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6 de outubro de 2009

Jornalismo bebum terceiro-mundista: o retorno

Jornalismo gonzo é para burgueses, bem-vindo ao (retorno do) jornalismo bebum terceiro-mundista (ou uma explicação sobre a razão das coisas serem mal-feitas na internet enquanto você se diverte)!

Tudo começou em uma bela noite de terça-feira (também conhecida como exatamente uma semana atrás), quando salvei meus companheiros de pós-graduação de uma entediante noite em um show de jazz estimulando-os a se embebedar no recém-aberto bar da Devassa em BH. A turma (que mais tarde viria a se chamar "Turma do amendoim", por motivos que eu só poderia contar se criasse um blog como esse) foi toda serelepe rumo ao bar que, mais tarde descobrimos, estava aberto apenas para convidados naquela noite. Tentei usar minha influência com o porteiro ("Mas eu sou blogueiro, porra!"), mas de nada adiantou.

Excitados pelo álcool da mesma forma que geeks ficam ao perceber a possibilidade de falar em público sobre como O Guia do Mochileiro da Galáxia é legal e bla bla bla, a descontrolada Turma do Amendoim partiu em direção ao boteco mais próximo que não tivesse pessoas de chapéu empunhando violões ou pessoas de dreadlocks.

Daí pra frente, uma série de acontecimentos que poderiam ter saído da mistura dos pensamentos de Bukowski, Finatti, Cronenberg e Frotinha fizeram com que este blog se tornasse temporariamente uma merda e eu me sentisse em uma letra do Lou Reed.

Se alguém me pagasse para saber da minha vida eu poderia descrever os mínimos detalhes que permanecem em minha mente. Como isso não acontece (ainda), manterei o foco no tema principal do blog.

Eu poderia simplesmente terminar alguns dos textos que estão salvos como rascunho e publicá-los com datas passadas na maior cara de pau, mesmo eles se referindo a eventos que já aconteceram. Essa é uma das vantagens da internet: poder fingir ser o que você não é, poder fingir ter feito o que você não fez.

Mas, como todos sabem, tenho um coração de ouro e não poderia fazer isso. Da mesma forma, é de uma sacanagem fudida eu ter levado um grande tempo me preparando para escrever sobre determinados assuntos que ficaram pra trás e simplesmente abandoná-los.

Como não faria muito (ou nenhum) sentido publicá-los em posts isolados, colocarei todos os assuntos sobre os quais pretendia escrever abaixo, separados por recursos imagéticos de diferenciação epistemológica (que alguns chamam de "cores diferentes").

Superdemo Digital
Prévia do festival que volta repaginado anos depois de sua última edição.
De acorco com o material de divulgação, "o Superdemo ficou famoso por ter contribuído para a revelação de bandas como Planet Hemp, Raimundos, O Rappa, Pato Fu, Skank, Marcelo D2, Chico Science e Nação Zumbi, Gabriel O Pensador, etc. e integrou o grupo de importantes festivais dos anos 90 como o Junta Tribo de Campinas e o Abril Pro Rock".


O Mundo é um festival...

... e acontece pela quinta vez em João Pessoa, Paraíba, entre os dias 24 de setembro e 24 de outubro.

PROGRAMAÇÃO

- Exposição Coletiva Mundo:
De 24 de setembro a 24 de outubro, na galeria da Usina Cultural Energisa.
Artistas: Alessandro Potter, Aline Buttermuller, Ana Isaura, Cristina Carvalho, Dani & Cris, Felipe Spencer, Gabi Adlof, Igor Tadeu, Krysna, Luana Neiva, Manoel Fernandes, Rafael Passos, Raphael Volleseele e Thiago Verdeee.
Curadoria: Fabbio Queiroz
Vernissage dia 24 de setembro às 20h.


- Debates:

Sábado (03/10), 14h, na sala multimídia da Usina Cultural Energisa:
Música Para Baixar - Cultura Livre e Redes Associativas
Mesa: Pablo Capilé, Chico Correa e Karine Lima
Mediador: Rodrigo Barbosa (G/LUG-PB)

Domingo (04/10), 14h, na sala multimídia da Usina Cultural Energisa:
Autogestão e Circulação no Circuito Independente
Mesa: Paulo André e Fabrício Ofuji.
Mediador: Arthur Pessoa

- Palestras:

Sábado (03/10), 14h30 na sala 01 do Espaço Cultural José Lins do Rego
Palestra: Produção e mercado cultural – dicas para um produtor cultural
Palestrante: Josenilton Tavares

Segunda (05/10), 14h na sala 04 do Espaço Cultural José Lins do Rego
Palestra: Projetos Culturais, onde procurar?
Palestrante: Representante do Ministério da Cultura


* Mostra de áudio-visual “Tintin Mostra Mundo”:

Sábado (03/10) na sala multimídia da Usina Cultural Energisa: Mostra Nacional - Monstros e maníacos do 3º mundo

Behemoth (Carlos G. Gananian – SP), Boi da Cara Preta (Arthur Lins e Ely Marques – PB), A Menina do Algodão (Kleber Mendonça Filho – PE), Vinil Verde (Kleber Mendonça Filho – PE), Tropel (Eduardo Nunes – RJ), Wragda (Frederico Cardoso), Amor só de mãe (Dennison Ramalho – SP), Nocturnu (Dennison Ramalho – SP), Fragmentos de uma vida (Peter Baiestorf – SC).

Domingo (04/10) na sala multimídia da Usina Cultural Energisa: Mostra Internacional - O mundo é dos pérfidos e dos zumbis atormentados
O pêndulo, o poço, a esperança (Jan Svankmajer – República Tcheca), The last theft (Jiri Barta – Reopública Tcheca), Videoclipes (Crhis Cunningham – Inglaterra), Harvey (Peter McDonald – Austrália), O demônio (Kihachiro Kawamoto – Japão), Passé sous silence (Mathieu Berthon – França), The alphabet (David Lynch – EUA), Elevated (Vicenzo Natali – Canadá), Frankstein ( J. Searle Dowley – EUA).

* Oficinas:

Segunda (05/10), 9h na sala multimídia da Usina Cultural Energisa:

Oficina de Dj'ing
Ministrante: Dj Nelson (França)
14h - na sala multimídia da Usina Cultural Energisa:

Oficina de Beatboxing
Ministrante: Eklips (França)

Terça (06/10), 9h na sala multimídia da Usina Cultural Energisa:

Oficina de Light Painting
Ministrante: Marko 93 (França)

Shows:

Sábado (03/10), 16h na tenda música da Usina Cultural Energisa:
R.I.D
Soturnus
Dissidium
Cerva Grátis
Distro (RN)
The Baggios (SE)
Sacal
Burro Morto
Eklips, Dj Nelson e Marko 93 (FRA).

Domingo (4/out), 16h na tenda música da Usina Cultural Energisa:
Blue Sheep
Malaquias em Perigo
Nublado
AMP (PE)
Black Drawing Chalks (GO)
Chico Correa & Eletronic Band
Guizado (SP)
Mundo Livre S.A. (PE)

Ingressos:
R$8 antecipado, R$10 bilheteria, R$15 pacote para os dois dias e Meia-social – R$6 + 1kg de alimento não perecível.
Ingressos antecipados nas lojas Moinho (Manaíra Shopping e Shopping Sul), Música Urbana(Centro) e Espaço Mundo (Centro Histórico).


Mini-circuito Azucrina Noise
Mais uma ação foda do coletivo Azucrina.

23 de agosto de 2007

o nosso lixo é melhor que o deles!

Durante a criação de qualquer produto cultural, é sabido que pequenos detalhes podem resultar em alterações drásticas e que o resultado final é, na maior parte do processo, uma incógnita para seu criador.

Músicas deixam de entrar nos álbuns por não serem consideradas boas o suficiente; o produtor adiciona um feito diferente na guitarra e grava o vocal baixo demais; uma palavra é alterada na letra, de última hora; o executivo do estúdio manda o cineasta tirar uma determinada cena; seu amigo acha que falta contraste na foto; e por aí vai...

Todos os acontecimentos citados acima são exemplos de intervenções que acontecem antes de o produto final chegar ao público. No jornalismo não é diferente. São exigências do editor, limitações de tempo, a incansável busca por sinônimos, etc. E em muitos casos, você simplesmente lê tudo aqui em que ficou trabalhando durante horas e se pergunta "mas que merda é essa?" ou tem o famoso bloqueio criativo. Você está escrevendo e...

Trava. Sim. Com a gente não é diferente. Às vezes você tem realmente que começar tudo de novo, a partir do zero, e tentar entender o que estava errado, o que faltou. Imagino que em diversas outras redações a situação seja parecida. Ao menos na redação em que trabalhava era assim.

E para aqueles que não estão acostumados com os bastidores jornalísticos, esse é um post especial, dedicado a alguns textos inacabados ou que simplesmente não chegaram a ser publicados no Meio Desligado.

Aproveite (ou não, afinal, os textos sequer foram publicados devido à dúbia qualidade).

*

Título: o jornalismo bebum picareta de terceiro mundo

Mesmo que você não seja do ramo é bem provável que já tenha ouvido sobre diferentes formas de jornalismo, como o mentiroso dos jornais diários, o literário e o gonzo. Outro estilo jornalístico, bem menos badalado e nem por isso menos praticado, é o jornalismo bebum picareta de terceiro mundo. Algumas de suas características essenciais são os lapsos de memória que ficam evidentes no texto e a alta quantidade de álcool no sangue do autor. As constantes tentativas de desviar a atenção do leitor do assunto proposto, já que, na realidade, o jornalista bebum picareta de terceiro mundo tem pouca condição de se aprofundar no tema, é outra característica marcante.

Pode parecer complicado como ler um texto original do Saussure, mas, no fundo, é bem fácil. Mas antes de chegarmos ao nosso exemplo, vale lembrar uma coisa importantíssima: esta não é uma prática comum a nós do Meio Desligado. Nããão, não. Trata-se de um exercício empírico estilístico experimental xamãnístico sociológico que vem sendo desenvolvido, lentamente, há cerca de quatro anos. Sim, é verdade. Juro pela sanidade mental do David Lynch e pelo puritanismo do Cláudio Assis.

*

Noite de sábado, 7 de julho de 2007. Mais uma Noite Alto-Falante (ainda na ressaca da dupla vitória do programa no Prêmio Toddy de Música Independente), desta vez com shows do monno e Superguidis, que está lançando seu segundo álbum depois de uma bem-recebida estréia.

Público mediano na Matriz (as pessoas preferiram ficar em casa e assistir ao Live Earth?), boa discotecagem, uma grana razoável na minha super-cool paper-hand-made pocket e uma constante alternância entre Bhrama's e Skol's (além do aquecimento em um buteco próximo).

Não querer ser chato pode acabar atrapalhando sua atividade. Os membros do monno e do Superguidis estavam cada um deles entretidos em conversas paralelas, melhor não interromper. "Vamos beber mais um pouco".

Jogo da seleção na tv, conversas sobre algum filme do qual não me lembro e planos mentais sobre minha viagem de 1300 km. Odeio longas viagens de ônibus, acidentes, todas aquelas batidas entre motoristas sonolentos (ou simplesmente tapados), estradas esburacadas... Putz, hora do show do monno. "Tudo bem, vamos pegar umas cervejas e ver o show. Depois conversamos com eles".

Se não me engano, é a terceira ou quarta vez que os vejo ao vivo e a cada show estão melhores.

*

título: UDR
[matéria escrita para a filial imaginária da New Musical Express no Brasil]

Imagine uma banda que:

1. em sua comunidade no Orkut só tem tópicos do nível de "Minha primeira relação com fezes", "ANÃO TRAVECO STRIPPER", "as paraliticas + sexys do mundo!!!" e "Vcs levariam Jesus para casa?", só para citar alguns.
2. seu maior "hit" é intitulado "bonde da orgia dos travecos"
3. crucificou um sujeito durante um show, em pleno palco
4. se auto-denomina como criadora do sub-estilo "funk satânico"
5. tem letras como "é isso menininha, não fique no meu pé / jesus pode te amar, mas só a UDR te quer / fogo do capeta, brava na calcinha / deformo sua buceta e arrombo a tua bundinha"
6. se envolveu em pendengas judiciais por difamar os pais dos integrantes de uma banda curitibana, hype dos últimos tempos

Esses são apenas alguns poucos exemplos do que é a U.D.R...

ilustrações: Dove! / on green satellite / voxphoto

19 de maio de 2007

"Vamoz!, um convite à surdez" ou "Como um público cu'ool pode estragar um bom show"

_ Ih, olha lá, os caras do Vamoz! ainda tão dando entrevista aqui fora.
_ Que meeerda, vai demorar pra caralho pro show começar.
_ É.
_ Ha! É a Taís baixinha que tá fazendo a entrevista.
_ Uh! Quase que eu nem vejo.
_ Haha.
_ De quem será a maior audiência? Da PUC TV ou do Meio Desligado?
_ Dããã...
_ É mesmo, pergunta boba. Nem quem trabalha na PUC TV costuma assistir ao canal...
_ Você fala, hein Marcelo?
_ Moi?
_ Sim, sim.
_ É sério. E não é inveja, porque não sou como certos idiotas daquela universidade, que acham que se você consegue algum destaque você: 1. é um filho da puta; 2. tem treta com alguém; 3. merece morrer, por não ser imbecil como eles; 4. fez pacto com Satã.
_ Opa! Tem contradição aí! Você realmente fez pacto com Satã!
_ Abafa o caso...
_ Ocá.
_ Então. Eu tenho certeza de que é mais proveitoso para uma banda sua presença em páginas especializadas no assunto, assim você tem certeza de que as pessoas que se depararem com aquela informação estão ali porque se interessam naquilo tudo. Ainda mais no caso de bandas com um público, tipo, restrito, como Vamoz!. Mas não deixa de ser uma coisa ótima que essas bandas marquem presença na TV. O importante é tentar dar espaço para todas as manifestações culturais, vários estilos e tal. Ditadura cultural é uma puta merda. E em relação à TV, acho fóda. Mesmo. Onde mais você consegue tantas boiadas gratuitas? Ainda mais trabalhando em um lugar em que você pode faltar e dar como desculpa o fato de que você "tirou alguns dias para ficar namorando e resolver seu relacionamento" (intromissão do narrador: é verdade! isso aconteceu! é só puxar saco de alguém depois e, quem sabe, algumas coisitas más)? O problema é a merda do salário, mas eu ainda penso em picaretar um estágio por lá, nem que seja só pelo currículo. Enquanto isso, prefiro continuar escrevendo sobre a bosta do cinema mainstream e juntando a grana que ganho vendendo pó...
_ Mas você não vende pó.
_ Não mesmo?

....

_ Pela primeira vez fico feliz pelo fato d'A Obra ser uma sauna, lá fora tava bem frio.
_ É mesmo. O problema é que tá ficando muito cheio...
_ Aí fica um saco.
_ Ô. Ainda mais quando o lugar fica cheio de indie babão.

....

_ Ah, finalmente o show vai começar.
_ Você falou que o som lembra o que mesmo? Esqueci de ouvir no MySpace...
_ Pra variar, né Juliana? É uma coisa meio The Rakes querendo ser cool misturando um pouco de country/folk, aquela coisa wannabe Wilco, só que mais new rock, entre aspas.
_ O famoso pastiche blasé...
_ Ungh.
_ Uh?
_ Ungh... Urrh
_ O que?
_ Ah, tinha engasgado com aquela azeitona que achei no meu bolso.
_ Seu viado! Aquela azeitona era minha! Eu tava guardando ela desde ontem na hora do almoço!
_ Se fudeu! Aquela hora em que seu prato caiu no chão, a azeitona rolou e parou bem ali do lado da geladeira, no cantinho. Eu esperei você ir ao banheiro, porque você tava com início de diarréia, lembra? Então, aí fui lá e guardei no meu bolso. O pobrema, sabe, é que el'tava no bolso de tráis, de modiqueu assentei decima dela e a ela perdeu um pouco daquele suquinho gostoso, sabe?
_ Falou a bicha caipira.
_ Por falar nisso, quem da banda você acha que é viado?
_ Sei lá, Marcelo. Você conhece algum deles?
_ Não.
_ Então porque falou que algum deles é viado?
_ Olha pra trás e percebe. Mais da metade desse povo que tá quase lotando a Obra veio por causa desse tal de The Dead Lover's Twisted Heart, é todo mundo amigo do pessoal da banda, isso ficou bem claro. Daí fica fácil deduzir: esse povo tem cara de bicha e de afetados, consequentemente, ao menos uma pessoa deve ser bicha.
_ Ou afetados...
_ Até que não. Acho que a expressão correta vinda do Dicionário da Prepotência Irônica é "blasé de bosta". Entendeu? Tipo "glassé de bolo"? Hhahahahaha.
_ Nossa! Essa foi péssima...

....

_ Tenho que concordar, aqui no fundo tá muito mais agradável.
_ Eu tava ficando sufocada e entediada com as músicas.
_ É. Eles têm algumas músicas legaizinhas, mas é mediano. Acho que se tivessem tocado só cinco músicas seria um bom show. Divertido e tal.
_ Concordo. Tá fritando já.
_ Uhum. A pior parte foi quando um dos vocalistas conversou em inglês com o público. Tipo, "Shake it up everybody! C'mon!". Vai tomar no seu cu! Quer uma coisa mais idiota que isso? Cantar em inglês, tudo bem, é uma escolha, definição de estilo e tudo mais. Querer ser gringo e conversar com a platéia, ainda mais de amigos, em inglês, é ridículo.
_ E aquele laptop figurativo?
_ É. Só usaram para tocar três notas e meia na primeira música e acho que devem ter usado de novo agora mais pro fim, naquela cover tosca de Le Tigre, apesar da voz da menina ser irritantemente agradável e tipicamente indie riot grrrl. Acho que eles tocaram a música sem guitarra ou... Ei, tá me ouvindo?
_ Acho que o baixista era o viado...

....

_ O Claudão é filho da puta, não?
_ Por que?
_ O cara só bebe Eisenbahn e dá Skol pros caras das bandas...
_ Se ao menos fosse Skol Beats, já melhorava...
_ É. Vamo lá pra frente balofa. Daqui a pouco deve começar o Vamoz!.
_ Vamo sim, porquinho!
_ Olha só esse dj. O cara coloca música depressiva na pista.
_ Mas também, olha a cara dele.
_ Ah, aquele ali é o tal do Capitão Insano? A gente sempre encontra com esse cara aqui na Obra ou na Mary In Hell. Sempre achei que fosse algum maníaco sem amigos que saísse em busca de alguma fantasia pervertida em bibocas alternativas.
_ O fato dele ser dj não exclui essa possibilidade...
_ E não é que você tá certa? Você não é tão burra quanto eu achava.

....

_ "E vocês que vieram aqui hoje se deram bem! Vocês vão ver agora uma banda do caralho... Vamoz!"
_ Hahaha. O Claudão faz o mesmo discurso toda a quinta.
_ Ele podia ao menos usar uns sinônimos, né?

....

_ Eles definitivamente têm presença de palco.
_ Sim, o melhor é que não parece aquela coisa forçada.
_ Esse monte de ruído é o que eles mais têm de influência dos anos 90, acho. Lembra Dinossaur Jr e aquelas coisas super barulhentas ao vivo.
_ É. No mais, tem uma pegada anos 70...
_ Com certeza. Porra! Essa música, "Target of Rock", é do caralho!

....

_ "Rock satânico!
Rock satânico!"
_ Esse vocalista é engraçado.
_ Acho que ele tá fazendo uma reza demoníaca pra animar o lugar e mexer esse público bundão. Eles dançam e gritam durante o show ruim e ficam parados com cara de cu na hora da coisa pegar fogo.
_ Mas o que você queria? Qualquer pessoa que seja um estereótipo ambulante (no caso, de "indie") é babaca.
_ E o pior é esse povo que vem para a frente do palco, vira as costas para a banda e fica conversando.
_ E quando o show acabar, vai puxar saco do pessoal da banda, falando que foi fóda (nossas suspeitas se confirmaram, isso aconteceu!).

....

_ "Nós estamos vendendo nosso álbum novo, R$ 20 reais. Vem o CD e o DVD junto. Mas não precisam comprar, nós somos muito ricos, não temos problema de dinheiro".
_ Ui! Acho que essa foi uma indireta do vocalista para a banda de abertura.
_ Ha! Também acho. Inclusive, acho que a parada do "rock satânico" também foi ironia, tanto para a banda de abertura como para o público.
_ Tenho que concordar. À nossa frente está um pernambucano irônico, do jeito que gostamos, e sem sotaque, do jeito que a Globo não gosta.

....

_ "Da outra vez que tocamos aqui, acho que em 2004, falaram que a gente era Teenage Fanclub com AC/DC. Então a gente vai tocar uma do Teenage. Essa música se chama 'Everytihng Flows'"
_ Porra! Essa música é do caralho. Mas a versão do Idlewild é ainda melhor que a original.

....

_ Gostei do show, apesar do público.
_ Acho que com um público bom, poderia ser uma nota 8. Com esse bando de idiotas parados e que sequer se manifestam após as músicas, entre 6,5 e 7,5.
_ Entendo. Quantatizar tudo é fóda, mas é mais ou menos por aí.
_ E as fotos, quando a gente vai revelar?
_ Não sei. Um saco eu ter esquecido minha câmera digital. Mas já pensei em uma solução. Vou fazer uns desenhos toscos ilustrando as situações do show. Sem fotos, quem ler o texto vai fazer um pouco mais de esforço e pensar um pouco mais.
_ "Dê-lhes o fio de Ariadne".

....

_ Oi Juliana. Aqui, liguei só pra te perguntar se o seu ouvido ainda tá zumbindo, zunindo, sei lá.
_ Não, parou ontem. O seu ainda tá?
_ Tá. Já faz dois dias desde o show. Tô ficando preocupado.
_ Nossa! Se não parar, você tem que ir ao médico.
_ Sim. Lembro que em 2001, no show do Mogwai, tinha um cara gritando "aumenta, aumenta! Eu quero ficar surdo!". Agora não tem graça. Buá.
_ Se fudeu. Mas por uma boa causa.

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