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1 de abril de 2012

Coletânea Cena Independente #3

Cena Independente é um projeto baseado no Music Alliance Pact. Nele blogs nacionais especializados juntam o que há de mais novo e relevante na música independente de seus estados em uma coletânea mensal, publicada sempre no último dia de cada mês. 

Nesta edição a capa ficou por minha conta. Fiz todo o trabalho no celular, tentando aprofundar no conceito de mídias digitais e mobilidade que abordo cada vez mais no Meio Desligado.

O download da coletânea com todas as músicas pode ser feito no Mediafire.


MINAS GERAIS: Meio Desligado
Psilosamples – Olho de Cabra
eletrônica experimental/IDM
Por vezes soando como uma "IDM tropical", as músicas do Psilosamples utilizam samples, timbres vintage e ritmos quebrados de forma lo-fi e experimental. Oriundo do interior de MG, o Psilosamples tem crescido no circuito eletrônico alternativo, como sua presença no importante festival Sonar (em suas edições brasileira e espanhola) prova.
Para quem gosta de: Daedelus, Girl Talk, Squarepusher


RIO DE JANEIRO: RockinPress
Mahmundi – Desaguar 
chillwave/indie 
Mahmundi é o projeto onde Marcela Vale se descreve em cores variadas, deixando aflorar seus sentimentos e de forma bonita, quase juvenil. Ouvir letras tão afogadas no amor e ao mesmo tempo destoadas por um instrumental dançante, com um timbre próprio e envolvente, fazem a música de Mahmundi ser ainda mais plural, mais contagiante. É fácil se encontrar dentro das canções do seu primeiro EP, Efeito das Cores – seja dentro de uma pista de dança ou feliz ao encontrar um amor. Afinal, a música nasceu para demonstrar sentimentos e com essa magia, Marcela sabe se expor.
Para quem gosta de: Toro Y Moi, El Guincho, Tulipa Ruiz 

PARANÁ: Defenestrando
Naked Girls and Aeroplanes – K.A.C.C. (Rough Love)
folk/fofura
Formado por Rodrigo Lemos (d’A Banda Mais Bonita da Cidade e Lemoskine), Artur Roman e Wonder Bettin (ambos do Sabonetes), o Naked Girls and Aeroplanes é um desses grupos que combinam fofura e acordes que soem da melhor forma possível para chegar em algum ponto profundo e sentimental. Na música “K.A.C.C. (Rough Love)”, o trio parece misturar inocência e sensualidade a partir de arranjos vocais cuidadosamente planejados. A faixa está no EP de estreia da banda, lançado em fevereiro deste ano.
Para quem gosta de: Florence + The Machine, Cícero, Rosie and Me 

SÃO PAULO: Move That Jukebox
Some Community – Head and Tail
indie/dream/pop
A bateria quase marcial marca os primeiros segundos do novo single dos paulistanos do Some Community. O baixo e o backing vocal do ex-Volantes Bernard Simon também são destaques nessa nova fase da banda - que volta em 2012 com EP novinho e shows recentes no Sxsw no currículo. “Head and Tail”, que já ganhou até um belíssimo vídeo, é cheia de climas etéreos, guitarras agudas e oníricas e teclados vibrantes com melodias singelas. A doce voz de Juliana Vacaro é a cereja do bolo. E em 5 minutos, o Some Community mostra que muita coisa mudou – pra melhor – desde RinoRino, EP debut da banda, de 2010.
Para quem gosta de: Warpaint, Cambriana, Local Natives

PERNAMBUCO: AltNewspapper
Daniel Araújo – Estero Bla
ambient/experimental/instrumental/lo-fi
Daniel Araújo, artista responsável pela “cara” da Cena Independente #2, retorna nesta edição agradando desta vez aos ouvidos. Neste mês o músico lançou seu primeiro registro solo, todo feito em casa e seguindo a verve instrumental característica dele em suas bandas. O álbum se chama “De Dentro do Ser” e a faixa escolhida é a bela “Estero Bla”, uma sobreposição de camadas dançantes bem agradáveis. O jogo de letras que dá nome a música deixa claro a principal influência da mesma, decifre o mistério ouvindo...
Para quem gosta de: Hurtmold, Tortoise, Monodecks

BAHIA: El Cabong
Opanijé – Se Diz 
rap/hip hop
O rap baiano poucas vezes ultrapassou as fronteiras do estado. Quem promete mudar isso é o Opanijé, grupo formado em 2005 e com o primeiro disco prestes a ser lançado. Dois MCs e um DJ unindo elementos clássicos do rap - samples bem sacados, batidas e crítica social - com ritmos afro-baianos, cânticos do candomblé, percussão e uma criatividade que às vezes entorta o ideal rapper. 
Para quem gosta de: Racionais MC's, Beastie Boys, Tincoãs

MATO GROSSO: Factóide
Macaco Bong – Japabugre
rock instrumental
O EP Verdão e Verdinho possui uma grande simbologia, já que foi o primeiro material gravado depois que o Macaco Bong se mudou de Cuiabá, mas tem a influência forte da viola pantaneira. Eles não sabiam, mas também foi o último registro de estúdio com Ney Hugo, da formação clássica do Macaco, que deixou a banda recentemente para dar lugar ao mineiro Gabriel Murilo.
Para quem gosta de: Mogwai e Slint

ESPÍRITO SANTO: Ignes Elevanium
Manfredines – Silêncio
rock
Manfredines é uma das mais interessantes bandas capixabas que fazem parte desse novo rock nacional, liderado por bandas como Los Hermanos e Móveis Coloniais de Acaju. Porém, a banda não toma suas influencias diretamente desses nomes, e sim de nomes dos anos 80 como Legião Urbana, Titãs e Paralamas do Sucesso. Conclusão: temos uma sonoridade nova e moderna, mas com a mesma qualidade e profundidade das bandas do passado. Eu diria que influencias inclusive da música internacional como Radiohead figuram evidentes na sonoridade da banda, especialmente no single "Silêncio", lançado em 2011, que é um excelente exemplo do som dos caras. A banda está pra lançar novo material em 2012, e como são uma banda totalmente independente, não tem muitas datas fixas, mas acredito eu que podemos aguardar um novo trabalho para este ano. Excelente banda mesmo, recomendadíssima!
Para quem gosta de: Radiohead, Los Hermanos, Titãs

RIO GRANDE DO NORTE: FUGA Underground
The Red Boots – Suicide
rock alternativo/thrash metal/desert rock
Os Red Boots lançaram seu álbum de estreia, “Aracnophilia”, no final de fevereiro pelo Projeto Incubadora do DoSol Netlabel. Com uma sonoridade densa que contrasta com a formação simples de um duo de guitarra e bateria, e usando de forma inteligente referências das mais diversas dentro do rock e do metal, a banda mossoroense criou um disco cheio de personalidade. Ecos de Metallica, Sonic Youth e Motörhead podem ser sentidos em “Suicide”, uma das faixas que dão a tônica do álbum.
Para quem gosta de: Metallica, Sonic Youth, Motörhead

PARAÍBA: Atividade FM
Johnny – BLEFE
indie rock/garage rock
JOHNNY é uma banda estreante no rock paraibano que começou a ganhar certa fama divulgando alguns singles avulsamente com qualidade. A banda é formada apenas por Gabriel Romio e Leon Guimarães que gravam as músicas sozinhas num estúdio, mas, que nas suas apresentações contam com músicos de apoio. É perceptível uma grande influências de bandas britânicas de indie rock, como aquele Arctic Monkeys no início, principalmente nas letras que falam sobre relacionamentos e suas guitarras rápidas e dançantes.
Para quem gosta de: Vivendo do Ócio e Selvagens à Procura da Lei

Godzilla – Insolação
punk
A banda Godzilla vem do Estado do Amapá - especificamente do município de Santana. Suas conexões psíquicas suprem essa distância com uma leitura atualíssima, sexy, desolada, sagaz e urgente do rock e das relações humanas, como se vivessem em uma Megalópole destruída pelo monstro japonês que lhes empresta o nome.
Para quem gosta de: Ramones, Misfits, Sex Pistols

ALAGOAS: Sirva-se
Interrompidos - Igual à Minha Vida
rock/MPB/blues
Após uma série de mudanças, a Interrompidos se fortalece entre as bandas alternativas de Alagoas. Com o lançamento recente do EP “Interrompidos” e do clipe “Igual a minha vida” a banda que mistura Rock and Roll, Blues e MPB, vai se inserindo em um novo cenário onde já conseguiu o seu destaque. Com nove faixas, o EP simboliza bem a transformação e evolução musical do quarteto. Letras mais introspectivas e reflexivas junto a um instrumental equilibrado são o ponto alto da banda. O destaque da vez vai pra música que dá nome ao primeiro clipe da banda.Para quem gosta de: Made In Brazil / Secos e Molhados / Mutantes

ADVERTÊNCIA: Este material não deve ser comercializado. Ele foi produzido com fins estritamente promocionais.

23 de novembro de 2011

Cobertura do Eletronika 2011

Dez anos após meu primeiro Eletronika, é incrível o modo como o festival continua a surpreender. Se, em 2001, Jon Spencer Blues Explosion e Asian Dub Foundation eram novidades para o público de BH, uma década depois o festival parece ter ampliado sua capacidade de apresentar “novas tendências” (como sugere seu slogan) ao público mineiro. Para isso, muitas vezes sequer recorre a artistas de longínquos países, concentrando seus esforços em filtrar e posicionar em sua grade de programação nomes inusitados da cena brasileira.

Assim se deu a abertura da programação musical do Eletronika neste ano, no dia 16 de Novembro, na pequena Sala Juvenal Dias (que, como o Teatro João Ceschiatti e o Grande Teatro do Palácio das Artes, foi palco do festival), com o show do Objeto Amarelo. Som extremamente ruidoso, espécie de música ambiente produzida por máquinas autônomas, escolha que poderia parecer óbvia em um evento cujo tema é o enigmático “ruído de fronteira”.

No entanto, logo na sequência do experimentalismo do Objeto Amarelo, qualquer traço de obviedade seria catapultado ferozmente pelo show de grindcore da banda paulista Test. Também ruidoso e fronteiriço, mas com uma abordagem totalmente distinta.


Test

Essa série de abertura resume bem a edição deste ano do Eletronika, cheia de surpresas e boas apresentações. Os mashups do DJ e produtor Psilosamples, do interior de MG, começaram a animar a segunda noite de shows e se relacionaram de forma coerente ao rap do grupo paulista Elo da Corrente, responsável por diversificar ainda mais o festival com o público do hip hop. No Grande Teatro do Palácio das Artes, o SP Underground lançou seu novo álbum, Três cabeças loucuras, para uma boquiaberta plateia que minutos depois conferiu o desempenho correto, porém frio, da cantora norte-americana Glasser (ou “Goldfrapp querendo ser Björk”, como disse a alguém pelos corredores).

SP Underground

Já no início da madrugada, mesmo com manifestações da plateia à favor de um bis de Glasser, a festa tinha que continuar do lado de fora do teatro para o show dos mexicanos do Nortec Collective, que minutos após o início da apresentação já tinham ganhado o público com sua mistura de eletrônica dançante tocada em iPads e música típica mexicana com sanfona, tuba, trombone e direito à vestuário característico de mariachis nos músicos.

Durante todo o festival o público pôde conferir a exposição “ruído de fronteira”, com trabalhos que aproximam a arte da tecnologia; participar de debates; assistir a filmes ou, simplesmente, beber e comer alguma coisa no aconchegante Café do Palácio das Artes. Apesar de tantas opções, foi difícil encontrar alguém que não pretendesse ver o show do performático Rubinho Troll na sexta-feira. Há tempos vivendo no exterior, o ex-vocalista do Sexo Explícito (banda dos anos 80 que contava com John Ulhôa como guitarrista e que originou alguns dos primeiros sucessos de sua atual banda, o Pato Fu) mostrou músicas de sua carreira solo e “hits” como “Mamãe ama meu revólver” e “Menti pra você”, para delírio da plateia (majoritariamente trintona) presente. O calor humano e a emoção de tocar em casa foram tão grandes que, entre uma música e outra, uma assistente subia ao palco com um secador de cabelos para consertar a juba de Rubinho.

 
Trecho do show do Rubinho Troll

O êxito de público não se repetiu, infelizmente, no show seguinte, do elogiado Gui Amabis. Boa parte dos presentes para ver Rubinho Troll (notadamente, as pessoas mais velhas) deixou o espaço e perdeu a estreia de Amabis em BH. Acompanhado por uma banda formada por músicos renomados no meio musical alternativo (Régis Damasceno na guitarra, Marcelo Cabral no baixo, Richard Ribeiro na bateria, Dustan Gallas nos teclados e guitarra, Lucas Santanna na flauta e vocais, Tulipa Ruiz como cantora convidada), Amabis apresentou boas versões das músicas de seu primeiro CD solo, tendo a apresentação prejudicada pela sua falta de desenvoltura no palco e pelo fato dos californianos do Kisses terem começado a tocar, no Grande Teatro, antes do término de seu show (o que reduziu o número de pessoas presentes).


Quem, como eu, privilegiou o show de Gui Amabis, pôde conferir somente os instantes finais do Kisses, com mais de 20 pessoas no palco, ao lado da banda, cantando e pulando. Mais tarde foi possível saber que o vocalista da banda teria dito algo como “nós vamos demorar muito para voltar para o Brasil, então sintam-se à vontade para subir ao palco e aproveitar o momento”.

Atração mais aguardada do festival, a banda inglesa Ladytron não justificou a expectativa. Apesar de bem executadas, as canções da banda foram friamente interpretadas e soaram datadas (ou, no linguajar hipster, “meio last season”). Parte das pessoas preferiu sair do teatro para beber no foyer ou lotar o fumódromo, cuja bela vista para o Parque Municipal estimulava a continuidade no local, em contraponto à apresentação dos alemães.

Ladytron

E se a frieza marcou o Ladytron, o mesmo nunca poderia ser dito do show de Rich Aucoin. O canadense, acompanhado de mais duas pessoas em sua banda, gritou, pulou, fez mímicas e chuva de confetes, cantou em português, sampleou “Sou foda”, se jogou na plateia e até surfou (literalmente, em uma prancha), sobre o público. Indie rock com batidas eletrônicas farofeiras, extremamente divertido e dançante.



Para encerrar, a dupla The Hood Internet ainda tocaria durante a madrugada, mas, mesmo para quem decidiu ir embora antes, a sensação de satisfação parecia ser um consenso. Entre experimentalismos, estranhamentos e descobertas, o Eletronika justificou mais uma vez o respeito obtido ao longo de mais de uma década e, também novamente, pecou apenas pelo baixo público, que se concentrou apenas na última noite. Além de uma curadoria exemplar, talvez seja o momento de trabalhar também novas formas de expandir o público do festival.

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