suas palavras" completam a ótima abertura do álbum, cujo ritmo cai apenas na vinheta "Poço de hombridade". "Um grande nó" e "Qorpo-Santo de saias" respondem por dois dos momentos mais matadores do álbum, enquanto "Janeiro continua sendo o pior dos meses" é o mais próxima que a banda chega de algo mais facilmente assimilável, além, é claro, das duas "baladas": "Unha e carne" e "Sob o tapete vermelho".
And You Will Know Us By The Trail of Dead e Sonic Youth são duas das bandas que vêm à mente durante a audição. A primeira, pela bateria tribal e a enxurrada de guitarras ruidosas (marca registrada de seu álbum Madonna, de 1999), a segunda, principalmente pelas linhas de guitarra em algumas músicas. Os primórdios do Joy Division e Hüsker Dü também marcam presença, sem que isso resulte em simplesmente mais um desinteressante pastiche sonoro.
Não apenas o instrumental é sujo e pesado, apesar de belas melodias enterradas sob as guitarras saturadas, mas também as letras escondem uma beleza por vezes mórbida em toda a tristeza e desilusão retratadas. As dores da vida, nossos erros e dúvidas, continuam dando a temática das letras, em alguns momentos até deixando a musicalidade das frases em segundo plano. A influência literária resulta em trechos como "Quando eu disse: 'não há de ser nada além de uma pilha de fotos velhas e amareladas / dois arqui-inimigos pateticamente de mãos dadas / parece que foi ontem, e eu até tenho saudade'", de "Nas suas palavras", terceira faixa e uma das melhores do álbum.
Compor em português é um desafio e, para os desavisados, a própria audição e assimilação das canções de Idioma Morto pode se mostrar uma tarefa trabalhosa. Não se trata de um álbum fácil. No início, o vocal pode até incomodar, algumas palavras podem parecer fora do lugar, mas é necessário entrar na atmosfera da banda (e preferencialmente também vê-la ao vivo) para usufruir deste que é um dos grandes álbuns de 2006.



