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30 de dezembro de 2019

Melhores shows de 2019

deafkids, Test e Rakta
Motoqueiros armados ameaçavam atirar caso os shows não parassem. Paredes tremiam e o vidro das janelas se rompiam. Verão em BH. A sequência deafkids, Test e Rakta no festival Música Quente abria o ano de forma caótica e indicava o que estava por vir.


Maria Beraldo
"Posso te tocar? Você é real?", perguntava uma das cozinheiras da Casa Rosa do Bonfim, tremendo, à Maria Beraldo logo após a estreia dela em BH, também no festival Música Quente. De costas para o Cemitério do Bonfim, sozinha no pequeno palco improvisado da casa, Maria mostrou, a quem não conhecia, o que é catarse.


Luiza Lian
Às vezes o hype se justifica. Ainda mais ao vivo, a música da Luiza Lian ganha vida, se multiplica com o contraste entre a aparente fragilidade da sua figura, o minimalismo da formação (apenas ela e DJ no palco) e a intensidade da sua performance.


Shiron the Iron
Há um potencial descomunal e ainda não reconhecido no trabalho do Shiron The Iron. Imagine o encontro de caipiras americanos fãs de rock de garagem com um grupo de congado de alguma vila brasileira. Voodoo blues grunge.


Babadan
Grata foi aquela noite de terça-feira na qual conheci a Babadan Banda de Rua. São 14 pessoas tocando música predominantemente instrumental baseada no congado, no candomblé e nas bandas tradicionais de Minas.


Boogarins
Eu deveria ter escrito sobre os shows do Boogarins aos quais assisti em 2019 logo na sequência de vê-los, pois agora já não lembro. Foram três shows em dois dias, sendo um deles dentro de um apartamento, uma das apresentações de Sessão de Cura e Libertação. O que ficou foi a certeza de ter vivido momentos especiais. É suficiente.


Retrigger
Você tomou coisas que não sabia o que eram, sem saber quais seriam as consequências. Tudo acelerado e por vezes parece fora do lugar. Um anime glitch, um homem de cuecas colocando fogo em um theremin enquanto joga videogame?


Sly and the Family Drone
MINDFUCK.


Godspeed You! Black Emperor
Um sonho realizado.


The Comet is Coming
Jazz moderno para o fim do mundo. Muito melhor ao vivo do que em disco. Funciona bem em festivais porque o show solo pode ser um pouco cansativo.


... And You Will Know Us by the Trail of Dead
Produzir esse show foi outro sonho realizado. Ainda mais tendo o Madonna tocado na íntegra, além de várias do Source Tags and Codes (um dos melhores discos da história, não só na minha opinião mas também na da BBC e da Pitchfork).

26 de dezembro de 2019

Melhores músicas brasileiras de 2019

Assim como a maioria das listas, esta é reflexo de quem a fez, baseado nas suas experiências e limitações. Dito isso, vale registrar que hoje a lista tem 40 músicas mas será atualizada à medida que novas descobertas forem feitas. Então, quem se interessar pode segui-la no Spotify. A ordem é uma mistura de gosto pessoal, relevância no contexto musical de 2019 e construção de sentido no formato de playlist (rupturas e momentos de continuidade são propositais).



Breves comentários sobre cada faixa


deafkids _ "Templo do caos"
Poderia ter colocado "Vírus da imagem do ser" ou "Mente bicameral", mas "Templo do caos" serve bem como introdução para quem não conhecer a banda. Tem reforçado seu nome como banda cultuada no underground internacional, como demonstram as turnês e os comentários da imprensa gringa.

FBC _ "Confio"
Padrim, o disco de 2019 do FBC, é dos melhores do ano. Mais trap do que o anterior, S.C.A (acrônimo de Sexo, Cocaína e Assassinato), tem em "Confio" um de seus momentos mais pesados, com participação da rapper Ebony. "Money manin" é outra música que vale destaque.

Baleia _ "Duelo fantasma (epílogo sórdido)"
Uma das melhores bandas da atualidade, não apenas do Brasil. Essa música resume bem as qualidades e ambições do Baleia, o cuidado com os detalhes e as dinâmicas. "Eu estou aqui" e "A mesma canção" são ainda melhores e fazem parte do mesmo EP, mas foram lançadas como single em 2018.

Yma _ "Colapso invisível"
A grande estreia do indie brasileiro em 2019. Os hits "Par de olhos" e "Vampiro" são mais conhecidas, todas igualmente boas.

O Terno _ "Pegando leve"
Nunca consegui ouvir um disco inteiro d'O Terno, apesar de os shows serem excelentes. Mesmo assim, não impede que essa faixa seja considerada uma das melhores e mais viciantes do ano. Desconheço outra banda que defina tão bem a vida do jovem millenial de classe média (pode parecer uma crítica mas aqui destaco como algo positivo ¯\_(ツ)_/¯).

Boogarins _"Sombra ou dúvida"
Pop moderno que ganha corpo ao vivo e vai além da psicodelia moderna que tornou a banda famosa.

Vhoor _ "Mais do que nunca"
Dj de menos de 20 anos, da periferia de BH. Trap com funk, parte do EP Acima, feito em parceria com o dj americano Sango.

Kinah Hamilton _ "Elianeh"
Outra descoberta de 2019. Projeto de Goiânia, do mesmo sujeito responsável pelo selo Propósito Recs. Experimental e hipnótico (todo o disco).

Kevin O Chris _ "Evoluiu"
Um dos maiores hits de 2019, nas baladas de boy e na periferia, enquanto a criminalização do funk continua.

Sidoka _ "Contas"
Dos principais nomes do trap brasileiro, Sidoka tem 20 e poucos anos e também é de BH. Não é por acaso que o disco se chama Doka language (ouça e entenda).

Petbrick _ "Guacamole handshake"
Banda nova do Iggor Cavalera. Industrial tribal, essa faixa é das menos agitadas do disco de estreia da banda.

Ebony _ "Bratz"
"Falar que não é trap porque eu sou mulher, vê se tu me respeita / Sinto informar mas eu rimo com a boca, não com a buceta".

Rakta _ "Miragem"
Das mais enérgicas e pós-punk do álbum Falha Comum (que merece mais do que um breve comentário preguiçoso, então talvez depois eu publique algo mais completo sobre).

Papisa _ "Terra"
Se Rakta é bruxaria darkzêra, destrutiva, Papisa é a energia oposta, carregada de clima místico porém positiva, de criação. É a trilha da reconstrução pós-apocalíptica.

Jair Naves _ "Veemente"
Disputa acirrada com "Deus não compactua", o outro single do disco Rente. Vence esta pela letra. "Minha terra é uma bomba a ponto de explodir / Minha gente é uma bomba a ponto de explodir".

Labaq _ "Glow"
Climática e sensível, "Glow" sintetiza o talento de Labaq. Com elementos minimalistas e ótimos arranjos, cria uma atmosfera intimista e evolvente, assim como faz (sozinha) ao vivo.

Mc Tha _ "Rito de passá"
Esse foi o ano da Mc Tha, presença constante nos festivais pelo país. "Rito de passá " é o melhor momento da sua mistura de funk e umbanda.

Mc Rebecca _ "Sento com talento"
Um dos maiores hits da Mc Rebecca, junto de "Cai de boca" e "Coça de xereca", do ano passado.

Heavy Baile e Mc Baby Perigosa _ "Grelinho de diamante"
Tocaria fácil em um festival de música experimental gringo.

Nego Gallo _ "Acima de nós só o justo"
Também publiquei uma crítica do disco. Baixo de dub e batida trap como trilha para se descrever a busca por ascensão pelo rap ou pelo crime ("Pivete driblou os cone / Os homi' vê só o vulto / Descendemos de reis e acima de nós, irmão, só o Justo"). O risco corrido pra se manter vivo e a crença de que se a sociedade é contra, é preciso crer que em algum lugar há um ser superior que zela por você e seus pares.

Djonga _ "Bené"
Todos os discos do Djonga são irregulares mas com grandes momentos, o que é compensado por sua prolificidade.

Larissa Luz _ "Aceita"
Sincretismo religioso e musical.

Young Lights _ "Down river"
Um encontro entre LCD Soundsystem e The Killers (na fase boa).

Marcelo Jeneci _ "Oxente"
Forrozinho que tinha sido gravado pela Elba Ramalho em seu último disco, mas que ganha peso corpo na versão do Jeneci, compositor da música.

Radio Exodus _ "Banana cigana"
Pantera Cor de Rosa de férias pelo Rio de Janeiro fumando um baseado.

Lamparina e a Primavera _ "Não me entrego pros caretas"
Longe da MPB do início da banda, a Lamparina e a Primavera ganhou vida e identidade ao explorar uma sonoridade mais pop e moderna, como demonstram os três singles lançados pela banda em 2019, nos quais misturam elementos de reggaeton, tecnobrega e funk.

Constantina _ "Atrópico"
A faixa-título do aguardado novo disco do Constantina é a que mais se aproxima dos trabalhos anteriores da banda. São 10 minutos de imersão junto de uma das melhores bandas instrumentais em atividade no mundo (e ainda subestimada).

Tantão e os Fita _ "Adoração de ídolos"
Adoraria ver um show ao ar livre, com o público cantando "Wiliiam Potter / William de Galles / Harry Potter / silk screen", enquanto o público transeunte pensaria "que porra é essa?".

Mc Doni _ "Passei de nave"
Da trilha de Sintonia, a (boa) série do Kondzilla. Funk família, de mensagem positiva, assim como a série, mas é representativo de 2019.

Taco de Golfe _ "Erro"
Um math rock frito pra equilibrar. Uma das descobertas do ano

Elza Soares e Baiana System _ "Libertação"
Elza e Baiana saturaram tanto que seus novos discos nem geraram tanto burburinho como seus anteriores. Daquelas músicas que te movimentam mesmo que a letra seja meio bosta e não diga muita coisa.

Luiza Lian e Bixiga 70 _ "Alumiô"
Choquei com o tanto que essa mistura inusitada funcionou.

Terno Rei _ "Medo"
Esse disco do Terno Rei representa um salto gigantesco para a banda, tanto em termos de qualidade de composição como de recepção do público. Indie pop melancólico, com bons timbres e ótimas melodias vocais.

máquinas _ "Corpo frágil"
Essa música é uma mistura de math rock, Metá Metá e um jazzinho safado. Claro que ficou bom.

Apeles _ "Pássaro nu"
Kavinsky fumando maconha e tocando com uma banda soaria assim.

Clara Lima _ "Talvez bem mais"
Selfie, disco que a Clara Lima lançou no fim de 2019, desliza nos momentos de rap acústico mas quando investe nas batidas mais pesadas se destaca, como na pesada "Esquinas" e na funkeira "Tudo muda", que também poderiam figurar por aqui.

Yung Buda _ "Califórnia (world tour)"
Velozes e Furiosos + R.E.M em português. Essa é a descrição.

Cadu Tenório _ "The samurai who smells of sunflowers"
Fogos de artifício em câmera lenta sobre a cidade em chamas.

Bernardo Bauer _ "Coragem"
"Eu tenho medo dos comentários na internet". Certa vez fui a uma performance de improviso de dança numa segunda-feira e vi um dos Mineiros da Lua dançar ao som dessa música, o que foi surpreendentemente bizarro e mágico.

Luíza Brina _ "Queremos saber"
Pra fechar com esperança (mesmo que temporária).


Ps: Não custa lembrar, o título desse post é um cata-corno Google.

4 de setembro de 2019

Sobre listas de melhores e o vício em novidades

Neofilia é a atração que sentimos pelo novo, pelo desconhecido. É relacionado ao instinto e, muito tempo atrás, uma questão de sobrevivência, pois era essencial na busca por novos alimentos na natureza e locais que apresentassem melhores condições de sobrevivência. É algo que permeia toda a nossa vida e, segundo alguns autores, ligado também à atração por parceiros sexuais diferentes. E, claro, algo muito utilizado no sistema capitalista para estimular o consumo. Imprensa musical e indústria fonográfica cresceram criando hypes constantes e lucrando a partir disso. É preciso criar novidades para vender cada vez mais. Construir ídolos que estimulem a curiosidade dos consumidores.

Décadas atrás, época em que a distribuição musical era mais difícil, era normal visualizar o consumidor em dois extremos: o de receptor de novidades via canais de marketing da indústria e mídias (rádio, tv, jornalismo musical, anúncios) ou de consumidor de obras já estabelecidas e que se enquadravam nos esquemas de distribuição da época. Ao acessar vários sites/blogs em busca de listas e pesquisar seus acervos, é triste perceber como a grande maioria está pautada somente nos lançamentos. A novidade como um valor em si, mais importante do que a análise de determinada obra. Solte três parágrafos clichês e um vídeo e parta pra próxima publicação. Queremos novidade. O artista que não tem seu trabalho publicado nesses sites nos meses seguintes ao lançamento vê sua obra se afundar num fosso digital. Em termos de visibilidade nos veículos online, depois da virada do ano as chances de destaque de um lançamento do ano que termina são mínimas. Parte-se para a criação de mais novidades. E assim caminha a indústria, com incontáveis obras interessantes se perdendo nesse processo. Nesse sistema, às vezes os próprios artistas sentem-se desestimulados em continuar a divulgação de um trabalho "ultrapassado", mesmo que lançado há alguns meses, e entram no processo de criação de novas obras que atendam ao mercado sedento por lançamentos de vida curta.


A ironia é que nunca antes na história deste país (e do mundo) foi tão fácil ter acesso à música, seja ela contemporânea ou de outras épocas. Em 2016, percebi a grande dificuldade que tive em fazer minha lista de melhores discos do ano (coisa que odeio) simplesmente porque não sabia em que ano os discos que mais ouvi em 2015 foram lançados. Só aí percebi que não me pautava pelo novo (ui, diferentão), mas de acordo com o tipo de som que queria ouvir ou pelas indicações apresentadas diariamente pelos sistemas de recomendação do Spotify ou do Deezer (uma das principais formas de descobrir novos artistas, pra mim, é olhar os "artistas relacionados" ou pesquisar playlists de países, cidades ou subgêneros específicos). 

Esse é um dos problemas das listas de melhores do ano. Elas fazem um recorte limitado da criação dentro de determinado período e é essencial ter isso em mente. Uma lista de melhores do ano, por si só, diz mais sobre quem a criou do que sobre os períodos, objetos e contextos retratados. É baseada nas experiências e limitações de seu(s) autor(es). Uma lista é influenciada pela situação econômica, gênero e raça de quem a cria. No fim, as listas que pautam o cenário musical brasileiro são basicamente criações de homens brancos de classe média/alta do sudeste. Em um mundo de enorme volume de informações e novidades constantes, a hipervalorização das listas cria a sensação de que toda a produção não selecionada para essas listas está jogada ao marasmo. 

Qual o tempo de vida de um disco? Depois dos primeiros meses seguintes ao lançamento, uma última chance de espaço na mídia é figurar em uma lista de melhores do ano. Passado o reveillon, é quase como se a vida útil daquela obra estivesse próxima do fim (em termos de espaço de divulgação). Não só entre jornalistas, mas também entre produtores de shows e festivais. "Seu disco tem mais de um ano? Precisa de algo novo pra tocar". Isso faria sentido no caso de um artista que já tocou em determinado festival ou cidade. Para aqueles ainda inéditos nesses cenários, não há o menor sentido nessa exigência senão a simples reprodução da lógica comercial do mercado mainstream.

Um experimento interessante é a Lista das listas, iniciativa do Pena Schmidt junto a parceiros como o Elson, da Sinewave (selo e grupo no Facebook), e o Rafael, do site Hits Perdidos. São analisadas dezenas de listas e contabilizadas as indicações para se identificar os artistas mais recorrentes. Ao menos, capta parte do que foi a visão da "crítica especializada" (e um pouco além) sobre a música brasileira em certo ano (a ideia de zeitgeist cabe aqui). Um (enorme) ponto negativo, no entanto, é a credibilidade dessas listas. Em 2018, por exemplo, a Lista das listas foi construída a partir de 183 listas de melhores do ano, mas não há uma publicação identificando quais são elas. Apesar da importância em se ter uma amostra ampla, há o risco de se basear em listas amadoras de pouca relevância, criadas por pessoas sobre as quais não sabemos nada (o que ouviram, o que assistiram ao vivo naquele ano? Como confiar na opinião de alguém que ouvir apenas 20 discos e colocou todos eles na sua lista de melhores?). Outro ponto questionável: em 2017 identificaram as 44 listas com mais de 10 "acertos" entre os 51 artistas mais citados. É complicado. Na busca por mais acessos, os sites foram crescendo cada vez mais suas listas de melhores. Se antes era normal termos 10 ou 20 melhores, agora não é raro listas de 100 nomes. Isso acontece porque os autores sabem que todos os artistas indicados divulgarão suas presenças nessas listas e, com isso, seus sites terão mais audiência. É bem pouco provável que todas essas pessoas tenham escutado com atenção mais de 100 álbuns brasileiros lançados ao longo do ano corrente em que a lista é feita. O que sinto acontecer, de fato, é que listas de veículos mais relevantes pautam as demais listas. Dessa forma, os 10 ou 20 primeiros colocados seriam as efetivas escolhas, os discos que mais tocaram o autor da lista, enquanto nas demais colocações estariam os artistas cuja principal função é completar a lista. Nomes "obrigatórios" que às vezes mal foram ouvidos, mas estão presentes em outras listas e são reproduzidos. Por isso considero importante conhecer quem faz cada lista, ler o que escreveu sobre cada um daqueles álbuns. De outra forma, é difícil ter credibilidade ou confiar que a pessoa sequer realmente ouviu  todos aqueles discos. Mas, deixo claro, digo a partir somente da minha experiência pessoal.

Resumindo, o que quero ressaltar é a importância da visão crítica em relação às listas, considerando os elementos que indiquei, e de se incluir outros critérios de influência ao definir programações de shows e festivais.

16 de janeiro de 2016

Os melhores sonhos de 2015

Ninguém pediu, mas aqui vai uma lista diferente: meus melhores sonhos de 2015 (que posso contar publicamente).
Anoto todos os sonhos dos quais me lembro há cerca de dois anos, por isso rolou de fazer a seleção abaixo.



22 / 23 de janeiro
Trabalho em uma fábrica de produção de milho enlatado. É meu primeiro dia. Passo a maior parte do tempo conversando, contando histórias, e quase não trabalho. O Jair Naves é meu superior e me repreende. Manda parar de enrolar e começar a trabalhar de verdade.

2 / 3 de março
A notícia de que um jacaré está solto pela cidade assusta as pessoas de Barão de Cocais. Descubro o jacaré na minha casa, vindo pela tubulação de água. É apenas um homem com uma fantasia gosmenta de jacaré, está deprimido e quer fugir. Vamos pra piscina e bebemos.

11 de abril
O Ed Motta está me dando conselhos. Depois, estou em um bloco de carnaval com o Jared Leto (ambos vestidos de mulher).

3 / 4 de junho
Estou em Madagascar com personagens da Turma da Mônica mas a viagem tem vários problemas porque ninguém cuidou das reservas.

6 / 7 de junho
O Gustavo Kuerten vira professor de educação física da minha antiga escola e penso "não tá fácil pra ninguém". Corro risco de tomar bomba por não ir às aulas e converso com ele sobre isso. Ele aproveita pra me contar que está tendo problemas porque defendeu a Dilma no grupo de WhatsApp dos professores.

17 / 18 de julho
O filho do William Bonner lança um livro de poesias que se destaca por ter uma diagramação que se move de acordo com a forma com que é segurado. No mesmo dia, o Bonner apresenta no Jornal Nacional a banda de sua filha, na qual ela toca trombone.

16 / 17 de setembro
Peço um temaki de feijoada no restaurante.

21 / 22 de setembro
Eu e o Luciano (meu sócio) trabalhamos em uma agência de publicidade e vários alienígenas também são funcionários, trabalham normalmente entre nós.

15 / 16 de outubro
O Manoel Cordeiro está vestido de mulher e discutindo sobre a obra do Slavoj Žižek.

17 / 18 de novembro
Sou o Batman e estou com fome, mas não encontro um restaurante aberto pra comer.

26 / 27 de dezembro
Lidero uma grande greve na Índia. Os lixeiros são uma das classes de maior adesão. Temos um elevador (!) na ponta de um poste que carregamos como arma. O Elson, da Sinewave, está no hotel que usamos de base e está dando dicas para o VJ (!) do Lula.

11 de janeiro de 2016

Melhores clipes brasileiros de 2015

Ou, na versão sincera do título: Os melhores clipes brasileiros de 2015 que meus amigos indicaram.

Se por um lado 2015 foi o ano que me apresentou mais música interessante feita em partes menos óbvias do mundo (tipo Japão, Nigéria, Zâmbia) por outro boiei um pouco em relação aos vídeos nacionais em 2015, vi pouca coisa. A TV Meio Desligad@ foi pouco atualizada também. Então, pra fazer essa lista, pedi sugestões nas redes sociais e filtrei o que recebi. O resultado está abaixo.

Essa é uma lista em constante atualização, quem tiver sugestões, deixe nos comentários, por favor. Essa primeira versão tem a ótima animação para a faixa do Rafael Castro sobre ciúmes nos relacionamentos modernos; Inquérito, Emicida e Rashid abordando o preconceito racial; e outras produções audiovisuais que marcam um recorte do que foi produzido no Brasil em 2015.


Rafael Castro, "Ciúme"
Direção de Daniel Bruson

Serge Erege, "Rhythmn of the day"
Direção de Rudá Cabral

André Whoong, "Vou parar de beber"
Direção de Deco Farkas

Inquérito, "Eu só peço a Deus"
Direção de Levi Vatavuk

Emicida, "Boa esperança"
Direção de Kátia Lund e João Wainer

Mc Mayara, "Ai como eu to bandida dois"
Direção de Bernardo Tomsons

Câmera, "Whatever works"
Direção de Pedro Furtado

Qinho, "O peso do meu coração"
Direção de Rubel

Raça, "Um charme"
Direção de Ghilherme Garofalo

Ventre, "Quente"
Direção de Pablo Leal e Alice Turnbull.

Rashid, "A cena"
Direção de Levi Vatavuk


Pequena Morte, "Balada volátil comum (cavalgadinha)"
Direção de Olada

Baleia, "Volta"

Flávio Renegado, "Redenção"


Maglore, "Mantra"
Direção de Victor Marinho

7 de janeiro de 2016

Melhores capas de 2015

Ou, em um título mais sincero: Minhas capas de discos favoritas de 2015
Sem ordem de preferência, galera. Sem competição, o que vale é a experiência proporcionada.


Jair Naves, Atirado ao Mar
Projeto gráfico de Jaime Silveira



Foto de Flora Borsi



Iconili, Piacó
Capa por André Orandi e Victor Silva



Cícero, A Praia
Foto de Daryan Dornelles



Quarto Negro, Amor Violento
Capa por Mr. Chill



Projeto gráfico de Mariana Mansur e arte de Cadu Tenório



Cidadão Instigado, Fortaleza
Projeto gráfico por Renan Costalima



Bemônio, Desgosto
Arte por Paulo Caetano



Ana Cañas, Tô na Vida



Qinho, Ímpar
Capa por Fábio Arruda e Rodrigo Bleque (projeto gráfico) e Fernando Young (foto)



Jair Naves, Trovões a Me Atingir
Projeto gráfico de Jaime Silveira


Achou uma droga essa lista? Tem sugestões de capas? Deixe um comentário com as sugestões aqui embaixo (isso aqui não é papel, mané, dá pra atualizar).

4 de janeiro de 2016

Melhores shows brasileiros de 2015

Acho válido começar explicando que o título original deste texto é "Meus shows favoritos de 2015" e não "Melhores shows brasileiros de 2015". Essa é apenas uma estratégia caça-cliques, blz? Ou, como o Malvados coloca, o famoso "cata-corno google". O que acontece é que ninguém pesquisa por "shows favoritos de 2015" (512 resultados no Google), a maioria pesquisa por "Melhores shows de 2015" (6.630 resultados), daí usar o termo "melhores" em vez de favoritos. Então, feita a introdução, comecemos de novo.

Meus shows favoritos de 2015

Tenho um caderno no qual faço breves anotações de todos os shows que assisto. Em 2015, foram 144 deles, dos quais destaco alguns abaixo (em ordem cronológica, sem ordem de preferência), junto das anotações originais. Alguns pontos:
- a única banda a aparecer mais de uma vez foi o Ludovic
- dos 16 shows mencionados, 10 foram em festivais/feiras (o que reflete a importância desses eventos em disseminar a música alternativa em um mercado cheio de restrições orçamentárias)
- 12 espaços/casas de shows aparecem na lista, sendo que o mais frequente foi A Autêntica, em BH (4 dos shows que citei aconteceram lá)
- somente shows nacionais entraram na lista. Para citar somente um gringo "fora do eixo" estadunidense/europeu, destaco o show do Sukippara Ni Sake no Club Quattro Umeda, de Osaka, no dia 2 de fevereiro ("Lugar do caralho no 10º andar de um prédio. Afinações estranhas, muitas mudanças de tempo, às vezes lembrando uma versão j-pop de Fugazi e Faith No More")
- desses quase 150 shows, só três foram marcados como realmente horríveis (um deles vem acompanhado apenas da anotação "vergonha alheia")
- por considerar que é através dos shows que a maioria dos artistas consegue a principal parte de seus rendimentos, achei válido fazer essa retrospectiva dos shows por aqui. Torço pra que as bandas incluídas aqui sigam tocando cada vez mais (e, se figurar nessa lista ajudar ao menos um pouquinho, já valeu).

Baleia em BH, foto por Luciano Viana

Baleia
festival La Femme Qui Roule, no Galpão Cine Horto, 28 de fevereiro 
"O Baleia cresce muito ao vivo. Daquelas bandas que entendem as nuances do estúdio e sabem se adaptar para o palco".

SLVDR 
na Soleá Escola de Flamenco, 27 de março
"Math rock esporrento, bons instrumentistas. Público molecada não entendeu muito".

Bixiga 70
no Baixo Centro Cultural, 25 de abril
"Show de lançamento do 3º disco da banda. Muita pressão, casa lotada. Nunca vi um show ruim deles".

Dibigode
na Jam no Mam, no Museu de Arte Moderna da Bahia, 23 de maio
"Melhor show da turnê de lançamento do Garnizé, fora o show de BH. Calor baiano, cerveja barata e acarajé enquanto a banda tocava ao lado do mar".

Retorno do Ludovic, foto por Flávio Charchar

Ludovic
festival Transborda, n'A Autêntica, 20 de junho
"Show de retorno da banda. Ótimo. Não me lembrava de todo esse peso ao vivo. Faltam bandas realmente boas fazendo esse tipo de som".

Uakti
Savassi Festival, no CCBB, 8 de julho
"Show pra ficar de olhos fechados. Primeiro sem o Décio, senti certa tristeza nos integrantes". NOTA: esse foi o penúltimo show antes da banda acabar.

Hurtmold
Savassi Festival, n'A Autêntica, 10 de julho
"Show mais barulhento e enérgico que vi da banda. Espaço lotado, quase toda banda de rock alternativo de BH tinha algum integrante ali".

Hierofante
na Sensorial Discos, 19 de agosto
"Grande surpresa. O Goat brasileiro. Trio de rock psicodélico pra trilhas ritualísticas".

Câmera
no Studio Bar, 28 de agosto
"Melhor show que já vi deles. Mais pressão, mais noise. Ótima fase da banda, reflete bem a repercussão que estão tendo".

Senta a Pua!
Savassi Festival dentro da Virada Cultural de BH, na Praça da Savassi, 13 de setembro
"Puta banda, dos shows mais animados desse ano. Gafieira afiada, ótimos instrumentistas".

Pequeno Céu
festival Viva, n'A Autêntica, 17 de setembro
"A banda perdeu integrantes esse ano mas ganhou pressão. Pós-rock com menos firula e mais brasilidade".

Mariana Aydar
no teatro Bradesco, 1º de outubro, BH
"Denso, pesado, cenário sombrio. Bem diferente dos discos anteriores".

Reallejo
Sonâncias, n'A Autêntica, 28 de outubro
"Surpreendeu muito. Intimista no sentido positivo da palavra. Diálogo com o audiovisual muito bom".

Cidadão Instigado no Coquetel Molotov, foto da Revista O Grito

Cidadão Instigado
festival Coquetel Molotov, na Coudelaria Souza Leão (palco interno), 31 de outubro
"Rock progressivo nordestino. Peso, 3 mil pessoas cantando. Cidadão é das melhores bandas ao vivo que já vi".

Ludovic
festival Coquetel Molotov, na Coudelaria Souza Leão (palco externo), 31 de outubro
"Devia ter umas 100 pessoas assistindo, enquanto a maioria via o Tono com o Ney Matogrosso no outro palco. Show mais curto e tão intenso quanto o de BH. Jair saiu do palco direto pro hospital, rs".

Guizado
SIM, no CCSP, 5 de dezembro
"Só um pocket show, mas foram 15 minutos muito melhores do que a maioria do que as bandas que se dizem experimentais por aí estão fazendo. Black Sabbath jazzy".

29 de abril de 2015

Melhores lançamentos portugueses de 2014

Nossos parceiros do blog português BancCom fizeram uma lista com 25 álbuns e 10 EPs que se destacaram entre os lançamentos portugueses de 2014. Ótima lista pra conhecer novos artistas lusófonos.


TOP 25 LP's NACIONAIS DE 2014:
25. A Mountain & a Tree, por Imploding Stars, Cosmic Burger Records


(ouvir aqui) (ler mais)
"A Mountain & a Tree" dos Imploding Stars é o resultado do amadurecimento do primeiro fruto colhido em 2012, o EP "Young Route". Uma epopeia sombria e sem perspetivas para o futuro do homem na terra, recheada de estrelas cintilantes e positivas a pensar no renascimento, pós-fim do mundo. E no meio deste conflito entre extremo opostos surgem riffs por vezes agressivos, por vezes apaziguadores, a melodia, a harmonia, o caos, a guerra. Augura-se para os bracarenses um amanhã mais próximo do destino da natureza do que do futuro do homem nesta terra.


Mickaël C. de Oliveira
24. Keep Razors Sharp, por Keep Razors Sharp, NOS Discos


(ouvir aqui)
Os sinais de um rock psicadélico, dono e senhor do poder do oculto, sedutor, a conter-se para não efervescer rapidamente e pronto para se tornar igualmente visual já vinham de 2013 e osKeep Razors Sharp não se ficaram por intenções.
A estreia faz-se em formato longa-duração e longo alcance, numa conjugação cheia, feita de realces com o universo indie mas também da música de autor solitário e até do shoegaze. De um super-grupo arduamente entrosado sai um dos poucos super-álbuns rock do ano. Robustez de longa data, afiança-se: elasticidade superior à do puro rock n’ roll, certifica-se.


André Gomes de Abreu
23. Black Bombaim & La La Ressonance, por Black Bombaim & La La Ressonance, PAD/Lovers & Lollypops


(ouvir aqui)
Barcelos, essa cidade tantas vezes referida quando se fala de música nacional, é berço das duas bandas que se juntaram para gravar o disco homónimo. Daí até à mistura entre os ritmos psicadélicos dos Black Bombaim com o post-jazz assumido pelos La La Ressonance é um instante. O conceito do disco faz-se valer pelo modo como as músicas evoluem lentamente ao invés de explodirem, assumindo-se que o próprio ouvinte consiga compreender a viagem dos próprios músicos pela sua genuína criatividade.


João Gil
22. Hexágono Amoroso, por Miguel Torga, Elements Records


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Curto e directo, “Hexágono Amoroso” é o grande estoiro, quase buraco negro, a grande história do house e do techno nacional que amanhecem em matéria de LP's de 2014. Não é demasiado centrado em si próprio, não é demasiado selectivo, não apela à dança descoordenada, não é ridículo mas é inteligentemente absurdo, às vezes vocalizado e até faz sorrir. Há, objectivamente, Manoel de Oliveira e Mário Viegas e mesmo elementos campestres que não contaminam o que é para meditar e calar como numa reprimenda austera ou numa selecta de Carl Craig e Herbert.
Todavia, como bom aluno que é, Miguel Torga deixa os EPs de lado e reinstaura na estreia em disco cada elemento, substituindo-os e reconstruindo-os se necessário, à sua medida, à medida do seu próprio ambiente. Sensacional. 


André Gomes de Abreu
21. Forgetting is a Liability, por Mr. Herbert Quain, Zigur Artists


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Com a forte sensação de que os artistas que todos estamos a ajudar a construir têm a sua noção de carreira e identidade, “Forgetting Is A Liability” não pode ser visto ao desbarato como uma prova de confiança.
A produção apuradíssima, perdida entre o uso magistral do sampling, da batida e das películas de graves, sublima cada tom físico, baladeiro, de descoberta, de esvaziamento da mente pelo entorpecer do tempo numa travessia da aridez electrónica altamente enriquecida e alimentada num passo à frente em música para pessoalizar, num perfeito contraste com o vasto legado que se pretende descobrir e alcançar, recuando ou avançando cronologicamente. 
Pensando melhor, esta é mesmo uma prova de desconfiança em relação à capacidade de Nicolas Jaar e compinchas de fazerem, regularmente, muito melhor que Mr. Herbert Quain, Manuel Bogalheiro. Faremos de conta que nos esquecemos.


André Gomes de Abreu
20. Pesar o Sol, por Capitão Fausto, Sony Music Portugal


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"Pesar o Sol" é o segundo álbum dos Capitão Fausto. A banda de Lisboa continua a cativar os seus fãs através de um rock fresco e jovem que ao mesmo tempo recebe influências de outros tempos de sonoridades progressivas. As letras são como manda a música, de referências fáceis de compreender, muitas vezes cruzadas com realidades portuguesas. Álbum de Verão? Talvez, mas também de 2014.


João Gil
19. Until The Cosmos Takes Me Back, por We All Die! What A Circus!, Ed. Autor


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"Until The Cosmos Takes Me Back" revela um post-rock demorado e paciente, à espera do momento certo para explodir. A guitarra torna-se a peça-chave e preenche todos os espaços com melodias que têm tanto de misteriosas como de melancólicas, com o bónus de faixas como "From India To Gaza" (I e II) onde influências orientais se fazem sentir. We All Die! What A Circus! é a própria ode ao universo morto que João Guimarães construiu e a prova disso está nas 13 viagens a esse cosmos tão calmo e tão inquieto ao mesmo tempo.


João Gil
18. Scattered Into Light, por Sun Glitters, Mush Records


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No Luxemburgo vive o segredo mais bem guardado do mundo luso-descendente. Victor Ferreiraaka Sun Glitters é um dos artistas mais aclamados do seu paίs, pela capacidade que tem em elevar o seu auditor para outros palcos, para outras dimensões. Mais apoiado por vozes femininas, com uma componente visual que o segue por quase todos os palcos, Victor Ferreira tem dado a volta ao Mundo e transmitido essa viagem através das suas músicas. Nas suas músicas, são-nos tanto sugeridos espaços calorosos como espaços frios e até mesmo mais sombrios. Um registo que os portugueses devem (re)descobrir!


Mickaël C. de Oliveira
17. Far Out, por Black Bombaim, Lovers & Lollypops / Cardinal Fuzz


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Duas músicas, cerca de 34 minutos, e uma viagem até às Áfricas e às Árabias. Um programa no minίmo curioso para um disco de post-rock. E se a essas lantejoulas adicionarmos outras como a presença de Rodrigo Amado e The Astroboy, fica-se ainda mais com a ideia daquilo que este disco pretende provocar no auditor, e até onde o quer levar. Longe, bem longe, lá em cima, durante os 34 minutos, e mais outros 34 para descer. 


Mickaël C. de Oliveira
16. Diffraction/Refraction, por You Can't Win, Charlie Brown, Pataca Discos


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Apesar da torrente de discos e canções ao longo do ano, nunca devemos menosprezar o poder das primeiras impressões. Foi assim que o segundo álbum dos You Can’t Win, Charlie Browneclodiu neste ano, como um objecto de novidade, reverencial e desafiador sem o chão de singles inquestionavelmente portentosos. Contudo, é pegando pelos exemplos de “Shout”, “Fall For You” e “Be My World” que continuamos a ser conquistados pelo quanto este conjunto de canções tão arquitectado é bem sucedido em emocionar e escavar tão profundamente e deixar o fogo de artifício instrumental ecoar grandioso em tom quase naïve.
A força da evolução dita que ”Chromatic” foi a exploração, “Diffraction/Refraction” é a maravilha, o imprevisível de criar beleza e vida selvagem que os faz honorários membros da família Pataca.


André Gomes de Abreu
15.Sereia Louca, por Capicua, NorteSul/Valentim de Carvalho


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Há uma senhora que se ergue entre os seus pares. Desde o homónimo disco de estreia, peça-chave do hip-hop nacional dos anos mais recentes, Capicua cresceu e conheceu mais sobre o que queria fazer dentro da comunidade do hip-hop português aprendendo com as oportunidades, criando outras. É por isso que o registo sucedâneo é só feito de singlesimediatos, odes à figura feminina, exaltações do cidadão comum que de destreza na métrica e força na lírica nada sabe, temas soberbamente compostos para todos cantarem e algumas reinterpretações que fecham, infelizmente, o espaço a outros originais.
Mas 2014 é o ano da rainha. Ou da sereia, saudavelmente louca. 


André Gomes de Abreu
14. 1975, por XINOBI, Universal Music Portugal


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Por vezes diz-se que mais vale não editar um álbum se ele não refletir a qualidade do seu autor. Há quem diga que um mau álbum poderia ganhar em qualidade se o tempo que passa não fosse intrinsecamente ligado à perda de dinheiro.
Mas há sobretudo quem tenha a coragem e a honra, ainda hoje, de esperar anos e anos antes de editar o seu primeiro longa-duração. Um retrato fidedigno, digno, polido e limado como os discos produzidos pela D.I.S.C.O Texas sabem tão bem fazer. O álbum ideal, cinematográfico, e iniciático para os fãs e os menos fãs da música eletrónica portuguesa, tanto virada para a pista atual como para a pista de há vinte ou trinta anos, tanto feita para descontrair sonhando como para dançar esquecendo.



Mickaël C. de Oliveira
13. Fornalha, por Norberto Lobo, three:four records


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Norberto Lobo continua a dar provas de ser um artista nacional de excelência. Se o ano de 2013 colocou "Mogul de Jade" nos 25 escolhidos do Bandcom, "Fornalha" confirma o estatuto de guitarrista de eleição. Este último trabalho trouxe consigo algumas sonoridades diferentes, com um maior nível de experimentalismo exótico aos ouvidos mais desabituados (caso da faixa homónima e de "Maryam"), misturadas com baladas a que o artista já nos habituou (exemplo de "Pen Ward"). Ainda melhor que escutar o disco, é poder assistir a um concerto para poder contemplar o sorriso de Norberto após cada aplauso do público. Assim dá gosto fazer e ouvir música.


João Gil
12. The White Haus Album, por White Haus, NorteSul/Valentim de Carvalho


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João Vieira continua a surpreender com o seu projeto White Haus. Depois de um EP lançado no ano passado, este ano "The White Haus Album" surge com a sua música que pode dançada, mas nunca se fica por aí: é importante compreender a componente de todas as referências pelas quais o próprio artista vai guiando o seu rumo na escolha de samples, sendo o resultado esta electrónica ambiental e descomprometida.


João Gil
11. Clarão, por PAUS, Universal Music Portugal


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A expectativa era grande depois de um primeiro longa-duração áureo. Se "Clarão" nem sempre recebeu crίticas lisonjeadoras, para mim conforta o poderio de uma das bandas mais impressionantes que Portugal viu nascer. Como tinha sido para o primeiro álbum, "Clarão" ganhará seguramente uma potência indescritível ao vivo que quase nenhuma banda portuguesa pode igualar. E lá estaremos para depois, de regresso a casa, voltar a descobrir aquilo que não tίnhamos vislumbrado neste belo clarão.


Mickaël C. de Oliveira
10. A Bunch Of Meninos, por Dead Combo, Universal Music Portugal/Rastilho Records


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Monstros da música portuguesa, da guitarra e do ambiente western também ele bastante cinematográfico, os Dead Combo convenceram mais uma vez todos os crίticos nacionais e internacionais. Mais uma vez, uma demonstração da mestria de Tó Trips e Pedro Gonçalves, os dois músicos que nasceram num paίs claramente demasiado pequeno para o seu talento.


Mickaël C. de Oliveira
09. Pelo Meu Relógio São Horas de Matar, por Mão Morta, NorteSul/Valentim de Carvalho


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São 30 anos de carreira tão à beira e quase tão à margem de Portugal, o mesmo país que se fica, em 2014, pela estupefacção estupidificante concentrada num videoclip de um cartão de visita. É verdade que os Mão Morta sempre quiseram e souberam que tinham meios de chamar a atenção de uns e despertar a paixão noutros para a realidade. 
O preceito musical continua o mesmo mas supera-se e actualiza-se de maneira tão cirúrgica e colada à pele como o conceito subjacente. Ultrapassados todos os limites do comezinho, toda a consciencialização própria é legítima deidificação.
A proibição eterna, essa, pode ser o maior crime de todos.
Todas as cartas de amor são olhos e ouvidos na primavera de destroços seguinte. 
Tic-tactic-tac


André Gomes de Abreu
08. Safari Entrepeneur, por M.A.U., Ed. Autor


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"Safari Entrepreneur" é outra das obras de arte que a música eletrónica portuguesa nos ofereceu este ano. Entre a dream/pop de uns M83 e a chillwave, entre os synths 80's e os coros dark, os M.A.U. fazem uma sίntese gloriosa e justa dos nossos tempos, um registo vincado no presente pela sua ligação com o passado e a influência que terá na próxima geração de músicos portugueses do mundo electro.


Mickaël C. de Oliveira
07. True, por The Legendary Tigerman,Metropolitana / Sony Music Portugal


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A execução de The Legendary Tiger Man tem deixado cada vez mais de ser exclusiva de Paulo Furtado sem que por isso caiba no domínio dos Wraygunn. Em “True”, a complexidade e a densidade são tentações novamente exploradas de outras formas sem descurar a crueza, a simplicidade, essa noção de “verdade” que questionamos noutras propostas do género, por excesso ou por defeito. Mas, de forma decisiva, continuam a nascer aqui belíssimas canções arrancadas da medula de um verdadeiro embaixador daquilo que não podemos perder por nada quando queremos ouvir um disco de autor que parece que pode ser sempre apenas o primeiro de uma bonita carreira. Nem tudo se ensina, e o tempo aqui gasto sabe disso.


André Gomes de Abreu
06. Quidam, por Catacombe, Raging Planet


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Passados quatro anos desde o seu último trabalho, os Catacombe regressaram com "Quidam", um álbum que não deixa fugir a veia progressiva inerente às sonoridades da própria banda, porém mais introspectivo que o anterior "Kinetic". O som, gravado num registo limpo que não deixa nenhum instrumento fugir para segundo plano, continua rico nos crescendos e variações enraizados no próprio género. Engane-se quem assuma tal como a repetição constante, pois estes rapazes de Vale de Cambra vão mostrando como é possível continuar a trazer inovação a um post-rock tão clássico.


João Gil
05. B Fachada, por B Fachada, Ed. Autor


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Este foi também o ano em que Bernardo voltou. Deixando de lado a tendência de "Fim", o cantautor voltou a trazer à ribalta as tendências eletrónicas que vinha produzindo desde "Criôlo", porém com letras substancialmente mais focadas numa crítica social ao seu próprio país. "Camuflado" é um dos exemplos mais claros, assim como "Dá Mais Música À Bófia", que parece remeter o ouvinte para a tão célebre e polémica manifestação que colocou polícias frente-a-frente com polícias. (B) Fachada parece estar, efetivamente, pronto para fixar o seu nome no panorama da música de intervenção em Portugal.


João Gil
04. How Can We Be Joyful In a World Full of Knowledge, por Bruno Pernadas, Pataca Discos


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"How Can We Be Joyful In a World Full of Knowledge" é, mais do que uma das principais revelações de 2014, a afirmação da criatividade do seu autor, Bruno Pernadas, capaz de fundir tantos estilos quantos pode: desde a pop até ao jazz, desde o afro-beat até ao lounge, é a componente electrónica que vai orquestrando esta aventura iniciada por esse grito que é "Ahhhhh". E é por isto tudo que vale a pena citar André Gomes de Abreu: "Extravagância? Exagero. Vivência? Tampouco. Nunca o encanto foi mais exigente ou ambicioso do que a perfeição que no paraíso a andar à roda de Bruno Pernadas."


João Gil
03. II, por Gala Drop, Golf Channel Recordings


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"Broda", editado em 2012, já nos tinha deixado boas impressões. Como nós, a imprensa nacional e internacional ansiava pelo regresso dos portugueses. Sobriamente intitulado "II", este registo é uma pequena amostra do leque infinito de sonoridades dos Gala Drop. Há jazzrockfunk,reggae, psicadelismo…e mais outros tantos géneros musicais que se fossem aqui todos citados não caberiam numa única página. Mas "II" é, acima de tudo, uma demonstração de que existe um selo Gala Drop, uma marca reconhecίvel entre todas, mesmo que seja o resultado de uma miscelânea de elementos provenientes dos quatro cantos do planeta, dos quatro cantos da música. 


Mickaël C. de Oliveira
02. Dois, por Batida, Soundway Records


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O segundo disco de Pedro Coquenão, “Dois”, é feito da exploração ao máximo das potencialidades do caldeirão sincopado da música africana que é redescoberta por todo o Mundo, inclusive pelos portugueses. Seria aparentemente fácil, por isso, que um novo registo fosse impulsionado por desejo de novas conquistas, mas Batida continua a ser fazer da tradição moda sem os escrúpulos do presente, numa inesgotável fonte de bleeps melódicos, beats gordos e um groove arrancado às mesmas raízes que deslumbraram todos os antepassados.


André Gomes de Abreu
01. 8, por Sensible Soccers, PAD/Groovement


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8 é daqueles álbums atmosféricos que nos transportam para horizontes sombrios e ao mesmo tempo dançáveis. Sombrios sem nunca serem angustiantes, dançantes sem nunca caίrem no estereótipo. Mas belos, como uma viagem feita de psicadelismos, exorcismos e danças entresynths e guitarras elétricas, lá em cima – mais uma vez.


Mickaël C. de Oliveira



TOP 10 EP's NACIONAIS DE 2014:

10. Boundaries, por Holy Nothing, Turbina
Embora seguindo e seguidos por alguns trabalhos dentro do género – até é Rui Maia aka Mirror People quem mexe alguns cordelinhos na produção -, dentro e fora de portas, os Holy Nothingapresentaram este ano “Boundaries”, um conjunto de 4 faixas em que ora mais exploratória e intelectualizada, ora mais impulsiva e orgânica, a vertente mais pop da electrónica é dominante mas não oscila na hora de se tornar mais incomum, mais dubstep, mais glitchy e tentar desprender-se por completo de catalogação imediata mesmo no que à restrição de influência geográfica diz respeito. Na busca pela intemporalidade, a busca pela coesão é aqui, para já, um interessante checkpoint.


André Gomes de Abreu
09. Grey Veils, por Chainless, Cohort Recordings


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Ninguém sabe ao certo quem é Chainless, criador do grandiloquente "Grey Veils". Conhecem-se algumas das suas afinidades, mas sobretudo a sua tendência em explorar um certo tipo de sonoridades. Sente-se hip-hop, sente-se um vento negro, sentem-se vozes angustiantes, sentem-se synths e batidas envolventes. Há todo um imaginário místico que se cria em nós ao ouvir este conjunto, qualquer coisa como uma oração fúnebre em pleno Lux. "Grey Veils", daqueles apelos às trevas aos quais é impossível resistir.


Mickaël C. de Oliveira
08. October Stash, por Holly, Rockit


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A multiplicidade e a constância de colaborações com protagonistas internacionais e nacionais transmite uma quantidade deslumbrante de texturas ao EP que Miguel Tomás Oliveira, o novo menino da Rockit e agora da ASTROrecords , lançou perto do Halloween. Funkelectro-pop,dubstepchillwave e R&B somam-se à necessária reinvenção prática do fato de gala e das tarefas domésticas do beat e fazem deste um dos EPs mais interessantes de 2014 à procura de um hip-hop contemporâneo e de encontrar o irmão, DJ Ride, no trono destinado aos filhos de uma cidade que está finalmente em condições de marcar 2015 e os próximos anos: Caldas da Rainha.



André Gomes de Abreu
07. Lucky Punch, por DJ Marfox, Lit City Trax


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DJ Marfox é um dos artistas portugueses mais conhecidos atualmente fora do paίs. Porém, em terras lusas, o sucesso tardou a chegar, o que conforta a opinião dos muitos que afirmam que é preciso haver um reconhecimento fora de fronteiras para alcançá-lo dentro do próprio paίs. Um dos porta-estandartes da editora Prίncipe Discos, que tem influenciado e elevado toda uma cena desconhecida das periferias de Lisboa, DJ Marfox continua a ser o patrão de uma das batidas mais violentas, enérgicas e dançáveis do paίs. "Lucky Punch" é mais um exemplo desse poder, desse leque de rίtmos entre kudurotarraxinhatechno e house cuspidos cruamente.


Mickaël C. de Oliveira
06. Theories Of Anxiety, por IVVVO, Danse Noir Records


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2014 não podia acabar sem mais um registo do produtor IVVVO. “Theories of Anxiety” é daqueles tίtulos de registo que mais tem a ver com aquilo que nos oferece. Um technocontemplativo, enevoado, negro, controlado pelo autor. Dançável nalguns momentos, paralisador noutros, Ivo Pacheco brinca com a nossa ansiedade, cujas origens parece conhecer e dominar. Uma ansiedade próxima talvez da que tem em editar EP's e álbuns de alta qualidade de uma maneira tão prolίfica. 


Mickaël C. de Oliveira
05. Outerspace, por Solar Corona, Ed. Autor


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A cosmicidade de "Outerspace" é a arma forte dos Solar Corona. A banda de Barcelos apresenta 5 temas onde a técnica e a composição se destacam num space-rock tendencialmente progressivo. Alguns momentos mais pesados dão até lugar a algo que se aproxima do post-metal, porém, sempre numa homogeneidade que caracteriza o próprio EP. 


João Gil
04. Puzzle, por W.I.N.D., Ed. Autor


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Daniel Gonçalves, ou W.I.N.D., lançou este ano o EP "Puzzle". O seu carácter instrumentalista muito voltado para o hip-hop acarreta uma lufada de ar fresco nos trabalhos apresentados em Portugal extra Monster Jinx, assumindo um papel muito importante na própria produção ao nível da Zona Centro. É então entre sete faixas que W.I.N.D. vai experimentando o seu próprio som, montando-o em peças de samples e loops onde cabem algumas ilustres referências, como é caso de um poema perdido de Rod McKuen. Aguardam-se futuros trabalhos promissores.


João Gil
03. Badlav, por JIBÓIA, Lovers & Lollypops


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Que mais há a acrescentar sobre a música hipnotizante de JIBÓIA? "Badlav" confirma aquilo que o músico melhor sabe fazer e que já tinha mostrado no ano passado - de facto, a construção deloops exóticos a remeterem para um ambiente psicadélico são a base perfeita para a voz de Ana Miró, que dá o pontapé final na viagem até ao Médio Oriente. E se no EP homónimo as faixas pareciam, a certa altura, tornar-se todas iguais, neste último trabalho Óscar Silva parece ter ultrapassado essa problemática. Será certamente um dos trunfos em que a Lovers & Lollypops poderá continuar a confiar.


João Gil
02. Odyssey Of The Mind, por Bison & Squareffekt,Generation Bass


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Melancolia e tristeza não são as palavras que nos vêm logo à cabeça quando queremos falar dekizomba e tarraxinha. Se a sensualidade entranhada nesses géneros musicais permanece, há algo de incrivelmente pujante nos temas electro de Bison & Squareffekt. A beleza da mescla das palavras melancolia, tristeza e sensualidade poderia mesmo ser a melhor definição para este EP. Ritmos minuciosos que flutuam e que confirmam o estudo que diz que a música triste, associada a um tempo lento, torna-nos felizes.


Mickaël C. de Oliveira


01. Quim, por Gonçalo, Lovers & Lollypops


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Aparte os Long Way To Alaska, com quem gravara “Life Aquatic”, mas pouco divergindo da sua sonoridade, o “Quim” de Gonçalo Alvarez foi, talvez, o primeiro lançamento de 2014 em que depositámos uma espécie de rara fé de haver salas enormes cheias de pessoas à volta de acordes tão sensíveis.
Canções felinas docemente irresistíveis com uma infância feliz em fundo, dedilhadas, acamadas e articuladas nos tempos de uma valsa campesina que em “Crianças” é, pratos limpos, comovente e que só pode dar num próximo longa-duração. 
Tal como em cima os Sensible Soccers são o mais perto de um consenso, não é de espantar que, encantados com a nossa própria imaginação da perfeição jingle-jangle ruralizada pelo básico dopost-rock de contar histórias sem ter que falar, comecemos e terminemos 2014 com estes dois lançamentos. 
Parece que ainda foi ontem que tudo (re)começou.


André Gomes de Abreu

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