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24 de fevereiro de 2012

Revista Bequadro apresenta diversidade da música baiana


Uma revista sobre música baiana pode parecer desinteressante para muitos, mas isso apenas reflete a necessidade de se divulgar outras facetas da cena local, principalmente sua produção contemporânea alheia ao mercado de axé. Isso é o que se encontra na revista  Bequadro , atualmente em seu primeiro número. Distribuída gratuitamente e produzida com patrocínio do Conexão Vivo através da lei de incentivo à cultura do Governo da Bahia, a primeira edição da Bequadro faz um apanhado da atual cena musical de Salvador sem se restringir a gêneros específicos, o que resulta em uma espécie de catálogo da diversidade da música produzida na capital baiana.

Estão presentes nomes mais conhecidos, como Pitty (com seu projeto Agridoce) e Luiz Caldas, mas abordados de forma diferente. Caldas, por exemplo, dá entrevista ao lado de Vandex, ex-Úteros em Fúria, e resgatam o passado recente do mercado musical baiano e sua transformação ao longo das últimas décadas. Um dos diferenciais da revista é a integração entre elementos típicos da cultura afro-brasileira (muito forte na Bahia) e a música moderna. Poder ler sobre a história dos blocos afro de Salvador sob uma perspectiva histórica, conhecer novos expoentes do hip hop e do dub e ainda descobrir mais sobre um dos maiores nomes do arrocha em uma mesma revista é um fato louvável.

Sem preconceito, a Bequadro mistura o brega (sem intenções pejorativas, apenas como marcação de estilo) Pablo - A voz romântica, o rock instrumental do Retrofoguetes, a erudição da Orquestra Sinfônica da Bahia e o experimentalismo da OCA - Oficina de Composição Agora e cria um interessante panorama da diversidade musical presente em uma região estigmatizada pelo axé e o pagode.

A versão em PDF está disponível para download no site da revista, assim como versões digitais dos textos. Para quem quiser um atalho para o que há de melhor na revista, segue abaixo indicações de três textos da Bequadro.

Aos 11 anos, Pablo disse ao pai que não queria mais a vida de vendedor de picolé que levava em Sergipe. Conseguiu uma carona com um motorista de ônibus e voltou para a terra natal, Candeias (BA), para fazer o que mais gostava: cantar. Foi com ele, inclusive, que o menino havia começado anos antes, aos 6 de idade, nas serestas da cidade. Hoje, já com uma década de carreira nas costas, Pablo, conhecido como A Voz Romântica, é um dos maiores nomes do arrocha na Bahia. Vaidoso, sempre bem vestido, com cuidadosos cortes de cabelo, aos 25 anos, ultrapassou o conceito de mero cantor. Pablo mantém uma empresa de produção, carrega uma equipe com mais de 30 profissionais em seus shows, faz diversas apresentações semanais e ainda cria dois filhos pequenos.
Casado desde os 14 anos, Pablo é precoce em quase tudo. Decidiu os rumos da vida cedo, começou a cantar, assumiu o vocal da banda Asas Livres, vendeu muitos discos, saiu de casa, casou, comprou apartamento, tudo com menos de 16 anos de idade. “Meu primeiro dinheiro foi para comprar um apartamento para minha mãe, o segundo um pra mim”, explica, revelando que tudo o que possui na vida deve ao arrocha, estilo que ele ajudou a criar e a tornar popular. Há versões diferentes e outros que cobram a paternidade do gênero, mas Pablo é tido pelo público como o pai do arrocha. Ele diz que inventou o nome arrocha vendo os casais dançando de forma, digamos, mais quente, na plateia. 

O maestro Letieres Leite, 51 anos, concebeu o que parecia impossível. Uma orkestra, assim mesmo, com k, como no original grego, que mescla a força seminal da música de matriz africana com a tradição do jazz e do erudito contemporâneos. Numa composição de sopro e percussão, misturou Bahia com New Orleans, candomblé com big band, orixás com ícones do jazz. O resultado é único, intenso, refinado e talvez o que há de mais inovador na música instrumental do país.
Duvida? Experimente se deixar levar pelo poder dos atabaques, surdos, timbaus, caixa, agogô, pandeiro e caxixi, que se unem a trompetes, trombones, saxes (alto, tenor e barítono, uma família completa) e tuba. Impossível não ser tragado pela vibração que emana da Orkestra Rumpilezz, especialmente se for em apresentação ao vivo. Aí, a conversa é outra, o público vibra em uníssono numa espécie de transe de euforia, difícil de ser contido. “Sinto nos shows que as pessoas percebem sua ancestralidade. Em todos os lugares em que a gente toca, as pessoas ficam curiosas”, confirma Letieres.
A década de 70 foi época de grandes transformações culturais, políticas e comportamentais em várias partes do mundo. A população negra de Salvador, influenciada pelo movimento Black Power, reinventava novas formas de afirmar sua negritude. Os terreiros de candomblé, embora perseguidos pela intolerância religiosa vigente, eram uma dessas fontes. Traço fortemente característico nos blocos afros.
Salvador já tinha uma grande participação negra em escolas de samba, afoxés e blocos de índio. Mas foi em 1974 que surgiu o primeiro bloco afro fundado na Bahia, o Ilê Aiyê, nascido no Curuzu, Liberdade. Pela primeira vez, uma agremiação carnavalesca expressava claramente nas letras de suas músicas o protesto contra a discriminação racial, ao mesmo tempo em que valorizava enfaticamente a estética, a cultura e a história africana. Assim como o Ilê Aiyê, emergem na mesma década outros blocos afros, tais como o Mutuê (1975), o Olodum e o Malê Debalê (1979), todos formados por moradores de bairros populares como Liberdade, Itapuã e Pelourinho.

9 de junho de 2008

Indie comercial

É possível mensurar o alcance de uma determinada manifestação cultural a partir do interesse da publicidade em se apropriar de alguns de seus elementos característicos e adaptá-los à venda de qualquer produto. Isso acontece, principalmente, pela constante busca de diferenciação entre marcas e alcance de público. Neste cenário, onde cada novidade vale ouro (na maioria dos casos, ouro de tolo), a cultura é fonte primária para a linguagem publicitária, fornecendo matéria-prima para todos os seguimentos comerciais e renovando-se indefinidamente.

No Brasil, desde o ano passado percebe-se um crescimento do interesse de grandes empresas, de diferentes setores, em relação ao cenário musical independente. O patrocínio a festivais independentes é apenas uma continuação dos patrocínios realizados há anos, cujos principais marcos datam da década de 90, com eventos do tipo do Hollywood Rock, Close-Up Planet, Free Jazz, entre outros, passando pelos atuais Tim Festival, Nokia Trends, Planeta Terra e o falido Claro Q É Rock. Em um momento ou outro, era natural que essas empresas caminhassem em direção ao mercado independente, considerando o aumento do público, de bandas e da própria qualidade do material criado nessa cena. Porém, talvez o fato mais importante seja a natureza do público "indie", ou seja, aquele que consome e vivencia o cenário independente: em sua maioria, jovens de classe média/alta com acesso às novidades tecnológicas e às tendências culturais européias e norte-americanas. Resumindo: sacos de dinheiro ambulantes prontos para serem gastos em qualquer item que seja aparentemente descolado e "alternativo" (porque ser "alternativo" é o máximo).

* Parágrafo explicativo sobre "o alternativo" e que pode desviar sua atenção das idéias propostas neste texto até o momento ou simplesmente quebrar um pouco o fluxo de leitura. Se você não tem capacidade suficiente para conectar as informações após pequenas interrupções, o problema é seu. Não tenho espírito de Doutor Fritz nem sou mágico, então cérebros de minhoca não são minha especialidade (ainda). Incomodado? Vá ler o blog da Mari Moon (esse "moon" é de vaquinha?) que você irá se sentir bem.


O alternativo: termo imbecil utilizado por babacas incapazes de admitir que seus trabalhos não possuem nada de revolucionário, novo ou sequer interessante, na maioria dos casos muito próximos do pop. Exemplo verídico: quando trabalhava como organizador de conteúdo do Palco MP3, via centenas de bandas de pop rock chulé, "punk" chiclete, emo chorão e até sertanejo mela-cueca, além de forró de putaria e axé barra pagode (meeeedo), que se auto-classificavam como "alternativas". Enfim, não tinham nada que os diferenciasse do lixo pop a que somos submetidos diariamente, mas insistiam em mentir para si mesmos tentando vender uma imagem de "bandas alternativas".
Conselho de auto-ajuda (que estará em meu livro Como Conquistar Favores Sexuais, Fama e Sucesso com o Poder da Mente e uma Caneta Bic Vermelha, futuro best seller) para essas pessoas: se você consegue se imaginar algum dia na trilha sonora de Malhação ou fazendo participação no Big Brother #23, você não é alternativo.



Fim do parágrafo explicativo sobre "o alternativo".

O que passa a chamar atenção neste momento da relação entre mercado independente e publicidade é que novas oportunidades e iniciativas estão surgindo e, até o momento em que não interfiram na criação artística, são benéficas para ambos os lados. No caso da música, as bandas finalmente passam a ter alguma remuneração relevante, alcançam um novo público e, por tabela, têm condições de fazer melhores gravações e mais shows. Para os anunciantes/patrocinadores, é um modo de buscar a identificação de seu público alvo e se envolver com algo novo e construtivo no ramo cultural.

Comercial da Unimed com trilha do Retrofoguetes



Poucos anos atrás, ver uma banda como o Forgotten Boys em um comercial na TV era uma anomalia que fazia você pensar se aquele resto de sanduíche de três dias atrás que você havia acabado de comer estava lhe fazendo ter alucinações. Hoje, é possível ligar a TV e se deparar com um comercial da Vivo ao som de Mallu Magalhães, ver uma vinheta do canal Sony com trilha do Ludov ou conferir no YouTube um comercial da Unimed embalado pelo rock intergalático instrumental dos baianos do Retrofoguetes.

Comercial da Vivo com trilha de Mallu Magalhães



E existem iniciativas mais interessantes, como a Toddy patrocinar o antigo Prêmio Dynamite e criar o Produtores Toddy; a Motorola abrir inscrições para seu festival (Motomix), permitindo que bandas independentes se apresentem junto às atrações internacionais e dando condições dessas mesmas bandas fazerem gravações decentes; empresas como a Votorantin e a Kildare patrocinarem o Download Remunerado da TramaVirtual; a Pepsi fazer uma parceria com o selo alternativo Amplitude; etc.

Recentemente, o que mais me chamou atenção foi o Levi´s Music, através do qual a marca de roupas apoia os já citados Forgotten Boys e Mallu Magalhães, além do Vanguart, Cine e Drive.

Os patrocínios vão além e atingem também a mídia independente, mas em escala (ainda) muito menor. A marca de tênis West Coast, por exemplo, criou um e-zine chamado SnackZine e convidou blogueiros diversos a visitar o site e escrever sobre o mesmo. Em troca, poderiam escolher um par de qualquer tênis da marca. Contanto que fique claro para o leitor que se trata de um post patrocinado, é uma iniciativa bacana. Empresas como Axe e Canon também já aderiram à prática. Em outros casos, a relação é mais tradicional, com a inserção de banners, como no Update or Die.

Muitas empresas preferem criar seus próprios blogs ou hotsites culturais, mas não percebem que investir em blogs e sites que já vêm obtendo destaque em seus respectivos nichos pode ser muito mais interessante e vantajoso. Por exemplo, já imaginou como seria excelente se uma companhia aérea bancasse minhas viagens para os principais festivais independentes que acontecem por todo o país? Eles atingiriam milhares de pessoas que, por estarem lendo sobre aqueles determinados festivais, mostram-se interessadas nas atividades culturais de outros estados e, portanto, são possíveis clientes.
Fica aí a dica, senhores diretores de marketing, para um ótimo investimento e de baixo custo. Enviem suas incríveis e irrecusáveis propostas para o email marceloarrobameiodesligado.com! (ps.: escrevo "arroba" no lugar do ícone @ para fugir de eventuais robôs de spam, caso você não saiba)

Somados à crescente (porém ainda incipiente) participação do poder público no cenário independente, o que se vê são inúmeras possibilidades e a sensação de que algo extremamente importante está sendo construído neste exato momento, majoritariamente graças à internet, e que eu e você, que está lendo este blog agora, fazemos parte de tudo isso.

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