Nunca me interessei muito pelo funk ostentação. Além de musicalmente limitado, um gênero construído sobre letras que se resumem ao poder de compra e ao controle exercido pelo dinheiro não seria digno de muita atenção. Além disso, seria mais um instrumento de manutenção do sistema, uma vez que os adeptos da ostentação oriundos das classes mais baixas gastam (o pouco) dinheiro que têm para comprar produtos caros de marcas famosas e assim se diferenciar entre seus próximos (o que praticamente se resume à obtenção de status social e pretensão de obter respeito e sexo através desse mesmo status).
Com isso em mente, foi interessante assistir ao documentário Funk Ostentação - O Filme, pois ele apresenta uma nova perspectiva (sem, no entanto, desfazer as impressões anteriores). Um ponto relevante destacado pelo documentário é que o funk ostentação possui, sim, um aspecto ativista que até então eu desconsiderava. Ele mantém a tradição do funk proibidão, mas no sentido de falar de algo que parecia negado à população de baixa renda: a proibição do desejo de consumir e possuir os símbolos materiais de status e ascenção social.
Independente de julgar as escolhas e os desejos dos adeptos (até porque, julgar o desejo de alguém é extremamente complicado), o funk ostentação se mostra diretamente ligado ao contexto político-social em que surge e se constitui como uma ferramenta de inclusão (à força). Mesmo com maior poder econômico do que antigamente, os pertencentes às classes mais baixas atualmente em ascenção não se sentiriam "aceitos" socialmente em seu novo papel de cidadãos com poder de compra e capazes de fazer suas próprias escolhas em vez de apenas subexistir e ter que aceitar suas limitações. Assim, para deixar clara a transformação, a ostentação passa a ser o instrumento através do qual todos os outros reconhecem o seu crescimento. Mesmo que o aumento da renda de alguém ocorra independente do conhecimento de tal situação por parte do outro (ou seja, mesmo que ninguém saiba que meu salário aumentou, eu continuarei ganhando mais agora), é através da "aprovação" externa que o ciclo de status se completa (de que adiantaria ter mais dinheiro se continuo sendo discriminado?).
Pensando assim, o funk ostentação é necessário. Por enquanto.
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27 de julho de 2014
27 de maio de 2014
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Araguari, o que foi que aconteceu?
Funk Ostentação
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4 de julho de 2011
Mr Catra é o cara
Há tempos esse 90 dias com Catra está na minha lista de vídeos para serem assistidos e só agora me lembrei de vê-lo. Personagem engraçadíssimo e ultramachista, Mr. Catra mal consegue se lembrar dos nomes de todos os seus 24 filhos, tem duas esposas e se diz "patrocinado por três puteiros". Suas falas no vídeo, aliás, renderiam dezenas de belas estampas de camisas.
Além da parte cômica involuntária, 90 dias com Catra mostra como o cantor circula com desenvoltura pelas periferias e bairros de elite (o "rei da putaria" canta até em festas de casamento), exemplificando o modo como o funk carioca (assim como o pagode, em outra época) permeia todas as classes sociais mesmo sendo considerado por muitos uma forma "menor" de arte (sem considerar os Ed Motta da vida que sequer consideram o estilo como manifestação artística).
22 de dezembro de 2010
"Grosso Calibre", funk e violência no Complexo do Alemão
Segundo colocado no concurso Shooting Poverty, que abordou a relação entre o uso de armas e pobreza em diversas regiões do planeta, o documentário Grosso Calibre mostra o Complexo do Alemão (destacado nos noticiários nacionais devido aos conflitos entre traficantes e a Polícia do Rio de Janeiro) do ponto de vista do MC Smith, recentemente preso por apologia ao tráfico.
Além de ressaltar o potencial do funk como forma de protesto e representação de determinados grupos, o vídeo se destaca pela forma como apresenta a presença da violência no cotidiano da comunidade e ao explorar o paradoxo dos "proibidões", posicionados entre uma legítima forma de manifestação cultural e a apologia ao tráfico e ao crime.
A direção é dos brasileiros Guilherme Arruda, Ludmila Curi, Thiago Vieira. Os outros dois primeiros colocados na seleção do Shooting Poverty (que foi realizado pela associação internacional Oxfam) também podem ser vistos na internet: Explosão a preço de banana (1° lugar) e O dia 6 de abril (3° lugar).